Soneto 137 é um dos 154 Sonetos de Shakespeare. Ele é a continuação da dupla de sonetos "Will" (Soneto 135 e Soneto 136), que tratam da sexualidade do poeta e de sua atração pela Dama Negra. é um soneto que fala sobre a diferença entre o que os olhos veem e o que o coração/mente sabe que é certo.
Estrutura Como a grande maioria dos sonetos construídos por William Shakespeare, ele se apresenta como um soneto inglês, onde o esquema rímico apresenta uma divisão em 3 quartetos e um dístico. É todo construído em versos decassílabos, em ritmo de pentâmetro iâmbico.
Análise O poeta aborda o Amor pela Dama Negra, culpando essa força personificada, considerando-o a raiz de todos os seus problemas. Ele acredita que isso permitiu que ele se deixasse levar pelas emoções. A princípio, ele a achou bonita e, agora que sabe que ela é moralmente corrupta, ainda gosta dela. Ele se preocupa com isso e passa algum tempo refletindo sobre o que isso significa para sua capacidade de julgar outras situações.
A ideia dos olhos e do coração do poeta distorcendo o que percebem, neste soneto os olhos são os principais perpetradores, levando o coração atrás de si. Assim, o poeta é dominado pelo "tolo cego, Amor", que é Cupido; ele próprio se torna cego em sua incapacidade de ver a verdade.
Traduções Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta A tradutora opta por fazer uma tradução mais literal do soneto, sem se deter nos detalhes técnicos de métrica, ritmo e rima. Tu, cego e tolo Amor, que fazes aos meus olhos, Que não veem o que está diante deles? Eles conhecem a beleza, e sabem onde ela jaz, Embora o bem nos custe tão caro. Se os olhos, corrompidos pela parcialidade, Ancorassem na baía onde todos trafegam, Por que da falsidade de teus olhos forjaste ganchos, Para prender a eles o que julga o meu coração? Por que deve meu coração prever este ardil, Sabendo ser o lugar-comum deste grande mundo? Ou meus olhos, ao verem, digam, não é verdade, Para emprestá-la a uma face tão vil? No que era certo, erraram meus olhos e meu coração, E agora a esta falsa praga se entregam.
Tradução de Milton Lins Como ocorrido nos Sonetos 135 e 136, neste soneto o tradutor apresentou um soneto em versos dodecassílabos alexandrinos. O esquema rímico, no entanto, segue o esquema do soneto inglês, de três quartetos e um dístico. És tola e cega, Amor, no que me pões à vista, Como miram e veem os que de fato veem? Só o belo os olhos veem, descobre-o onde exista, Se ele for o melhor, pior vais ver que tem.
Se há olhos de paixão, corruptos, simulados, Fundeados na baía, os homens a cavalo, Por que de falso olhar são teus anzóis forjados, Onde houver julgamento e meu peito ligá-lo?
Por que meu coração pensou que alguns lugares Mantêm a certidão de pertencer ao mundo? Meus olhos, vendo o mal, reputa-os vulgares Para pôr a verdade em rosto tão imundo?
Para a verdade ver, erraram meus sentidos, À falsa praga assim são eles transferidos.SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5
Tradução de José Arantes Junior Este tradutor seguiu o esquema rímico do autor no soneto como um soneto inglês. Mas não o seguiu no ritmo nem na métrica, preferindo dar-lhe um aspecto plástico, com 36 caracteres em cada verso, que lhe mostram a forma, quando utilizada uma fonte monoespaçada. Como ocorre com os outros por ele traduzidos, foi-lhe posto um título. A vastidão e a limitação
O que teu amor cego dá à minha visão Se os olhos veem mas não estão vendo? Conhecem o belo assim como a relação, E com o melhor e pior vai aparecendo;
Se os olhos erram pela visão parcial Ou param na baia onde todos passeiam, Por que o erro dos olhos é tão igual E os erros da emoção nos desnorteiam?
Por que o coração sente os canteiros, Sente a vastidão das terras do mundo? Se para o meu olhar não é verdadeiro Conseguir clareza num lugar profundo?
Coração e olhos perderam a coerência E para o falso pediram transferência.Shakespeare, William - Sonetos completos de William Shakespeare. Tradução de José Arantes Júnior. - São Paulo: Ed. do Autor, 2007.
Tradução de Paulo Camelo O tradutor optou por seguir o esquema original de soneto inglês, com seu esquema rímico e o ritmo em pentâmetro iâmbico, como na maioria dos sonetos de William Shakespeare, acrescentando-lhe o ritmo holístico para lhe dar mais fluidez. Ó tolo e cego amor, eu já estou cego e não contemplo mais o que me apraz, pois toda a vã beleza - eu sei, não nego - a mim se mostra feia, e assim se faz.
Se os olhos, corrompidos, parciais, não veem mais por onde os homens vão, por que na falsidade mostram mais do que me julga o pobre coração?
Por que meu coração trama diverso ao que conhece nesse imenso mundo? Eu já não vejo, em meu olhar disperso, a justa face desse amor profundo?
E, se das coisas certas foge a mente, a falsa praga é o que ela vê, somente.
Categoria:Sonetos de William Shakespeare