A revolta do 26.º Batalhão de Caçadores (26.º BC) ocorreu em Belém, capital do estado brasileiro do Pará, entre 26 e 28 de julho de 1924, opondo os militares tenentistas desta unidade do Exército Brasileiro aos legalistas do restante das Forças Armadas e da Brigada Militar do Estado, que permaneceram leais ao governo estadual de Antônio de Sousa Castro e governo federal de Artur Bernardes. Sob a liderança do capitão Augusto Assis de Vasconcelos o batalhão rejeitou as ordens de embarque para combater os tenentistas da Comuna de Manaus. Os revoltosos avançaram pelas ruas de Belém até sua derrota pela Brigada Militar, rendendo-se ou fugindo para o interior. Este embate foi a última chance de vitória tenentista na Amazônia.
O plano de fundo aos eventos de Belém foi a decadência do ciclo da borracha e do sistema político da Primeira República, somada à guerra civil deflagrada com a revolta tenentista em São Paulo em julho de 1924. O governo deslocou unidades militares do restante do país para combater na frente paulista e os oficiais tenentistas nessas unidades reagiram. Em Manaus o 27.º BC e a Flotilha do Amazonas revoltaram-se a 23 de julho e iniciaram uma conquista fluvial da região amazônica, tendo como objetivo final Belém, o principal acesso ao comércio internacional. Não há evidência de que os revoltosos em Manaus e Belém tenham coordenado suas iniciativas, mas cada grupo estava ciente do ocorrido na outra cidade. O governo preparou reforços, o Destacamento do Norte do general João de Deus Mena Barreto, mas ele só chegaria a Belém a partir de 9 de agosto. Na noite de 26 de julho o contingente já estava prestes a embarcar, e sabia-se que o destino seria combater a revolta do Amazonas.
Uma desordem no quartel do 26.º BC, na praça Justo Chermont, culminou na prisão do comandante e no envio de patrulhas nas redondezas. Os legalistas tardaram a reagir e grande parte dos contingentes no Forte do Castelo e no QG da 8.ª Região Militar, que comandava os batalhões, desertaram. A maior parte da força legalista foi fornecida pela Brigada Militar. Ambos os lados iniciaram ofensivas a partir das 14h00 do dia seguinte. O capitão Vasconcelos foi mortalmente ferido na avenida que leva seu nome, liderando um ataque, abatendo a moral de sua tropa; o historiador Creso Coimbra atribui sua derrota à divisão da tropa, que já estava em inferioridade numérica, para ataques simultâneos ao QG da Região e ao quartel do Batalhão de Infantaria da Brigada Militar. Os combates foram uma típica guerra de posição, com entrincheiramentos nas ruas. Os revoltosos aproveitavam obstáculos como as mangueiras que margeavam as principais avenidas da cidade. Voluntários civis juntaram-se à revolta.
Às 08h30 de 28 de julho os legalistas cercaram e ocuparam o quartel do 26.º BC. O comando legalista fortificou o litoral, antecipando um ataque da Flotilha do Amazonas, mas esta, informada da derrota, desistiu de atacar Belém. O Destacamento do Norte ocupou Manaus em 30 de agosto, encerrando a campanha tenentista na Amazônia. Uma nova revolta do 26.º BC contra o sistema político da Primeira República ocorreu na Revolução de 1930, e ele foi novamente derrotado, mas o governo estadual cedeu o poder após a vitória nacional da revolução. A administração de Magalhães Barata (1930–1935) promoveu Assis de Vasconcelos a herói oficial.
Contexto O tenentismo e o Pará Ao início do movimento tenentista, o estado do Pará vivia sob a administração de Antônio de Sousa Castro (1921–1925) e sofria com as mazelas políticas, econômicas e sociais características da década final da Primeira República Brasileira. Desde a decadência do ciclo da borracha e, consequentemente, das receitas das exportações, o orçamento tinha um déficit fora de controle. A receita pública estadual em 1924 foi de 12 197 contos de réis, enquanto as despesas foram de 15 036 contos. Alguns servidores públicos passavam meses sem salário. A situação não afetava somente professores, gráficos e militares da Força Pública; o Juiz de Direito da comarca de Maracanã, dr. Lopes de Barros, anunciou num edital de 28 de setembro de 1921 que suspenderia os trabalhos fora de sua residência, "visto estar ainda impedido de substituir a minha beca inutilizada, e de comprar calçado para sair à rua, uma vez que não me são pagos os meus vencimentos, dos quais do ano fluente apenas recebi o relativo ao mês de janeiro".
A política tinha como características, segundo o historiador Creso Coimbra, o "autoritarismo, o distanciamento com as bases populares, a fraude eleitoral, as perseguições, as depurações eliminando os indesejáveis, a nunca desmentida intenção de continuísmo, o revezamento no poder, os conchavos das cúpulas". O situacionismo paraense alinhava-se às administrações federais de Epitácio Pessoa e Artur Bernardes. A Revolta dos 18 do Forte, executada por militares no Rio de Janeiro para impedir a posse de Bernardes, não teve equivalente em Belém. Os possíveis oficiais revoltosos já haviam sido transferidos, como o tenente Pires Camargo, que havia exercido o comando da 3.ª Companhia do 26.º Batalhão de Caçadores (26.º BC) durante a campanha eleitoral. Oficiais de Belém enviaram ao presidente um telegrama de solidariedade aos militares legalistas que debelaram a revolta.
Um clima de desconfiança perdurava nos meios político e militar. Conforme um relatório do coronel Raimundo Barbosa, comandante da 8.ª Região Militar (8.ª RM) sediada em Belém, a oficialidade do 26.º BC e do 27.º BC, de Manaus, era "constituída na quase totalidade [...] de oficiais removidos inoportunamente para a Amazônia, como indesejáveis em outros pontos do país e que vinham eivados de ideias subversivas". Alguns eram "ligados por fortes laços de afeição e de parentesco a vultos de destaque nos partidos ou grupos em oposição aos governos estaduais". Esta classe "não apresentava condições de segurança de sua fidelidade a lei e de respeito aos poderes constituídos". Era o preço que o governo pagava pela política de transferências punitivas dos oficiais suspeitos. A Região comandava 1 258 homens dispersos pelo Pará, Amazonas, Maranhão e Piauí. miniaturadaimagem|334x334px|Coronel Raimundo Barbosa, comandante da 8.ª Região Militar
A campanha da bacia amazônica
Uma calma aparente reinava em Belém no início de julho de 1924, sem perturbação pelas notícias da revolta tenentista que estourou em São Paulo no dia 5. A censura limitava as informações. Lideranças civis (Abel Chermont, Francisco Campos e Apolinário Moreira) organizavam um batalhão patriótico legalista para combater em São Paulo. O governo federal deslocou batalhões do Exército de diversos estados para a frente paulista. Em 7 de julho o Ministério da Guerra determinou que os quatro Batalhões de Caçadores da 8.ª RM (24.º, no Maranhão, 25.º, no Piauí, 26.º e 27.º) estivessem prontos para embarcar para o Rio de Janeiro. A situação era grave o suficiente para retirar toda a tropa federal da Amazônia.
A ordem de embarque chegou no dia 13, mas foi sustada por uma contraordem no mesmo dia, coincidindo com uma revolta em Sergipe. Uma nova ordem de embarque para os quatro batalhões foi expedida no dia 20. No dia 23, o major Euclides Figueiredo, do gabinete do ministro da Guerra, especificou que o embarque não seria das unidades inteiras, mas de contingentes de 250 praças por batalhão, acompanhados por oficiais indicados pelo ministro. O Estado do Pará noticiou o embarque no próximo domingo, dia 27, do contingente do 26.º BC, liderados pelo capitão Enéas Brasil. Eles seguiriam no paquete Bahia, que estava em Manaus, para o Rio de Janeiro. Rumores de uma revolta do 27.º BC e da Flotilha do Amazonas em Manaus já circulavam em Belém no sábado. Há 24 horas as casas comerciais da capital paraense já não tinham resposta a seus telegramas a Manaus. O silêncio era preocupante. miniaturadaimagem|280x280px|Tenente-coronel Sousa Castro, comandante do 26.º Batalhão de Caçadores Os rumores eram verídicos: oficiais tenentistas haviam derrubado o governo amazonense no dia 23 e instalado o tenente Ribeiro Júnior como chefe de um governo revolucionário. Eles controlaram os três navios da Flotilha em Manaus, os avisos Teffé e Ajuricaba e a canhoneira Missões, e embarcaram cerca de 700 homens e quatro canhões no paquete Bahia. A canhoneira Amapá, único navio da Flotilha do Amazonas que estava ancorado em Belém, permaneceu legalista.
Um destacamento revoltoso subiu o rio Madeira até Porto Velho, enquanto a flotilha principal desceu o rio Amazonas, tendo como objetivo final ocupar Belém e controlar direta ou indiretamente toda a Amazônia. Manaus e Belém eram as duas maiores cidades da região e Belém era seu principal acesso ao comércio internacional. No caminho os revoltosos destituíram autoridades e capturaram estações telegráficas. O forte de Óbidos, no trecho mais estreito do rio Amazonas, seria crucial. Seu armamento principal era de quatro canhões navais Armstrong, de 152 milímetros, um poder de fogo muito maior do que o da Flotilha do Amazonas. Entretanto, a guarnição do forte entregou-se sem resistência. Canhões do forte foram embarcados no Bahia. Se a flotilha revoltosa chegasse a Belém, sua artilharia poderia bombardear os principais prédios militares e políticos; a intendência e o governo estadual estavam a centenas de metros da baía do Guajará. Os defensores não teriam nenhum canhão capaz de reagir.
A batalha de Belém Motim no Exército miniaturadaimagem|307x307px|Assis de VasconcelosAssim como em Manaus, a iminência de um embarque foi pretexto para uma revolta em Belém. Em 26 de julho o 26.° BC tinha ordens de embarcar no paquete Rodrigues Alves, do Lloyd Brasileiro. Já circulavam boatos de que a unidade recusava-se a embarcar para combater seus companheiros. Pelo relato do coronel Barbosa, "continuavam a circular, com inquietadora insistência, boatos sobre os desgostos que produzira no 26.° BC a ordem do sr. Ministro sobre o embarque de um contingente, em vez de todo o batalhão, como primeiramente fora ordenado e para que estava essa unidade preparada". Ainda assim, "no Pará nada indica por enquanto que a ordem venha a ser perturbada". Sua preocupação maior era com a Brigada Militar do Estado, insatisfeita com a corrupção e o descaso do governo estadual.
O comandante da Região, suspeitando da tropa desde o ocorrido em Manaus, dividiu o batalhão, deixando a 2.ª Companhia no quartel e a 3.ª Companhia no Forte do Castelo, onde estava o depósito de armas de munições. À noite uma multidão aguardou a saída do contigente nas imediações do quartel, na praça Justo Chermont, mas os soldados ainda não podiam sair por ordem do comandante, o tenente-coronel Sousa Castro. Todos sabiam que o destino seria Óbidos, não mais o Rio de Janeiro; o batalhão subiria o rio Amazonas escoltado pela canhoneira Amapá.
A anarquia gradualmente tomou conta do quartel. O tenente José Justiniano Freire deu ordem de prisão ao cabo Sapucaia por insistir em ultrapassar o portão das armas, desobedecendo ordens. Os soldados que deveriam conduzi-lo calaram as baionetas e disseram "Não pode. Não pode. Assim é demais". Freire argumentou com eles, convencendo alguns, mas como outros continuaram hostis, ele ordenou ao corneteiro que tocasse a formatura geral do contingente. A tropa obedeceu vagarosamente ou ignorou a ordem. Freire prometeu transmitir ao comandante da Região as exigências dos soldados, que se diziam dispostos a partir, contanto que com o batalhão inteiro junto, incluindo o comandante e oficiais, pois apenas um acompanharia o contingente. O tenente-coronel Sousa Castro discursou aos soldados, alguns dos quais aplaudiram e outros gritaram "não queremos partir".