A Guerra Grã-Colômbia-Peru () de 1828 e 1829 foi um conflito militar internacional travado entre a República do Peru, que conquistara sua independência da Espanha em 1821, e a Grã-Colômbia, que existiu entre 1819 e 1830.
A guerra foi dividida em duas campanhas: naval e terrestre. A naval foi favorável ao Peru, que bloqueou a costa pacífica da Grã-Colômbia e ocupou Guayaquil, enquanto a terrestre foi favorável à Grã-Colômbia, na qual o confronto mais relevante foi a batalha de Tarqui, embora não tenha havido capitulação definitiva do Exército Peruano.
Causas Fracasso da Federação dos Andes e crise interna da Grã-Colômbia Depois de acabar com o domínio espanhol no Peru, o Libertador Simón Bolívar concentrou-se em unir as repúblicas andinas numa grande federação, mas a sua ação foi considerada inaceitável no Chile e em Buenos Aires, onde despertou amargos rancores.
Diante da impossibilidade de levar a cabo seu projeto, Bolívar decidiu retornar à Grã-Colômbia em 1826 para enfrentar a desordem interna daquele país, pois várias rebeliões haviam eclodido contra sua autoridade nos distritos do norte e do centro.
Nacionalismo peruano Depois que Bolívar deixou o Peru, surgiu neste país um sentimento nacionalista, contrário ao Libertador e à Grã-Colômbia. Entre as principais causas estão as seguintes:
A longa presença de Bolívar no Peru. A prepotência de seus lugar-tenentes. O alto custo da manutenção privilegiada de suas tropas. A criticada Constituição Vitalícia de 1826.
Conflito fronteiriço entre o Peru e a Grã-Colômbia 400px|thumb|Localização do território disputado.
Também haviam desacordos relativos as questões fronteiriças entre os dois países. A Grã-Colômbia reivindicava os territórios de Tumbes, Jaén de Bracamoros (atualmente em Cajamarca) e Maynas (sendo Maynas entendido como o território formado pelos atuais departamentos peruanos de Loreto e Amazonas), pertencentes ao Peru de acordo com o princípio da autodeterminação dos povos e o uti possidetis de 1810, fórmula jurídica que implicava tomar como ponto de partida o território tradicionalmente ocupado por cada país no ano de 1810.
A dívida do Peru com a Grã-Colômbia e a questão das substituições Houve também outras questões entre os dois países, não menos importantes. A Grã-Colômbia exigiu que o Peru pagasse a dívida pelas despesas incorridas durante a guerra de emancipação em solo peruano.
Outro assunto muito espinhoso foi o das “substituições”, ou seja, a substituição das tropas peruanas que o Peru teve que fazer pelas tropas grã-colombianas devido às baixas sofridas por estas durante a guerra independentista peruana, embora a guerra já tivesse terminado.
A expulsão do cônsul grã-colombiano e a intervenção peruana na Bolívia As tensões entre o Peru e a Grã-Colômbia foram alimentadas pela imprensa de Lima e Bogotá, que, utilizando uma linguajar agressivo, estimulou a discórdia entre os dois países. O cônsul grã-colombiano Cristóbal Armero foi expulso, acusado pelo Peru de intervir em assuntos políticos internos, e atos ultrajantes foram organizados contra Bolívar e o marechal Antonio José de Sucre. Este fato, somado à ação armada do General Agustín Gamarra que precipitou a saída de Sucre e dos grã-colombianos da Bolívia, trouxe a ira de Bolívar, que estava ciente das diferentes manobras que pretendiam desestabilizar sua autoridade. Tudo isso fez com que, em Bogotá, o governo grã-colombiano não quisesse receber o diplomata peruano José Villa, a quem foram emitidos seus passaportes e foi enviado de volta ao Peru.
O ultimato da Grã-Colômbia ao Peru thumb|221x221px|Retrato de Estanislao Vergara Sanz de Santamaria, Ministro das Relações Exteriores de Simón Bolívar.
Em 3 de março de 1828, enquanto continuava a meticulosa e apaixonada troca de missivas, veio o que o Peru consideraria uma ameaça do chanceler grã-colombiano Estanislao Vergara, que expressou que seu país se consideraria hostilizado e em situação de recorrer ao destino das armas se dentro de seis meses o governo peruano não entregasse Jaén e a parte de Maynas que ocupava, se não pagasse 3.595.747 pesos como dívida da guerra de emancipação, se não reduzisse o número de tropas na fronteira, se não voltasse a receber o cônsul grã-colombiano Armero e se não declarasse que estava pronto para enviar substitutos aos grã-colombianos mortos em combate durante a guerra independentista peruana. O diplomata peruano Villa publicou um livro de memórias para defender o seu governo e o chanceler grã-colombiano refutou-o com uma contra-memoria.
O prelúdio da guerra Em 17 de maio de 1828, o Congresso da República do Peru autorizou o presidente José de La Mar a colocar tropas em estado de guerra.
Início Em 20 de maio de 1828, o governo do Peru declarou guerra ao governo da Grã-Colômbia. Em resposta, em 3 de julho, Bolívar exclamou a seguinte proclamação, dirigida aos cidadãos e soldados de seu país:
Em 15 de julho, o governo da Grã-Colômbia declarou guerra ao Peru, afirmando que:
La Mar e o vice-presidente peruano Manuel Salazar y Baquíjano responderam com as suas próprias proclamações belicosas.
Forças em guerra O Exército Peruano contava com 7.500 efetivos e estava sob o comando de Gamarra, a quem La Mar nomeou comandante-em-chefe, reservando para si o cargo de diretor de guerra e operações. Tinha a seguinte organização:
+ Exército peruano Primeira divisão(sob o comando do General Plaza) Batalhão 1° "Ayacucho" Batalhão N°3 Segunda divisão(sob o comando do General Cerdeña) Batalhão "Pichincha" Batalhão "Zepita" Terceira divisão(sob o comando do Coronel Prieto) Batalhão 2° "Ayacucho" Batalhão 3° "Callao" Coluna independente(sob o comando do Coronel Benavides) Batalhão 1° "Callao" Compañías de cazadores del 2° "Ayacucho", 2° "Callao", "Pichincha" y "Zepita" Divisão de cavalaria(sob o comando do General Necochea) Regimento "Húsares de Junín" Regimento "Dragones de Arequipa" Regimento "Lanceros del Callao"
Além do exposto, o Exército Peruano contava com quatro peças de artilharia e um suprimento abundante para dois anos de operações.
O Exército Peruano estava com o moral muito elevado por ter conseguido a expulsão das tropas grã-colombianas da Bolívia.
As tropas grã-colombianas estavam sob o comando do general Juan José Flores e sob a direção de Sucre. Tinham a seguinte organização:
+ Tropas grã-colombianas Primeira divisão(sob o comando do General Urdaneta) Batallón "Rifles" Batalhão "Yaguachi" Batalhão "Caracas" Esquadrão "Cedeño" Esquadrão 4° de "Húsares" Segunda divisão(sob o comando do General Sandes) Batalhão "Cauca" Batalhão "Pichincha" Batalhão "Quito" Cavalaria Esquadrão "Dragones del Istmo" Esquadrão "Granaderos de Colombia" Esquadrão 3° de "Húsares" Esquadrão 2° de "Húsares"
Adicionalmente, Bolívar organizou e criou algumas unidades para apoiar Sucre na defesa do departamento grã-colombiano de Azuay. As tropas, formadas em Nova Granada, receberam o nome de Reserva e deveriam cruzar Pasto e Quito para chegar à fronteira com o Peru. Já em Pasto, Bolívar foi detido pelo general grã-colombiano José María Obando, não pode executar seu plano.
Na Grã-Colômbia, a guerra com o Peru teve grande impopularidade desde o início.
Campanha naval thumb|251x251px|Vice-almirante Martín Guise, comandante da marinha peruana. A esquadra peruana sob o comando do vice-almirante Martín Guise iniciou a campanha marítima dominando o mar, sua frota composta por duas fragatas, uma corveta, um bergantim e duas goletas às quais também se somaram oito canhoneiras saiu vitoriosa no combate de Malpelo no 31 de agosto e na Batalha de Cruces em 22 de novembro do mesmo ano para em seguida atacar o porto artilhado de Guayaquil, defendido por duas goletas, diversas canhoneiras e baterias costeiras, a entrada do porto estava fechada por uma linha de correntes.
No dia 22 de novembro ocorreu o combate naval de Cruces, a frota peruana canhonou as defesas grã-colombianas, silenciando as baterias e destruindo os barcos. Após o término do combate, Guise ordenou a retirada da frota peruana para seu ancoradouro em Cruces, já que a rendição de Guayaquil era apenas uma questão de tempo. Mas para o infortúnio dos peruanos, a fragata Presidente onde estava Guisse encalhou em um dos baixios do estuário, permanecendo nessa situação por dez horas esperando a maré para flutuá-la, no entanto, este período de tempo não foi desperdiçado pelos defensores terrestres que montaram um canhão no porto e dispararam contra a fragata que, devido à sua posição, não conseguiu responder aos disparos, quando a maré subiu e o navio peruano recuou para o seu ancoradouro, um dos últimos disparos feriu Guisse mortalmente. Diante dessa situação inesperada, o segundo chefe José Boterín assumiu temporariamente o comando da esquadra, que executou o ataque e extinguiu completamente os disparos terrestres.
Uma vez eliminadas as defesas costeiras de Guayaquil, o bloqueio continuou, a guarnição grã-colombiana retirou-se para se juntar ao Exército de Sucre e iniciaram-se as negociações para a capitulação da praça, que foi assinada a bordo da goleta Arequipeña em 19 de janeiro de 1829.
Após a ocupação de Guayaquil pelas tropas peruanas em 1 de fevereiro de 1829, o novo líder da esquadra peruana Hipólito Bouchard despachou ao Panamá dois navios, a goleta Arequipeña e o bergantim Congreso sob o comando do primeiro-tenente José Boterín com o objetivo de capturar a goleta de guerra grã-colombiana Tipuani, durante a viagem a goleta Francisca foi capturada em 7 de abril de 1829, os navios peruanos chegaram ao Panamá, onde sem encontrar resistência capturaram a goleta Jhon Cato, que chegou presa a Callao no dia 7 de julho do mesmo ano, o Tipuani, porém, não foi encontrado. Em 18 de maio, durante um acidente, a fragata Presidente pegou fogo, sendo a única perda material da frota peruana durante a guerra.
Campanha terrestre O avanço peruano thumb|right|180px|El Mariscal José de La Mar, presidente do Peru (1827-1829). La Mar avançou sobre território grã-colombiano em novembro de 1828. Ainda em Tambo Grande, ordenou ao coronel Pedro Raulet que avançasse em território inimigo, liderando duas companhias de infantaria e um esquadrão de cavalaria. Raulet ocupou o povoado de Saraguro e com reforços trazidos pelo coronel Juan Francisco de Vidal avançou mais ao norte, até Oña. Em todos esses lugares, os peruanos foram recebidos com júbilo pelos habitantes locais. Era evidente que La Mar possuía partidários naquela região.
No final de dezembro de 1828, La Mar transferiu seu quartel-general para Loja, onde se juntou às forças trazidas pelo General Gamarra. O objetivo fundamental de La Mar era a ocupação de Cuenca, sua cidade natal, com a qual aparentemente pretendia pôr fim ao questionamento da sua nacionalidade (seus inimigos políticos no Peru o consideravam um “estrangeiro”). Em 13 de janeiro de 1829, o Coronel Raulet destacou-se novamente com um avanço em direção ao norte.
Negociações de paz thumb|right|180px|Antonio José de Sucre. Na época da invasão peruana do sul da Grã-Colômbia, Sucre estava em Nabón. O marechal, cumprindo as instruções de Bolívar, convidou La Mar para negociar a paz. O presidente peruano aceitou a proposta, por meio de nota enviada em 6 de fevereiro de 1829. As bases da negociação, redigidas pelo general Daniel Florencio O'Leary, foram consideradas inaceitáveis por La Mar, que propôs condições, como, por exemplo, a repatriação de soldados peruanos alistados no Exército Grã-Colombiano após a batalha de Ayacucho, e que o departamento de Guayaquil permaneceria no estado em que se encontrava antes de ser anexada à Grã-Colômbia, isto é, no contexto de poder decidir livremente o seu destino. Sucre rejeitou categoricamente estas propostas, fracassando assim nas negociações. Porém, os grã-colombianos alcançaram seu verdadeiro propósito, que era ganhar tempo.
Surpresa de Saraguro