miniatura|Árvore da Vida, de Eli Content, no Museu Histórico Judaico de Amsterdã. A Árvore da Vida, ou () em hebraico, é um símbolo místico usado na Cabala do judaísmo esotérico para descrever o caminho até HaShem e a maneira como Ele criou o mundo (a partir do nada).

(do latim, "criação a partir do nada") é a doutrina que afirma que a matéria não é eterna, mas foi criada por um ato divino de criação. Trata-se de uma resposta teísta à questão de como o universo passou a existir. Contrasta com a creatio ex materia, por vezes expressa pelo ditado Ex nihilo nihil fit ("nada vem do nada"), que sugere que todas as coisas foram formadas ex materia (ou seja, a partir de matéria preexistente).

Creatio ex materia

A creatio ex materia refere-se à ideia de que a matéria sempre existiu e que o cosmos moderno é uma reformulação de matéria primordial preexistente, por vezes articulada pelo princípio filosófico de que nada pode surgir do nada.

Na , o universo é formado ex materia a partir de matéria informe e eterna, geralmente representada como um oceano primordial caótico, escuro e imóvel. Na mitologia sumeriana, esse oceano cósmico é personificado pela deusa Nammu, "que deu origem ao céu e à terra" e existiu eternamente. No épico babilônico da criação Enuma Elish, o caos preexistente é composto pelas águas doces de Apsu e salgadas de Tiamat, e a partir de Tiamat o deus Marduk criou o Céu e a Terra. Nos mitos egípcios de criação, um caos aquático preexistente, personificado pelo deus Nun e associado à escuridão, deu origem a uma colina primordial (ou, em algumas versões, a uma flor de lótus primordial ou a uma vaca celestial). Nas tradições gregas, a origem última do universo varia conforme a fonte, sendo por vezes Oceanus (um rio que circunda a Terra), a Noite ou a água.

Da mesma forma, a narrativa da criação no Gênesis começa com a frase em hebraico "bereshit bara elohim et hashamayim ve'et ha'aretz", que pode ser interpretada de pelo menos três maneiras:

Como uma afirmação de que o cosmos teve um início absoluto ("No princípio, Deus criou os céus e a terra"); Como uma descrição do estado do mundo quando Deus começou a criar ("Quando, no princípio, Deus criou os céus e a terra, a terra era sem forma e vazia"); Como informação de contexto ("Quando, no princípio, Deus criou os céus e a terra, sendo a terra sem forma e vazia, Deus disse: Haja luz!").

Embora a primeira interpretação tenha sido a visão histórica predominante, desde a Idade Média tem sido argumentado que, por razões estritamente linguísticas e exegéticas, ela não pode ser a tradução preferida. Enquanto as sociedades modernas consideram a origem da matéria uma questão crucial, isso pode não ter sido o caso para culturas antigas. Alguns estudiosos sugerem que, ao escrever a narrativa da criação, o(s) autor(es) do Gênesis estavam mais preocupados com a ação de Deus em organizar o cosmos, atribuindo papéis e funções, do que com a origem da matéria em si.

Creatio ex nihilo na religião A doutrina da creatio ex nihilo afirma que toda a matéria foi criada por Deus a partir do nada em um momento inicial no qual o cosmos passou a existir. No século III, o fundador do Neoplatonismo, Plotino, argumentou que o cosmos seria, em vez disso, uma emanação de Deus. Essa visão da criação foi considerada inaceitável pelos Padres da Igreja primitivos e também foi rejeitada posteriormente por filósofos árabes e hebreus.

Antigo Oriente Próximo Embora a cosmologia do antigo Oriente Próximo seja amplamente vista como um processo de , algumas interpretações sugerem que o conceito de creatio ex nihilo pode ser encontrado em certos textos, como a Teologia Memfita egípcia e a narrativa da criação no Gênesis. Hilber, no entanto, rejeita essas interpretações, considerando que ambos os textos são consistentes com a creatio ex materia, mas sugere que passagens do Livro de Isaías, do Livro dos Provérbios e dos Salmos podem indicar uma noção de creatio ex nihilo. As doxologias cosmogônicas do Livro de Amós também apresentam uma visão de criação ex nihilo.

Judaísmo Uma das primeiras declarações que articulam o conceito de creatio ex nihilo aparece em um texto judaico de cerca de 100 a.C., 2 Macabeus 7:28: "Eu te suplico, meu filho, contempla o céu e a terra. Reflete bem: tudo o que vês, Deus criou do nada, assim como todos os homens.". Alguns estudiosos, contudo, argumentam contra essa interpretação de Macabeus.

No século I, Filo de Alexandria, um judeu helenizado, apresenta a ideia básica da criação ex nihilo, embora nem sempre seja consistente. Ele rejeita a concepção grega de um universo eterno e sustenta que Deus criou o próprio tempo. Em outros momentos, sugere-se que ele postula a existência de matéria preexistente ao lado de Deus. No entanto, estudiosos proeminentes, como , interpretam as ideias de Filo de maneira diferente, argumentando que a suposta matéria preexistente foi, de fato, criada.

No século X, Saadia Gaon introduziu a criação ex nihilo nas leituras da Bíblia judaica em sua obra Livro de Crenças e Opiniões, imaginando um Deus muito mais poderoso e onipotente do que aquele dos rabinos, os tradicionais mestres judaicos que até então dominavam o judaísmo e que acreditavam que Deus criou o mundo a partir de matéria preexistente. Atualmente, judeus, assim como cristãos, tendem a acreditar na criação ex nihilo, embora alguns estudiosos judaicos sustentem que Gênesis 1:1 permite a preexistência de matéria à qual Deus deu forma.

Chassidismo e Cabala

Filósofos judaicos dos séculos IX e X adotaram o conceito de "yesh me-Ayin" (criação a partir do nada), em oposição às visões dos filósofos gregos e da teologia aristotélica, que sustentavam que o mundo foi criado a partir de matéria primordial ou que era eterno.

Cristianismo Cristãos tradicionais acreditam na criação ex nihilo — que, no princípio, nada existia exceto um único Deus, infinito e eterno, e que Ele, por si só, trouxe à existência toda a matéria, energia, tempo e espaço a partir do nada.

Essa doutrina foi amplamente defendida em círculos cristãos desde cedo e recebeu sua primeira articulação explícita por Teófilo de Antioquia em sua obra A Autólico, no capítulo intitulado Opiniões Absurdas dos Filósofos sobre Deus: "Portanto, em todos esses aspectos, Deus é mais poderoso que o homem, inclusive nisto: que a partir de coisas que não existem, Ele cria e criou coisas que existem" (2.4). A declaração de Teófilo ecoa quase literalmente São Paulo: "Deus... que vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não são [Gr: μὴ ὄντα; L: non sunt], como se fossem" (Romanos 4:17). Por essa razão, a criação ex nihilo tornou-se um princípio fundamental da teologia cristã no século III. Na antiguidade tardia, João Filopono foi seu defensor mais proeminente.

Nos tempos modernos, alguns teólogos cristãos argumentam que, embora a Bíblia não mencione explicitamente a criação ex nihilo, essa doutrina ganha validade por ter sido sustentada por muitos ao longo de tanto tempo. Outros buscaram alternativas, como a ideia de que Deus criou a partir de Si mesmo (ex ipse), o que implica que o mundo seria mais ou menos idêntico a Deus, ou a partir de matéria preexistente (ex materia), o que sugere que o mundo não depende de Deus para sua existência. A noção de creatio ex nihilo sustenta argumentos modernos para a existência de Deus entre filósofos cristãos e outros teístas, especialmente no argumento cosmológico e em sua manifestação mais específica no .

Santo Agostinho de Hipona defendeu uma interpretação alegórica da narrativa bíblica dos seis dias. O número 7 é um número perfeito e simbólico que indica a perfeição da obra criativa de Deus. Os três primeiros dias não podem ser considerados dias propriamente ditos, pois o Sol foi criado apenas no quarto dia. A noite do sexto dia não é mencionada. Por fim, Agostinho argumenta que seria absurdo pensar que Deus descansou no sétimo dia, pois Deus possui em Si mesmo toda forma de riqueza, é eternamente imutável e, portanto, não poderia ter mudado de estado entre o sexto e o sétimo dia. Sendo Deus imutável desde sempre e para sempre, e não lhe faltando nada de positivo, é impossível que algo tenha sido adicionado à essência divina em um dado momento (no que diz respeito à unidade do Deus Trino, mas não às pessoas divinas individualmente). Citação: "Para a exegese judaica e cristã, os sete dias da criação não são dias reais, como ensina Agostinho — e, por sua conta, Galileu —, mesmo que alguns modernos pareçam ignorar as regras básicas já conhecidas pela exegese antiga. 'Poderia Deus ter descansado por um dia?' — argumenta Agostinho. 'Não, isso é obviamente impossível e, por essa razão, esses dias devem ser entendidos em sentido não literal'."

Segundo santo Ambrósio de Milão, o descanso de Deus ocorre após a criação do homem porque Deus repousa na própria criatura humana, com a qual pode estabelecer uma relação de amor. O descanso de Deus é, portanto, realizado no amor por suas criaturas e, na visão cristã, na redenção. Assim, Ambrósio conecta diretamente o "descanso de Deus" ao "descanso" de Jesus na cruz.

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

Membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias não acreditam, como os cristãos tradicionais, que Deus criou o universo ex nihilo (a partir do nada). Em vez disso, para essa igreja, o ato de criação consiste em organizar ou reorganizar matéria ou inteligência preexistente.

Islamismo

A maioria dos estudiosos do islamismo compartilha com o cristianismo e o judaísmo o conceito de que Deus é a Primeira Causa e o Criador absoluto, não tendo criado o mundo a partir de matéria preexistente. No entanto, alguns estudiosos, como Ibne Taimia, cuja interpretação literal do Alcorão serviu de base para o Wahhabismo e ensinamentos contemporâneos, sustentam que Deus moldou o mundo a partir de matéria primordial, com base em versos corânicos.

Hinduísmo O 6.2.1 afirma que, antes de o mundo ser manifestado, havia apenas a existência, única e sem igual (sat eva ekam eva advitīyam). comentou sobre essa passagem dizendo que "algo a partir do nada é uma ideia absurda".

Estoicismo

O estoicismo, fundado por Zenão de Cítio por volta de 300 a.C., inclui a crença de que a criação a partir do nada é impossível e que Zeus criou o mundo a partir de seu próprio ser.

Na ciência moderna

A teoria do Big Bang, em contraste com a teologia, é uma teoria científica; ela não oferece uma explicação para a existência cósmica, mas apenas uma descrição dos primeiros momentos da existência do universo atual. Citação: "É um equívoco comum que o Big Bang foi a origem do universo. Na realidade, o cenário do Big Bang não diz nada sobre como o universo veio a existir em primeiro lugar. De fato, quanto mais nos aproximamos do tempo 'zero', menos certeza temos sobre o que realmente aconteceu, porque nossa descrição atual das leis físicas ainda não se aplica a tais extremos da natureza. O cenário do Big Bang simplesmente assume que espaço, tempo e energia já existiam. Mas não nos diz nada sobre de onde eles vieram — ou por que o universo nasceu quente e denso para começar."

Ver também

Emergência História da criação no Gênesis Regressão infinita Língua isolada Metafísica SUD Teologia natural Não existe almoço grátis

Notas

Referências

Bibliografia

Categoria:Cosmologia física Categoria:Cosmologia Categoria:Termos cristãos Categoria:Expressões latinas usadas no Direito Categoria:Palavras, frases e expressões em latim Categoria:Palavras, frases e expressões em latim associadas à Bíblia Categoria:Cosmogonias