Jorge César de Figanière e Morão (Rio de Janeiro, 4 de abril de 1813 — Lisboa, 14 de abril de 1888),Processo sucessório. mais conhecido por Jorge César de Figanière, foi um bibliófilo e bibliógrafo notável e um escritor polígrafo. Durante muitos anos pesquisou e reuniu monumentos raros e curiosos da história política, literária e artística de Portugal, revelando-se um grande colecionador de bibliografia portuguesa. Colaborou com Alexandre Herculano e Inocêncio Francisco da Silva. Distinguiu-se como autor da Bibliographia historica portuguezaBibliographia historica portugueza : ou Catálogo methodico dos auctores portuguezes, e de alguns estrangeiros domiciliarios em Portugal, que tractaram da historia civil, politica e ecclesiastica d'estes reinos e seus dominios, e das nações ultramarinas, e cujas obras correm impressas em vulgar; onde tambem se apontam muitos documentos e escriptos anonymos que lhe dizem respeito. Na Typographia do Panorama, Lisboa, 1850. e de um Epitome chronologico da Historia dos Reis de Portugal.Epitome chronologico da Historia dos Reis de Portugal. Lisboa, na Typ. da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis, 1838.Inocêncio Francisco da Silva, Diccionário bibliographico portuguez: estudos de Innocêncio Francisco da Silva aplicáveis a Portugal e ao Brazil, vol. IV, pp. 165-166, p. 457-458; vol. XII, pp. 175-176.Sacramento Blake, Dicionário Bibliográfico Brasileiro, vol. IV, p. 261.Borba de Moraes. Bibliographia brasiliana, vol. II, p. 964.Grande enciclopédia portuguesa e brasileira, vol. XI, pp. 280-281. Biografia Jorge César de Figanière nasceu na cidade do Rio de Janeiro a 4 de abril de 1813, e foi batizado a 28 de junho do dito ano na igreja paroquial de Nossa Senhora da Candelária da mesma cidade, filho de César Henrique de Figanière, de origem francesa, e de sua esposa Violante Rosa Morão, filha do jurisconsulto João Carlos Morão Pinheiro. O pai era um oficial de marinha, oriundo de Marselha, que abandonara a França devido à sua adesão à causa dos Bourbons em 1792. Depois de uma passagem pela marinha inglesa, com o posto de tenente, tranferiu-se para a Marinha de Guerra Portuguesa, onde em 1797 foi nomeado capitão-tenente. Foi naturalizado português em 1821, por decisão das Cortes Constituintes, tendo falecido em Lisboa, a 31 de outubro de 1830, no posto de capitão-de-mar-e-guerra.Grande Enciclopédia Luso-Brasileira (GELB), vol. 11, p. 279. Jorge César de Figanière foi irmão do conselheiro Joaquim César de Figanière e Morão, e tio do dipomata e escritor Frederico Francisco Stuart de Figanière e Morão, 1.º e único visconde de Figanière.
Frequentou o curso da aula do Comércio de Lisboa, mas durante as lutas liberais emigrou para Inglaterra, de onde partiu para a ilha Terceira, onde esteve acantonado e começou a servir no Regimento de Voluntários da Rainha em 26 de março de 1832. Integrou o Exército Libertador que desembarcou no Mindelo. Ficou aquartelado no Porto a partir de 8 de julho daquele ano.
Foi ferido gravemente no reconhecimento de Valongo, recontro ocorrido no dia 22 de julho daquele mesmo ano. Em 15 abril de 1833 passou para o Batalhão de Empregados Públicos do Porto, no qual serviu até à sua dissolução. De 15 de dezembro de 1840 até 12 de julho de 1841 pertenceu ao 1.º Batalhão Nacional de Voluntários da Rainha de Lisboa e de 24 novembro de 1846 até 23 de dezembro de 1851 ao Batalhão Empregados Públicos da mesma cidade.
Entretanto, ainda durante o Cerco do Porto, a 7 de dezembro de 1832, foi nomeado empregado da Secretaria de Estado dos Negócios da Guerra, iniciando uma carreira que o levou a amanuense de 2.ª classe da mesma Secretaria de Estado em 23 de julho de 1833, já em Lisboa, de 1.ª classe em 20 de setembro de 1834 e a oficial graduado em 16 de julho de 1842.
Após a autonomização da pasta dos Negócios Estrangeiros, em 10 de abril de 1844 passou para o serviço da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros, com a mesma graduação, sendo promovido a oficial ordinário em 5 de setembro de 1846. A 20 de março de 1849 foi nomeado chefe da 3.ª Repartição da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros.Antonio Valdez, Annuario Portuguez, historico, biographico e diplomatico: seguido de uma synopse de tratados e convenções celebrados entre Portugal e outras potencias, ou em que este reino foi comprehendido desde 1093 até 1854, p. 23. Lisboa, Typographia da Revista Universal, 1855].
Foi nomeado sub-diretor da direção política do Ministério dos Negócios Estrangeiros em 20 de dezembro de 1869. Foi promovido em 5 de fevereiro de 1881 para o lugar de diretor dos Negócios Políticos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o qual, pela lei então vigente, tinha a categoria de ministro plenipotenciário de segunda classe.
Nas suas funções no Ministério dos Negócios Estrangeiros, foi incumbido da coordenação e revisão de todos os documentos e traduções de documentos relativos à Questão de Bolama, publicadas in-folio em 1869 e 1870,. Coube-lhe preparar as considerações acerca do direito que a coroa de Portugal reclamava à soberania sobre a ilha de Bolama, documento datado de 5 de junho de 1861, e a redação uma boa parte dos documentos que sobre esta matéria foram publicados. O documento principal foi reproduzido no tomo XXVI do Suplemento à coleção de tratados, convenções, contratos e actos publicos, da autoria de Júlio Firmino Júdice Biker. Figanière fora nomeado, por portaria do Ministério dos Negócios Estrangeiros de 2 de julho de 1861, para, na qualidade de secretário, coadjuvar o plenipotenciário português, António José de Ávila, o futuro duque de Ávila e Bolama, então conde de Ávila, nas negociações relativas à questão. Ainda acerca deste assunto escreveu em 1866 um artigo que, com leves alterações, apareceu reproduzido na Gazeta do Povo, n.° 162, de 9 de abril de 1870.
Também contribuiu para os relatórios (os Livros brancos), apresentados às cortes em 1872, 1873, 1876 e 1877, com numerosos documentos, que se destacam pela sua importância, pertencendo-lhe exclusivamente a coordenação e revisão de todos os documentos que respeitam a questão sobre o direito da Coroa de Portugal sobre a parte sul da Baía de Lourenço Marques, no diferendo entre Portugal e a Grã-Bretanha sobre a posse da Delagoa Bay, a Questão da Baía de Lourenço Marques, conhecida na diplomacia britânica pela Lourenço Marques-Delagoa bay question.Official correspondence on the Lourenço Marques-Delagoa bay question.Bahia de Lourenço Marques – Questão entre Portugal e a Gran-Bretanha sujeita á arbitragem do Presidente da Republica Franceza. Segundo Memoria do Governo Portuguez (replica à Memoria Ingleza). Imprensa Nacional, Lisboa, 1874. O pleito foi decidido em 1875 a favor das pretensões portuguesas.
Por se achar, porém, fisicamente impossibilitado de continuar no exercício das funções no Ministério, em consequência de um ataque de paralisia que lhe sobreveio, requereu a aposentação, que lhe foi concedida por decreto de 19 de janeiro de 1882, «em atenção aos seus longos, efetivos e bons serviços, e ao zelo e inteligência com que pelo espaço de quarenta e nove asnos serviu o Estado».
Foi agraciado com o título do Conselho de Sua Majestade por decreto de 18 de junho de 1870. Era comendador da Ordem de Cristo, comendador da Ordem de Isabel a Católica de Espanha, cavaleiro de número extraordinário da Ordem de Carlos III de Espanha, comendador da Ordem do Salvador da Grécia, comendador da Ordem de São Maurício e São Lázaro de Itália, comendador da Ordem de Vasa da Suécia, cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa do Brasil e cavaleiro de 2.ª classe da ordem otomana de Nichan Iftikhar (turco otomano: نشانِ افتخار, Nichani-Iftihar; Ordem da Glória (otomana)). Pela sua participação na Guerra Civil Portuguesa foi-lhe concedida a Medalha de D. Pedro e D. Maria, das Campanhas da Liberdade, algarismo n.° 3.
Foi sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa (eleito em sessão de 9 de julho de 1874), sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, membro correspondente da Real Sociedade Geográfica de Londres e sócio efetivo da Real Associação dos Arquitetos e Arqueólogos Portugueses. Foi um dos sócios fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa, na qual desempenhou vários cargos, e vogal efetivo da Comissão Central Permanente de Geografia. Foi membro do Conservatório Real de Lisboa. Obras Para além da sua carreira nos Negócios Estrangeiros, Jorge César de Figanière foi um bibliófilo apaixonado, com grandes conhecimentos de bibliografia, que dedicou boa parte da sua vida, e dos seus recursos económicos, à pesquisa e coleção de obras de temática portuguesa. Ocupou-se durante muitos anos da «da pesquisa e reunião de todos os monumentos raros e curiosos, que possam dizer respeito à [...] história política, literária e artística [portuguesa], merecendo-lhe mais particular predileção aqueles, que por menos volumosos escapam despercebidos aos olhos de muitos, ou são talvez desprezados por outros, como insignificantes e de pouco valor. À custa de perseverança, não poupando diligência e dispêndio, [...] [conseguiu] reunir uma copiosa e seleta coleção, que compreendendo muitos livros raros, e de estima, e muitos retratos, cartas e gravuras de preço, é sobretudo abundantíssima em opúsculos e papéis vários portugueses, saídos das [...] tipografias nos séculos XVI e seguintes, até o atual, todos pouco vulgares, e entre eles alguns de primeira raridade.». A obra teve ampla repercussão, sendo notícia em várias publicações da época.La Revue des Deux-mondes (Bulletin bibliographique), edição de 15 de Julho de 1852.The Gentleman's Magazine and Historical Review, de Londres, edição de fevereiro de 1853, p. 182.José Silvestre Ribeiro, Resenha da Litteratura Portugueza, pp. 116-117. Lisboa, Imprensa Nacional, 1853.
A sua principal obra é a monumental Bibliographia historica portugueza, : ou Catalogo methodico dos auctores portuguezes, e de alguns estrangeiros domiciliarios em Portugal, que tractaram da historia civil, politica e ecclesiastica d'estes reinos e seus dominios, e das nações ultramarinas, e cujas obras correm impressas em vulgar; onde tambem se apontam muitos documentos e escriptos anonymos que lhe dizem respeito, saída a público em 1850.Bibliographia historica portugueza, : ou Catalogo methodico dos auctores portuguezes, e de alguns estrangeiros domiciliarios em Portugal, que tractaram da historia civil, politica e ecclesiastica d'estes reinos e seus dominios, e das nações ultramarinas, e cujas obras correm impressas em vulgar; onde tambem se apontam muitos documentos e escriptos anonymos que lhe dizem respeito. Typ. do Panorama, Lisboa, 1850. A obra descreve 1994 obras e inclui em adenda a transcrição dos juízos e apreciações críticas, que a respeito da obra, por ocasião do seu apparecimento, apresentaram vários jornais de Lisboa.
A obra é um exacto e consciencioso trabalho bibliográfico, começado, segundo declara o autor, em 1841 e concluído em 1844, no qual se procede à enumeração e descripção de obras e opusculos de todos os formatos e dimensões, e na qual se dão pela primeira vez à conhecer alguns dos mais raros monumentos históricos. Para além da descrição de obras pouco conhecidas, foram corrigidas as inexactas descrições que de algumas haviam feito bibliógrafoss anteriore. Entre as obras com descrição corrigida contam-se a Relação da Ethiopia do patriarcha D. João Bermudes, o Livro da viagem de Marco Polo e Nicolau Veneto, a Relação do descobrimento da Florida e a identificação da segunda edição das Chronicas de Fr. Marcos de Lisboa.