Introdução A Casa Bermúdez é uma residência modernista de relevância histórica e arquitetônica localizada no bairro El Retiro, ao norte de Bogotá, na Colômbia. Projetada e idealizada em 1952 pelo arquiteto Guillermo Bermúdez, a edificação foi construída para servir de moradia para o próprio projetista, sua esposa Graciela Samper Bermúdez e seus dois filhos. O projeto destaca-se na arquitetura residencial colombiana pela sua lógica espacial compacta, que visa reduzir ao mínimo as circulações internas através de uma divisão em faixas longitudinais e pavimentos bem integrados. Originalmente implantada em um lote estreito de dez metros de frente, a residência é reconhecida por suas soluções formais marcantes, como o uso de coberturas em abóbadas transversais, uma marquise frontal com teto borboleta e uma forte integração visual e espacial com o jardim dos fundos. Ao longo dos anos, a casa passou por três etapas distintas de construção e modificação para se adequar à ampliação do lote e às transformações das necessidades familiares.
Historia
Contexto Histórico A concepção e execução da residência (1952–1960) inserem-se no ápice do período histórico colombiano denominado "La Violencia", caracterizado por intensas disputas civis, instabilidade econômica e regimes autoritários. Esse conflito agrário desencadeou um êxodo rural massivo em direção a Bogotá, gerando um crescimento exponencial desordenado e profunda segregação socioespacial. Enquanto as áreas periféricas do sul expandiram-se de forma precária, o setor norte da capital, incluindo o bairro El Retiro, estruturou-se para receber os novos bairros e centros habitacionais das elites locais. A implantação da casa acompanha essa migração de centralidade urbana e reflete, em suas transformações morfológicas ao longo da década, as próprias tensões de segurança e privacidade exigidas pelo espaço público da época.
Solução Projetual Primeira Etapa A casa Bermudez, situada em Bogotá, na Colômbia, é a residência de Guillermo, sua esposa, Graciela Samper Bermudez, e seus dois filhos. Idealizada pelo próprio arquiteto, a casa de 1952, situava-se ao norte de Bogotá, no bairro El Retiro. O terreno inicial tinha 10m de frente, enquanto seu lado a sudoeste tinha 27,19m e seu lado a nordeste tinha 27,37m. A casa é construída em três etapas, sendo modificada por questões como, ampliação do lote e ajuste das necessidades familiares. A primeira versão da casa possuía dois pavimentos e ocupava toda a extensão da frente. Sua fachada era marcada pelo uso de cobertura em abóbadas3 e por uma marquise frontal com teto borboleta4 , usada também como garagem. A implantação se deu, subdividindo o terreno em três partes, havia um jardim frontal, com 6,5m de profundidade; a casa com 8,6m de comprimento; e o pátio-jardim com pouco mais de 12m, destinado aos serviços. No período em que a casa foi construída seu entorno era composto por uma outra residência de dois pavimentos a nordeste e um terreno baldio a sudoeste do lote. Dito isso, os limites laterais da construção de Guillermo eram muito baixos, tendo a altura de quatro fiadas de tijolos, o que construía uma relação com a rua frontal. O acesso a casa era feito através do pórtico-garagem, uma cobertura em concreto apoiada sobre quatro pilares metálicos. Tinha largura de 3,8m e era subdividida em duas, a esquerda abrigava o automóvel e a direita protegia o pedestre. O pórtico, com teto borboleta, é formado por uma seção maior, quase horizontal, onde abriga o automóvel, e uma seção menor, sob a escada. Essa cobertura encontra-se levemente descentralizada em relação à frente do lote e se estende até o início do terreno, a 6,5m do jardim frontal, com dois canteiros nas laterais. Depois do acesso, encontra-se a casa, que é também dividida em três faixas longitudinais. As duas faixas laterais têm 3,8m e estão coladas à divisa do terreno, enquanto a faixa central tem 2,4m e serve como acesso. Visto isso, a entrada apresenta um hall responsável pela articulação e distribuição dos espaços; à direita tem a sala de estar, abaixo, dividido por uma escada de quatro degraus está a sala de jantar e acima a área íntima que é acessada por uma grande escadaria metálica engastada a parede. Ao atribuir essa lógica espacial a sua residência, o arquiteto visava reduzir ao mínimo as circulações internas e promover uma maior compactação do espaço. Dito isso, na faixa a nordeste, acessada a esquerda da sala de jantar, ficam os ambientes de serviços, compostos pela cozinha, que se liga a uma área descoberta onde fica a lavanderia e a dependência de empregado que se encontra na parte mais frontal do lote. Já na faixa da direita, a sudeste, encontram-se os ambientes principais, integrados entre si, sendo diferenciados apenas pelo mobiliário. Todos os espaços sociais tem a fachada envidraçada em direção ao jardim dos fundos, criando uma relação que o arquiteto considerava importantíssima. O pavimento superior era completamente destinado ao setor íntimo da família, haviam dois quartos e um banheiro intermediário que se encontravam apenas na faixa nordeste da casa. O restante da planta superior servia como pé direito duplo e era coberto por duas abóbadas transversais ao lote que apresentavam larguras de 3,3m e 5,3m e coincidiam com a divisão de frente e fundos da casa. Por fim, o jardim aos fundos da casa, que apresentava a maior área do terreno, era destinado como área de lazer da família e tinha todas as janelas principais voltadas para ele. Assim como o restante da casa, havia uma subdivisão, a extensão da faixa central era pavimentada e abrigava uma mesa engastada à parede, o restante, seguindo a faixa lateral da casa, era lugar de uma floreira que fazia uma conexão com o interior da ca1sa por meio de uma esquadria piso a teto.
Segunda Etapa
A segunda etapa da casa é construída em 1955, uma vez que Guillermo compra de seu sogro uma faixa de terra de 5m de largura ao lado sudeste da casa. Assim como na primeira fase da residência, o arquiteto opta por construir em toda a largura do terreno adjacente e integra o novo volume com uma abertura na parede portante lateral, criando um hall interno na altura da sala de estar. Contando com apenas um andar e uma extensão superior ao primeiro volume, o projeto da nova ala da casa fica destinada a um estúdio com banheiro social na parte da frente e a uma área íntima para o casal nos fundos, com um quarto, banheiro, armários e um cômodo com lareira. Essa segunda etapa traz novas características a casa, aos fundos, a nova área íntima é integrada ao pátio-jardim por meio de uma grande abertura de canto, que se estende de piso ao teto; o estúdio, a frente, integra-se ao jardim frontal por uma grande porta-janela, também piso a teto, e agora, para assegurar privacidade, todo o lado sudeste da casa tem seu muro aumentado logo depois do pórtico-garagem e o jardim adensado com plantas. Além disso, nessa época, Bermúdez começa a deixar de lado sua predileção por abóbadas e passa a se dedicar nos telhados inclinados, por isso, o volume adicional apresenta um telhado de três águas rasas5 que fica oculto pelas platibandas.
Terceira etapa A terceira e última etapa deve-se à chegada de mais um filho do arquiteto. Para melhor acomodá-lo, o setor nordeste da casa foi alterado. O dormitório de serviço, na parte frontal da casa, passou a ser o cômodo da família; aos fundos, um novo volume coberto é adicionado, indo da cozinha até o limite do lote. Isso faz com que a lavanderia e a cozinha sejam ampliadas e que uma nova dependência de serviços seja alocada aos fundos. Todo esse novo setor recebe iluminação e ventilação de forma zenital6 e tem sua cobertura inclinada oculta por platibandas, demonstrando o afinco do arquiteto por essa técnica. Essa adição volumétrica e o crescimento urbano do entorno, leva o arquiteto a terminar de murar sua casa, bloqueando a relação antes existente com a rua. Assim, cada vez mais o espaço foi ficando recluso a intimidade da família.
Conclusão A residência, construída em três etapas, apresenta uma característica marcante que é a discrepância entre os volumes. Isso acontece de forma intencional, o arquiteto queria que as diferenças fossem evidenciadas. O prisma original apresenta dois pavimentos com cobertura em abóbadas que serve como guia de divisão interna, enquanto os dois volumes adjacentes são mais baixos e se relacionam de formas diferentes com o volume existente. Isso traz a ideia de que esses novos volumes complementam a necessidade da família. Outra questão marcante dessas três fases, é a maneira como a casa se relaciona com a rua. No início, os muros eram baixos, criando uma relação com o entorno pouco adensado. Conforme as alterações foram acontecendo, a dinâmica urbana foi se alterando e houve a necessidade de isolar por completo a casa e adicionar jardins mais densos à casa, a fim de criar privacidade.
Estrutura A estrutura da casa é simples. O arquiteto construiu a casa inicial com três paredes portantes, as duas das laterais e a parede intermediária, que divide a área íntima da de serviços. Além dessa função, as paredes expressas de alvenaria de tijolos contribuem com o conforto térmico da casa, uma vez que essa encontra-se com fachada Nordeste na frente, e sudeste nos fundos, ou seja, recebe luz e sol durante todo o ano. Uma vez com essa orientação de fachada, as soluções do arquiteto foram utilizar materiais e técnicas que contribuíssem para um maior conforto dentro da casa, por isso, além da alvenaria em tijolos, foi usado concreto nas abóbodas e madeira e vidro nas aberturas. Mais especificamente sobre as aberturas, temos uma grande abertura nos fundos (SE), na área de estar, e janelas menores na parte da frente da casa (NO), controlando mais a incidência solar para o interior.
Relação da casa com o modernismo internacional Guillermo Bermúdez começou sua trajetória numa época em que o modernismo era quase uma promessa, a ideia de que a arquitetura poderia mudar não só as cidades, mas a forma das pessoas viverem. Ele se formou passando por duas escolas bem diferentes: a PUC do Chile, que respirava a Bauhaus, e a Universidade Nacional da Colômbia, muito mais ligada a Le Corbusier. Isso foi importante porque, em vez de sair da faculdade com uma visão única e fechada, ele chegou ao mercado enxergando o modernismo de ângulos diferentes. Em 1947, quando ainda estava se formando, Le Corbusier visitou Bogotá e deu uma série de conferências. Bermúdez não só foi assistir, ele chegou a conhecer o arquiteto pessoalmente. E o interessante é que esse Le Corbusier dos anos 40 já não era o mesmo dos manifestos dos anos 20. Ele estava mais preocupado com o clima, com a cultura local, com o que fazia sentido para cada lugar. Bermúdez viu essa mudança de perto, e ela acabou moldando tudo o que ele produziu depois. Quando projetou a própria casa, em 1952, ele não estava simplesmente aplicando o que tinha aprendido na faculdade. Era uma pergunta mais pessoal do que isso: como ser um arquiteto moderno sem perder o que era colombiano? Olhando para a Casa Bermúdez, essa resposta aparece em cada detalhe. As paredes portantes, as abóbadas duplas, a cobertura borboleta, o espaço de dupla altura, a mesa de concreto no pátio-jardim, tudo isso conversa com Le Corbusier. Mas não é cópia. Bermúdez pegava uma ideia, entendia por que ela funcionava, e adaptava para Bogotá. As paredes mais espessas controlam o calor e a luz do clima local; o jardim não é decoração, é parte da casa; a sensação de intimidade que o projeto transmite vem tanto da tradição da casa colonial colombiana quanto de uma influência que talvez surpreenda: Alvar Aalto, o arquiteto finlandês que conseguiu fazer modernismo sem ignorar o lugar onde construía. A casa também cresceu com o tempo, recebendo ampliações ao longo de quase dez anos, sempre respeitando o que já estava lá. Isso diz muito sobre como Bermúdez pensava: a casa não era um projeto encerrado no dia da entrega, era algo vivo.