miniaturadaimagem|Prancha dos antigos uniformes do Império do Exército Brasileiro Cavalaria Dragões Reais de Minas, 1730 e Dragões do Rio Grande, 1767 - José Washt Rodrigues A Revolta dos Dragões foi um motim militar ocorrido em 1742 no Presídio Jesus-Maria-José, núcleo inicial da ocupação portuguesa na barra do Rio Grande de São Pedro, no atual município de Rio Grande, no Rio Grande do Sul. O movimento foi conduzido por soldados do Corpo de Dragões e esteve relacionado a queixas sobre atraso de soldos, falta de fardamento, escassez de alimentos, precariedade do atendimento aos enfermos e denúncias de abusos disciplinares. ALVES; TORRES, 2016, p. 35-44
As reivindicações dos soldados são conhecidas principalmente pela representação enviada ao governador Diogo Osório Cardoso, registrada no Estreito do Rio Grande de São Pedro em 13 de janeiro de 1742. Esse registro foi transcrito em coletâneas de textos do século XVIII transcrito por historiadores brasileirosALVES; TORRES, 2016, p. 38-43; PIAZZA, 1988, p. 146-149.
Embora o movimento tenha origem militar, historiadores como Francisco das Neves Alves o interpretam também como uma revolta de dimensão social, pois as condições de precariedade atingiam a tropa e a população da povoação. Essa interpretação considera os vínculos entre soldados e moradores civis em uma sociedade de fronteira, marcada pela escassez de recursos, pela militarização do cotidiano e pela instabilidade da ocupação portuguesa no extremo sul da AméricaALVES, 2010, p. 33-51; ALVES; TORRES, 2016, p. 35-38.
Contexto histórico miniaturadaimagem|Oficial da cavalaria dos vice-reis A revolta ocorreu durante o processo de expansão portuguesa na região platina, em uma área disputada por Portugal e Espanha. Desde a fundação da Colônia do Sacramento, em 1680, a presença portuguesa no Prata esteve ligada a interesses militares, comerciais e territoriais. A fundação do Presídio Jesus-Maria-José, em 1737, por José da Silva Pais, integrou a estratégia da Coroa portuguesa de consolidar sua presença na barra do Rio Grande de São Pedro e de criar um ponto de apoio para a defesa de seus interesses no extremo sulALVES; TORRES, 2016, p. 7-15.
O estabelecimento militar do Rio Grande era recente e enfrentava dificuldades de abastecimento, comunicação e infraestrutura. A povoação reunia oficiais, soldados, moradores civis, trabalhadores e famílias vinculadas ao processo de ocupação portuguesa. A vida cotidiana era condicionada pela presença militar, pela distância em relação aos principais centros administrativos e pela dependência de remessas de alimentos, fardas e pagamentosQUEIROZ, 1987, p. 73; ALVES; TORRES, 2016, p. 35-38.
Os dragões eram soldados que podiam atuar a cavalo ou a pé e desempenhavam função importante na defesa de áreas de fronteira. No Rio Grande de São Pedro, o corpo de dragões integrava a estrutura militar responsável pela manutenção da presença portuguesa em uma região de contato e conflito com os domínios espanhóisALVES, 2010, p. 33-51.
Causas miniaturadaimagem|Gravura de 1928 do jornal "A Federação" (sem nome do autor) As causas imediatas da revolta estavam relacionadas às condições de vida e serviço dos soldados. Na representação registrada em janeiro de 1742, os dragões mencionavam falta de socorro, ausência de fardas, escassez de pão de munição, atraso de soldos e dificuldades próprias de uma povoação em formaçãoALVES; TORRES, 2016, p. 39.
As queixas também envolviam a disciplina militar. Os soldados denunciavam prisões, castigos, restrições ao deslocamento e limitações ao uso de cavalos e canoas. A insatisfação se dirigia aos oficiais locais e às condições de administração do presídio, mas os revoltosos declaravam fidelidade ao rei e ao serviço régioALVES; TORRES, 2016, p. 39-43.
A precariedade não atingia apenas os militares. A população civil da povoação também enfrentava escassez e instabilidade. Por isso, interpretações historiográficas recentes tratam o episódio como expressão de uma crise mais ampla da sociedade local, e não apenas como ato de indisciplina de uma tropa isoladaALVES, 2010, p. 33-51; ALVES; TORRES, 2016, p. 35-38.
Desenvolvimento do movimento O motim começou em 5 de janeiro de 1742, quando os soldados romperam a obediência aos oficiais e passaram a escolher entre si aqueles que os governariam. A data aparece no registro de ratificação do perdão enviado por Gomes Freire de Andrada ao Corpo de Dragões, no qual a autoridade colonial descreveu o episódio como uma desordem contra as Ordenanças e contra a hierarquia militarALVES; TORRES, 2016, p. 44.
Em 11 de janeiro de 1742, os soldados apresentaram suas reivindicações ao governador Diogo Osório Cardoso. O registro da representação, lançado em 13 de janeiro, mostra que os revoltosos procuravam diferenciar a recusa à obediência aos oficiais locais de uma rebelião contra o rei. A representação afirmava que o corpo de dragões não pretendia perturbar a jurisdição real nem abandonar o serviço de Sua MajestadeALVES; TORRES, 2016, p. 39-43.
As autoridades buscaram restaurar a obediência por meio de negociação e perdão. Em 15 de fevereiro de 1742, Gomes Freire de Andrada ratificou o perdão concedido aos revoltosos, determinando que a decisão fosse lida diante do Regimento de Dragões depois que os soldados voltassem à obediência aos seus oficiais. O registro da ratificação foi feito em 3 de abril de 1742ALVES; TORRES, 2016, p. 44-47.
Negociações e desfecho O desfecho da revolta ocorreu com a ratificação do perdão e com a promessa de providências para reduzir as causas da insatisfação. O registro de Gomes Freire de Andrada reconhecia que os soldados haviam cometido uma desordem ao negar obediência aos oficiais e eleger quem os governasse, mas também mencionava as faltas e violências que diziam padecer.
A solução negociada deve ser compreendida no contexto estratégico do Presídio Jesus-Maria-José. A região era importante para a presença portuguesa no extremo sul e permanecia sujeita às tensões com a Espanha. Nesse cenário, a manutenção da tropa e da povoação era considerada necessária para os interesses da Coroa portuguesaALVES; TORRES, 2016, p. 35-38.
Participação da população local O núcleo do movimento foi militar, mas a participação ou o apoio da população local aparece como elemento importante em interpretações posteriores. Historiadores como Francisco das Neves Alves observam que soldados e moradores civis compartilhavam parte das mesmas dificuldades, como a escassez de recursos e a precariedade da povoação.
O relato dos náufragos britânicos John Bulkeley e John CumminsBULKELEY; CUMMINS, 1936., sobreviventes da nau Wager, é usado pela historiografia como fonte complementar para a situação do Rio Grande em 1742. Os náufragos chegaram à região no mesmo período da revolta, e sua narrativa registra aspectos da crise local. A partir desse relato, historiadores argumentam que a revolta pode ser compreendida não apenas como um movimento militar, mas também como manifestação social que envolvia o povo daquela localidadeALVES, 1995, p. 34-48; ALVES; TORRES, 2016, p. 47-58.
Ver também História do Rio Grande do Sul Guerra dos Farrapos José da Silva Pais Gomes Freire de Andrade, 1.º Conde de Bobadela Referências
ALVES, Francisco das Neves. Uma revolta militar e social no alvorecer do Rio Grande do Sul. In: POSSAMAI, Paulo César, org. Gente de guerra e fronteira: estudos de história militar do Rio Grande do Sul. Pelotas: Editora da UFPel, 2010. p. 33-51. ALVES, Francisco das Neves. O mito do dragão gaúcho. Rio Grande: FURG, 2004. ALVES, Francisco das Neves. A Revolta dos Dragões na visão dos náufragos do Wager. In: ALVES, Francisco das Neves; TORRES, Luiz Henrique, orgs. A cidade do Rio Grande: estudos históricos. Rio Grande: FURG/SMEC, 1995. p. 34-48. ALVES, Francisco das Neves; TORRES, Luiz Henrique. Textos do século XVIII para o estudo da ocupação lusitana no Brasil Meridional. Lisboa; Rio Grande: CLEPUL; Biblioteca Rio-Grandense, 2016. BULKELEY, John; CUMMINS, John. Uma viagem aos mares do sul nos anos de 1740-1. Rio de Janeiro: Cia. Brasil Editora, 1936. DILLMANN, Mauro; ALVES, Francisco das Neves; TORRES, Luiz Henrique. Dos modos de ser soldado e capelão na militarizada povoação do Rio Grande do século XVIII. Revista Territórios e Fronteiras, v. 9, n. 2, p. 349-372, 2016. DORENKOTT, Charles Jr. José da Silva Paes: The Defense and Expansion of Southern Brazil, 1735-1749. Tese de doutorado, University of New Mexico, 1972. QUEIROZ, Maria Luiza Bertulini. A Vila do Rio Grande de São Pedro, 1737-1822. Rio Grande: Editora da FURG, 1987.
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