miniaturadaimagem|Os gatos comem erva para induzir o vómito - um exemplo de zoofarmacognosia Zoofarmacognosia é o comportamento pelo qual animais não-humanos se servem de plantas, minerais ou outras substâncias encontradas na natureza, para prevenir, tratar ou curar doenças e ferimentos, bem como para cicatrizar feridas e purgar parasitas.
Um exemplo recorrente desse comportamento ocorre quando cães ou gatos ingerem erva para induzir o vómito.Porém, a zoofarmacognosia não se resume a este tipo de comportamentos, abarcando uma muito maior diversidade de condutas — desde a ingestão de plantas tóxicas, até à ingestão de invertebrados, com o objetivo de prevenir doenças e infecções.
Em 1978, o norte-americano e ecologista da Universidade da Pensilvânia Daniel Hunt Janzen sugeriu que os herbívoros vertebrados poderiam se beneficiar medicinalmente de metabólitos secundários em seus alimentos vegetais.
O termo "zoofarmacognosia" foi cunhado em 1993, ganhando popularidade em trabalhos acadêmicos e no livro da autora britânica Cindy Engel intitulado Wild Health: How Animals Keep Themselves Well and What We Can Learn from Them, no qual esta analisa de que maneira os animais recorrem a diversas plantas e outras substâncias presentes nos seus habitats para promover a manutenção da saúde e o equilíbrio do organismo.
Apesar de serem variáveis, os comportamentos zoofarmacognósicos podem classificar-se de acordo com a sua função e/ou forma de aplicação, podendo ser profiláticos, quando aplicados antes de uma infecção, por exemplo; terapêutica, quando aplicada após a infecção para combater patógenos; internas, quando animal ingere uma substância; ou externa, quando há aplicação tópica da substância .
Etimologia O substantivo zoofarmacognosia entra na língua portuguesa por via do inglês zoopharmacognosy, que, por seu turno, provém da aglutinação dos étimos gregos antigos zoo (“animal”) + pharmacon (“remédio, medicação”) + gnosis (“conhecimento”).
Inserção nos sistemas ecológicos O conceito de zoofarmacognosia foi ampliado com observações em primatas e outros vertebrados, tornando, portanto, mais holística a nossa visão sobre o funcionamento dos sistemas ecológicos. Anteriormente, o termo para indicar o consumo de substâncias vegetais por razões medicinais e não nutricionais era farmacofagia Boppré, Michael. "Redefining “pharmacophagy”." Journal of Chemical Ecology 10 (1984): 1151-1154.. Posteriormente, o termo zoofarmacognosia foi proposto para descrever casos em que animais parecem utilizar esses recursos de forma deliberada para fins terapêuticos Rodriguez, Eloy, and Richard Wrangham. "Zoopharmacognosy: the use of medicinal plants by animals." Phytochemical potential of tropical plants. Boston, MA: Springer US, 1993. 89-105.. O primatólogo Michael Huffman estabeleceu critérios para identificar a automedicação em primatas selvagens. Segundo ele, para caracterizar um comportamento como zoofarmacognóstico, o animal deve: (1) apresentar sinais de doença, (2) consumir uma substância fora da dieta habitual e sem valor nutricional conhecido, (3) demonstrar melhora clínica após o consumo, e (4) consumir uma dose compatível com a eficácia farmacológica da substância . miniaturadaimagem|320x320px|Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) miniaturadaimagem|Lobeira (Solanum lycocarpum). Diversos estudos de campo forneceram exemplos desse tipo de comportamento. Nas florestas tropicais da Costa Rica, por exemplo, grupos de macacos bugios (Alouatta spp.) apresentam diferentes níveis de parasitas intestinais dependendo do acesso às figueiras (Ficus spp.), cuja seiva possui propriedades anti-helmínticas e é tradicionalmente utilizada por humanos para eliminar vermes Stuart, M., Strier, K. B., & Glander, K. (1993). "Variable habitat and gastrointestinal parasitism in Alouatta palliata from Costa Rica". Primates, 34(4), 449–456.Glander, Kenneth E. "Nonhuman primate self-medication with wild plant foods." Eating on the wild side: the pharmacologic, ecologic, and social implications of using noncultigens (1994): 227-239.. Macacos que têm acesso a essas árvores apresentam menor infestação parasitária.No sudeste do Brasil, pesquisadores observaram que bugios e muriquis (Brachyteles spp.) de determinadas regiões estavam completamente livres de parasitas intestinais, ao contrário de grupos da mesma espécie em outras áreas. A principal diferença entre esses locais era a maior disponibilidade de plantas com uso medicinal reconhecido pelas comunidades amazônicas humanas .Outro exemplo marcante é o do lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), que, apesar de ser carnívoro, consome regularmente a fruta da lobeira (Solanum lycocarpum). Estudos realizados no Zoológico de Brasília mostraram que lobos em cativeiro infectados com um verme renal letal não sobrevivem sem a inclusão diária da lobeira em sua dieta, o que sugere uma função terapêutica dessa fruta da Silveira, J. E. (1969). Observações sobre a dieta do lobo-guará em cativeiro. Brasília: Zoológico de Brasília..
Relação com seleção natural e adaptação comportamental Estudos indicam que o comportamento animal funciona como um importante mecanismo de autorregulação fisiológica e emocional. Por exemplo, animais com calor excessivo buscam sombra; com sede, procuram água; em situações de estresse, procuram locais seguros. Mas essa autorregulação pode ser muito mais precisa. Experimentos demonstraram que ratos privados de um único aminoácido são capazes de buscar alimentos novos até encontrar uma dieta que contenha exatamente aquele nutriente ausente. Além disso, aprendem a evitar alimentos que não corrigem a deficiênciaRogers, P. J., & Egan, M. B. (1996). "Nutrient-specific appetite: sensory cues and post-ingestive consequences". Nutrition Research Reviews, 9, 225–243.Fuerte, M., & Provenza, F. D. (2000). "Self-regulation of nutrient intake by herbivores". Applied Animal Behaviour Science, 67(1–2), 31–45.. Em outro estudo, ovelhas conseguiram identificar e preferir alimentos ricos em fósforo após desenvolverem deficiência mineral, comportamento guiado por sensações de bem-estar e aprendizado individual.
Comportamentos assim são favorecidos pela seleção natural, já que a perda da saúde impõe um custo elevado à sobrevivência. Pesquisadores como Hart Hart, B. L. (1994). "Behavioural defence". Quarterly Review of Biology, 69(2), 251–271. argumentam que o comportamento pode ser a primeira linha de defesa contra patógenos e parasitas. Huffman complementa afirmando que muitos animais desenvolveram estratégias comportamentais para prevenir infecções e responder terapeuticamente a doenças, o que aumenta suas chances de sobrevivência e reprodução. Esse tipo de adaptação inclui, por exemplo, o uso seletivo de substâncias vegetais com propriedades farmacológicas conhecidas, a preferência por alimentos com sabor específico e o aprendizado baseado em consequências fisiológicas — o que funciona como um tipo de "conhecimento corporal" acumulado ao longo da vida.
Ecologia comportamental e química envolvida A ecologia comportamental investiga como os comportamentos dos animais se ajustam às pressões ecológicas. No contexto da zoofarmacognosia, isso inclui a escolha alimentar baseada não apenas no sabor imediato dos alimentos, mas nas consequências fisiológicas de seu consumo ao longo do tempo. Estudos indicam que os animais precisam equilibrar a ingestão de nutrientes com a exposição a substâncias potencialmente tóxicas. Um alimento pode ser seguro em um momento e prejudicial em outro, dependendo do estado fisiológico do animal. Por isso, eles monitoram constantemente os efeitos dos alimentos e ajustam sua dieta de forma adaptativa. Um exemplo bem documentado envolve o consumo de taninos, compostos vegetais que geralmente causam gosto amargo e dificultam a digestão de proteínas. Em situações normais, mamíferos evitam esses compostos. No entanto, cervos preferem alimentos com níveis moderados de taninos, o que sugere que pequenas quantidades podem ser benéficas — possivelmente por reduzir infecções parasitárias Verheyden-Tixier, H., & Duncan, P. (2000). "Selection for small amounts of tannins by a browser ungulate: the role of conditioned flavor aversion". Journal of Chemical Ecology, 26(2), 273–287..
Em experimentos com cabras, ovelhas e gado, observou-se que esses animais aumentam o consumo de taninos quando infectados com parasitas intestinais. Quando recebem polietilenoglicol (PEG), uma substância que neutraliza os efeitos dos taninos, o consumo desses compostos diminui, e vice-versa — indicando uma tentativa de autorregulação comportamental para alcançar um equilíbrio entre defesa e toxicidade Provenza, F. D., Villalba, J. J., & Cheney, C. D. (2000). "Mechanisms of learning in diet selection with reference to phytotoxicosis in ruminants". Journal of Animal Science, 78, 1357–1370.Kabasa, J. D., Opuda-Asibo, J., & Thinggaard, S. (2000). "Feeding behavior in response to condensed tannins in goats and sheep". Journal of Agricultural Science, 134(4), 473–480..Esses comportamentos revelam que as decisões alimentares dos animais envolvem aprendizado, memória, percepção sensorial e avaliação química do ambiente — demonstrando que o conhecimento ecológico não é exclusivo da espécie humana.
Coevolução entre animais e plantas na zoofarmacognosia miniaturadaimagem|Uma variedade de primatas foram observados se auto-medicando com plantas e invertebrados. Na imagem: chimpanzéA coevolução entre animais e plantas, no âmbito da zoofarmacognosia, refere-se à possibilidade de que interações repetidas entre o consumo animal de plantas com propriedades medicinais e as estratégias químicas das plantas possam ter levado a processos evolutivos recíprocos. Esse conceito é discutido por autores que investigam o uso não nutritivo de substâncias vegetais por diferentes espécies animais, especialmente em contextos de automedicação. Segundo Kelemen KELEMEN, C. Zoofarmacognosia: o uso de plantas medicinais por animais. In: CORRÊA, F. R. S.; SOUSA, M. R. C.; FERNANDES, C. N. (org.). Interações planta-animal: aspectos ecológicos e etológicos. São Paulo: Sociedade de Ethologia do Brasil, 2021. p. 7–17. , a automedicação observada em diversos grupos taxonômicos pode refletir uma relação coevolutiva, em que compostos secundários produzidos pelas plantas passaram a ser explorados pelos animais por seus efeitos terapêuticos, ao passo que as plantas, por sua vez, continuaram a sintetizá-los em contextos ecológicos de defesa. A autora argumenta que a seleção natural pode ter favorecido, simultaneamente, animais capazes de detectar e utilizar esses compostos, e plantas cuja química influenciasse a saúde e o comportamento de potenciais consumidores. No caso de primatas, Huffman documenta padrões consistentes de uso de determinadas espécies vegetais por chimpanzés, como a Vernonia amygdalina, utilizada no tratamento de parasitas intestinais. Embora o autor não utilize diretamente o termo "coevolução", ele sugere que tais práticas refletem adaptações comportamentais refinadas em resposta à química vegetal, o que indicaria um histórico evolutivo de interações seletivas entre esses organismos .
Essas interações podem assumir formas complexas: a escolha de folhas jovens, cascas ou frutos específicos em momentos de enfermidade, por exemplo, implica em discriminação sensorial e memória individual ou socialmente transmitida, o que adiciona uma camada comportamental à dimensão ecológica e bioquímica dessa relação .