Cambeva damnata, popularmente conhecida como bagre, é uma espécie de peixe siluriforme da família dos tricomicterídeos (Trichomycteridae) e do gênero Cambeva. Foi descrita em 2024 e pertencente ao grupo de espécies de Cambeva variegata. É um pequeno bagre de água doce, com até 5,4 centímetros de comprimento padrão, caracterizado pelo corpo alongado, coloração cinza-amarelada com manchas castanho-escuras irregulares e pontos dourados no dorso, além da presença de uma conspícua crista dérmica semelhante a uma nadadeira adiposa no pedúnculo caudal. O nome específico damnata, derivado do latim e significando "condenada" ou "sentenciada", foi escolhido em referência às ameaças que incidem sobre os ambientes onde a espécie ocorre, especialmente a expansão urbana e os projetos de mineração na região da Serra do Curral.
A espécie é endêmica de Minas Gerais, onde é conhecida apenas do Córrego do Jambreiro, em Nova Lima, e do Ribeirão da Prata, em Raposos, ambos pertencentes à bacia do rio das Velhas, na região da Serra do Espinhaço, no domínio do Cerrado. Habita riachos de águas correntes, permanecendo associada ao fundo e a substratos cascalhosos. Embora ainda não tenha sido formalmente avaliada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), seus autores consideraram que a espécie pode estar seriamente ameaçada de extinção devido à atividade minerária nas nascentes do Córrego do Jambreiro e à expansão urbana na área do Ribeirão da Prata, destacando a proteção das nascentes e da vegetação ciliar como medidas prioritárias para sua conservação.
Etimologia
O nome popular bagre, de acordo com Joan Coromines, deriva do latim pagrus (originário do grego , párgos), "pargo", através do moçárabe, que originou no árabe da Península Ibérica e do Norte da África "bâgar". Sua primeira ocorrência remonta de 1553. O nome genérico Cambeva provavelmente deriva do tupi-guarani e corresponde a uma denominação popular tradicionalmente empregada para peixes tricomicterídeos no Sul e Sudeste do Brasil. O epíteto específico damnata deriva do termo latino damnata, que significa "condenada" ou "sentenciada", em referência às ameaças representadas pela expansão urbana e pelos projetos de mineração planejados para a região da Serra do Curral, considerados capazes de comprometer a sobrevivência da espécie.
Taxonomia
Cambeva damnata é uma espécie de peixe siluriforme da família dos tricomicterídeos, pertencente à subfamília dos tricomicteríneos (Trichomycterinae). Foi descrita em 2024 por Wilson José Eduardo Moreira Costa, Vinicius M. Azevedo-Santos, Felipe Polivanov Ottoni, Pedro José Villardo e Axel M. Katz como integrante do grupo de espécies de Cambeva variegata, um conjunto de espécies distribuídas principalmente pelo leste do Brasil.
Diagnóstico
Cambeva damnata distingue-se das demais espécies do gênero pela combinação de uma crista dérmica adiposa conspícua na margem dorsal do pedúnculo caudal, canal supraorbital interrompido, pré-maxila pequena e mais curta que a maxila, com forte constrição lateral, 37 a 44 odontódeos interoperculares, filamento da nadadeira peitoral extremamente reduzido, correspondendo a cerca de 10% ou menos do comprimento da nadadeira, origem da nadadeira dorsal posicionada ao nível do centro da 16.ª vértebra, padrão de coloração pintalgado e corpo relativamente delgado, especialmente em indivíduos entre 45 e 50 milímetros de comprimento padrão. A espécie também difere de congêneres por apresentar nadadeira peitoral correspondendo a 15,1–17,7% do comprimento padrão e ausência de dimorfismo sexual evidente no padrão de coloração.
Morfologia
O corpo é alongado e de secção transversal aproximadamente oval. A espécie possui dois espinhos e oito raios na nadadeira dorsal, dois espinhos e cinco raios na nadadeira anal e entre 35 e 36 vértebras. O maior exemplar conhecido mede 5,4 centímetros de comprimento padrão. Uma das características mais conspícuas é a presença de uma crista dérmica semelhante a uma nadadeira adiposa ao longo da margem dorsal do pedúnculo caudal. A coloração geral é cinza-amarelada, com grandes manchas castanho-escuras irregulares distribuídas pelo corpo. Segundo os autores da descrição, o dorso apresenta ainda pequenos pontos dourados conspícuos, formando um padrão que lembra um quadriculado. Como outros tricomicterídeos, a espécie não possui escamas e apresenta pele lisa e escorregadia.
Distribuição e habitat
Cambeva damnata é conhecida do Córrego do Jambreiro, no município de Nova Lima, e do Ribeirão da Prata, em Raposos, ambos inseridos na bacia do rio das Velhas, integrante da bacia do rio São Francisco, na região da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. A espécie é nativa do Cerrado.
Ecologia
Cambeva damnata é uma espécie de água doce com hábitos demersais, vivendo associada ao fundo dos ambientes aquáticos. Ocorre em região de clima tropical. Habita riachos de águas correntes, onde permanece entre cascalhos e outros substratos do leito, especialmente em trechos com maior fluxo de água.
Conservação
Não existem registros de riscos associados à espécie, sendo considerada inofensiva para os seres humanos. Até o momento, a espécie não foi avaliada pela Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES) nem pela Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS). Os autores da descrição da espécie destacaram que Cambeva damnata pode estar seriamente ameaçada de extinção em razão das pressões antrópicas incidentes sobre as duas únicas localidades conhecidas de ocorrência. No Córrego do Jambreiro, cujas nascentes se localizam na Serra do Curral, a principal ameaça identificada é a atividade minerária, associada a impactos como assoreamento dos cursos d'água, supressão da vegetação ciliar e contaminação da água. Já no Ribeirão da Prata, a expansão urbana foi apontada como o principal fator de risco para a conservação da espécie. Entre as medidas consideradas prioritárias para sua conservação estão a proteção das nascentes, a preservação da mata ciliar do rio das Velhas e de seus afluentes, bem como a redução das ações antrópicas capazes de alterar as características físicas e químicas dos ambientes aquáticos ocupados pela espécie. Os autores também ressaltaram que peixes de pequeno porte frequentemente apresentam elevada diversidade e distribuição geográfica restrita, mas permanecem relativamente pouco estudados quando comparados a espécies maiores. Nesse contexto, destacaram que microbacias hidrográficas podem abrigar espécies endêmicas ainda desconhecidas pela ciência, enfatizando a importância de inventários sistemáticos para ampliar o conhecimento sobre a ictiofauna continental brasileira e subsidiar estratégias de conservação.
Ligações externas
Documentos sobre Cambeva damnata na Biodiversity Heritage Library
Categoria:Tricomicterídeos Categoria:Peixes de Minas Gerais Categoria:Peixes endêmicos do Brasil Categoria:Peixes da bacia do rio São Francisco Categoria:Serra do Espinhaço