Ideval Anselmo (Catanduva, 18 de setembro de 1940 – São Paulo, 18 de fevereiro de 2026) foi um compositor e sambista brasileiro, considerado um dos maiores nomes do samba-enredo do Carnaval de São Paulo. Ele é considerado o compositor com mais sambas-enredos cantados no desfile principal do carnaval paulistano, com 19 participações – embora Anselmo afirme que sejam 22, considerando os anos em que assinou sob pseudônimo. Ele compôs os temas que embalaram quatro títulos da Camisa Verde e Branco (1974, 1976, 1977 e 1979( e um das Rosas de Ouro (1984).

Biografia Primeiros anos e juventude Nascido em Catanduva, no interior de São Paulo, Ideval Anselmo passou a infância e a adolescência em Votuporanga. Proveniente de uma família de baixa renda, o despertar musical ocorreu em casa: seu avô tocava acordeão, sua avó cantava e seu pai era cavaquinista. Quando jovem, estudou música na escola da prefeitura e, mesmo com um trompete de segunda mão e de difícil afinação, persistiu nos estudos musicais. Durante a juventude, trabalhou na roça e tocou instrumentos de sopro no coreto da bandinha de Votuporanga.

Em 1958, mudou-se para a capital paulista, onde trabalhou como torneiro mecânico em uma fábrica de registros d'água. Foi no ambiente fabril que começou a compor seus primeiros versos, utilizando o ritmo das máquinas de torno e fresa como métrica para criar paródias bem-humoradas sobre situações do cotidiano. Casou-se em 1962 com Hayde, com quem teve sete filhos, além de netos, bisnetos e uma tataraneta.

Carreira no samba Seu contato mais próximo com o universo carnavalesco começou ao acompanhar os antigos cordões paulistanos. Em 1969, iniciou sua trajetória na tradicional escola Camisa Verde e Branco, que naquele ano apresentou o enredo "Biografia do Samba – O samba através dos tempos", cujo samba enredo foi composto por Talismã. Sua entrada definitiva no mundo das escolas de samba ocorreu em 1971, motivado pela curiosidade de entender a construção dos desfiles. Naquele mesmo ano, seu interesse por compor samba-enredo foi despertado ao assistir a uma apresentação da escola de samba carioca Salgueiro no Vale do Anhangabaú.

Logo em sua primeira disputa na ala de compositores, em 1972, Anselmo venceu com o samba "Literatura de Cordel", escolhido para representar a escola na avenida. Ao lado de parceiros como Zelão e Jordão, formou uma tríade de compositores que marcou época na Camisa Verde e Branco, conquistando títulos e consolidando um estilo caracterizado por refrãos simples, melodiosos e de forte apelo popular.

Em 1974, conquistou seu primeiro título no Camisa Verde e Branco com o enredo "Uma Certa Nega Fulô", samba composto em parceria com Zelão. Em 1976, com o enredo "Atlântida e Suas Chanchadas", o Camisa Verde e Branco tornou-se tricampeão do carnaval paulistano. É o segundo samba enredo vencido por Ideval, dessa vez em parceria com Zelão e JordãoJordãoforam os compositores desse samba de enredo. Em 1977, novamente ao lado de Zelão e Jordão, compôs "Narainã, a Alvorada dos Pássaros", seu terceiro samba-enredo pelo Camisa Verde e Branco, e que trouxe o tetracampeonato do carnaval paulistano pra escola da Barra Funda. "Narainã" tornou-se a obra mais célebre de Ideval, que em 1999 foi eleita o "samba-enredo do século" do Carnaval paulista em um concurso realizado pela Folha de S.Paulo. Em 1978, o Camisa Verde e Branco desfilou com o enredo " Semana de Arte Moderna e os Contemporâneos do Futuro", Ideval participou da parceria do samba enredo, junto de Airton, Mario Luiz, Luiz Carlos, Neff Caldas e Wilson Freire. A escola ficou com o vice-campeonato. Sozinho, em 1979, Ideval escreveu em um papel de pão o samba "Almôndegas de Ouro", trazendo mais um título ao Camisa Verde e Branco.

Ideval colaborou com a fundação da Tom Maior, em 1973. Na década de 1980, expandiu sua atuação para outras agremiações. Compôs o samba enredo de 1984 da Rosas de Ouro, "A Velha Academia Berço de Heróis", trazendo o bicampeonato do carnaval paulistano pra escola. Na Unidos do Peruche, compôs hinos marcantes como "Água Cristalina", de 1985, e "Os Sete Tronos dos Divinos Orixás", de 1989, obra reconhecida por transpor a religiosidade e a herança africana para o samba-enredo.

Segundo levantamento do Estadão Dados, Anselmo é o compositor que mais vezes teve sua obra cantada na avenida pelo Grupo Especial: 19 vezes oficialmente, embora ele mesmo contabilizasse 22 participações, considerando os anos em que assinou sob pseudônimo. No carnaval paulistano de 1985, por exemplo, ele teria competido com dois sambas-enredo na mesma edição – pela Unidos do Peruche e pelo Camisa Verde e Branco, onde utilizou o nome de um de seus filhos, Washington, para participar das disputas de samba enredo.

Últimos anos e legado Suas composições foram interpretadas por grandes nomes do samba como Alfredo Careca, Jamelão, Eliana de Lima, Thobias da Vai-Vai, Fabiana Cozza e Denise Camargo, entre outros. Com mais de 25 sambas-enredo assinados ao longo da carreira, Ideval passou a ser reconhecido como um "Griô" – guardião da memória e das tradições do samba paulistano.

Integrante da Embaixada do Samba Paulistano desde 2005, lançou em 2012 seu primeiro álbum autoral, reunindo sambas-enredo, o ijexá "Tesouro Africano" e composições no estilo gafieira. Integrava também o projeto Encontro das Velhas Guardas, grupo indicado ao Prêmio da Música Brasileira em 2024 na categoria "Melhor Grupo de Samba" pelo álbum "Talismã: Negro Maravilhoso!". Até o fim da vida, participava do projeto "Samba no Terreiro", ao lado de Zé Maria e Marco Antonio, com um álbum com selo do Sesc previsto para lançamento em 2026.

Morte Faleceu em 18 de fevereiro de 2026, Quarta-Feira de Cinzas, aos 85 anos, vítima de um aneurisma da aorta abdominal. O sambista foi sepultado no Cemitério Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo, no dia seguinte.

Principais sambas-enredo Literatura de Cordel (Camisa Verde e Branco, 1972) Uma Certa Nega Fulô (Camisa Verde e Branco, 1974) Atlântida e Suas Chanchadas (Camisa Verde e Branco, 1976) Narainã, a Alvorada dos Pássaros (Camisa Verde e Branco, 1977) – eleito o samba-enredo do século pela Folha de S.Paulo. Almôndegas de Ouro (Camisa Verde e Branco, 1979) A Velha Academia Berço de Heróis (Rosas de Ouro, 1984) Água Cristalina (Unidos do Peruche, 1985) Os Sete Tronos dos Divinos Orixás (Unidos do Peruche, 1989)

Referências

Categoria:Nascidos em 1940 Categoria:Mortos em 2026 Categoria:Naturais de Catanduva Categoria:Compositores do estado de São Paulo Categoria:Sambistas do estado de São Paulo