A Fábrica de Cerâmica de Montargila é um edifício histórico localizado em Algés, no concelho de Oeiras, Portugal. A fábrica localizava-se na Rua João Chagas, via de ligação entre Algés e Linda-a-Velha, erguendo-se junto à encosta da Barreira, de onde se extraía o calcário, saibro e argila necessários para a sua produção.

História Estabelecida em 1897 por José Joaquim Almeida Junça, dedicava-se à produção de materiais de construção em cerâmica, nomeadamente telha, tijolo e peças decorativas como azulejos e outros artigos ornamentais, contribuindo para o desenvolvimento industrial local numa era de crescente industrialização dos arredores de Lisboa.

O complexo industrial original não se cingia ao edifício principal, englobando fornos na área dos atuais parques de estacionamento, uma pedreira atualmente ocupada por edifícios residenciais e uma vila operária. O espaço foi alvo de remodelação e ampliação em 1906, apresentando características arquitetónicas em tijolo consideradas idênticas às da Central Tejo.

A fábrica manteve a sua laboração até à década de 1960. O bairro operário foi construído em 1945. Após o encerramento da produção cerâmica, o imóvel acolheu outros negócios comerciais nas décadas seguintes. O edifício ficou totalmente devoluto e abandonado a partir de 2005, tendo sido classificado como Património Industrial do município de Oeiras em 2009.

Diversos pintores trabalharam nas oficinas da fábrica, com destaque para o azulejista José Estêvão Cancela de Vitória. Entre as obras executadas na Fábrica de Montargila contam-se os painéis da Estação Ferroviária de Óbidos (1946)Direção-Geral do Património Cultural. «Painéis azulejares da Estação de Óbidos – Ficha SIPA 10123». 2019. Consultado em 30 julho 2025.Pedro : “Óbidos : Guardião do Oeste” Trainspotter 65 (2016.01): p.34-39 e o conjunto encomendado para as cavalariças de Rio Frio, no Pinhal Novo (c. 1950).Ferreira, José. Azulejaria modernista em Portugal. Lisboa: Argumentum, 2004, pp. 112-113.“Rio Frio… um oásis às portas de Lisboa” Jornal Zona Rural (2015.05.16)

Reabilitação

Entre 2020 e 2025 o edifício sofreu uma intervenção de reabilitação integral projetada pelo atelier Pais Ministro Arquitetos. O projeto foi promovido pelo proprietário e médico dentista Ricardo Silva Marques, que adquiriu o imóvel num leilão da Caixa Geral de Depósitos. A aquisição e recuperação do espaço foram motivadas pelo histórico familiar do promotor, cujos avós migraram da Beira Baixa para a vila operária da fábrica, onde o avô laborou no aquecimento noturno dos fornos de cerâmica. Implantado num terreno de 700 metros quadrados com uma área de construção de 367 metros quadrados, o edifício foi alvo de obras de restauro e apetrechamento tecnológico.

A intervenção procurou preservar os elementos construtivos originais da fábrica do século XIX – alvenaria de tijolo artesanal, beirados e platibandas em madeira, bem como a cobertura em telha marselhesa – restituindo-lhes a leitura arquitetónica primitiva, tendo sido conservadas no exterior placas originais com as designações "direção" e "refeitório". No interior, a abordagem distingue as novas funcionalidades clínicas da estrutura histórica. Adicionalmente, ergueu-se um anexo moderno com elevador para garantir a total acessibilidade ao complexo, cuja fachada exibe um painel de azulejos concebido pela artista Joana Vasconcelos.

O espaço exterior foi igualmente requalificado, integrando um jardim onde se encontra uma escultura em pedra de Bordalo II. A estes intervenientes somam-se obras de VHILS, Manuel Cargaleiro, Add Fuel e do arquiteto Álvaro Siza Vieira, traduzindo a intenção de relacionar o património industrial com a arte contemporânea, sendo o espaço convertido na Le Art Clinic.

Prémios e reconhecimento Em setembro de 2025, o projeto de reabilitação que instalou a Le Art Clinic na antiga Fábrica de Montargila foi distinguido com dois prémios nos International Property Awards 2025, nas categorias «Reabilitação de edifício comercial – Portugal» e «Arquitectura para edifício de uso público – Portugal». O prémio destacou o desenho do arquiteto Nuno Pais Ministro por preservar a memória e a arquitetura industrial novecentista cruzando-a com a arte contemporânea.

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