miniaturadaimagem|Sessão da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre o esncândalo do INSS no Senado Federal no dia 20 de agosto de 2025
Esquema de fraudes no INSS, escândalo também conhecido como "Farra do INSS", refere-se a um esquema criminoso que desviou e lavou recursos dos beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) mediante descontos irregulares por associações e sindicatos, sem autorização, nos benefícios de aposentados e pensionistas, investigados pela Operação Sem Desconto. O esquema investigado pela Polícia Federal (PF) e pela Controladoria-Geral da União (CGU), estima-se um prejuízo em 6,3 bilhões de reais durante o período dos governos Bolsonaro e Lula. Segundo a PF, o esquema iniciou no período de 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, o qual havia recebido alertas das fraudes, permanecendo até 2024, sendo 64 por cento deste valor referente a 2023 e 2024, durante o governo Lula. No entanto, estima-se que o esquema pode ter iniciado antes, e em agosto de 2025, a CPMI aprovou as investigações a partir de 2015, durante o governo Dilma. O INSS estima 4,1 milhões de beneficiários possivelmente prejudicados. Os operadores do esquema foram Mauricio Camisotti e Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS".
O esquema foi relevado com a deflagração da operação policial "Sem Desconto" em abril de 2025, com cumprimento de 211 mandados de busca e apreensão em 13 estados e no Distrito Federal. Entre as medidas, o então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, foi afastado, e seis mandados de prisão foram expedidos, resultando em três detenções. A PF recuperou cerca de um bilhão de reais em bens e valores. Estimativas iniciais da PF apontam que 11 entidades estão formalmente enquadradas no esquema, mas há suspeitas de envolvimento de mais de 20 organizações similares A Contag foi a entidade que mais desviou, com suspeita de dois bilhões de reais. Ao total, seis servidores foram afastados. O escândalo levou à queda do então ministro da Previdência, Carlos Lupi do Partido Democrático Trabalhista (PDT), que admitiu ter sido alertado sobre irregularidades, mas negou responsabilidade direta. Antes disso, o jornal Metrópoles fez uma série de reportagens sobre a "Farra do INSS" a partir de dezembro 2023.
Em agosto de 2025, iniciou-se uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar o escândalo a pedido em conjunto pela Damares Alves e Coronel Fernanda. Em setembro, foi revelado que, em 2018, durante a transição de governo, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) recebera informações sobre "desvios, fraudes e irregularidades com o dinheiro público dentro do INSS" pela Associação Nacional dos Médicos Peritos da Previdência Social, e que, em 2019, a gestão de seu governo acolhera um ofício da Secretaria de Justiça de São Paulo emitido em 1.º agosto daquele ano; o documento revela que Sérgio Moro, então ministro da Justiça e Segurança Pública; Luciano Timm, o então secretário Nacional do Consumidor; e Renato Vieira, o então presidente do INSS, receberam denúncias de descontos irregulares em aposentadorias através do ex-diretor executivo do Procon de São Paulo Fernando Capez. Meses antes dessas denúncias terem chegado ao conhecimento de Moro, elas já tinham passado pelo gabinete do então ministro da Economia Paulo Guedes, no dia 25 de fevereiro de 2019. Até então, foram presos pela Polícia Federal Antônio Carlos Camilo Antunes e o empresário Maurício Camisotti. Posteriormente, em novembro de 2025, foram presos pela Polícia Federal o ex-presidente da autarquia Alessandro Stefanutto, e o ex-procurador do INSS Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho.
Um levantamento feito pela CNN Brasil mostrou que o INSS minimizou denúncias e reclamações feitas por aposentados via Lei de Acesso à Informação (LAI) sobre descontos indevidos em benefícios com respostas evasivas dizendo que os descontos eram previstos em lei. Dentre os motivos para o aumento dos descontos, cita-se o afrouxamento das regras, motivado por lobbies no Congresso Nacional, por falhas do INSS no controle e na fiscalização e por indicações políticas para o órgão, o que foi confirmado por ata de uma reunião da CGU com a direção do INSS no dia 9 de agosto de 2024 do qual mostrou que já se sabia que um esquema monumental estava para ser estourado e a direção da autarquia se omitiu. Além disso, em uma entrevista à Folha de S.Paulo em junho de 2025, o presidente do Dataprev Rodrigo Assumpção confirmou que a autarquia optou por manter o sistema vulnerável por seis meses mesmo tendo um mais seguro e que foi descontinuado apenas após a operação Sem Desconto. Em julho, o Governo Lula deu início ao reembolso para pessoas que sofreram descontos indevidos entre março de 2020 e março de 2025. Em fevereiro de 2026, dois ex-funcionários do INSS com altos cargos, aderiram à delação premiada e mencionaram Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva com ligação no esquema. No dia 26 do mesmo mês, a CPMI do INSS aprovou a quebra do sigilo bancário do Fávio Luís (Lulinha) em uma sessão tumultuada. Antes disso, o relator do caso, ministro André Mendonça autorizou a PF a quebrar o sigilo de Lulinha pelo suposto envolvimento no esquema. O ex-ministro Carlos Lupi, também foi delatado no esquema. Em março de 2026, em uma nova fase da operação a deputada federal Maria Gorete Pereira do MDB do Ceará, foi alvo da operação e passou a usar tornozeleira eletrônica, a advogada Cecília Rodrigues Mota e o empresário Natjo de Lima Pinheiro foram presos na operação. Em maio de 2026, a PF trocou a coordenação dos inquéritos da operação durante a delação premiada do empresário Maurício Camisotti.
Contexto e antecedentes Em 1991, o então presidente do Brasil Fernando Collor sancionou a Lei do INSS, que autorizava que entidades associativas e sindicatos realizassem descontos em folha de aposentados e pensionistas.
Entre 2009 e 2010, servidores começaram a relatar o aumento de descontos suspeitos nos benefícios. Ainda eram casos pontuais, segundo o repórter da GloboNews Guilherme Balza, "Eles começam a ser mais recorrentes, mas ainda ainda algo muito localizado ali, muito no varejo".
O cenário se agravou entre 2016 e 2018, quando surgiram as primeiras denúncias estruturadas sobre fraudes em larga escala. Em 2017, os descontos indevidos somavam cerca de 41 milhões de reais. No ano seguinte, o valor quase quintuplicou, ultrapassando os R$ 200 milhões. Foi nesse período que o Ministério Público Federal do Paraná recomendou a suspensão dos acordos entre o INSS e entidades suspeitas de agir sem autorização dos aposentados.
Durante o governo Bolsonaro, entre 2019 e 2021, houve tentativas internas no INSS para acabar com os descontos irregulares. Alguns acordos com entidades foram suspensos ou cancelados. No entanto, em 2021, nomes ligados às fraudes teriam assumido cargos estratégicos no órgão, segundo investigações da Polícia Federal. Entre 2021 e 2022, dez das onze entidades investigadas na operação assinaram acordos de cooperação técnica com o INSS. Em 2023, com a posse do presidente Lula, o ministro Carlos Lupi manteve os acordos e os servidores que foram alvos da investigação, o que contribuiu para a continuidade do esquema.
Entre 2019 e 2024, um número de associações de classe começaram a descontar os benefícios previdenciários de seus associados por supostos serviços prestados, como assessoria jurídica ou convênios com academias e planos de saúde. Os valores eram mensalmente debitados diretamente na folha de pagamento, sem permissão direta do aposentado, o que era permitido se a entidade tivesse assinado um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) com o INSS.
Em março de 2024, o INSS alterou as regras do desconto associativo, incluindo o máximo de um desconto por beneficio, limitado a 1 por cento do limite dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social (RGPS). Segundo a autarquia, naquele momento 29 entidades possuíam um ACT com o INSS e podiam assim descontar diretamente.
Anteriormente, a PF já havia deflagrado a "Operação Caça ao Tesouro" na manhã do dia 18 de março de 2025, desmontando um grupo que atuava há dez anos fraudando o INSS por meio de saques ilegais. Foram cumpridos 19 mandados de busca e apreensão em municípios do Rio de Janeiro e 13 mandados de prisão preventiva; nove pessoas foram presas. A PF estimou um prejuízo superior a 50 milhões de reais em benefícios fraudulentos.
Em 7 de abril de 2025, menos de um mês antes da operação Sem Desconto da PF, o então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, informou ao Congresso que não havia indício de fraudes em relação a possíveis descontos indevidos.
Esquema e investigação
Descontos por entidades não autorizados
A CGU iniciou a apuração em 2023, e acionou a PF em 2024 ao encontrar indícios de crime. Em 23 de abril de 2025, a "Operação Sem Desconto", cumpriu 211 mandados de busca e apreensão e outros seis de prisão temporária em 13 estados e no Distrito Federal. Além disso, apreendeu 141 joias, mais de 60 veículos de luxo e 1,7 milhão de reais em dinheiro vivo. Os cadernos com anotações, que indicam a divisão de propinas no esquema de fraudes no INSS, foram apreendidos durante a "Operação Sem Desconto", em Brasília, no escritório de Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS", suspeito de ser lobista e facilitador do esquema.
Entidades e envolvidos O relatório da PF inicialmente indiciou onze entidades formalmente enquadradas no esquema, mas há suspeitas de envolvimento de mais de vinte organizações similares. As onze arroladas são:
Associação dos Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos (Ambec) Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi/FS) Associação dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (AAPB) Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional (AAPEN) Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) AAPPS Universo União Nacional de Auxílio aos Servidores Públicos (Unaspub) Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais do Brasil Associação de Proteção e Defesa dos Direitos dos Apesentados e Pensionistas (APDAP Prev, antiga Acolher) Associação Beneficente e Cultural Backman Nacional (ABCB/Amar Brasil) Caixa de Assistência dos Aposentados e Pensionistas do INSS (Caap)
A Caap foi a entidade com mais descontos sem autorização: dos 215 efetuados, a CGU indica que 214 foram fraudulentos. Já todos os 72 descontos efetuados pela União Nacional dos Aposentados e Pensionistas (Unabrasil) estavam irregulares. A entidade que recebeu mais dinheiro foi a Contag: 2,9 bilhões de reais entre 2016 e 2023.
Até 2019, o número de filiados no Sindnapi mantinha-se estável em volta dos 170 mil, crescendo vertiginosamente entre 2021 e 2023 para 420 mil. No mesmo período, a arrecadação da entidade subiu de 41 para 149 milhões. O Sindnapi foi fundando pelo deputado Paulinho da Força (Solidariedade), mas era comandado desde 2023 por Milton Cavalo, filiado ao PDT e correligionário do ministro Carlos Lupi. Numa auditoria por amostragem anterior, o sindicato havia conseguido provar as filiações, mas na investigação da CGU vinte de um total de 26 disseram não serem filiados apesar dos descontos. Milton Cavalo disse que a abordagem "muito ostensiva aos associados" da CGU acabou assustando-os, levando a negarem o vínculo; ele também negou o valor do faturamento. O vice-presidentes do Sindnapi era José Ferreira da Silva, conhecido como Frei Chico, irmão do presidente Lula, que lá trabalhava desde 2008 — apesar do cargo de gerência, ele não é um investigado direto. Ainda segundo o relatório da PF, os descontos só foram possíveis porque biometria facial dos beneficiários, exigida pela Dataprev desde 2024 para a liberação dos descontos, não foi cumprida; a direção do INSS havia flexibilizado a exigência, permitindo uma "regra transitória" pela qual novos descontos foram incluídos mesmo sem validação completa.