A mariposa-marte ou mariposa-de-cauda-vermelha (Dirphia rubricauda Bouvier, 1929) é uma mariposa da família Saturniidae, que inclui as mariposas-gigantes-do-bicho-da-seda. A espécie é registrada no Brasil, com ocorrências confirmadas no Distrito Federal, Goiás, Tocantins, Minas Gerais, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco e Piauí. Fora do território brasileiro, há registros no Paraguai.GBIF – Global Biodiversity Information Facility, Dirphia rubricauda. Acesso em julho de 2025. Caracteriza-se por seu grande porte e pelas cores contrastantes, especialmente a coloração vermelha nas asas posteriores, que dá origem ao seu nome comum.
Taxonomia e Nomenclatura A espécie Dirphia rubricauda foi descrita cientificamente em 1929 pelo entomólogo francês Eugène Louis Bouvier. Pertence à família Saturniidae, dentro da ordem Lepidoptera, que agrupa mariposas e borboletas. Como saturniídeo, pertence a um grupo conhecido pelo grande porte e, em muitas espécies, pelas cores vistosas ou padrões que imitam olhos nas asas — embora Dirphia rubricauda apresente coloração mais discreta, favorecendo sua camuflagem em troncos e folhagens secas.
O nome específico rubricauda é derivado do latim ruber ("vermelho") e cauda ("cauda", "parte posterior"), fazendo referência à coloração avermelhada do abdome da mariposa.
Nomes populares No Brasil, a espécie é conhecida por nomes populares ainda pouco padronizados:
Mariposa-de-cauda-vermelha: referência direta à coloração do abdome, como o próprio nome específico rubricauda sugere. Mariposa-marte: nome sugerido por entusiastas da entomologia, popularizado em plataformas de ciência cidadã como o iNaturalist. O nome remete à coloração avermelhada associada simbolicamente ao planeta Marte.
Ambos os nomes são de uso restrito e não oficializados por publicações científicas, mas têm sido empregados informalmente para facilitar a identificação e comunicação sobre a espécie.
Distribuição Geográfica A Dirphia rubricauda é uma espécie de mariposa amplamente distribuída em áreas tropicais e subtropicais da América do Sul, com maior concentração de registros no território brasileiro. No Brasil, sua ocorrência é mais comum no bioma do Cerrado, abrangendo os estados de Goiás, Distrito Federal e Tocantins, onde as condições de vegetação e clima favorecem seu desenvolvimento.
Além do Cerrado, a espécie também está presente em regiões do Nordeste, com registros documentados nos estados do Ceará e Piauí, que possuem predominância da Caatinga e áreas de transição com o Cerrado, assim como nos estados do Maranhão, Pernambuco, Paraíba e Bahia, que apresentam biomas variados, incluindo Caatinga, Mata Atlântica e áreas de transição.
No Sudeste, há registros confirmados em áreas de transição de vegetação, especialmente no estado de Minas Gerais, que abriga principalmente o bioma Cerrado e remanescentes da Mata Atlântica.
Fora do Brasil, a D. rubricauda foi registrada no Paraguai, particularmente no departamento de Concepción,Drechsel, Ulf (2014). Dirphia rubricauda Bouvier, 1929: new record from Paraguay (Lepidoptera: Saturniidae: Hemileucinae). *Paraguay Biodiversidad*, 1(17), 86–88. [Disponível em ResearchGate](https://www.researchgate.net/publication/281292024_Dirphia_rubricauda_Bouvier_1929_new_record_from_Paraguay_Lepidoptera_Saturniidae_Hemileucinae) indicando sua capacidade de adaptação a ambientes subtropicais.
Essa distribuição geográfica sugere que a espécie possui ampla tolerância ecológica, sendo capaz de ocupar diferentes tipos de vegetação, desde matas secas até áreas de floresta aberta e cerradões.
Descrição A Mariposa-Marte apresenta dimorfismo sexual pouco evidente. Os adultos possuem asas largas, com envergadura variando entre 6 e 9 cm. As asas anteriores exibem coloração marrom acobreado que, sob diferentes condições de iluminação apresentam nuances avermelhadas. Apresentam ainda padrões discretos de manchas e linhas que favorecem a camuflagem em ambientes arborizados.GBIF – Dirphia rubricauda. Acesso em julho de 2025. O abdome exibe uma tonalidade que varia do vermelho intenso ao vermelho-alaranjado, característica que dá origem ao nome da espécie (''rubricauda'', que significa “cauda vermelha”). A matiz avermelhada, geralmente mais pronunciada na região distal das asas posteriores, realça a impressão de “cauda vermelha” quando a mariposa repousa com as asas abertas.
As antenas dos machos são bipectinadas, ramificadas para captar feromônios, enquanto as das fêmeas são mais simples. As peças bucais são vestigiais, ou seja, muito reduzidas e não funcionais, tornando os adultos incapazes de se alimentar, característica comum aos Saturniídeos adultos.
Fotografias de campo reforçam essas características, mostrando indivíduos adultos repousando em superfícies amadeiradas, onde tornam-se praticamente imperceptíveis. Por exemplo, o iNaturalist conta com diversos registros da espécie.
As características gerais aqui apresentadas são aprofundadas na seção seguinte, que detalha a morfologia de cada estágio do ciclo de vida de Dirphia rubricauda, incluindo ovos, larvas, pupas e adultos.
Morfologia A seguir, são descritos aspectos morfológicos específicos de Dirphia rubricauda, detalhando as particularidades de cada fase do seu desenvolvimento.
Ovo Os ovos de Dirphia rubricauda são esféricos, de superfície lisa e coloração variando do esbranquiçado ao creme. Medem aproximadamente 1 mm de diâmetro e são depositados em massas organizadas, geralmente na face inferior das folhas das plantas hospedeiras. O período de incubação varia de 8 a 15 dias, dependendo das condições ambientais.
Larva A lagarta apresenta corpo alongado, com coloração predominante verde-clara a amarelada, podendo exibir faixas longitudinais mais escuras ou pontos discretos em alguns indivíduos. É recoberta por cerdas urticantes dispostas em tufos regulares ao longo dos segmentos corporais. Essas cerdas são ocas e conectadas a glândulas produtoras de toxinas, liberadas por ruptura mecânica, conferindo ação urticante. As lagartas alcançam entre 4 e 6 cm no último ínstar, completando cinco a seis ínstares (mudas) durante o desenvolvimento.
Características notáveis das larvas:
Cerdas urticantes: distribuídas de forma simétrica, em anéis ao redor do corpo. Aparência: corpo robusto, com cabeça pouco distinta do tórax e abdômen. Defesa: toxinas causam dor, vermelhidão, prurido, edemas e, em casos mais graves, sintomas sistêmicos como febre ou náusea.Silveira, M. et al. "Reações a lagartas urticantes." Revista Brasileira de Toxicologia, 2015.
Pupa A pupa é formada dentro de um casulo denso e resistente, construído com seda misturada a fragmentos vegetais ou folhas secas. Sua coloração varia entre marrom-escura e negra, conferindo camuflagem no ambiente natural. Pode entrar em diapausa e permanecer inativa por vários meses, especialmente em períodos desfavoráveis.
Adulto Os adultos apresentam asas largas, com envergadura entre 6 e 9 cm. As asas anteriores são alongadas, com coloração que varia de marrom acobreado a ferrugem, a depender das condições de iluminação do ambiente em que se encontra. Possuem linhas e manchas discretas que favorecem a camuflagem. As asas posteriores são menores, com prolongamento em forma de cauda e coloração variando do vermelho vivo ao alaranjado, mais acentuada na região distal.
Cabeça: pequena, com olhos compostos bem desenvolvidos. As peças bucais são vestigiais, tornando o adulto incapaz de se alimentar.
Antenas: bipectinadas nos machos (ramificadas em ambos os lados), adaptadas para a detecção de feromônios. Nas fêmeas, as antenas são menos ramificadas, refletindo diferenças comportamentais na busca por parceiros.
Tórax: robusto, recoberto por escamas finas que conferem textura aveludada.
Pernas: três pares de pernas torácicas, com tarsos terminando em garras, adaptadas para aderência a superfícies rugosas.
Abdômen: volumoso, mais desenvolvido nas fêmeas devido à necessidade de abrigar os ovos.
Biologia e Ciclo de Vida Dirphia rubricauda apresenta ciclo de vida completo, com metamorfose holometábola, típico dos lepidópteros, composto pelas fases de ovo, larva, pupa e adulto. Como ocorre com outros membros da família Saturniidae, seu desenvolvimento e comportamento são fortemente influenciados pelas condições ambientais, como temperatura, umidade e disponibilidade de plantas hospedeiras. O ciclo completo pode durar de um mês e meio a três meses, dependendo das condições ambientais.
Ovos Os ovos são pequenos, esféricos, de superfície lisa e coloração branco-amarelada, medindo cerca de 1 mm de diâmetro. São depositados em massas organizadas, geralmente na face inferior das folhas das plantas hospedeiras, em locais protegidos da exposição direta ao sol e à chuva. Cada fêmea pode colocar dezenas a centenas de ovos ao longo da vida. O período de incubação varia de 8 a 15 dias, estimativa compatível com o ciclo de Saturniídeos tropicais.JANZEN, D. H. Saturniid Moths: Natural History. Encyclopedia of Life Sciences. Wiley, 2005.
Fase larval A fase larval é a mais longa e biologicamente ativa do ciclo, responsável por toda a alimentação e acúmulo de reservas energéticas necessárias para a metamorfose e vida adulta. As lagartas possuem corpo verde-claro a amarelado, recoberto por cerdas urticantes dispostas em tufos organizados em anéis ao longo dos segmentos corporais. Essas cerdas são ocas e ligadas a glândulas produtoras de toxinas, que provocam reações urticantes em humanos.
Durante esse estágio, as lagartas passam por cinco a seis ínstares, aumentando gradativamente de tamanho até atingir cerca de 6 cm de comprimento no último estágio. A fase larval dura de 3 a 5 semanas.JANZEN, D. H., 2005, op. cit.
Pupação Ao término do desenvolvimento larval, a lagarta busca locais protegidos para a construção do casulo, geralmente no solo, sob a serapilheira, ou entre folhas secas e ramos caídos. O casulo é espesso e resistente, construído com seda produzida pelas glândulas labiais e misturada a fragmentos vegetais, conferindo camuflagem natural e proteção contra predadores e intempéries. No interior do casulo ocorre a pupação. A pupa, de coloração marrom-escura a negra, permanece imóvel durante esse período, que pode variar de 2 a 8 semanas, variando conforme temperatura e umidade.
Caso as condições ambientais sejam desfavoráveis, como períodos de seca ou frio intenso, a pupa pode entrar em diapausa, estado de dormência que prolonga essa fase por vários meses, garantindo a sobrevivência até a retomada de condições ideais.
Fase adulta A fase adulta é breve e voltada exclusivamente à reprodução. As mariposas emergem com asas largas e coloração característica: asas anteriores em tons de marrom que, dependendo da iluminação, revelam nuances avermelhadas; asas posteriores menores, com prolongamento em forma de cauda e coloração variando do vermelho vivo ao alaranjado, especialmente na região distal.
Os adultos possuem peças bucais atrofiadas e não se alimentam. Vivem apenas o tempo necessário para a cópula e postura dos ovos, com longevidade estimada entre 4 e 14 dias.EMBRAPA. Coleção Entomológica – Saturniidae. Disponível em: https://www.embrapa.br/cerrados/colecao-entomologica/lepidoptera/familia-saturniidae. Acesso em: junho de 2025. Os machos, dotados de antenas bipectinadas, localizam as fêmeas por meio da detecção de feromônios sexuais. Após o acasalamento, a fêmea realiza a postura e ambos morrem logo em seguida.
Resumo das durações das fases EstágioDuração estimadaOvo8 a 15 diasLarva3 a 5 semanasPupa2 a 8 semanas (ou meses em diapausa)Adulto4 a 14 diasCiclo total (ideal)1,5 a 3 meses Observação: A biologia detalhada do ciclo de vida de D. rubricauda ainda é pouco documentada na literatura científica. Por isso, muitas informações apresentadas foram inferidas a partir de estudos realizados com outras espécies da família Saturniidae, às quais esta espécie está relacionada.
Hábitos e Comportamento