Maria Izabel Gibrail Costa (Paraty, 8 de junho de 1950) é uma produtora rural, empresária e alambiqueira brasileira, conhecida por sua atuação na produção artesanal de cachaça em Paraty, no litoral do estado do Rio de Janeiro. Proprietária do Sítio Santo Antônio, no bairro rural do Corumbê, tornou-se uma das personagens mais associadas à tradição da cachaça paratiense a partir da década de 1990.
Sua trajetória combina a retomada de uma tradição familiar ligada à produção de aguardente de cana com uma experiência de vida no meio rural de Paraty. Descendente de uma família historicamente vinculada à agricultura, à atividade comercial e à produção de cachaça, Maria Izabel passou a produzir a bebida em pequena escala no Sítio Santo Antônio, onde também desenvolveu atividades agrícolas e passou a receber visitantes interessados na história e na produção tradicional da região.
O nome de Maria Izabel tornou-se particularmente conhecido por sua ligação com o rótulo "A Última das Moecanas", expressão que explora um trocadilho entre "moicanos" e a atividade tradicional de moer cana-de-açúcar. A alcunha passou a ser associada à sua imagem pública e à ideia de continuidade de práticas artesanais que marcaram a história da cachaça em Paraty.
Biografia
Família e formação
Maria Izabel nasceu em Paraty em 1950, em uma família ligada à história política e econômica do município. É filha de Paulo do Amaral Costa e de Josephina Gibrail Costa. Sua mãe teve atuação pioneira na política municipal, sendo apontada como a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de Paraty, enquanto a família paterna mantinha vínculos antigos com a agricultura e a produção de cachaça.
Seu avô paterno, Samuel Costa, foi advogado e político de destaque em Paraty. Segundo registros históricos divulgados sobre a família, ele exerceu funções de liderança política local, presidiu a Câmara Municipal em diferentes períodos e foi o primeiro prefeito eleito do município. A trajetória de Samuel Costa tornou-se parte importante da memória familiar de Maria Izabel e também de sua relação com a história de Paraty.
Seu bisavô paterno, Francisco Lopes da Costa, é associado à antiga tradição de produção e comercialização de cachaça da família. A presença dessa atividade entre seus antepassados contribuiu para a construção da narrativa de continuidade histórica que Maria Izabel posteriormente incorporou à própria trajetória profissional.
O pai de Maria Izabel morreu quando ela ainda era criança, aos quatro anos de idade. A família passou por dificuldades econômicas apesar de possuir propriedades rurais, circunstância que marcou a infância e a juventude de Maria Izabel.
Vida rural em Paraty
Maria Izabel construiu sua vida profissional no meio rural paratiense. Em meados da década de 1980, adquiriu o Sítio Santo Antônio, localizado na região do Corumbê, em uma área próxima ao litoral e relativamente afastada do centro histórico de Paraty. Na época, a propriedade apresentava limitações de infraestrutura, e a atividade agrícola constituiu uma das principais fontes de renda da família.
Antes de se dedicar à cachaça, Maria Izabel trabalhou com produtos agrícolas cultivados na propriedade, entre eles banana, coco e limão. O isolamento do sítio fazia com que o transporte da produção dependesse de embarcações e de caminhos de terra. Esse contexto contribuiu para que a atividade rural ocupasse lugar central na organização de sua vida e de sua família.
Sua trajetória familiar também ficou associada à criação de seis filhas e à administração da propriedade rural. Reportagens e perfis publicados sobre a produtora utilizaram a expressão "casa das sete mulheres" para descrever o ambiente familiar do sítio durante determinados períodos de sua vida.
Início da produção de cachaça
A decisão de retomar a produção de cachaça surgiu como parte da busca por uma atividade econômica que pudesse sustentar a família e, simultaneamente, recuperar uma tradição presente na história de seus antepassados. De acordo com depoimentos da própria Maria Izabel, ela passou a visitar outros produtores de Paraty para conhecer a tradição local e aprender com antigos alambiqueiros.
O alambique do Sítio Santo Antônio foi estruturado em meados da década de 1990. Fontes vinculadas à própria produtora registram que a estrutura existia desde 1994 e que a produção de cachaça começou efetivamente em 1996. O início foi marcado por experimentação e por uma produção ainda pequena, que posteriormente deu origem à marca Maria Izabel.
A formação prática da produtora ocorreu principalmente por meio do contato com antigos fabricantes de Paraty, entre eles Pedro Peroca, ligado à tradição da antiga Cachaça do Peroca, e outros alambiqueiros da região. Maria Izabel atribui a esses encontros parte importante do conhecimento que permitiu a retomada de práticas tradicionais de fabricação.
A relação entre o alambique e a topografia do terreno também se tornou um aspecto característico do sítio. A disposição das instalações aproveita o relevo da propriedade, integrando a atividade produtiva à paisagem rural e litorânea de Paraty.
Cachaça Maria Izabel
A marca Cachaça Maria Izabel foi registrada comercialmente no início dos anos 2000, após os primeiros anos de produção experimental. Desde então, o nome da produtora passou a identificar uma cachaça artesanal associada diretamente ao Sítio Santo Antônio e à tradição cachaceira de Paraty.
A produção é caracterizada por pequena escala e por forte participação pessoal de Maria Izabel nas atividades do sítio. Diferentes perfis jornalísticos destacaram seu envolvimento direto no cotidiano da propriedade e sua preocupação em preservar métodos tradicionais transmitidos por antigos produtores da região.
A própria identidade visual e comercial da marca está associada à paisagem rural de Paraty e à figura da produtora. As garrafas e os materiais de divulgação ressaltam a procedência do Sítio Santo Antônio e a relação entre a bebida, a agricultura e a memória cultural da cidade.
Entre as variedades historicamente associadas à marca encontram-se versões não envelhecidas e expressões submetidas a períodos de maturação em madeira. A documentação comercial e jornalística também registra edições especiais destinadas ao público interessado em produtos de produção limitada.
Relação com a tradição da cachaça de Paraty
A atuação de Maria Izabel está inserida em uma tradição muito mais antiga. A produção de aguardente de cana em Paraty remonta ao período colonial e ganhou importância econômica entre os séculos XVII e XIX. Durante o período imperial, o município tornou-se um dos principais centros produtores da bebida, favorecido pelas condições geográficas da região, pelas áreas de cultivo de cana e pelas vias de circulação marítima e terrestre.
A produção local entrou em declínio ao longo do século XX, em consequência de transformações econômicas, logísticas e sociais que reduziram a importância de Paraty como centro produtor. A revitalização da atividade ocorreu posteriormente em conjunto com a valorização turística e cultural do município e com o movimento de preservação das marcas tradicionais da cachaça paratiense.
Nesse contexto, Maria Izabel tornou-se uma das produtoras mais conhecidas da nova fase da cachaça de Paraty. Sua trajetória é frequentemente apresentada como exemplo de retomada de uma tradição familiar em uma escala artesanal e ligada ao território.
Indicação Geográfica de Paraty
A relação de Maria Izabel com a identidade territorial da bebida também se insere no processo de reconhecimento da cachaça de Paraty como produto de origem geográfica.
Em 2007, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial reconheceu a Indicação de Procedência "Paraty" para produtos associados à produção local de cachaça. Posteriormente, o reconhecimento foi ampliado e atualizado no âmbito da atual legislação brasileira de indicações geográficas. O INPI registra atualmente Paraty como uma Denominação de Origem para cachaça, com publicação da concessão em 30 de janeiro de 2024.
A indicação geográfica não constitui uma condecoração individual concedida a Maria Izabel, mas um reconhecimento relacionado ao território e à coletividade de produtores. Sua trajetória, contudo, é frequentemente associada à valorização contemporânea da tradição cachaceira de Paraty e à preservação de práticas artesanais locais.
A área reconhecida compreende o território delimitado de Paraty e estabelece critérios específicos relacionados à origem e às características dos produtos abrangidos pela indicação geográfica.
Identidade cultural e imagem pública
Maria Izabel tornou-se conhecida também por um estilo de vida associado à simplicidade, à vida rural e à forte ligação com o território paratiense. Perfis publicados sobre ela frequentemente destacam o costume de andar descalça, sua relação com a natureza e sua permanência prolongada no sítio onde trabalha.
A imagem pública da produtora foi construída em torno de uma personagem que reúne referências à vida caiçara, à agricultura familiar, à memória de uma antiga família paratiense e à preservação do patrimônio cultural imaterial ligado à cachaça. Essa representação ajudou a transformar Maria Izabel em uma personalidade reconhecível também fora do círculo de produtores da bebida.
A expressão "A Última das Moecanas" consolidou-se como parte de sua identidade pública. O título passou a representar tanto a atividade de moagem da cana quanto a ideia de sobrevivência de uma tradição artesanal em meio à modernização da produção e às mudanças econômicas ocorridas em Paraty ao longo do século XX e início do XXI.
Relação com a produção feminina de cachaça
A trajetória de Maria Izabel também é frequentemente inserida no processo de maior visibilidade das mulheres na cadeia produtiva da cachaça. Estudos históricos e reportagens sobre o setor apontam que as mulheres participaram da produção de bebidas derivadas da cana desde os períodos colonial e imperial, embora durante muito tempo a atividade tenha sido representada socialmente como predominantemente masculina.
Nesse cenário, Maria Izabel ganhou destaque por assumir diretamente funções de gestão rural e produção artesanal e por permanecer como principal referência da própria marca. Seu percurso passou a ser citado em matérias e estudos sobre a participação feminina no segmento da cachaça e sobre a valorização das pequenas produtoras rurais.
A importância simbólica dessa atuação está menos no volume de produção do que na continuidade de um modelo artesanal e familiar, associado à memória do território e à preservação de conhecimentos tradicionais.
Preservação do patrimônio cultural
A atividade desenvolvida por Maria Izabel articula três dimensões da vida cultural de Paraty: a agricultura, a produção tradicional de cachaça e a memória das antigas famílias produtoras da região.
O município possui uma longa história associada à cana-de-açúcar e aos alambiques, e a permanência de pequenas unidades produtoras contribuiu para a preservação de conhecimentos, vocabulários, práticas e formas de organização do trabalho rural que fazem parte da identidade local.
O Sítio Santo Antônio passou, desse modo, a representar não apenas uma unidade produtiva, mas também um espaço de transmissão e apresentação dessa memória. A visitação e os relatos da própria produtora contribuíram para aproximar o público da história da bebida e de sua relação com o território de Paraty.
Repercussão
Ao longo de sua trajetória, Maria Izabel foi objeto de reportagens e perfis em veículos de imprensa e publicações especializadas em gastronomia, turismo e cultura. Sua história foi associada à recuperação de uma tradição familiar, à valorização da cachaça artesanal e à participação feminina no setor.