O feminismo mestiço, feminismo latino-americano ou ainda feminismo pardo é um conjunto de movimentos que visam definir, estabelecer e alcançar a igualdade de direitos políticos, econômicos, culturais, pessoais e sociais para as mulheres latino-americanas, incluindo a busca por igualdade de oportunidades para as mulheres na educação e no emprego. A filósofa feminista Ofelia Schutte argumentou que "a filosofia feminista requer um lugar em uma teoria feminista latino-americana mais ampla e não na disciplina de filosofia na América Latina". Tal qual definiu Graciela Hierro, nascida em 1928 no México, abordou "a ética feminista e os papéis do feminismo nos espaços públicos e acadêmicos". Causas Existe um consenso bastante sólido entre acadêmicos e ativistas de que a participação das mulheres em movimentos de esquerda tem sido uma das principais razões para o desenvolvimento do feminismo latino-americano, no entanto, alguns países latino-americanos conseguiram obter direitos legais para as mulheres em contextos conservadores e de direita. As feministas lésbicas, por outro lado, confrontam a lesbofobia dentro do movimento feminista e combatem a heterossexualização da sociedade, que consideram uma ferramenta de opressão das mulheres. Os dois grupos levantaram preocupações importantes em relação às falhas do feminismo liberal, especialmente sua tendência a negligenciar questões raciais, de classe e coloniais.
História e evolução do feminismo mestiço
Manuela Sáenz foi uma mulher nascida em 1797 em Quito, Nova Granada (atual Equador), que se tornou uma figura heroica para muitos devido ao seu envolvimento com Simón Bolívar, não apenas por apoiar sua ideia de independência, mas também por ser a mulher que o salvou de uma tentativa de assassinato, guiando-o para um local seguro através da janela de um quarto. Sua importância não surgiu imediatamente; foi preciso que vozes feministas da atualidade a trouxessem à luz para que fosse considerada um símbolo feminista de sua época.
Semelhante a Sáenz, Gorriti realizou tertúlias para homens e mulheres das letras, uma das quais era Clorinda Matto de Turner, uma romancista simpática aos índios e crítica do sacerdócio no Peru. Gorriti também trabalhou com Teresa González, uma ávida escritora que dirigia uma escola para meninas e defendia a educação para mulheres.
Uma figura internacional proeminente nascida durante esse período foi Gabriela Mistral, que em 1945 ganhou o Prêmio Nobel de Literatura e no entanto, teóricas feministas argumentam que suas experiências pessoais contradizem sua linguagem, pois ela nunca se casou, tinha uma aparência "masculina" e seus relacionamentos pessoais próximos com mulheres sugerem que ela poderia ter sido uma lésbica enrustida.
O Partido Nacional Revolucionário (PNR), partido político dominante no México, declarou em 25 de fevereiro de 1937 que permitiria que mulheres "organizadas", ou seja, aquelas pertencentes a organizações de apoio ao governo, sindicatos ou ligas agrárias, votassem nas eleições internas do partido. Apesar das sufragistas não ficaram satisfeitas com o pequeno progresso, essa ação parcial permitiu que o PNR aparentasse ser favorável ao sufrágio sem correr o risco de consequências eleitorais. Embora os resultados das eleições raramente sejam determinados apenas pelo voto popular, Ben Fallaw e outros acadêmicos mostram que as eleições ainda podem ser importantes.
A Dra. Lélia Gonzalez esteve envolvida no "movimento negro carioca" e ajudou a desenvolver "a prática do feminismo mestiço no Rio de Janeiro". Ao contrário de suas antecessoras, no entanto, as feministas mestiças, enfatizando "direitos reprodutivos, igualdade salarial no mercado de trabalho e igualdade de direitos legais". Como disse Gloria Anzaldúa, devemos passar a história "por uma peneira, separar as mentiras, observar as forças das quais nós, como raça, como mulheres, fizemos parte". Passaram a ser visibilizados slogans como "Mulheres dão a vida, ditaduras a exterminam", "No Dia do Protesto Nacional: Vamos fazer amor, não camas" e "Feminismo é Liberdade, Socialismo e Muito Mais" retratam as reivindicações de muitas feministas latino-americanas. Foi proeminente de forma mais contundente nas "Mulheres dos Young Lords" de Porto Rico. Os Young Lords eram, inicialmente, homens porto-riquenhos afro-taínos que lutavam por direitos humanos básicos e "desafiavam abertamente o machismo, o sexismo e o patriarcado". Bianca Canales, Luisa Capetillo, Connie Cruz e Denise Oliver tornaram-se líderes dos Young Lords e facilitaram um "Programa de Saúde de Dez Pontos". Gloria Anzaldúa, de ascendência indígena, descreveu sua experiência com a interseccionalidade como uma "polinização cruzada racial, ideológica, cultural e biológica" e a chamou de "nova consciência mestiça".
No quarto encontro no México, em 1987, um documento foi assinado constando os mitos do movimento feminista que impediam seu desenvolvimento.
Os mitos listados são:
As feministas não estão interessadas no poder. As feministas fazem política de uma maneira diferente. Todas as feministas são iguais. Existe uma unidade natural pelo simples fato de sermos mulheres. O feminismo existe apenas como uma política de mulheres para mulheres. O movimento é um pequeno grupo Os espaços femininos garantem para si mesmas um espaço positivo. O pessoal é automaticamente político. O consenso é a democracia. Isso é importante porque cada país da América Latina conseguiu impulsionar o feminismo de maneiras diferentes – por exemplo, por meio da democracia, do socialismo e até mesmo sob regimes autoritários (embora isso tenha sido menos comum).
Foi nessa época que muitas feministas, sentindo-se desconfortáveis com o feminismo hegemônico vigente, começaram a criar suas próprias organizações autônomas. Em 1994, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) tornou-se "um catalisador para a organização de mulheres indígenas no México" e criou a "Lei Revolucionária das Mulheres". Seu exemplo de feminismo indígena abriu caminho para outras tribos indígenas, como os maias, quéchuas e quichés. Em 1993, muitas feministas tentaram reunir essas organizações autônomas na América Latina e no Caribe, o que levou à Conferência Global sobre a Mulher de Pequim de 1995. Um dos poucos pontos de unidade encontrados durante esses Encontros foi o efeito que o colonialismo e a globalização tiveram em seus respectivos países. É importante notar, porém, que o avanço da igualdade legal das mulheres na América Latina não eliminou a desigualdade social e econômica existente.
Graças, em grande parte, às cotas de gênero, países como Bolívia, Argentina, Costa Rica e México alcançaram ou estão prestes a alcançar a paridade de gênero em seus parlamentos nacionais, demonstrando um aumento na participação política das mulheres em toda a região nos últimos 20 anos, juntamente com a eleição de Sheinbaum Pardo, Epsy Campbell Barr tornou-se a primeira vice-presidente afrodescendente da Costa Rica em maio de 2018.
Feminismo caboclo na América Latina Esse movimento permitiu que mulheres indígenas mestiças fora ou dentro das comunidades nativas da classe trabalhadora se tornassem membros do parlamento, bem como atuassem em outros ramos do governo. As mulheres maias que vivem na Guatemala e em partes do sul do México, por exemplo, têm lutado para obter qualquer mobilidade política nos últimos anos devido a crises migratórias e desvantagens econômicas e educacionais.
Apesar da crescente representação política, as feministas indígenas latino-americanas continuam a enfrentar lutas nos setores culturais e sociais da sociedade, o que tem limitado sua participação na vida pública. A sociedade em geral frequentemente restringe a liderança e o poder de decisão das mulheres. Elas são frequentemente confrontadas com discriminação não apenas com base em seu gênero, mas também em sua etnia e classe social. Enquanto isso acontece, seu acesso à educação e às oportunidades econômicas também é limitado.
Mobilização revolucionária feminista Algumas especialistas, como Julie Shayne, acreditam que na América Latina o fenômeno dos movimentos feministas femininos deveria ser chamado de feminismo revolucionário como define Julie Shayne argumentando que um feminismo revolucionário é aquele que nasce da mobilização revolucionária.
A Mendez esteve na linha de frente da Guerra Civil Salvadorenha e sabia por experiência própria o quanto as mulheres são necessárias para qualquer revolução, embora também acreditasse que seu papel é frequentemente esquecido. Mendez explicou que as mulheres foram um dos principais motivos pelos quais a esquerda teve apoio e conseguiu avançar em El Salvador.
Figueroa também descreveu uma experiência de mulheres essencialmente carregando uma revolução nas costas, mas sendo menosprezadas no papel que desempenharam na revolução ou não conseguindo progredir além do machismo e do sexismo, ambos ainda desenfreados após suas respectivas revoluções.
As ideologias feministas de ambas as mulheres nasceram da necessidade de igualdade que elas viam não estar sendo atendida ou estar sendo ignorada após as revoluções bem-sucedidas ou tentativas de revolução em seus países. Esse feminismo, nascido da luta contra regimes opressivos, deu origem a uma nova vertente do feminismo que pode ser encontrada em toda a América Latina.
A mobilização ou reunião feminista pode ser observada na pesquisa de Shaye sobre mulheres chilenas e o centro de mães organizado pelo governo do paí sendo que esses encontros não eram exclusivos do Chile, mas ocorreram em toda a América Latina – Bogotá, Colômbia (1981), Lima, Peru (1983), Bertioga, Brasil (1985), Taxco, México (1987) e San Bernardo, Argentina (1990) – ao longo da década de 1980, conhecidos como Encuentros. Esses encontros bianuais reuniam feministas de base e profissionais, permitindo que essas mulheres discutissem suas experiências e o progresso de seus países.
Feminismo em revoluções
O feminismo também se fez presente na Revolução Cubana assim como na Revolução Mexicana onde as mulheres desempenharam um papel importante como combatentes e ativistas Embora antes da revolução de 1959 as mulheres tivessem oportunidades limitadas de educação e enfrentassem discriminação no mercado de trabalho, o movimento revolucionário desfez esses ideais ao incluir as mulheres no ativismo, na saúde e na educação.
Tópicos da Agenda Nos últimos anos, as feministas latino-americanas também desafiaram as estruturas feministas eurocêntricas, promoveram a literatura e a arte de mulheres de cor e estabeleceram seus próprios grupos sociais. Elas também buscaram desafiar os nacionalistas tradicionais que oprimem as mulheres e usam sua influência política para subjugar pessoas não heterossexuais, mulheres e pessoas de cor.
Sufragistas mestiças Os embates, que muitas vezes envolvia as realidades políticas do imperialismo americano e dos legados coloniais, não se resumia apenas à conquista do direito ao voto, mas também a direitos sociais e econômicos mais amplos. Essa medida estava em consonância com ações semelhantes tomadas no Brasil e no Chile, onde as mulheres conquistaram o direito ao voto ainda na década de 1940. Por meio de campanhas como #niunamas e #niunamenos, que inspiraram feministas latino-americanas em níveis local e internacional, seu impacto lançou as bases para movimentos feministas contínuos que hoje abordam questões urgentes como feminicídio e violência contra a mulher.
Sufragistas mestiças proeminentes
Ver também
Feminismo no Brasil Feminismo no Chile
Ligações externas
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