A Casa-Estudio Max Cetto, concluída em 1949, é considerada a primeira residência construída sobre o campo de lava negra do Pedregal de San Ángel, no sul da Cidade do México. Idealizada pelo arquiteto alemão naturalizado mexicano Maximiliano Ludwig Carl Cetto, a obra encarna uma síntese singular entre os princípios do modernismo internacional e a identidade material, cultural e paisagística mexicana.
A casa ocupa lugar de destaque na historiografia da arquitetura moderna mexicana do século XX, funcionando como obra-piloto do ambicioso projeto urbano de Luis Barragán: foi a primeira residência erguida no loteamento, concebida para demonstrar o potencial habitacional do terreno vulcânico e atrair novos compradores para o fraccionamiento Jardines del Pedregal. Sua significância reside na fusão entre duas tradições que Cetto carregava em sua trajetória pessoal — a formação expressionista alemã, recebida sob Hans Poelzig em Berlim, e a poética organicista de Frank Lloyd Wright, com quem o arquiteto teve contato durante seu exílio nos Estados Unidos, entre 1938 e 1939, quando também colaborou com Richard Neutra em Los Angeles — somadas à materialidade específica do lugar: pedra vulcânica, madeira, mosaicos artesanais e vegetação endêmica, extraídos ou inspirados no entorno imediato da casa. O resultado é uma obra em que a fronteira entre o construído e o natural se dissolve progressivamente, já que arquitetura, jardim e rocha compartilham a mesma origem geológica e paisagística do Pedregal.
História
Influência do Vulcão Xitle
O Pedregal de San Ángel é uma extensão de aproximadamente 7,4 quilômetros quadrados de campo de lava negra resultante da erupção do vulcão Xitle, há cerca de dois mil anos. Os mexicas chamavam o lugar de Tetlán: “lugar de pedras”, e por séculos permaneceu inabitado: inóspito, irregular, coberto por formações rochosas de grande beleza, mas considerado impróprio para qualquer uso humano.
Na primeira metade do século XX, artistas como o muralista e vulcanólogo Gerardo Murillo (Dr. Atl) e o pintor Diego Rivera começaram a revelar o potencial estético daquele paisagismo extremo. Em 1945, Rivera redigiu o documento Requisitos para la Organización del Pedregal, concebendo uma zona residencial onde “os jardins e as casas seriam um santuário contra o mundo moderno, com espaços para meditação e o cultivo de valores espirituais”.
O projeto urbano de Barragán e o papel de Cetto
Em meados dos anos 1940, Barragán associou-se aos irmãos José Alberto e Luis Bustamante para adquirir cerca de 3 milhões de metros quadrados no Pedregal. O plano urbano, desenvolvido com o urbanista Carlos Contreras, seguia as curvas naturais da topografia vulcânica, rompendo com a malha ortogonal colonial. As ruas receberam nomes como Lava, Xitle, Cráter, Água, Fogo e Brisa, exaltando o caráter metafísico do lugar.
O próprio Barragán descreveu o projeto como “uma tentativa de criar um santuário para a vida moderna em harmonia com a natureza”.
Foi Barragán quem convidou Cetto a projetar a primeira residência do loteamento: a casa-estúdio para seu próprio uso, no lote da Calle del Agua. A escolha era estratégica: uma obra-modelo que demonstrasse o potencial habitacional do lugar e atraísse compradores para os lotes adjacentes.
Barragán recrutou ainda Francisco Artigas, Antonio Attolini e Mathias Goeritz, cujo Animal del Pedregal em concreto tornaria-se o ícone escultórico do bairro.
Quanto ao terreno da própria casa de Cetto, Bettina Cetto esclarece um equívoco historiográfico frequente: seu pai não recebeu o lote como permuta por serviços, mas o comprou efetivamente a $6,00 (MN) por metro quadrado. A concessão especial que Barragán e Bustamante fizeram foi dividir em dois um lote de mais de 3.000 m², tornando a compra financeiramente acessível.
O fotógrafo Armando Salas Portugal foi convidado por Barragán para documentar o Pedregal e suas obras, tornando-se o principal registrador visual do projeto.
O complexo Jardines del Pedregal tornou-se o bairro residencial moderno mais importante da Cidade do México nos anos 1940–1960.
Modernização do México e a Arquitetura como Projeto Nacional
A construção da Casa-Estudio Max Cetto situa-se num momento de transformação profunda da sociedade mexicana. A partir da década de 1940, sob o governo de Miguel Alemán, o México viveu o chamado “Milagre Mexicano”.
A arquitetura tornou-se instrumento de projeção internacional da modernidade mexicana.
O projeto da Cidade Universitária da UNAM, concluído em 1952, foi o ápice institucional desse impulso.
Para Cetto, essa confluência entre modernismo e identidade nacional era necessária.
A Casa-Estúdio e a vanguarda artística mexicana A Casa-Estudio se tornou um polo do meio cultural mexicano, reunindo arquitetos e artistas plásticos que ajudaram a moldar a modernidade mexicana. Bettina Cetto recorda visitas de Walter Gropius, Frank Lloyd Wright, o escritor suíço Max Frisch, o pintor Rufino Tamayo, Carlos Mérida e boa parte dos arquitetos e artistas modernos mexicanos. A amizade mais íntima de Max Cetto foi com Juan O’Gorman – seu compadre, padrinho de Bettina e parceiro de xadrez: todos os domingos, alternavam entre a casa de Água 130 e a casa-cueva de O’Gorman na Avenida San Jerónimo. Com Luis Barragán, Jesús Reyes Ferreira (“Chucho”) e Mathias Goeritz, Cetto reunia-se regularmente nas décadas de 1940 e início dos anos 1950, um círculo de troca intelectual e estética em que a obra de cada um informava a dos demais. Análise de Projeto A Casa-Estudio Max Cetto é uma residência horizontal de dois pavimentos, com área construída entre 300 e 350 m² implantada num terreno de cerca de 3.000 m². A planta distribui os espaços de maneira fluida, sem compartimentações desnecessárias: o térreo abriga os ambientes de convívio familiar como sala, cozinha e ambientes de serviço, todos articulados em torno de um vestíbulo central que serve de mediador entre o espaço doméstico e o jardim externo.
O elemento focal do interior é uma parede curva de pedra vulcânica com lareira embutida, que define o espaço de estar sem fechá-lo, criando um recurso que dialoga diretamente com a linguagem orgânica de Wright, que forma uma “âncora” tátil e visual no ambiente. A pedra bruta, recortada em formas irregulares e assentada artesanalmente, traz para dentro da casa a textura do Pedregal. O piso de lavas irregulares no andar inferior reforça essa continuidade entre interior e exterior.
No primeiro pavimento encontra-se o estúdio do arquiteto, acrescentado alguns anos depois da construção original. O cômodo possui cobertura revestida de mosaicos cerâmicos e grandes janelas envidraçadas que emolduram vistas espetaculares sobre o campo de lava e a vegetação do Pedregal. Uma escada caracol em metal conecta os dois níveis, pontuando verticalmente o espaço. Materialidade e Paisagem O jardim da Casa-Estudio é obra de Catarina Kramis Cetto, esposa do arquiteto, e constitui dimensão essencial da composição. Reunindo espécies provenientes de diversas regiões do México e da Europa, trazidas de viagens e colecionadas ao longo de décadas, o jardim parece brotar espontaneamente das rochas negras, uma artificialidade que mimetiza a natureza selvagem do Pedregal.
Essa escolha paisagística não é ingênua. Ela reflete uma compreensão sofisticada do lugar: ao invés de subjugar o terreno vulcânico e impor uma ordem geométrica sobre ele como fariam muitos projetos modernos, Cetto e Catarina optaram por ampliar a lógica da natureza existente, introduzindo espécies que conviviam harmoniosamente com a formação rochosa. Espelhos d’água e caminhos de pedra completam a composição, criando uma experiência de percurso em que a casa é descoberta gradualmente, como se emergisse da vegetação.
Essa abordagem antecipava questões que a arquitetura ecológica e da paisagem levantaria décadas depois: a relação entre biodiversidade introduzida e ecossistema nativo, o papel da vegetação na regulação do microclima, e a casa como extensão do território em vez de objeto isolado sobre ele.
A materialidade da Casa-Estudio Max Cetto não é apenas construtiva, é simbólica e expressiva. A pedra basáltica negra do Pedregal, extraída diretamente do terreno ou de suas imediações, aparece tanto nas paredes externas quanto em elementos interiores de destaque. Sua textura irregular, suas variações de coloração do cinza ao negro profundo e suas superfícies que absorvem e refletem a luz de maneira diferente ao longo do dia conferem à casa uma presença tátil que nenhum material industrial poderia reproduzir.
O uso da pedra vulcânica como material construtivo principal conectava a obra a uma tradição construtiva mexicana milenar presente desde a arquitetura pré-colombiana até as técnicas vernáculas coloniais, ao mesmo tempo em que a situava no campo do modernismo orgânico internacional. Cetto integrava assim o que a historiografia mexicana chamaria de “rusticidad contemporánea”: uma rusticidade contemporânea que não era pastiche historicista, mas resultado de uma decisão técnica e estética coerente.
A madeira, outro material de destaque, aparece nos pisos, esquadrias e mobiliário embutido. Sua presença cálida equilibra a dureza da pedra e a frieza do concreto aparente que sustenta o estúdio superior; materialidade modernista por excelência, mas aqui humanizada pelo uso criterioso dos materiais naturais ao seu lado.
Situada no sul da Cidade do México, a uma altitude de aproximadamente 2.250 metros, a Casa-Estudio beneficia-se de um clima temperado de montanha tropical, com verões amenos e chuvosos e invernos secos e frios à noite. Diego Rivera, em seu texto de 1945 sobre o Pedregal, destacava o “clima marítimo” do lugar; uma hipérbole poética que aludia à agradabilidade das temperaturas e à proteção contra inundações e terremotos que o substrato de lava proporcionava.
Cetto respondeu a esse clima com decisões projetuais precisas: a planta horizontal, de dois pavimentos baixos, maximiza a exposição solar e minimiza perdas de calor; as grandes superfícies envidraçadas do estúdio capturam a luz difusa característica do altiplano mexicano sem provocar superaquecimento, graças à proteção oferecida pela vegetação densa do jardim e pela própria topografia do terreno. A pedra vulcânica, com sua alta massa térmica, absorve calor durante o dia e o libera lentamente à noite, regulando passivamente a temperatura interna.
A orientação da casa, voltada para o jardim interior e para a paisagem do Pedregal, cria um microclima sombreado e úmido que contrasta com a aridez aparente das rochas negras. Essa manipulação do microclima pela arquitetura e pela paisagem é um dos aspectos mais sofisticados do projeto: a casa não luta contra o clima, mas o usa como aliado. Presença Artística na Obra