A conquista da Estremadura foi uma campanha militar levada a cabo por D. Afonso Henriques entre 1135 e 1148, da qual resultou a conquista definitiva da Estremadura portuguesa, antiga região compreendida entre o rio Tejo e o Atlântico.

Contexto O extremo ocidente peninsular foi conquistado pelo Califado Omíada pouco após a invasão da península Ibérica em 711 e, nos séculos seguintes, foi palco de alguns combates e confrontos entre exércitos cristãos e muçulmanos. Lisboa foi saqueada em 798 pelo rei Afonso II das Astúrias e novamente em 953 pelo rei Ordonho III de Leão.

No séc. XII a Estremadura encontrava-se sob o domínio dos Almorávidas, dinastia de origem berbere que reunira o Andaluz e o norte de África sob a sua autoridade, após a fragmentação do Califado de Córdova.

Os almorávidas atacaram o Condado Portucalense em 1116 e destruíram os castelos de Miranda da Beira, de Santa Eulália e os arrabaldes de Coimbra. No ano seguinte, o emir Almorávida Ali Ibn Yusuf veio à península Ibérica com um grande exército e sitiou a cidade em pessoa. Não conseguiu, porém, conquistá-la e, ao fim de 20 dias de ataques, retirou-se para Sevilha.

Não obstante malogro perante as muralhas de Coimbra, os almorávidas continuaram a lançar ataques contra a região nas décadas seguintes, a partir de Santarém, atacando aldeias e cativando ou destruindo colheitas, gado e pessoas.José Mattoso: D. Afonso Henriques, Círculo de Leitores, 2006, pp. 106-111.

Após ter vencido a Batalha de São Mamede contra a sua mãe D. Teresa, em 1128, D. Afonso Henriques assumiu o poder no condado Portucalense. De imediato envolveu-se em guerra contra o seu primo e suserano, o Imperador Afonso VII de Leão mas, enquanto ainda duravam as hostilidades contra Leão, Afonso Henriques procurou fortificar a fronteira sul dos seus domínios e expandi-los à custa dos muçulmanos, em direcção à Estremadura, de onde partiam ataques contra Coimbra.

Conquista da Estremadura, 1135-1148 Fundação e destruição de Leiria, 1135-1137 miniaturadaimagem|O castelo de Leiria De forma a proteger Coimbra das razias dos muçulmanos, em 1135 D. Afonso Henriques fundou o castelo de Leiria na estrada que ligava Coimbra a Santarém, em território ermo sensivelmente a meio-caminho entre as duas cidades.José Mattoso: D. Afonso Henriques, Círculo de Leitores, 2006, pp. 106-111. Ficou por alcaide o célebre guerreiro D. Paio Guterres. Foi o primeiro acto de hostilidade de Afonso Henriques dirigido aos muçulmanos, pois a guarnição de Leiria não só tinha por obrigação defender os acessos a Coimbra como atacar o termo de Santarém, levando a cabo razias contra os seus campos e populações até a cidade estar suficientemente enfraquecida para poder ser conquistada. A fundação de Leiria seguia a tendência entre reinos cristãos do norte para deixarem a defensiva e retomarem a ofensiva contra os muçulmanos, como já haviam começado a fazer os leoneses em 1132.

No ano seguinte à conquista de Leiria, D. Afonso Henriques conquistou Ourém.

Tão eficazes foram as investidas de D. Paio Guterres contra o território de Santarém que em 1137, quando D. Afonso Henriques se encontrava ocupado na Galiza a combater o rei de Leão, Leiria foi atacada, tomada e arrasada pelos almorávidas, morrendo mais de 200 pessoas no cerco. D. Paio logrou evadir-se.

Refundação e segunda destruição de Leiria, 1140 thumb|A Batalha de Ourique

Firmadas as Pazes de Tui com o Imperador Afonso VII de Leão seu primo, D. Afonso Henriques levou a cabo um grande fossado em terras andaluzes. O momento fora bem escolhido, pois neste ano os leoneses cercaram Oreja e os almorávidas desguarneceram os seus castelos do ocidente peninsular para acorrer à cidade sitiada. Assim, pouca resistência terá sido oposta ao rei português.Miguel Gomes Martins: De Ourique a Aljubarrota - A Guerra Na Idade Média, A Esfera dos Livros, 2011, pp. 39-57. Os portugueses contabilizariam cerca de 800 a mil cavaleiros e 1600 a dois mil peões, entre lanceiros e besteiros. De regresso, foram interceptados no Baixo Alentejo por um exército muçulmano comandado por "Esmar", que chamara a si as guarnições de Beja, Badajoz, Évora, Sevilha e Elvas, formando ao todo uma hoste relativamente numerosa mas os muçulmanos foram derrotados na Batalha de Ourique. A partir de então, Afonso Henriques assumiu o título de rei.

thumb|O castelo de Leiria

Após a Batalha de Ourique, "Esmar" reagrupou as suas tropas em Santarém em preparação para uma desforra. Leiria, que entretanto fora novamente refundada foi uma vez mais arrasada, morrendo parte da guarnição no ataque e sendo desta vez cativado o alcaide D. Paio Guterres.Alexandre Herculano: História de Portugal, Volume 1, 1846, p. 334. Embrenharam-se então os cavaleiros muçulmanos por território português até Trancoso, que saquearam.Alexandre Herculano: História de Portugal, Volume 1, 1846, p. 335. D. Afonso Henriques levou a cabo uma cavalgada contra os mouros ainda em Trancoso e desbaratou-os em dois recontros.Alexandre Herculano: História de Portugal, I, p. 266.

Primeira tentativa contra Lisboa, 1142

Uma frota de cruzados norte-europeus, maioritariamente anglo-normandos de Southampton e Hastings, aportaram a Gaia, desviados para ali do seu percurso em direcção à Terra Santa devido ao mau-tempo.Livermore, 1947, p. 71. Logrou o rei português convencê-los a prestarem o seu auxílio numa ousada campanha contra Lisboa, a principal cidade da região, cujo domínio render-lhe-ia todo o território da Estremadura de uma só assentada.

A frota cruzada deu entrada no Tejo e conjuntamente com os portugueses destruíram os arrabaldes de Lisboa, porém o assédio teve de ser abandonado devido a desentendimentos entre D. Afonso Henriques e os norte-europeus.H. V. Livermore: A New History of Portugal, Cambridge University Press, 1976, p. 55. Provavelmente de regresso da expedição a Lisboa, Afonso Henriques fundou, pela terceira vez, Leiria, que recebeu foral neste ano. O rei cobrava 1/5 dos despojos de guerra que os leirienses capturassem aos muçulmanos, devendo o alcaide ficar com cavalos para formar novos cavaleiros-vilãos ou compensar cavaleiros que tivessem perdido os seus. Ainda neste ano, Afonso Henriques também iniciou a construção, perto de Coimbra, dos castelos de Alvorge, Ansião e Germanelo, que domina o Vale de Rabaçal, chamado Ladeia na idade média e que recebeu foral entre 1142 e 1144.

A Destruição de Soure, 1144 thumb|O castelo de Soure

Em 1144, o alcaide de Santarém Abu Zacaria dirigiu um ataque contra a região de Coimbra e atacou o castelo de Soure, na posse dos Templários desde 1128.Herculano, I, 1846, p. 359. Soure era um dos castelos que defendia Coimbra e os cavaleiros templários fizeram uma surtida a defrontar os muçulmanos em campo aberto mas foram derrotados, sendo a maioria deles feitos prisioneiros.Edward Mcmurdo: The History of Portugal: From the Commencement of the Monarchy to the Reign of Alfonso III, Volumes 1-2, p. 182. Soure foi pilhado e, satisfeito com este sucesso, Abu Zacaria regressou a Santarém, levando muitos despojos desde gado a cativos. Martinho de Soure dirigiu-se a Santarém, onde estavam os prisioneiros de Soure e voluntariamente entrou para o cativeiro.Kurt Villads Jensen: Crusading at the Edges of Europe: Denmark and Portugal c.1000 – c.1250, Taylor & Francis, 2016, p. 313.

A Revolta dos Muridines, 1144-1145 thumb|Estátua dedicada a Ibn Qasi, em Mértola

O poder almorávida na Península Ibérica começou a desmoronar-se em 1144, quando os muridines ("discípulos") encetaram uma grande revolta no Gharb, liderada pelo místico sufi Ibn Qasi.H. V. Livermore: A New History of Portugal, Cambridge University Press, 1966 , pág. 56. Ibn Qasi era um milenarista e radical antialmorávida, que havia abandonado uma vida de luxo e cujos escritos exibem fortes tendências esoteristas Ismaelistas. É provável que a sua revolta se tenha devido a uma complexa mistura de teologia almóada, reivindicações messiânicas, uma ideia espiritualista do Islão e não só a perturbadora riqueza dos Ulemás como o rigorismo pedante dos juristas islâmicos maliquitas, favorecidos pelos almorávidas. Conquistou Mértola com a ajuda de Ibn al-Qabila e 70 muridines em 1144. Com a ajuda do governador de Évora Ibn Wazir e de Maomé Ibn al-Mundhir, Ibn Qasi apoderou-se de Silves, Évora, Beja, Huelva, Niebla.Yousef Casewit: The Mystics of al-Andalus, Cambridge University Press, 2017, pp. 65.

Os muridines dividiram-se em 1145. Ibn Qasi apelou a D. Afonso Henriques, que transpôs o Tejo à cabeça das suas tropas e reuniu-se com Ibn Qasi para devastarem em conjunto os territórios de Beja e Mérida mas foram em breve trecho confrontados pelas tropas dos alcaides Sidray Ibn Wazir e Al-Mundhir e obrigados a retirarem-se.Herculano, 1846, I, pp. 350-360. Ibn Qasi viu-se depois deposto por Ibn Qasi. A revolta dos muridines enfraqueceu em grande medida os almorávidas, indirectamente ajudando os cristãos.Lawrence I. Conrad: The World of Ibn Ṭufayl: Interdisciplinary Perspectives on Ḥayy Ibn Yaqẓān, BRILL, 1996, p. 137.

Isolados do resto do Andaluz devido à revolta que se sucedia no Gharb, após a devastação causada pelos portugueses nos domínios de Sidray Ibn Wazir, os habitantes de Santarém, Lisboa e outros lugares de menor dimensão pediram tréguas a D. Afonso Henriques. O rei português aceitou para tratar de questões internas.McMurdo, 1888, p. 184.

Conquista de Santarém

thumb|A Conquista de Santarém

A pretexto de falar com os templários capturados em Soure, D. Afonso Henriques envia Mem Ramires, que sabia falar árabe, a Santarém para espiar as suas defesas. O momento para a tomada de Santarém foi bem escolhido pois a esta altura o Império Almorávida encontrava-se em processo de desintegração devido a graves revoltas internas, sobretudo contra os almóadas.

Quando a trégua com as populações muçulmanas da Estremadura se encontrava a poucos dias de expirar, a 10 de Março o rei parte de Coimbra com 250 homens, entre cavaleiros templários ou peões e ao fim de cinco dias de marcha, feita sempre pela noite e por caminhos secundários, armam um acampamento em Pernes. Pela alvorada, as muralhas de Santarém foram escaladas por um pequeno grupo liderado por Mem Ramires, que depois abriram as portas ao rei e aos seus homens que de fora esperavam, caindo assim a cidade em poder português.

Conquista de Lisboa thumb|Disposição dos acampamentos em torno de Lisboa

Após a queda de Edessa, o Papa Eugénio III convocou uma nova cruzada e é neste contexto que, a 16 de Junho, arriba ao porto uma grande frota de cruzados perfazendo 164 navios, a caminho do médio oriente. O bispo do Porto Pedro II Pitões recebeu-os e convenceu-os a participar no projectado cerco a Lisboa.

A hoste de D. Afonso Henriques partiu de Coimbra a 6 de Junho e quando a frota cruzada deu entrada no Tejo a 28 de Junho, já os portugueses haviam assentado arraiais no Monte de S. Gens, onde é hoje o Miradouro da Senhora do Monte. Acompanhavam o rei algumas das mais distintas figuras da nobreza como Fernão Mendes II de Bragança ou Fernão Peres Cativo, bem como outros mais modestos, como Martim Moniz, que faleceria no decurso do assédio. Os portugueses deviam contabilizar cerca de três mil indivíduos, ao passo que os cruzados totalizariam entre 10 a 13 mil homens. A 29 de Junho deu-se o encontro entre o rei e os principais chefes cruzados, para serem acordados os termos da conquista bem como a partilha dos despojos, tendo ficado acordado que os cruzados teriam direito ao saque, prisioneiros, resgates e privilégios comerciais, ao passo que para o rei reverteria a posse da cidade com as suas casas e propriedades, para serem repartidas como prémio aos participantes do cerco que quisessem depois instalar-se em Lisboa.

thumb|A morte de Martim Moniz durante o cerco