História conjectural é um tipo de historiografia que busca explicar os acontecimentos históricos por meio de causas naturais e universais, muitas vezes recorrendo à especulação racional diante da escassez de evidências documentais. O termo foi cunhado no final do século XVIII por Dugald Stewart, que passou a descrevê-la como "história teórica ou conjectural" e a identificou como uma abordagem típica dos historiadores e primeiros cientistas sociais do Iluminismo escocês. Essa forma de história se aproximava da noção francesa de histoire raisonnée e do uso do termo história natural por David Hume em sua obra História natural da religião. Também estava relacionada à chamada história filosófica, uma forma mais ampla de teorização histórica. No entanto, a história conjectural concentrava-se especialmente na história primitiva da humanidade, utilizando reconstruções racionais baseadas em hipóteses, com pouco apoio empírico.Adam Smith (1 May 1980). The Glasgow Edition of the Works and Correspondence of Adam Smith: III: Essays on Philosophical Subjects : With Dugald Stewart's 'Account of Adam Smith': With Dugald Stewart's 'Account of Adam Smith'. [S.l.]: Oxford University Press. p. 293. ISBN 9780198281870. Consultado em 6 de Maio de 2025Gordon MacIntyre (1 September 2003). Dugald Stewart: The Pride and Ornament of Scotland. [S.l.]: Sussex Academic Press. p. 253. ISBN 0598006788. Consultado em 6 de Maio de 2025 Frank Palmeri (2003). Satire, History, Novel: Narrative Forms, 1665–1815. [S.l.]: University of Delaware Press. pp. 231–2. ISBN 978-0-87413-829-0. Consultado em 6 de Maio de 2025
A história conjectural contrastava com a história narrativa predominante no período, representada por autores como Edward Gibbon e William Robertson. Para Dugald Stewart, a história conjectural tinha valor por sua aplicação mais universal à natureza humana, ainda que operasse com menor apoio documental.Nisbet and Costa, p. 629. Ao invés de enfatizar a política e a vida pública, a história conjectural preferia ser uma forma de "ciência moral" investigativa, voltada à compreensão dos princípios gerais do desenvolvimento humano.Mark Salber Phillips (1 May 2000). Society and Sentiment: Genres of Historical Writing in Britain, 1740–1820. [S.l.]: Princeton University Press. p. 171. ISBN 978-1-4008-2362-8. Consultado em 6 de Maio de 2025 A história filosófica ainda mantinha alguma proximidade com a história narrativa, ao contrário da história conjectural, que frequentemente dependia de argumentos frágeis sobre temas como o feudalismo ou de relatos etnográficos de viajantes europeus.Rosemary Sweet (1997). Writing of Urban Histories in 18th Century England. [S.l.]: Oxford University Press. pp. 143–4. ISBN 978-0-19-820669-9. Consultado em 6 de Maio de 2025 Stewart considerava a Dissertação sobre a origem das línguas, de Adam Smith, um exemplo paradigmático de história conjectural. Para justificar os métodos da história conjectural, era necessário pressupor a uniformidade da natureza humana — ou, como formulou Stewart, das "faculdades da mente humana".
A história conjectural foi identificada por estudiosos como o núcleo de uma teoria do progresso dentro da tradição da história filosófica escocesa.Mark Salber Phillips (1 May 2000). Society and Sentiment: Genres of Historical Writing in Britain, 1740–1820. [S.l.]: Princeton University Press. pp. 171–2. ISBN 978-1-4008-2362-8. Consultado em 6 de Maio de 2025 O historiador J. G. A. Pocock observou que essa abordagem teve influência considerável sobre Gibbon e sobre a formulação da historiografia filosófica.Pocock, p. 305. A partir da década de 1780, historiadores da cultura em outras partes da Europa passaram a adotar um método indutivo, preferindo a observação empírica e a coleta sistemática de dados à abordagem especulativa característica da história conjectural.Michael C. Carhart (2007). The Science of Culture in Enlightenment Germany. [S.l.]: Harvard University Press. pp. 159–60. ISBN 978-0-674-02617-9. Consultado em 6 de Maio de 2025 O declínio dessa tradição de pensar a história conjecturalmente influenciou diretamente o desenvolvimento posterior da antropologia e da arqueologia, ao mesmo tempo em que contribuiu para o surgimento da história cultural, vista como uma resposta à racionalidade especulativa característica da história conjectural.Dr Alan Barnard; Jonathan Spencer (1 September 2003). Encyclopedia of Social and Cultural Anthropology. [S.l.]: Routledge. p. 898.ISBN 978-0-203-45803-7. Consultado em 6 de Maio de 2025
Contexto do início da Idade Moderna
A ideia de que a sociedade se desenvolve em estágios não era nova em si, mas o pensamento social passou por transformações significativas na Europa Moderna, especialmente no que se refere à concepção de sociedade civil, seus componentes e a noção de civilidade.
Modelos de estágios sociais e a figura do "selvagem"
A pesquisadora Margaret Hodgen observou o uso difundido, no início da Idade Moderna, de modelos históricos hipotéticos que organizavam o desenvolvimento das sociedades humanas em etapas sucessivas. Ao contrário da Grande Cadeia do Ser, que era estática e hierárquica, esses modelos buscavam representar mudanças ao longo do tempo. Em muitos deles, a figura do "selvagem" ocupava o ponto de partida: era entendida como uma construção hipotética que representava o estágio mais primitivo das sociedades humanas. Essa imagem era usada para justificar o início de uma série de transformações sociais que levariam progressivamente ao que se considerava civilização.HODGEN, Margaret. From Hierarchy to History. p. 467.
História natural
Embora a História Natural de Plínio, o Velho fosse uma obra enciclopédica da Roma clássica, o termo "história natural" assumiu diferentes significados no início do período moderno. O sentido relevante neste contexto é o da história natural baconiana, ou seja, a coleta sistemática de informações observáveis sobre fenômenos naturais. Essa forma de história natural não se enquadrava na filosofia natural, que era de caráter teórico.G. N. Cantor; M. J. S. Hodge; R. C. Olby; J. R. R. Christie. Companion to the History of Modern Science. Londres: Routledge, 2012. p. 260. ISBN 978-1-134-97751-2. Consultado em 6 de maio de 2025.
Histoire raisonnée A histoire raisonnée foi um gênero de escrita histórico desenvolvido na França no século XVII. Essa abordagem destacava a importância do indivíduo em seu contexto social e valorizava a descrição dos costumes e da cultura como elementos centrais da história. Derivada da historiografia humanista, com forte inspiração nos modelos clássicos greco-romanos, essa tradição passou a incorporar preocupações sociais, buscando compreender as motivações humanas por meio da causalidade histórica. Com pensadores como Géraud de Cordemoy, surgiu o interesse por relações de causa e efeito como motor da mudança histórica, em contraste com a visão humanista tradicional, que atribuía os destinos pessoais à ação da Fortuna.Leffler, pp. 223–9.
História estadial História estadial é o termo utilizado para descrever uma abordagem teórica que interpreta o desenvolvimento das sociedades humanas como um processo em estágios sucessivos (ver evolução sociocultural). Essa forma de pensar a história teve como precursor o jurista Samuel von Pufendorf,Martin Fitzpatrick; Peter Jones; Christa Knellwolf; Iain McCalman (22 July 2004). Enlightenment World. [S.l.]: Routledge. pp. 258–9. ISBN 978-1-134-60784-6. Consultado em 6 de Maio de 2025 embora autores anteriores, como Grotius, já tivessem recorrido a argumentos conjecturais — por exemplo, ao discutir a concepção tomista de propriedade privada.Istvan Hont (2005). Jealousy Of Trade: International Competition and the Nation State in Historical Perspective. [S.l.]: Harvard University Press. pp. 422–3. ISBN 978-0-674-01038-3. Consultado em 6 de Maio de 2025
Ainda no século XVII, algumas ideias fundamentais sobre a civilização começaram a ser formuladas dentro desse modelo. Mais tarde, Jean-Jacques Rousseau rejeitou a ideia de um estado de natureza estático e, ao lado do conde de Buffon, participou de debates sobre as origens da civilização. A contribuição escocesa à história estadial levou essa teoria a um novo patamar, marcada pelo antropocentrismo e por explicações detalhadas sobre a capacidade humana de transformar e dominar a natureza.Nathaniel Wolloch (1 May 2011). History and Nature in the Enlightenment: Praise of the Mastery of Nature in Eighteenth-Century Historical Literature. [S.l.]: Ashgate Publishing, Ltd. pp. 92–4. ISBN 978-1-4094-2115-3. Consultado em 6 de Maio de 2025 Observações etnográficas feitas por viajantes europeus — especialmente sobre os povos ameríndios — passaram a ser consideradas como evidências válidas para ilustrar os estágios iniciais do desenvolvimento social.Hopfl, pp. 24–5.
História conjectural da linguagem e da escrita A partir de 1748, Adam Smith passou a desenvolver uma história especulativa da linguagem em suas palestras sobre retórica.Ian Simpson Ross (23 setembro 2010). The Life of Adam Smith. OUP Oxford. p. 80. ISBN 978-0-19-161394-4. Ele relatou ter sido motivado por uma obra de Gabriel Girard publicada em 1747, e, naquele momento, Smith interessava-se particularmente pela maneira como os diferentes estilos de linguagem influenciam a comunicação e a expressão literária.
As reflexões de Smith sobre a origem da linguagem foram posteriormente utilizadas por Dugald Stewart como exemplo representativo do que ele passou a chamar de "história conjectural". Elementos dessa abordagem já eram reconhecidos na época como inspirados na Bíblia e, na literatura clássica, em autores como Lucrécio. Estudos mais recentes indicam que Smith também foi influenciado por Montesquieu em temas relacionados ao direito e ao governo. Sua teoria sobre a linguagem e a tipologia linguística ao longo do tempo é considerada representativa de sua abordagem histórica, e até mesmo como fundamento de sua posterior obra sobre economia política. No entanto, algumas ressalvas foram feitas pelo estudioso David Raphael, que argumenta que essa concepção não se aplica, por exemplo, à história da astronomia elaborada por Smith, e que o termo "história conjectural" pode, nesse contexto, ser considerado um rótulo impreciso.Ian Simpson Ross (2010). The Life of Adam Smith. OUP Oxford. pp. 85–87. ISBN 978-0-19-161394-4.Gordon Bigelow (2003). Fiction, Famine, and the Rise of Economics in Victorian Britain and Ireland. Cambridge University Press. p. 50. ISBN 978-1-139-44085-1.
Por outro lado, Lord Monboddo escreveu extensivamente sobre uma história conjectural da linguagem, com ênfase especial na evolução dos costumes e das maneiras.Mark Salber Phillips (2000). Society and Sentiment: Genres of Historical Writing in Britain, 1740–1820. Princeton University Press. p. 151. ISBN 978-1-4008-2362-8. Já William Warburton, por volta de 1740, propôs uma história conjectural e estadial da escrita em sua obra Divine Legation of Moses, na qual buscava sustentar a autoridade bíblica. Essa proposta ganhou repercussão na França com a tradução do texto no Essai sur les hiéroglyphes des Égyptiens. Para Warburton, a evolução da escrita — do uso de pictogramas aos alfabetos — correspondia a uma transição análoga na linguagem, que teria passado dos gestos às formas e figuras de linguagem.
Teoria dos quatro estágios O termo história conjectural não era amplamente utilizado na época de Dugald Stewart.Karen O'Brien (5 de junho de 1997). Narratives of Enlightenment: Cosmopolitan History from Voltaire to Gibbon. Cambridge University Press. pp. 132–133. ISBN 978-0-521-46533-5. Consultado em 6 de maio de 2025. Naquele período, predominava uma concepção mais ortodoxa de desenvolvimento social, conhecida como teoria dos quatro estágios, que propunha uma sequência linear e progressiva das formas de organização da sociedade: Caçadores e coletores; Pastoreio; Agricultura; Comércio.