Os talixes (Tolışon ou تالشان), são um grupo étnico iraniano, com a maioria residindo no Azerbaijão e uma minoria no Irã. São o povo indígena de Talixe, uma região na margem ocidental do mar Cáspio compartilhada entre o Azerbaijão e o Irã. A principal cidade dos talixes e de sua terra natal é Lenquerã, cuja população é majoritariamente etnicamente talixe. Eles falam a língua talixe, uma das línguas iranianas do ramo noroeste. A maioria dos talixes no Azerbaijão é muçulmana xiita, e no Irã, sunita. Eles são famosos por sua longevidade e pelo centenarismo.
Origens
Os talixes habitam tradicionalmente a região de Talixe, na parte sudoeste do mar Cáspio, que geralmente é considerado estender-se por mais de 150 quilômetros. Atualmente, a parte setentrional de Talixe situa-se no Azerbaijão, abrangendo os distritos de Lenquerã, Astara, Lerique, Massali e Iardenle. Dentro desses cinco distritos existem mais de 350 aldeias e cidades talixes. A parte meridional de Talixe abrange a porção ocidental da província de Guilão do Irã, estendendo-se até a aldeia de . O centro mais importante dos talixes e de sua pátria étnica é a cidade de Lenquerã, cuja população é majoritariamente etnicamente talixe.
É difícil determinar a origem dos talixes, pois pouco se sabe sobre eles antes da era moderna. Como ocorre com outros etnônimos, o nome Tāliš não pode ser estabelecido com certeza. Ele aparece em fontes árabes antigas como Ataliassã (at-Țaylasān). Segundo Atabari (m. 923): “Nas montanhas que cercam o Azerbaijão costumavam viver povos como os gueles e os ataliassãs, que não obedeciam aos árabes e preservavam sua liberdade e independência”. Em persa, são chamados Țālišān e Țavāliš, ambas formas plurais de Tāliš. A transliteração nativa de Tāliš surge pela primeira vez no , na versão em armênio do Romance de Alexandre: “E ele relatou que é um refugiado das Portas Cáspias, perto do país de Talixe, na província de Guilão”.
Especialistas talixes locais costumam afirmar que eles descendem dos cadúsios, uma tribo antiga que habitava o distrito. Segundo Garnik Asatrian e Habib Borjian: “este é um dos raros casos em que uma autoidentificação popular com um povo antigo pode ser, ao menos de forma provisória, corroborada por fundamentos históricos e linguísticos”. O iranólogo Richard N. Frye acreditava que os talixes possivelmente descendem dos cadúsios.
História Período moderno inicial Império Safávida
Talixe esteve tradicionalmente associado tanto ao Guilão quanto a Mugã, especialmente a Ardabil, o centro desta última, que parece ter compartilhado um vínculo linguístico e étnico semelhante ao de Talixe antes da turquificação do Azerbaijão iraniano. Essa conexão ainda era perceptível na época dos primeiros safávidas, que descendiam de Safiadim de Ardabil (m. 1334), discípulo de (m. 1301), de provável origem talixe. Dois dos quatro mestres sufis do primeiro monarca safávida, , traziam o epíteto “Talixi”. Outras figuras com o mesmo epíteto serviram como funcionários governamentais sob os safávidas e seus sucessores. Vários chefes talixes estiveram entre os primeiros apoiadores dos safávidas, que lhes concederam o governo de Astara, então parte da província do Azerbaijão. O governador de Astara era também conhecido como aqueme (governador) de Talixe, o que indica que Astara era a capital do distrito. A partir de 1539, o governo de Astara passou a ser exercido hereditariamente pela família de Baiandor Cã Talixe.
Talixe era composto por diversos feudos, que por vezes eram concedidos a emires distintos do governador de Talixe. Por exemplo, Maomé Cã Torquemane recebeu o controle de vários feudos em Talixe e Mugã em 1586. Mais tarde, em 1684, Saficoli Cã foi um dos oficiais que controlavam Lenquerã, e Hoceine foi outro. Enquanto isso, o governador (não nomeado) de Talixe residia em Ardabil. Os xás (reis) safávidas do Irã tentaram controlar os chefes talixes locais subordinando-os a funcionários obedientes. No entanto, apesar de sua estratégia de centralização, a administração safávida não conseguiu eliminar a autonomia local na Transcaucásia. Oficialmente, os chefes locais não eram senhores hereditários, mas funcionários cujo estatuto era reconhecido por um firmã (edito) real, que na prática representava a aceitação de sua autonomia local. A sucessão familiar dos chefes deu origem a dinastias que dominaram os assuntos locais e buscaram consolidar sua influência sempre que o governo central enfraquecia.
Durante o declínio do domínio safávida no início do século XVIII, líderes talixes tentaram estabelecer principados autônomos. Durante a invasão russa do Irã, o povo de Talixe ofereceu-se voluntariamente para lutar pelo monarca safávida . Este, porém, não conseguiu fornecer-lhes apoio militar ou material; tudo o que pôde fazer foi conceder-lhes uma permissão ineficaz que lhes permitia arrecadar os impostos de Raste. Em 1723, russos e otomanos concordaram em dividir entre si o norte e o oeste do Irã. Enquanto as províncias do Cáspio estavam sob controle russo, um dos líderes locais, Mir-Abbas Beg, que afirmava ser um saíde (descendente do profeta islâmico Maomé), colaborou com o comandante russo Mikhail Matyushkin. Ao final de 1735, a reconquista do norte e do oeste do Irã foi concluída, liderada pelo comandante militar iraniano Nader. Foi também nesse período que ele passou a mirar o trono, acreditando que suas campanhas haviam estabilizado o país e lhe garantido fama suficiente. Em 8 de março de 1736, foi coroado o novo xá do Irã, marcando o início do Império Afexárida.
Império Afexárida e Império Zande
Mir Abas Begue manteve suas relações com os russos mesmo após a retirada destes do Irã. Para demonstrar sua lealdade a Nader Xá, enviou seu filho como refém à corte. Em razão de sua tez escura, Jamaladim ganhou o apelido de Cara (“o Negro”) Begue. Ascendeu a cargos importantes no exército de Nader Xá e recebeu a incumbência de reprimir a revolta de Calbe Huceine Begue no sul de Talixe, em 1744. O assassinato de Nader Xá, em 1747, levou à fragmentação de seu império; à semelhança de outros governantes do Cáucaso Meridional, Jamaladim (que sucedera o pai) estabeleceu-se como governante semiautônomo, marcando o início do Canato de Talixe, que tinha Lenquerã como capital. Um canato era um tipo de unidade administrativa governada por um governante hereditário ou nomeado, sujeito à autoridade iraniana. O título do governante era beilerbei ou cã, equivalente ao posto otomano de paxá. Os canatos continuavam a ser vistos como dependências iranianas mesmo quando os xás no Irã continental careciam de poder para impor sua autoridade na região.
Jamaladim preservou a correspondência de seu pai com a Rússia, enviando uma carta à imperatriz Catarina II na qual lhe jurava lealdade e oferecia às tropas russas acesso a seus domínios. O governante iraniano do Império Zande, Carim Cã Zande , foi informado disso por Zorabe Begue, um dos notáveis de Talixe. Como resultado, Jamaladim foi enviado para uma prisão em Xiraz, a capital zande. Carim Cã logo reverteu sua decisão ao descobrir que Zorabe Begue havia firmado um acordo com seu rival , governante de Guilão. Jamaladim foi, assim, restituído a Talixe como seu governador, recebendo o título de cã. Após destruir o exército de Zorabe e tomar o controle de Ulufe e Dastevande, Jamaladim voltou sua atenção para Astara. Capturou e matou seu governante, Xojadim, mas não conseguiu estabelecer seu domínio em Astara, pois a cidade foi concedida ao filho de Xojadim por Carim Cã, numa tentativa de restringir a autoridade de Jamaladim. Este, contudo, conseguiu conquistar várias localidades em Talixe e obter o controle da maior parte da região.
Após firmar a paz com Hedaiate Alá Cã em 1767, Carim Cã confirmou este último como governante de Guilão. No ano seguinte, Hedaiate Alá Cã lançou um ataque contra Talixe, derrotando e capturando Jamaladim, que foi aprisionado em Raste. Em seguida, instalou o filho de Jamaladim, Mir Ascar Begue, como governador de Talixe. Em 1772, Jamaladim escapou da prisão e retornou a Talixe. Em 1784, o Canato de Talixe foi atacado por de Guba, o cã mais poderoso do Cáucaso. Ele fez de Jamaladim seu vassalo e também o manteve preso em Bacu. Contudo, sob pressão da Rússia, Jamaladim foi logo libertado. Em 1786, Jamaladim morreu e foi sucedido por seu filho .
Império Cajar
Após a morte de Fate Ali Cã, em 1789, Mir Mustafá conseguiu governar com maior autonomia. Contudo, logo surgiu uma nova ameaça. Desde a morte de Carim Cã, em 1779, Aga Maomé Cã Cajar do Império Cajar vinha tentando restabelecer o império iraniano sob seu próprio domínio. Ele enviou cartas ameaçadoras aos cãs que haviam estabelecido vínculos com a Rússia, numa tentativa de reafirmar a supremacia iraniana sobre os distritos fronteiriços. Em 1791, Aga Maomé Cã saqueou Talixe, mas não conseguiu subjugá-la.
No verão de 1795, Aga Maomé Cã estava preparado para restaurar o domínio iraniano no sudeste do Cáucaso. Seus 60 mil soldados, compostos sobretudo por cavalaria, avançaram para a região nesse mesmo verão. Os primeiros meses foram dedicados por Aga Maomé Cã a obter a submissão dos governantes muçulmanos locais. Mir Mustafá e dois outros cãs (Ibraim Calil Cã do Canato de Carabaque e Maomé Cã Cajar do Canato de Erevã) entraram em correspondência com os russos, que lhes deram esperança de que poderiam derrotar as forças iranianas. também entrou em contato com os russos, solicitando auxílio contra a invasão iminente. Aga Maomé Cã voltou inicialmente sua atenção para Talixe; 10 mil soldados, liderados por Mustafá Cã Cajar, foram enviados para Talixe, que rapidamente se submeteu.
Período moderno Império Russo
A Rússia seguiu de forma mais ou menos aberta uma política destinada a libertar suas terras recém-conquistadas da influência do Irã. Com isso, o governo russo ajudou a criar e difundir uma nova identidade túrquica que, em contraste com a anterior, se baseava em princípios seculares, sobretudo na língua comum. Como resultado, muitos habitantes de língua iraniana do que viria a ser a futura República do Azerbaijão passaram, à época, a ocultar sua ascendência iraniana ou a sofrer um processo progressivo de assimilação. No , houve uma migração de talixes em direção ao norte da atual República do Azerbaijão, em busca de trabalho na indústria petrolífera e na pesca. Como consequência, vários assentamentos de língua talixe continuam a existir desde então na península de Abexerom, em especial em Bacu, bem como uma expressiva comunidade talixe em Sungaite.
União Soviética
Talixe era uma região economicamente importante para a União Soviética, pois fornecia uma ampla variedade de produtos, incluindo frutas, legumes, chá, grãos e carne. A base militar em Lenquerã, localizada perto da fronteira com o Irã, estava entre as maiores do Cáucaso. No início do período soviético, existiam escolas secundárias talixes, um jornal chamado Talixe Vermelho e vários livros em língua talixe publicados; porém, ao final da década de 1930 essas escolas foram fechadas e a identidade talixe deixou de ser reconhecida nas estatísticas oficiais, sendo os talixes classificados como “azerbaijanos”. Os talixe, com sua identidade e língua, sofreram forte repressão na República Socialista Soviética do Azerbaijão. Como muitos outros povos da república, como os tates e os curdos, os talixes foram submetidos à assimilação forçada pelas autoridades azerbaijanas.