Bunocephalus hartti, conhecido popularmente como bagre-banjo e peixe-banjo, é uma espécie peixe siluriforme da família dos aspredinídeos (Aspredinidae). É endêmica da bacia do rio São Francisco em Minas Gerais. Pertence ao gênero Bunocephalus, um grupo de bagres-banjo sul-americanos caracterizados pelo corpo achatado e hábitos bentônicos, geralmente associados ao fundo de riachos e rios de correnteza lenta. A espécie foi descrita em 2015 juntamente com Bunocephalus minerim, após décadas sendo mencionada na literatura sob diferentes identificações provisórias. Distingue-se dos demais congêneres principalmente pela ausência de serrilhas na margem anterior do espinho da nadadeira peitoral em indivíduos adultos e pela forte aderência do último raio da nadadeira dorsal ao dorso.
De pequeno porte, atingindo cerca de 58 milímetros de comprimento padrão, B. hartti apresenta cabeça e corpo deprimidos, olhos reduzidos cobertos por pele, grandes tubérculos dérmicos distribuídos pelo corpo e coloração predominantemente marrom, marcada por quatro selas escuras ao longo da região dorsal. A espécie ocorre nas porções alta e média da bacia do São Francisco, incluindo drenagens dos rios das Velhas, Paraopeba, Formoso, Cipó, Curimataí e Piumhi, estando associada a ambientes de fundo arenoso ou lodoso, frequentemente entre folhiço submerso. Embora sua história natural permaneça pouco conhecida, é considerada uma espécie bentônica, onívora e não migratória, compartilhando características ecológicas observadas em outros representantes do gênero.
A espécie foi classificada como pouco preocupante pelo ICMBio, mas como quase ameaçada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), devido à degradação contínua de seus habitats. Entre as principais ameaças estão a mineração, a expansão agropecuária, a poluição dos cursos d'água, a construção de hidrelétricas e os impactos do rompimento da barragem de rejeitos de Brumadinho, que pode ter afetado parte de sua distribuição no rio Paraopeba. Apesar de provavelmente ocorrer em algumas áreas protegidas, não existem medidas de conservação direcionadas especificamente à espécie, e tanto a UICN quanto o ICMBio destacam a necessidade de ampliar o conhecimento sobre sua distribuição, abundância e tendências populacionais.
Etimologia
O nome popular bagre, de acordo com Joan Coromines, deriva do latim pagrus (originário do grego , párgos), "pargo", através do moçárabe, que originou no árabe da Península Ibérica e do Norte da África "bâgar". Sua primeira ocorrência remonta de 1553. O nome genérico Bunocephalus deriva do grego antigo býnein (), "encher" ou "inchar", e kephalḗ (), "cabeça", em referência à cabeça larga e deprimida característica dos representantes do gênero. O epíteto específico hartti homenageia o geólogo, paleontólogo e naturalista canadense Charles Frederick Hartt , integrante da Expedição Thayer e um dos pioneiros dos estudos geológicos e naturalísticos no Brasil.
Taxonomia
Bunocephalus hartti é uma espécie de peixe siluriforme da família dos aspredinídeos e da subfamília dos . Pertence ao gênero Bunocephalus, descrito por Rudolf Kner em 1855 e composto por bagres-banjo reconhecidos pelo corpo peculiarmente deprimido, com cabeça e tronco achatados e pedúnculo caudal estreito, lembrando o formato de um banjo. Os representantes do gênero ocorrem em diversos sistemas fluviais tropicais da América do Sul, incluindo as bacias do Orinoco, Amazonas e Paraná–Paraguai, além de rios da vertente noroeste dos Andes. São peixes bentônicos, geralmente encontrados entre folhiço submerso ou enterrados no substrato de remansos e trechos de correnteza lenta em riachos e rios. Alimentam-se de modo generalista, consumindo insetos terrestres, larvas de insetos aquáticos, pequenos peixes, folhas e flores. Embora não tenham importância comercial como alimento, algumas espécies aparecem regularmente no comércio de peixes ornamentais.
A delimitação de Bunocephalus é historicamente complexa. Algumas espécies antes incluídas no gênero foram transferidas para Pseudobunocephalus, e os autores da descrição original observaram que ainda não havia uma diagnose inequívoca para Bunocephalus, nem evidências conclusivas de que as espécies remanescentes formassem um grupo monofilético. Também foi destacada a possível proximidade entre algumas espécies de Bunocephalus e o gênero Amaralia, além da controvérsia sobre a espécie-tipo de Bunocephalus, atribuída por diferentes autores a Silurus verrucosus Walbaum, 1792 ou a Bunocephalus hypsiurus Kner, 1855. Nesse contexto, B. hartti foi mantida em Bunocephalus por compartilhar caracteres derivados associados ao clado formado por Amaralia e Bunocephalus, como a ornamentação desenvolvida da placa nucal média, a margem posterior serrilhada do basipterígio e ossículos da linha lateral com pequenos ganchos. A espécie foi descrita formalmente em 2015 por Tiago P. Carvalho, Alexandre R. Cardoso, John P. Friel e Roberto E. Reis, juntamente com B. minerim, em estudo dedicado a duas novas espécies das porções alta e média da bacia do rio São Francisco. Antes de sua descrição, havia sido citada na literatura como Bunocephalus larai sensu Mees, 1989, identificação tratada como duvidosa, além de Bunocephalus sp. n., Bunocephalus sp. N. 1 e Bunocephalus sp. A em estudos faunísticos da bacia do São Francisco.
Diagnose
O holótipo de Bunocephalus hartti, MZUSP 62745, mede 54,8 milímetros de comprimento padrão e foi coletado no rio Cipó, na Fazenda Duas Barras, município de Presidente Juscelino, em Minas Gerais, Brasil, nas coordenadas 18°41’04”S, 43°59’18”W. A coleta ocorreu em 1 de julho de 2000, por Carlos Bernardo Mascarenhas Alves e Paulo dos Santos Pompeu. Os parátipos são todos provenientes de Minas Gerais, na bacia do São Francisco, e incluem exemplares coletados em tributários e localidades associados aos rios das Velhas, Curimataí, Paraopeba, Formoso e Piumhi, além do ribeirão São Miguel e de um riacho tributário do rio das Velhas ao norte de Belo Horizonte. Entre os municípios representados no material-tipo estão Augusto de Lima, Iguatama, Piumhi e Juataba, além de localidades próximas a Betim e ao médio São Francisco. Parte dos exemplares foi diafanizada e corada para estudo osteológico. Bunocephalus hartti distingue-se de todos os demais congêneres pela ausência de serrilhas ao longo da margem anterior do espinho da nadadeira peitoral em adultos, enquanto os demais representantes de Bunocephalus apresentam serrilhas nessa região quando adultos. Em juvenis da própria espécie, serrilhas fracas podem estar presentes no espinho peitoral, mas parecem ser absorvidas durante o crescimento pela expansão da porção anterior do espinho. A espécie também se diferencia da maioria dos congêneres, exceto Bunocephalus verrucosus, por apresentar o último raio da nadadeira dorsal completa ou quase completamente aderido ao dorso por membrana, enquanto nas demais espécies esse raio é livre ou possui menos da metade de sua extensão conectada ao dorso. A espécie difere de B. minerim, descrita no mesmo estudo, por possuir barra epifisária entre os frontais pareados, dez raios principais na nadadeira caudal, serrilhas ausentes na margem anterior do espinho peitoral em adultos e último raio dorsal completamente ou quase completamente aderido ao dorso. Em contraste, B. minerim não possui barra epifisária, apresenta nove raios principais na nadadeira caudal, possui serrilhas recurvadas ao longo das margens anterior e posterior do espinho peitoral e tem apenas cerca de metade do último raio dorsal aderido ao dorso. Outras diferenças incluem a margem anterior do mesetmoide ligeiramente côncava e com projeções anterolaterais pouco pronunciadas em B. hartti, além de hemáspines bífidas em contato com os pterigióforos da nadadeira anal.
Descrição
Bunocephalus hartti é uma espécie de porte moderado a pequeno em comparação com outros congêneres, com comprimento padrão máximo observado de 57,7 milímetros. A cabeça e o corpo são deprimidos. Em vista lateral, o perfil ascende da ponta do focinho até a origem da nadadeira dorsal, com ornamentações ósseas cranianas entre esses pontos. O perfil posterodorsal do corpo é reto e descendente da origem da nadadeira dorsal até próximo à base da nadadeira caudal, tornando-se ligeiramente convexo anteriormente à base da caudal. O perfil ventral é convexo da boca até a inserção da nadadeira pélvica, côncavo desse ponto até a origem da nadadeira anal, reto e ascendente da origem da anal até a base da caudal, e levemente côncavo na base da nadadeira caudal. O pedúnculo caudal é delgado, algo arredondado em seção transversal, mas achatado dorsal e ventralmente, sendo mais baixo aproximadamente no ponto médio entre o fim da nadadeira anal e a origem da caudal. A ornamentação craniana é pouco desenvolvida. Os olhos são pequenos, posicionados dorsolateralmente e cobertos por pele densa e pálida. A narina anterior situa-se terminalmente na ponta do focinho e está associada a um tubo carnoso que se projeta além do lábio superior. A narina posterior não possui aba e se abre anteromedialmente próximo ao olho. A boca é subterminal, com lábio superior mais proeminente que o inferior. Todos os barbilhões são simples e não ramificados; o barbilhão maxilar alcança ou ultrapassa ligeiramente a inserção do espinho da nadadeira peitoral, e o barbilhão mentoniano posterolateral é cerca de duas vezes mais longo que o anteromedial. A abertura opercular é reduzida a uma pequena fenda valvular situada imediatamente à frente e medialmente à inserção do espinho peitoral. A fenda axilar está presente, inclinada dorsoventralmente sob o processo cleitral posterior. Machos adultos apresentam testículos digitiformes.
O tegumento é recoberto por grandes tubérculos unculíferos, que formam séries de fileiras longitudinais alinhadas na porção posterior do corpo. No pedúnculo caudal há fileiras grandes e bem definidas de tubérculos, incluindo uma fileira mediodorsal e três laterais, enquanto as demais fileiras são pouco definidas. A descrição osteológica foi baseada em dois exemplares diafanizados e corados. A margem anterior do mesetmoide é ligeiramente côncava e as projeções anterolaterais são pouco pronunciadas. Os frontais apresentam projeções laterais que formam a margem dorsal do olho e se projetam posteriormente para os lados da fontanela craniana posterior, contatando o supraoccipital; a barra epifisária está presente. A fossa supratemporal ocorre na porção média do contato entre os ossos pterótico e supraoccipital. O pterótico possui uma lâmina óssea lateralmente expandida e pontiaguda. A pré-maxila é aproximadamente retangular, com poucos dentes em sua margem posteromedial; o dentário é delgado, com dentes ao longo da metade anterior de sua margem dorsal. O aparelho hioide e branquial apresenta quatro raios branquiostegais. O urohial é pontiagudo anteriormente, possui forame e asas laterais bem desenvolvidas. O primeiro e o segundo faringobranquiais estão ausentes, enquanto o terceiro e o quarto estão presentes e ossificados. O primeiro hipobranquial é ossificado, o segundo e o terceiro são cartilaginosos, e o terceiro epibranquial possui processo uncinado. Rastros branquiais estão presentes em todos os arcos, mas são poucos no primeiro e no segundo arcos. Os dentes faríngeos são bem desenvolvidos na placa dentígera superior, e há cerca de duas fileiras de dentes no quinto ceratobranquial, restritas à sua margem medial.