Kris Dreemurr é protagonista de Deltarune (2018), um jogo eletrônico de RPG criado por Toby Fox. Kris possui uma aparência andrógina e silenciosa, aparecendo no mundo da superfície com semelhanças aos visuais de Frisk e Chara, de Undertale, enquanto sua aparência no Mundo Sombrio se inspira em RPGs clássicos de fantasia.
Na história, Kris é a única pessoa humana de uma cidade habitada por monstros, vivendo com a família Dreemurr. Ao lado de sua colega de escola Susie e do príncipe Ralsei, Kris lidera o grupo em aventuras por reinos misteriosos com a missão de selar as "Fontes Sombrias" para manter o equilíbrio do universo.
O conceito central de Kris reside em possuir vontade própria e uma identidade pré-existente, gerando um conflito direto com a alma controlada pelo jogador. A subversão do controle e o mistério do arco narrativo de Kris receberam avaliações majoritariamente positivas da crítica, embora seu isolamento também tenha atraído análises mistas.
Conceito e criação O autor Toby Fox criou Kris em algum momento durante ou antes de 2015. Sua arte conceitual foi criada por Fox ao lado da artista Gigi, e seu design do Mundo Sombrio (Dark World) esteve entre os primeiros sprites criados para o jogo, os quais foram feitos pela artista Chess. Esses sprites incluíam uma animação de prontidão em batalha (battle idle) e uma animação de ataque físico (slash). O design visual de Kris na superfície apresenta semelhanças deliberadas com Frisk e Chara, protagonistas de Undertale, compartilhando elementos como a camisa listrada e o cabelo que cobre os olhos, uma escolha estética voltada para dialogar com as expectativas do público veterano da franquia. Em contraste, seu visual no Mundo Sombrio puxa forte inspiração de RPGs de fantasia clássicos.
Kris possui uma aparência andrógina. Nas fontes originais, as referências utilizam exclusivamente os pronomes neutros they/them no singular. A base de jogadores frequentemente interpreta Kris como personagem de gênero não binário. Embora nem o jogo e nem o seu criador tenham declarado sua identidade de gênero explicitamente, durante a transmissão ao vivo do sexto aniversário de Undertale, Fox repetiu as falas dos participantes quando mencionavam Kris, substituindo o uso dos pronomes empregados pelos pronomes neutros no singular, reafirmando sua preferência. Kris apresenta uma distinção do controle do jogador, evidenciando vontade própria ao reagir a falas e ações que não teriam sido realizadas por iniciativa própria. Essa dinâmica serve como o conceito central, subvertendo a mecânica tradicional de agência do jogador ao estabelecer que Kris possui uma vontade própria e uma identidade pré-existente. As percepções de diferentes membros do elenco sobre Kris variam entre alguém legal até uma pessoa esquisita. Kris também é a única pessoa humana que vive em sua cidade.
Caracterização Aparência e personalidade No mundo da superfície, Kris se mostra como uma figura humana e jovem, com pele amarelada e cabelos castanhos que cobrem seus olhos, vestindo uma camisa verde com uma listra amarela e calças compridas. Sua personalidade é de adolescente com um comportamento reservado. Kris demonstra suas emoções de forma sutil através de expressões faciais e tom de voz que são frequentemente interpretados ou comentados por outros personagens secundários, especialmente quando as escolhas impostas pelo jogador contradizem sua verdadeira vontade.
Aparência e habilidades no Mundo Sombrio Ao entrar no Mundo Sombrio (Dark World), sua aparência muda drasticamente, adquirindo uma pele azulada e cabelos de tom azul-escuro, passando a trajar uma armadura corporal prateada com detalhes azuis, uma capa curta esfarrapada nas cores rosa e roxo, empunhando uma espada curta de lâmina rosa. Em combate, Kris assume a função de líder do grupo e possui a habilidade única de usar o comando "Agir" (Act), que lhe permite interagir de formas específicas com os inimigos para poupá-los sem recorrer à violência. Diferente de seus companheiros de equipe, Kris não possui feitiços mágicos ofensivos nativos, mas é capaz de canalizar energia para defender aliados ou utilizar comandos especiais que influenciam o campo de batalha.
Aparições
Kris é protagonista de Deltarune. Na maior parte do jogo, está sobre o controle do jogador por meio de uma alma vermelha. Em Hometown, uma pequena cidade que abriga figuras de Undertale e personagens inéditos na franquia, Kris integra a família Dreemurr por adoção, com a mãe Toriel, o pai Asgore e o irmão mais velho Asriel. Atualmente, Kris é a única presença humana em Hometown, sendo o restante da população composta por monstros, como o resto da família Dreemurr. Kris também já figurou de forma pontual em produtos oficiais, incluindo um conjunto de broches junto com outros personagens.
Enredo No primeiro capítulo de Deltarune, Kris e sua colega de escola Susie descobrem um portal para o Mundo Sombrio (Dark World) no armário de suprimentos da escola. Ao lado de Ralsei, um príncipe nativo desse reino, eles descobrem que são heróis destinados a selar as "Fontes Sombrias" para manter o equilíbrio entre a luz e a escuridão. Após fazerem amizade com o antagonista Lancer e derrotarem o Rei para fechar a primeira fonte, a dupla retorna ao mundo real. No entanto, durante a noite, Kris remove sua própria alma do corpo de forma abrupta, agindo de maneira independente e sem o controle das ações do jogador.
No decorrer dos capítulos seguintes, Kris e Susie continuam a explorar novos Mundos Sombrios que surgem na cidade. No segundo capítulo, ambientado na biblioteca local, enfrentam a Rainha e descobrem que um ser misterioso conhecido como o "Cavaleiro do Rugido" (Roaring Knight) está criando novas fontes. O jogador também pode forçar Kris a seguir uma rota alternativa ("Rota Estranha" ou Snowgrave Route), manipulando a estudante Noelle Holiday a congelar inimigos, embora Kris demonstre resistência interna a essas ações. Ao final do capítulo, Kris remove sua alma novamente e usa uma faca para abrir uma nova fonte na sala de estar de sua casa.
Nos capítulos posteriores, Kris e Susie navegam por novos reinos sombrios gerados a partir de locais mundanos, enfrentando antagonistas como Tenna — um ser baseado na antiga televisão de sua mãe, Toriel — e explorando reinos ocultos dentro da igreja da cidade. Ao longo dessas jornadas, Kris se depara repetidamente com a figura do Cavaleiro e com a ameaça dos Titãs, criaturas profetizadas para causar o apocalipse conhecido como "O Rugido". Apesar de conseguir selar as fontes e retornar à superfície com a ajuda de seus aliados, Kris continua lidando com lapsos de autonomia e interferências externas misteriosas que desafiam a agência do jogador sobre seu corpo.
Relacionamentos
Kris vive sob os cuidados de Toriel e demonstra um apoio silencioso a Asgore. A ausência de seu irmão mais velho, Asriel, que está na faculdade, gera uma forte sensação de saudade em Kris, que cresceu em meio às conquistas e popularidade do irmão. Na escola, sua relação com Susie passa por uma mudança drástica. Inicialmente alvo das ameaças físicas da colega valentona, Kris desenvolve uma amizade genuína com ela após a experiência compartilhada no Mundo Sombrio, transformando Susie em sua principal parceira tanto nas aventuras quanto na rotina do mundo real.
Dentro dos reinos sombrios, as conexões do núcleo narrativo se expandem e ganham novas camadas de complexidade. Kris encontra em Ralsei um aliado leal e afetuoso, cuja semelhança com Asriel desperta sentimentos ambíguos. Já a dinâmica com sua amiga de infância, Noelle, varia totalmente de acordo com as ações tomadas durante o jogo. Enquanto na história principal a amizade entre Kris e Noelle é reforçada, na rota alternativa Kris assume um papel coercitivo que a traumatiza profundamente. Toda essa variação comportamental reflete o conflito central de Kris com o próprio jogador.
Recepção Como personagem, Kris teve uma recepção crítica majoritariamente positiva, com grande foco no mistério de sua construção e na subversão da relação entre jogador e avatar. Brendan Graeber, da IGN, definiu a figura protagonista como "um enigma fascinante", essencial para o desenvolvimento temático do jogo, visão compartilhada por Harold Goldberg, do The New York Times, que elogiou a dualidade de uma presença heroica e introvertida que possui um lado sombrio. Essa quebra de controle foi o ponto alto para analistas como Alessandro Alosi, do The Games Machine e Dunke van Boekel do Power Unlimited; Alosi questionou o significado de controlar alguém quando o jogo lembra que você não está no comando, enquanto Van Boekel elogiou como o controle é arrancado do jogador de forma poderosa, mantendo a figura protagonista como um enigma. Adicionalmente, Allisandra Reyes, da Game8, destacou que o arco de Kris continua cativante e elogiou a carga dramática na cena do piano, descrevendo-a como o "tumulto interno de Kris através das teclas de marfim". Completando os elogios à narrativa, Erielle Sudario, da Checkpoint, apontou o mistério intrigante por trás da rejeição de Kris à sua própria alma, e William van Dijk, da Vandal, ressaltou como um papel heroico mudo ganha voz pelas decisões do jogador, servindo como o eixo pacífico que lidera o grupo.
Em uma linha intermediária e puramente descritiva, Kris também atraiu análises mistas que preferiram focar em seu contexto estrutural em vez de avaliar sua personalidade. Mitch Vogel, em sua crítica para a Nintendo Life, manteve uma abordagem direta e sem juízo de valor, relatando apenas que a história segue Kris, adolescente de comportamento reservado, que vive em uma pequena cidade habitada por monstros e que passa por aventuras em um misterioso Mundo Sombrio. De maneira semelhante, Scott Baird, da Screen Rant, adotou uma postura estritamente factual e comparativa para Kris, limitando-se a descrever como protagonista sem falas próprias, que apresenta semelhanças com Frisk e Chara de Undertale, sem atribuir pontos positivos ou negativos ao seu desenvolvimento individual.
Por fim, as impressões que tenderam a um lado mais negativo ou melancólico destacaram o isolamento desconfortável da presença heroica dentro da obra. Ana Diaz, da Polygon, observou que o universo criado por Toby Fox não serve como um refúgio para Kris, afirmando que "algumas perguntas centrais permanecem: quais personagens conseguem se sentir confortados por esses mundos? (Certamente não a nossa querida figura heroica, Kris)".
Referências
Categoria:Protagonistas Categoria:Metamorfos fictícios