Reprodução cultural, conceito desenvolvido primeiramente pelo sociólogo e teórico cultural francês Pierre Bourdieu,Jenks, Christopher. 1993. "Cultural Reproduction." New York: Routledge. p. 2.Bourdieu, Pierre, and Jean-Claude Passeron. 1990. Reproduction in Education, Society and Culture. SAGE Publications. . é o mecanismo pelo qual formas culturais existentes, valores, práticas e compreensões compartilhadas (ou seja, normas) são transmitidos de geração em geração, sustentando assim a continuidade da experiência cultural ao longo do tempo.Chandler, Daniel, and Rod Munday. 2011. "cultural production." In A Dictionary of Media and Communication. Oxford University Press, as adapted in "cultural production." Oxford Reference.Glossary of Sociological Terms. New Zealand: University of Canterbury, School of Sociology and Anthropology. 1997. Em outras palavras, reprodução, quando aplicada à cultura, é o processo pelo qual aspectos culturais são repassados de pessoa para pessoa ou de sociedade para sociedade.Bilton, Tony. 1996. Introductory Sociology (3rd ed.). London: Macmillan.

A reprodução cultural frequentemente resulta na reprodução social, ou seja, no processo de transferência de aspectos da sociedade (como classe social) de forma intergeracional. Existem diversas formas pelas quais essa reprodução pode ocorrer. Frequentemente, grupos sociais, notadamente as classes sociais, podem agir para reproduzir a estrutura social existente de modo a preservar suas vantagens. Da mesma forma, os processos de escolarização em sociedades modernas estão entre os principais mecanismos de reprodução cultural, não se limitando ao que é ensinado nos cursos de instrução formal.Giddens, Anthony. 1997. "Pierre Bourdieu." Polity Press, Vol. 581. Historicamente, as pessoas migraram de diferentes regiões, levando consigo determinadas normas e tradições culturais. As culturas transmitem aspectos de comportamento que os indivíduos aprendem de maneira informal enquanto estão fora de casa. Essa interação entre indivíduos, que resulta na transferência de normas, valores e informações culturais aceitos, é realizada por meio de um processo conhecido como socialização.

Métodos

O método pelo qual a reprodução cultural é perpetuada varia conforme a posição relativa, o nível de conscientização e a intenção do agente socializador em reproduzir normas sociais ou culturais.

Enculturação

Enculturação pode ser descrita como "uma experiência de aprendizado em parte consciente e em parte inconsciente, quando a geração mais velha convida, induz e obriga a geração mais jovem a adotar modos tradicionais de pensar e de comportar-se."Miraglia, Eric, Richard Law, and Peg Collins. 1999. "reproduction | Glossary." What is Culture?. Washington State University. Retrieved 2 July 2020. .

Embora, em muitos aspectos, a enculturação duplique as normas e tradições das gerações anteriores, o grau de semelhança entre as culturas de cada geração sucessiva pode variar. Esse conceito pode ser demonstrado pela tendência de cada geração a seguir normas culturais, como o conceito de direito de passagem no transporte. Essas expectativas são estabelecidas e replicadas pela geração anterior. Por exemplo, pode haver poucas ou nenhumas evidências empíricas que justifiquem a escolha de dirigir em uma faixa ou em outra, mas, a cada nova geração, a norma aceita pela cultura daquele indivíduo é reforçada e perpetuada.

Pais e educadores se mostram duas das forças de enculturação mais influentes da reprodução cultural.Gray, Ann, and Jim McGuigan, eds. 1993. Studying Culture: An Introductory Reader. London: Edward Arnold.

Difusão Comparativamente, a difusão é a dispersão de normas e comportamentos culturais entre grupos ou indivíduos sem relação prévia. Por exemplo, a integração da culinária chinesa ou da linguística francesa na cultura americana representam esse conceito.

Histórico de Bourdieu e da teoria da reprodução O conceito de reprodução cultural foi desenvolvido primeiramente pelo sociólogo e teórico cultural francês Pierre Bourdieu no início da década de 1970. Inicialmente, o trabalho de Bourdieu referia-se à educação na sociedade moderna, acreditando que o sistema educacional era usado exclusivamente para "reproduzir" a cultura da classe dominante, a fim de que a Elite pudesse continuar a manter e exercer poder.

As teorias de Bourdieu se fundamentam visivelmente nas conjecturas de Ludwig Wittgenstein, Maurice Merleau-Ponty, Edmund Husserl, Georges Canguilhem, Karl Marx, Gaston Bachelard, Max Weber, Émile Durkheim e Norbert Elias, entre outros. Ao começar a estudar a socialização e como a cultura dominante e certas normas e tradições afetavam muitas relações sociais, as ideias de Bourdieu mostraram-se especialmente semelhantes às da noção de Aparelhos Ideológicos do Estado de Louis Althusser, que emergira aproximadamente na mesma época. O trabalho sociológico de Bourdieu foi dominado por uma análise dos mecanismos de reprodução das hierarquias sociais. Em oposição às análises marxistas, Bourdieu criticou a primazia dada aos fatores econômicos e enfatizou que a capacidade dos atores sociais de impor ativamente e envolver-se em suas produções culturais e sistemas simbólicos desempenha um papel essencial na reprodução das estruturas sociais de dominação. Parte essencial da análise sociológica de Bourdieu é o que ele chamou de violência simbólica: a capacidade de fazer com que a previsibilidade da ordem social seja ignorada — ou reconhecida erroneamente como natural — e assim garantir a legitimidade das estruturas sociais.

Em relação à reprodução cultural, um dos principais conceitos de Bourdieu foi introduzido em Reprodução Cultural e Reprodução Social (1970), escrito com Jean-Claude Passeron, no qual os autores enfocam principalmente a reprodução estrutural das desvantagens e desigualdades causadas pela reprodução cultural.

Segundo Bourdieu, as desigualdades são recicladas por meio do sistema educacional e de outras instituições sociais.Bourdieu, Pierre. 1984. Distinction: a Social Critique of the Judgment of Taste, traduzido por R. Nice. Harvard University Press. Bourdieu acreditava que as sociedades prósperas e afluentes do Ocidente estavam se tornando o capital cultural. A alta classe social, a familiaridade com a cultura burguesa e os credenciais educacionais determinavam as chances de vida de um indivíduo. Esse sistema era tendencioso em favor daqueles de classe social mais elevada e auxiliava na conservação das hierarquias sociais. Esse sistema ocultava e negligenciava o talento individual e a meritocracia acadêmica. Juntamente com Reprodução na Educação, na Cultura e na Sociedade, Bourdieu apresentou a maioria de suas teorias conhecidas em seu livro Os Herdeiros (1964). Ambos os livros o estabeleceram como o precursor da teoria da reprodução social.Stones, Robs. 2006. Key Contemporary Thinkers. London: Macmillan.

Bourdieu também inaugurou várias estruturas conceituais e terminologias, enfatizando o papel da prática e da incorporação na dinâmica social. Tais conceitos incluem:

capital cultural, capital social e capital simbólico; habitus; campo; e violência simbólica.

Educação como agente A teoria da reprodução cultural de Pierre Bourdieu preocupa-se com a relação entre a classe de origem e a classe de destino, e de que forma essa ligação é mediada pelo sistema educacional.Sullivan, Alice. 2002. "'Bourdieu and Education: How Useful is Bourdieu's Theory for Researchers?'" Netherlands' Journal of Social Sciences 38(2)144–66. .

Bourdieu teoriza que o que é ensinado às gerações mais jovens depende dos diferentes níveis de capital social, capital econômico e capital cultural. Esses grupos que detêm capital cultural são considerados o grupo dominante em relação aos demais. Contudo, para adquirir capital cultural é necessário um aprendizado imperceptível, e tais normas culturais devem ser utilizadas desde os primeiros dias de vida.Bourdieu, Pierre, Distinction: a Social Critique of the Judgment of Taste, translated by Richard Nice, Harvard University Press (1984) Por meio da reprodução cultural, apenas os membros da cultura dominante conseguem adquirir conhecimento conforme o modo de ensino desse sistema cultural. Portanto, aqueles que não pertencem à cultura dominante têm desvantagem no acesso à informação cultural e, consequentemente, permanecerão em desvantagem. As sociedades capitalistas dependem de um sistema social estratificado, em que a classe trabalhadora recebe uma educação voltada para o trabalho manual: nivelar tais desigualdades derrubaria esse sistema. Assim, as escolas em sociedades capitalistas necessitam de um método de estratificação, muitas vezes escolhendo formas que preservem a hegemonia da cultura dominante. Um método de manutenção dessa estratificação é a reprodução cultural.

De acordo com Alice Sullivan (2001), a teoria da reprodução cultural envolve três proposições fundamentais:Sullivan, Alice. 2001. "'Cultural Capital and Educational Attainment'." Sociology 35(4):839–912. . o capital cultural dos pais é herdado pelos filhos; o capital cultural das crianças é convertido em credenciais educacionais; e as credenciais educacionais são um mecanismo principal de reprodução social em sociedades capitalistas avançadas.

Não há consenso claro quanto ao papel exato da educação na reprodução cultural; nem sobre até que ponto, se é que há algum, esse sistema incentiva ou desencoraja temas como estratificação social, desigualdade de recursos e discrepâncias no acesso às oportunidades. Acredita-se, contudo, que o principal meio pelo qual a educação determina o status social, a classe, os valores e a posição hierárquica de um indivíduo seja por meio da distribuição do capital cultural. Essa noção de acumulação de capital cultural, e o grau em que um indivíduo o alcança, determina o acesso desse indivíduo a recursos e oportunidades.Lynch, Kathleen. 1990. "Reproduction: The Role of Cultural Factors and Educational Mediators." British Journal of Sociology of Education 11(1):3–20.

Existem, no entanto, várias ideologias e explicações concorrentes que têm sido amplamente discutidas.

Currículo oculto O conceito de educação como agente de reprodução cultural é argumentado como sendo menos diretamente explicado pelo conteúdo e pelas disciplinas ensinadas, e mais pelo que é conhecido como currículo oculto. Isso refere-se ao aspecto de socialização do processo educacional pelo qual um adolescente adquire "atitudes e valores apropriados" necessários para obter sucesso dentro do ambiente escolar.Butler, Jeffery I., and Karen L. Robson, "Reassessing the Role of Education in Social Reproduction: The Impact of School Type on the Cultural and Social Capital of High School Students in the U.S." O sucesso ou fracasso de um adolescente no sistema formal de educação é função tanto de sua capacidade de demonstrar qualificações educacionais formais quanto da aquisição das qualidades mencionadas por meio dos mecanismos de socialização. Essa natureza da educação é reproduzida ao longo de todas as etapas do sistema; do ensino fundamental ao ensino superior. A capacidade de um estudante progredir para cada nível subsequente requer o domínio do nível anterior. A aptidão de um indivíduo para concluir com sucesso o processo de obtenção de títulos educacionais correlaciona-se fortemente com a capacidade de alcançar remuneração adequada, prestígio ocupacional, status social etc. ao ingressar no mercado de trabalho.

Funcionalismo parsoniano