Tosa Nikki (土佐日記) (ou O Diário de Tosa) é um diário poético de Ki no Tsurayuki, detalhando uma viagem de 55 dias nos anos de 934 e 935. A obra é o primeiro exemplo de diário japonês reconhecido como literatura. Tsurayuki escreve a partir de uma perspectiva feminina e utiliza apenas o kana.

Enredo Tsurayuki assumiu o cargo de governador da Província de Tosa, atualmente denominada como Província de Kochi, para um mandato de quatro anos que, devido ao atraso da chegada de seu sucessor, estendeu-se por mais um ano. A obra narra uma viagem de 55 dias que começou no dia 21 de dezembro de 934, quando ocorreu a troca de posse e terminou em 16 de fevereiro de 935 quando chega a sua residência em Quioto.

Diário Literário Tosa Nikki é o primeiro exemplo de diário japonês reconhecido como literatura. Antes da obra, a palavra nikki ("diário") apenas denotava aos documentos oficiais do governo, escritos por homens utilizando o sistema de escrita Kanbun. Em contraste, Tosa Nikki é escrito em japonês, usando os caracteres fonéticos do kana. Escritores homens, na época, utilizavam tanto o kana como o kanji, enquanto as mulheres geralmente não eram ensinadas a escrever kanjis, ficando restritas a literatura kana. Escrevendo através da perspectiva de uma mulher ficcional, o poeta japonês do século X Kino Tsurayuki pôde evitar o uso de letras chinesas ou citar poemas de origem chinesa, permitindo se focar na estética da língua japonesa e seus poemas, desenvolvendo-se uma cultura literária nativa para fortalecer a identidade nacional.

Na primeira frase do Tosa Nikki, Tsurayuki deixa isso claro:

男もすなる日記といふものを、女もしてみむとてするなり。

Em geral, é um homem que escreve um diário oficial registrando-o em chinês, mas farei um diário como se fosse uma mulher, com a escrita feminina japonesa.

Além disso, o autor, ao abandonar o estilo característico de registro oficial, deu espaço para expressar os sentimentos mais livremente.

Dessa forma, Tosa Nikki, assim como Izumi Shikibu Nikki, de 1007, insere-se no chamado gênero de Diários Literários. Kino Tsurayuki teria inaugurado esse gênero, e, em seguida, passou a ser produzido pelas mulheres, em especial as damas da corte, criando, dessa forma, um universo literário inédito.

Alguns dias contam apenas com a data e com a informação de que nada importante ou relevante ocorreu durante o dia, denotando o tédio, a inquietação e a ansiedade de chegar ao destino. A obra é um registro posterior, mas é escrito como se cada dia tivesse sido registrado durante a viagem. Assim, Tosa Nikki pode ser configurado como um dos marcos do 紀行 (kikô, "relato de viagem").

Há momentos com tom melancólico devido a lembranças e recordações da filha de Kino Tsurayuki, que foi junto com ele à Província de Tosa e faleceu. Tsurayuki apresenta uma tristeza por não ter sua companhia ao voltar a capital. No dia 27 de dezembro, por exemplo, há uma passagem que indica que um luto pela ausência da criança e um poema, escrito por uma mãe:

esqueço da morte da criança, por vezes pergunto por ela, que tristeza. Poesia e recursos estilísticos em Tosa Nikki Ao longo do relato da viagem, há 59 tankas de Tsurayuki, estabelecendo uma harmonia entre a prosa e a poesia. Assim, segue o estilo de algumas obras japonesas do período clássico, em que a literatura em prosa é permeada por poemas. Tosa Nikki também se constitui como um manual de iniciação para a arte de poetar, pontuando estilos da literatura.

Apesar da estética ser considerada simples, a obra utiliza de alguns recursos estilísticos. Abaixo, estão listados e exemplificados alguns recursos estilísticos empregados nos poemas.

Recursos estilísticos de som No dia 26 de dezembro, o primeiro poema é:

みやこいでて

きみにあはむと

こしものを

こしかひもなく

わかれぬるかなNo início do terceiro e quarto verso, há a repetição de um som no início do verso, denominado , com o som こし (koshi). Para preservar esse recurso estilístico relacionado ao som, Neide Hissae Naggae oferece a tradução: saí da capital

para te encontrar,

vim até aqui

vim à toa, eu acho,

pois vamos nos separar.

Makura kotoba Também no da 26 de dezembro, um poema apresenta o uso de makura kotoba, recurso poético que adjetiva uma palavra imediatamente posterior, geralmente um substantivo. しらとえの なみぢをとぼく、

ゆきかひて、

われににべきは、

たれならなくに

alvura pura das ondas,

do ir e vir,

no longínquo mar,

quem é bem igual a mim,

é que o irá cruzar. Shirotaeno é makura kotoba de nami, "onda". Não seria necessário traduzí-lo, porém possui um a relação semântica e metafórica no sentido que corresponde a roupagens brancas.

Antropomorfização e prosopopeia Em diversos poemas da obra, assim como trechos da prosa, os recursos da antropomorfização, da prosopopeia e da personificação são empregados, ou seja, dão forma e atitude humanas a coisas não-humanas. Como exemplo, têm-se um tanka do dia 9 de janeiro: みわたせば

みつのうれごとに

すむつるは

ちよのどちとぞ

おもふべちな

olho e vejo os grous como amigos de milênios a habitar as pontas dos galhos dos pinheiros. Há uma interação com os elementos da natureza, como se o grou e o pinheiro adquirissem características de um ser vivo, como se fossem humanos, ou como se fossem kami, isto é, deuses xintoístas.

Itinerário A viagem ocorreu na Era Johei, de abril de 931 a maio de 1938, então ela aconteceu a partir do ano ano 4 (934) e terminou no ano 5 (935). O itinerário apresenta algumas terras desconhecidas, apontadas por "?": +Itinerário de Tosa NikkiAnoDatasLocal de partidaLocal de chegadaAno 421 a 24 de dezembroKofukuOtsu25 de dezembroOtsuKofuku26 de dezembroKofukuOtsu27 de dezembroOtsuUradoAno 4 e 528 de dezembro a 8 de janeiroUradoOminatoAno 59 e 10 de janeiroOminatoNaha11 de janeiroNahaMurotsu21 de janeiroMurotsu?22 a 25 de janeiro??26 a 28 de janeiro??29 de janeiro?Pernoite em Tosa30 de janeiroPernoite em Tosa?1 a 4 de fevereiro??5 de fevereiro?Miozukushi6 de fevereiroMiozukushiKawajiri7 de fevereiroKawajiri?8 de fevereiro?Torikainomimaki9 e 10 de fevereiroTorikainomimakiUdono11 a 15 de fevereiroUdonoYamazaki16 de fevereiroYamazakiKyoto

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