miniaturadaimagem|220x220px|Colheres de batismo bizantinas encontradas em Sutton Hoo A Cristianização da Ânglia Oriental foi um processo gradual pelo qual o Reino da Ânglia Oriental se converteu do paganismo anglo-saxão ao Cristianismo no início do século VII. O processo começou sob a influência de potências externas, como Kent e Nortúmbria, e esteve intimamente ligado à cristianização mais ampla da Inglaterra anglo-saxônica. Embora a primeira conversão real, a de Redualdo, tenha sido motivada politicamente e marcada pelo sincretismo religioso, a fé se consolidou de forma mais firme sob governantes posteriores da , como Sigeberto e Ana. Juntamente com o desaparecimento gradual dos governantes pagãos em meados do século VII, missionários continentais, particularmente Félix da Borgonha, desempenharam um papel central na consolidação do Cristianismo dentro do reino, levando a uma cristianização geral da população.
Antecedentes O cenário político da Inglaterra por volta de 600 era moldado por uma rede de reinos anglo-saxões rivais conhecidos coletivamente como Heptarquia. Etelberto de Kent emergiu como o Bretwalda, o governante mais poderoso do sul da Inglaterra, exercendo uma suserania parcial sobre reinos vizinhos, incluindo a Ânglia Oriental do rei Redualdo. O casamento de Etelberto com a princesa franca Berta, uma cristã, o colocou em contato com a Igreja franca e abriu caminho para a chegada da missão gregoriana liderada por Agostinho de Cantuária em 597, levando ao batismo de Etelberto. Os sucessos iniciais da missão em Kent estabeleceram o Cristianismo como uma religião associada ao poder real e às alianças continentais, encorajando Etelberto a promover a fé entre seus governantes dependentes.
O batismo de Redualdo e o sincretismo religioso (c. 604–624) Como rei cliente, Redualdo provavelmente foi forçado a se converter, com seu batismo ocorrendo em Kent, possivelmente com Etelberto como padrinho. Esse ato provavelmente foi um meio de reforçar a autoridade de Etelberto sobre Redualdo, sendo motivado mais pela agenda política do rei do que pela religiosa de Agostinho de Cantuária. A data do batismo não é registrada por Beda, porém foi proposto que tenha ocorrido nos primeiros 5 anos da missão gregoriana, mas não antes de 601.
A conversão nominal de Redualdo não parece ter resultado em uma alteração significativa de sua visão de mundo, havendo poucas evidências de sua adoção do Cristianismo. Além disso, Beda registra que ele retornou ao paganismo em sua jornada de volta para casa sob a influência de sua esposa pagã e é posteriormente descrito como praticante de sincretismo entre as duas religiões, possuindo um altar tanto para Cristo quanto para deuses pagãos. A adoção limitada do Cristianismo pelo rei é ainda atestada pelo fato de que seus dois filhos, Eorpualdo e Sigeberto, eram pagãos quando ele morreu. Além disso, o rei Eldulfo da Ânglia Oriental relatou ter se lembrado do templo de Redualdo ainda de pé quando era menino, sugerindo que a construção ainda era substancial nas décadas de 630 e 640. O fato de o rei continuar a praticar a religião tradicional, em contraste com Seberto, que permaneceu cristão até à sua morte, foi sugerido como significando que a influência de Etelberto sobre os anglos orientais era mais fraca do que sobre os saxões orientais.
Após a morte de Etelberto em 616, Redualdo ascendeu à posição de rei supremo no sul da Inglaterra. Foi proposto que, assim como o rei de Kent usou seu poder e autoridade para impor o batismo aos reis da Ânglia Oriental e da Saxônia Oriental, Redualdo também incentivou o retorno à religião tradicional em Kent e Essex.
A data da morte de Redualdo não é clara, sendo provável que tenha ocorrido no final do período entre 616 e 627. Embora seja indicada como 624 pelos cronistas do século XIII, Rogério de Wendover e Mateus Paris, suas fontes são desconhecidas. O sepultamento em forma de navio no monte 1 em Sutton Hoo é provavelmente o túmulo de Redualdo. Outros sepultamentos de elite ali incluem o monte 17, no qual um jovem nobre foi enterrado com um cavalo, e o monte 2, que também era um sepultamento em forma de navio. Esses sepultamentos ocorreram em um contexto mais amplo de sepultamentos menores centrados em torno de um howe pré-histórico. Embora os sepultamentos de elite comecem no início do século VI, os mais ricos ocorrem em uma época em que o Cristianismo estava se estabelecendo na Inglaterra, levando à sugestão de que túmulos como o monte 1 eram um protesto contra a religião invasora, demonstrando uma identidade pagã em contraste, ou desafio, ao Cristianismo.
Batismo de Eorpualdo e posterior morte em meio a uma reação pagã (c. 624–628) miniaturadaimagem|Uma representação imaginária do assassinato de Eorpualdo da obra Heptarquia Saxônica de John Speed, de 1611. Após a morte de Redualdo por volta de 624, ele foi sucedido por um de seus filhos, Eorpualdo. O primeiro registro datado do reinado de Eorpualdo é de 627 e foi provavelmente por volta dessa época que Eduíno da Nortúmbria o forçou ou persuadiu a adotar o Cristianismo. O rei da Ânglia Oriental provavelmente foi batizado em uma igreja em território controlado por Eduíno e por bispos da Nortúmbria, já que não havia tais instalações na Ânglia Oriental naquela época. Foi proposto que isso tenha ocorrido em 627, com o curto período após a morte de Redualdo sugerindo a alta prioridade dada a Eduíno e Paulino de Iorque.
É possível que, após o batismo, Eorpualdo tenha sido forçado a aceitar um sacerdote de Deira em sua corte; contudo, Beda não registra esse fato, nem a construção de igrejas na Ânglia Oriental nessa época. Beda, porém, descreve a conversão de todo o reino, o que pode implicar que Eduíno e Paulino viajaram para lá para supervisionar um evento como um batismo em massa. De forma semelhante à imposição do Cristianismo por Etelberto de Kent sobre Redualdo, o batismo de Eorpualdo por influência de Eduíno foi interpretado como tendo uma dimensão colonial. Segundo essa ideia, a conversão teria sido um meio de fazer com que Eorpualdo aceitasse um culto estrangeiro e uma autoridade cuja sede ficava fora de seu próprio reino.
Em 627 ou 628, Eorpualdo foi morto em uma reação pagã, com Beda identificando o assassino como Ricberto, que provavelmente o sucedeu como rei dos anglos orientais.
Derrubada de Ricberto por Sigeberto e consolidação do Cristianismo (c. 627–640) Após o assassinato de Eorpualdo, Ricberto é descrito por Beda como tendo sido rei por 3 anos, apesar do poder detido por Eduíno naquele momento. Argumentou-se que a duração de seu reinado atesta o apoio à derrubada de Eorpualdo por Ricberto; provavelmente havia uma forte aversão na Ânglia Oriental à suserania de Eduíno sobre o reino e à submissão de Eorpualdo à dominação. Sugeriu-se ainda que o nome de Ricberto implica que ele era membro da elite da Ânglia Oriental e possivelmente da própria família real.
Em 630 ou 631, o irmão de Eorpualdo, Sigeberto, ascendeu ao trono após ter sido exilado para a Gália durante o reinado do irmão, onde se converteu ao Cristianismo, e depois disso não há registo de reis pagãos da Ânglia Oriental. Ele é descrito como governando uma parte do reino da Ânglia Oriental, enquanto seu parente Ecgrico, que possivelmente era pagão e assim permaneceu, governava a outra. O exílio de Sigeberto atesta os laços entre as famílias reais da Ânglia Oriental e da Merovíngia durante o século VII. Da mesma forma, as elites continentais, em oposição a Eduíno de Deira, são provavelmente as responsáveis por apoiar a sua ascensão à Ânglia Oriental.
Integração do Cristianismo Missionários continentais foram fundamentais na conversão da Ânglia Oriental na década de 630, com Félix da Borgonha sendo nomeado bispo para difundir o Cristianismo pelo reino. Honório, o Arcebispo de Cantuária, enviou Félix, um súdito do rei franco, a Dunwich depois que Félix procurou o arcebispo e manifestou seu desejo de ir para a Ânglia Oriental como missionário. Não está claro se Honório consagrou Félix na Inglaterra como o primeiro bispo da Ânglia Oriental ou se Félix já havia sido consagrado no continente. A datação desse episódio é incerta, mas provavelmente ocorreu por volta de 631. É possível que o rei Sigeberto da Ânglia Oriental, que se converteu ao Cristianismo enquanto estava exilado no continente, já tivesse conhecido Félix e estivesse por trás da viagem de Félix a Honório.
Não há registro de forte oposição organizada a Félix, o que foi interpretado como sugerindo que era a dominação de Deira que as elites rejeitavam fortemente, em oposição ao próprio Cristianismo. Sigeberto acabou por abdicar do trono e passou o cargo inteiramente para Ecgrico, que governava o reino ao mesmo tempo que ele. Sigeberto e Ecgrico foram mortos em batalha, possivelmente no início da década de 640, ambos, e então Ana tornou-se rei, sendo elogiada por Beda por sua piedade.
Ana foi morta por volta de 653 em batalha com Penda em uma série de conflitos que provavelmente giravam em torno do controle das terras dos Anglos Médios. Embora os Mércios fossem pagãos naquela época, um bispo foi designado para os anglos médios quando estes estabeleceram controle sobre a região. Isso sugere que os habitantes da região já haviam adotado o Cristianismo sob influência da Ânglia Oriental. Os reis da Ânglia Oriental também foram importantes na adoção do Cristianismo no Reino de Essex, com Suitelmo sendo batizado na Ânglia Oriental durante o reinado de Etelvaldo.
Cristianismo sob domínio víquingue Em 869, o Grande Exército Pagão víquingue conquistou a Ânglia Oriental e assassinou o rei Edmundo, o Mártir. Embora o víquingue Gutrum governasse como cristão, mosteiros como Beodricesworth foram destruídos ou abandonados, e a estrutura episcopal nativa entrou em colapso com o estabelecimento do Danelaw pelos dinamarqueses. Apesar disso, a prática cristã persistiu entre a população local, e o culto a Edmundo rapidamente se tornou um importante foco de identidade e resistência regional, primeiro no hoje desconhecido Haegelisdun e depois, sob patrocínio real, no mosteiro de Beodricesworth (que mais tarde se tornaria a Abadia de Bury St Edmunds). No início do século X, com a reconquista da Ânglia Oriental por Eduardo, o Velho, e a restauração do controle real inglês, a Igreja foi restabelecida e novas fundações monásticas surgiram ao redor do santuário de Edmundo, marcando um renascimento da vida cristã na região.
Ver também
Cristianização da Inglaterra Anglo-Saxônica Diocese da Ânglia Oriental
Referências Categoria:Reino da Ânglia Oriental Categoria:Cristianismo na Inglaterra Anglia Oriental
Categoria:Cristianismo germânico