Maria José Gomes Coelho Carvalho dos Santos de Calheiros da Gama (Moçâmedes, 14 de agosto de 1937 – Lisboa, 13 de julho de 2022), foi uma ativista política, militante nº 134 do Partido Socialista (Portugal) e membro da Comissão Nacional. Autarca, escritora, biógrafa e memorialista, tertuliana e blogueira. Dedicada a causas sociais, fundou e dirigiu a CSARA e a ASAS. Secretariou os líderes parlamentares do Partido Socialista: Francisco Salgado Zenha, Walter Rosa, José Luís Nunes, João Eduardo Coelho Ferraz de Abreu e Jorge Sampaio, bem como o vice-presidente da Assembleia da República Manuel Alegre.
Nascimento, família e formação Originária de uma família de tradição política republicana, Maria José Gama é filha de José Carvalho dos Santos, neta de Joaquim Carvalho dos Santos e sobrinha de Teófilo Carvalho dos Santos, ambos advogados e resistentes antifascistas. Nasceu em Moçâmedes, em 14 de agosto de 1937, durante o exílio voluntário de seu pai, que aí conhece sua mãe Isabel Gomes Coelho (Alcochete, 14 de abril de 1910 - Lisboa, 30 de março de 2001), filha de Josefa Josefa Gomes (Moura, 30 de dezembro de 1874 – Lisboa, 23 de março de 1952) e de Miguel Coelho Nunes da Silva (Santarém, 23 de setembro de 1871 – Lisboa, 4 de dezembro de 1950), licenciado em teologia, secretário de finanças, solicitador e juiz de paz em Moçâmedes, deixou vasta obra publicada no domínio fiscal), que fora para Angola, com a família, quando tinha 11 anos. Nessa altura, Isabel, com 26 anos, salientava-se pelos seus escritos, sob o pseudónimo de Welwitschia, onde expunha ideias avançadas para a época, mormente por ser apoiante do movimento pelo sufrágio feminino. Em plena Segunda Guerra Mundial, por razões familiares, designadamente conviver com a sua irmã Maria do Carmo (nascida, em Moçâmedes, em 1932, do primeiro casamento da mãe), viaja para a metrópole, quer em 1939, quer em 1942, quedando-se da segunda vez em Lisboa, onde estudou. Fez a instrução primária na Escola Lusitânia e o ensino secundário no Liceu Dona Filipa de Lencastre (atual Escola Secundária D. Filipa de Lencastre) e no Colégio Académico.
miniaturadaimagem|Sérgio Marques Fernandes de Calheiros da Gama, Campo Grande, Lisboa, 22 de maio de 1954 Em 1955, casa com Sérgio Marques Fernandes de Calheiros da Gama (Barreiro, 2 de outubro de 1930 – Lisboa, 15 de julho de 1999), engenheiro civil e ex-oficial miliciano, que viria pouco depois a licenciar-se em geologia, pela faculdade de ciências da Universidade de Lisboa, possuindo pós-graduação em geotecnia, pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Foi professor de ciências naturais no Liceu Camões, empresário e geólogo da Câmara Municipal de Lisboa, ascendendo na carreira técnica superior até ao topo (assessor principal). Era filho de Idalina Rosa Marques Fernandes de Calheiros da Gama (Setúbal, 31 de dezembro de 1910 – Lisboa, março de 1992) e de Tomaz Rocha Fernandes de Calheiros da Gama (Barreiro, 20 de setembro 1898 – Lisboa, 1972), dramaturgo, poeta e ferroviário, foi chefe das estações da CP de Alcácer do Sal (c. 1938), Santiago do Cacém (c. 1942), Pinhal Novo (c. 1949) e Lisboa - Sul e Sueste Terminal Fluvial do Terreiro do Paço (c. 1958). Tiveram três filhos.
Maria José Gama, frequentou um dos primeiros cursos de decoração de interiores da Fundação Ricardo do Espírito Santo, e, em 1964/65, frequentou, com aproveitamento e distinção, o Curso de “Protocolo e Etiqueta” ministrado pelo Instituto de Arte de Paris. Como trabalho final apresentou tese sobre Albert Schweitzer, prémio Nobel da paz em 1952, cuja vida e obra a fascinava. Frequentou, com aproveitamento, os Institutos britânico (British Council) e alemão (Goethe-Institut).
Atividade política partidária Em 2 de Maio de 1974, uma semana após a revolução dos cravos, momento libertador que sempre aguardou, filia-se no Partido Socialista, então a funcionar, por empréstimo, nas instalações da “Cooperativa de Estudos”, sita na Av. Duque D’Ávila em Lisboa, pertença de um grupo a que estavam ligados, entre outros, Raul Rego, António Lopes Cardoso e Catanho de Menezes e começa aí a dar a sua colaboração militante, ação que prossegue aquando da mudança do partido para a sua primeira sede em Lisboa, em São Pedro de Alcântara; Inicialmente é a filiada no PS nº 50, mas posteriormente passou a ser a nº 134, alteração resultante de um pedido de Mário Soares, a fim de que este número fosse atribuído a um dos fundadores do partido, em cuja lista se fixou deverem constar apenas 114 personalidades; Em 1976, nas primeiras eleições autárquicas em democracia, encabeça a lista do PS pela freguesia de S. Sebastião da Pedreira, de que fizeram parte, entre outros, o ator Raul Solnado e os médicos Miller Guerra e Joshua Ruah. É eleita e integra o executivo da Junta de freguesia de São Sebastião da Pedreira; miniaturadaimagem|Maria José Gama no topo à esquerda Nas eleições autárquicas de 1989 voltou a encabeçar a lista do PS, desta vez da candidatura à Assembleia de freguesia de São Sebastião da Pedreira, tendo sido eleita; Foi adjunta de Francisco Salgado Zenha e de Jorge Sampaio, representando-os e intervindo em diversos acontecimentos do sector de ação social; Pertenceu à Comissão Nacional do PS, bem como ao Secretariado da sua Secção (Nª Senhora de Fátima, S. Sebastião da Pedreira e Sagrado Coração de Jesus). Foi vice-presidente da mesa da assembleia geral da Associação das Mulheres Socialistas em 1986 e 1987.
Atividade política eleitoral Participou ativamente na preparação da realização de atos eleitorais. Assim> colaborou na 1ª CTE – Comissão Técnica Eleitoral à Assembleia Constituinte; Colaborou no recenseamento do 3º bairro administrativo aquando das eleições presidenciais de 1976; igualmente em 1976, presidiu ao recenseamento efetuado pela Junta de Freguesia de São Sebastião da Pedreira; e, também no ano de 1976 foi nomeada, pelo Governador Civil de Lisboa, para a Assembleia de apuramento das eleições para a Presidência da República, que funcionou no Palácio da Justiça em Lisboa; Em 1979, por nomeação do Presidente da Comissão Nacional de Eleições, Juiz Conselheiro Adriano Vera Jardim, esteve nas Assembleias de voto designadas por “Círculo Eleitoral fora da Europa”, que se destinavam à contagem de votos dos emigrantes; Até 1999, por ocasião de eleições nacionais, presidenciais, legislativas e autárquicas, fez sempre parte de mesas de voto.
outras atividades políticas miniaturadaimagem|Maria José Gama com Maria de Belém Roseira Pertenceu aos quadros da Assembleia da República, por concurso, tendo tomado posse com a categoria de técnica adjunta de secretariado especialista. Em comissão de serviço secretariou os líderes parlamentares do Partido Socialista: Francisco Salgado Zenha, Walter Rosa, José Luís Nunes, João Eduardo Coelho Ferraz de Abreu e Jorge Sampaio, bem como o vice-presidente da Assembleia da República Manuel Alegre; Em 1976, colaborou com a Comissão de Candidatura do General Ramalho Eanes à Presidência da República; Foi apoiante das candidaturas de Mário Soares, Manuel Alegre e Maria de Belém, respetivamente, nas Eleições presidenciais portuguesas de 1991, Eleições presidenciais portuguesas de 2006, Eleições presidenciais portuguesas de 2011 e Eleições presidenciais portuguesas de 2016, pertencendo neste contexto a Comissões de Honra e Políticas, colaborando intensa e empenhadamente nas respectivas campanhas eleitorais;
miniaturadaimagem|Maria José Gama, na sua casa de Cascais, com Manuel Alegre, 2007
Na pré-campanha da segunda candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República coordenou e moderou uma tertúlia temática de cariz político, organizada no intuito de sensibilizar personalidades não filiadas no PS, preferencialmente ligadas à ciência e à cultura. Convidou os engenheiros António Sérgio Pessoa e António Cunha Leal, para a coadjuvarem na liderança dessas tertúlias semanais que se realizaram durante três anos na sede da Ordem dos Engenheiros; Em 1996, na qualidade de membro da Comissão Executiva, colaborou na homenagem que a nível nacional então se prestou a Manuel Alfredo Tito de Morais (ainda em sua vida); Em 2010, fez igualmente parte da Comissão Executiva das Comemorações do Centenário de Tito de Morais e, posteriormente, fez parte da Comissão Instaladora da Associação Tito de Morais. Colaborou na “Fotobiografia” de Manuel Tito de Morais; Em 2009, foi apoiante da Candidatura de Leonor Coutinho à Presidência da Câmara Municipal de Cascais e fez parte da sua Comissão de Honra.
Atividades de acão social CSARA - Comissão Socialista de Apoio aos Retornados (1975-1980) Durante o processo de descolonização e independência das ex-colónias portuguesas de África, no «Verão Quente de 1975», em pleno «Processo Revolucionário em Curso» (PREC), impressionada pelos relatos do drama da «ponte aérea», que o filho mais velho, voluntário da Cruz Vermelha Portuguesa, no apoio à chegada dos retornados, feita discretamente de noite no aeroporto de Lisboa e militar de Figo Maduro (Aeródromo Militar de Lisboa), lhe transmite, e não podendo ficar insensível para com os que vinham da terra onde nascerá, que sente no dever e obrigação de ajudar, idealiza, cria e organiza, em 4 de junho de 1975, a Comissão Socialista de Apoio aos Retornados, no que teve o apoio, desde a primeira hora, de Maria Barroso, Mário Soares (então Secretário-geral do PS) e do ministro da finanças Francisco Salgado Zenha.
A CSARA teve a sua sede no número 28 da rua Filipe Folque, em Lisboa, aí dispondo de farmácia, pronto-a-vestir para crianças e adultos, gabinete de atendimento personalizado a fim de a Comissão passar as credenciais, quer para as consultas médicas e jurídicas (possibilitadas pelo contributo pro bono dos respetivos profissionais que com em colaboravam), quer para os restaurantes, que lhes ofereciam refeições, e também para se inteirar das necessidades de cada um dos retornados, que tanto poderiam ser de alimentação, alojamento, emprego ou mesmo de subsídios vários para a respectiva manutenção e lançamento de atividades (transportes e deslocações, aquisição de mobiliário e ferramentas de trabalho, verbas para aquisição de trespasse de pequeno comércio, obtenção de documentação, etc.), que a CSARA conseguia proporcionar.
miniaturadaimagem|Em Lisboa com a Direcção da Norsk Folkejelp, da esquerda para a direita Mrs. Werner, Salgado Zenha, Vesla Vetlesen, Maria José Gama, Mr. Werner, Maria Irene Salgado Zenha, Sérgio de Calheiros da Gama
Oferecidas pela organização Norsk Folkehjelp (Ajuda Popular da Noruega), onde Maria José Gama se deslocou, a CSARA montou e entregou a carenciados de habitação, dezenas de casas pré-fabricadas, em terrenos cedidos pelas autarquias, em Aveiro, Cantanhede, Ermesinde, Marco de Canaveses, Vila da Feira, Mirandela, Porto, Vila Praia de Âncora e nos Bairros de Santa Maria (Loures) e Arroja (Odivelas).
A CSARA, durante os seus quatro primeiros anos de existência, recebeu e deu assistência a milhares de retornados que, a princípio, formavam diariamente enormes filas para serem atendidos, pelos seus trinta colaboradores voluntários, coordenados por Maria José Gama.
Maria de Jesus Barroso Soares, acompanhada por Manuel Alegre, visitou o Centro, em 28 de maio de 1976, tendo escrito, no livro da CSARA, o seguinte: “Um trabalho que merece estímulo e que representa um esforço, uma dedicação e interesse fora do comum. Penso que devemos apoiar os nossos Camaradas que tanto têm feito e a quem não tem sido dada a importância e a divulgação que é necessária que seja dada a esta obra que só honra o nosso Partido”. Associação Social de São Sebastião da Pedreira Em 1976, na qualidade de autarca, impulsionou e coordenou a Comissão Instaladora da Associação Social de São Sebastião da Pedreira (antiga “sopa dos pobres”) da qual, anos mais tarde, veio a ser Presidente; ASAS - Associação Para Serviços de Apoio Social