miniaturadaimagem| Mulheres chilenas protestam contra o regime de Pinochet.
O feminismo no Chile tem a sua própria linguagem de libertação e estratégias activistas, moldadas pelo sistema político, económico e social do país. Desde o século XIX, as mulheres chilenas organizam-se por forma a fazer valer os seus direitos políticos. Os objectivos deste movimento contrastam com a realidade de do Chile, que é um dos países socialmente mais conservadores da América Latina. O Círculo de Estudios de la Mujer (Círculo de Estudos da Mulher) é um exemplo de organização de mulheres pioneiro, formado durante a ditadura de Pinochet (1973-1989), e que redefiniu as responsabilidades e os direitos das mulheres, ligando os “direitos das mães” aos direitos das mulheres e às liberdades civis das mulheres. O Círculo de Estudios de La Mujer foi fundado por um pequeno grupo de feministas de Santiago que pertenciam à Academia de Humanismo Cristiano. Estas mulheres juntaram-se “para discutir a situação das mulheres no Chile”; o seu primeiro encontro atraiu de mais de 300 participantes, e contestou a vida autoritária em Santiago. Estas mulheres ajudaram a moldar os direitos das mulheres no Chile.
História do feminismo no Chile Alguns dos primeiros movimentos feministas do chile, têm origem em grupos de mulheres socialmente conservadoras, apesar da forte influéncia do catolicismo no Chile. Em 1912, as mulheres de classe alta começaram a defender os direitos das mulheres de classe trabalhadora de uma forma que era aceite pelos grupos conservadores da época. As primeiras organizações femininas que surgiram no Chile começaram por volta de 1915, mas, ao contrário do que aconteceu em muitos outros países, estas mulheres eram provavelmente membros da classe média-alta.Lavrin, AsuncioÌn. Women, Feminism, and Social Change in Argentina, Chile, and Uruguay, 1890-1940. Lincoln, Neb.: U of Nebraska, 1995. Print. Por este motivo, organizaram grupos nos quais a exploração do interesse pelo feminismo surgiu através da atenção dada a questões que as feministas das classes média e alta consideravam mais importantes. Um dos primeiros exemplos disto na história do Chile ocorreu em 17 de junho de 1915, quando uma jovem estudante universitária, e mais tarde diplomata e sufragista, chamada Amanda Labarca decidiu iniciar um grupo chamado Círculo de Lectura, onde promoveu a cultura chilena ligada às mulheres. Desta forma fomentou a mudanças nas mulheres da sua comunidade, ao dar a oportunidade a mais mulheres de terem as suas vozes ouvidas, através da educação, independentemente das suas afiliações e estatuto social. O feminismo no Chile também procurou buscar conhecimento a mobilizações feministas internacionais, ao mesmo tempo que se dedicava especificamente à cultura chilena. Por exemplo, feministas como Amanda Labarca promoveram uma forma doméstica de feminismo que era sensível aos poderes governamentais - social e politicamente conservadores - da época. De um modo geral, esta época é vista como originando a primeira vaga do feminismo entre as mulheres chilenas.Franceschet, Susan. "Explaining Social Movement Outcomes." Comparative Political Studies. Acadia University, 1 June 2004. Web. 5 December 2016.
O movimento feminista organizado de forma mais compacta na América do Sul no início do século XX ocorreu no Chile. Havia três grandes organizações que representavam três classes diferentes de pessoas: o Clube de Señoras de Santiago representava as mulheres mais prósperas; o Consejo Nacional de Mujeres representava a classe trabalhadora, como professoras; outras mulheres da classe laboral organivaram outros grupos activistas para a melhoria das condições educacionais e sociais gerais. O Círculo de Lectura de Señoras foi fundado em 1915 em Santiago Chile por Delia Matte de Izquierdo . Apenas um mês depois, o Club de Señoras foi criado e fundado por Amanda Labarca. Mulheres como Amanda Labarca foram particularmente bem sucedidas nos seus esforços feministas, devido a alguns dos seus contactos internacionais e experiências resultantes de estudos no estrangeiro.
Embora o Chile fosse muito conservador tanto social como eclesiasticamente nessa época, as suas instituições educacionais aceitavam mulheres desde a década de 1870. Quando Sarmiento, exilado, vivia em Santiago, recomendou o tratamento liberal das mulheres e seu ingresso na universidade. Este último direito foi concedido durante o termo de Miguel Luis Amunategui enquanto ministro da Educação. Em 1859, quando um ex-ministro da Educação abriu um concurso para o melhor artigo sobre educação popular, Amunategui recebeu o prémio. Entre os temas defendidos no artigo estava a permissão de entrada de mulheres na universidade, ideia que recebeu de Sarmiento. O desenvolvimento da educação das mulheres foi muito atrasado pela guerra entre o Chile, o Peru e a Bolívia. O presidente Balmaceda foi um grande apoiante da educação popular. Durante a sua presidência, foi inaugurada a primeira escola secundária nacional, ou liceu, para meninas, por volta de 1890. Esta primeira vaga de feminismo começara por volta de 1884. O Chile foi um dos primeiros países latino-americanos a admitir mulheres em instituições de ensino superior, bem como a enviar mulheres para estudar no estrangeiro. Na década de 1920, existiam 49 liceus nacionais para meninas, todos dirigidos por mulheres. Para além destes, havia duas escolas profissionais para jovens mulheres em Santiago e uma em cada Província.
O Consejo Nacional de Mujeres manteve um lar para meninas que frequentavam a universidade em Santiago e ajudou as estudantes da capital. No início do século XX havia quase 1.000 jovens mulheres a frequentar a Universidade do Chile. O elemento conservador deste grupo concentrava-se principalmente na fomentação do trabalho intelectual das mulheres, enquanto mais tarde, o Conselho Nacional teve em conta ideias mais progressistas. Os seus membros eram mulheres de classe média, ou aristocratas, que tinham uma grande influência nas suas comunidades, incluindo o governo e os setores privados. Labarca escreveu vários volumes - como Actividades femeninas en Estados Unidos ( 1915 ) e ¿A dónde va la mujer? ( 1934 ). Foi acompanhada na sua investigação por um círculo de mulheres, a maioria delas ligadas ao trabalho educacional no Chile. Vários periódicos femininos foram publicados no Chile nesse período, destacando-se El Pefleca, dirigido por Elvira Santa Cruz . Labarca é considerada uma das líderes feministas mais proeminentes do Chile.
Num discurso de 1922 proferido perante o Clube de Señoras de Santiago, o editor chileno Ricardo Salas Edwards afirmou: “Manifestaram-se durante os últimos 25 anos fenómenos importantes que melhoraram a cultura geral da mulher e o desenvolvimento da sua independência. Entre eles a criação de estabelecimentos de educação primária e secundária para mulheres; as ocupações que elas encontraram como professoras da geração atual, que não podem mais duvidar da capacidade intelectual feminina; o estabelecimento de grandes fábricas e casas comerciais, que já lhe proporcionaram um emprego lucrativo, independente do lar; a organização de sociedades e clubes; e, finalmente, as atividades artísticas e literárias, ou a ação social católica das classes mais elevadas de mulheres, que se desenvolveu como estímulo a este sexo durante os últimos anos."
Amanda Labarca teve relutância em lutar pelo sufrágio feminino no Chile, por achar que era inapropriado. Em 1914, ela escreveu: “Não sou uma feminista militante, nem sou sufragista, pois acima de tudo sou chilena e hoje no Chile o voto para as mulheres está fora de questão”. Este sentimento começou a mudar à medida que a crise económica do pós-Primeira Guerra Mundial empurrou cada vez mais mulheres para a classe trabalhadora. Para complementar esta nova responsabilidade económica, as mulheres começaram a lutar pelos direitos políticos, jurídicos e económicos. Em 1919, Labarca transformou o Círculo de Leitura de Senhoras no Conselho Nacional de Mulheres, influenciado por conselhos internacionais de mulheres. Um novo corpo político foi formado no início da década de 1920 sob o nome de Partido Feminista Progressista com o objetivo de conquistar todos os direitos reivindicados pelas mulheres. Tinham por plataforma:
O direito ao voto municipal e parlamentar e à elegibilidade para cargos públicos. A publicação de uma lista de mulheres candidatas do partido a cargos públicos. A fundação de um ministério de bem-estar público e educação, chefiado por uma mulher executiva, para proteger mulheres e crianças e melhorar as suas condições de vida.Pan American Union (1922), p. 632
As fundadoras do partido (mulheres de classe média) levaram a cabo uma campanha discreta e prudente em todo o país. Nenhuma distinção foi feita entre posições sociais de adeptos do partido, procurando-se a cooperação de todos os ramos da atividade feminina para promover os objetivos do partido. A imprensa investigou a opinião pública sobre o novo movimento. O Congresso já tinha recebido favoravelmente um projeto-lei para conceder direitos civis e legais às mulheres. Pressão foi exercida com o objectivo de obter a concessão de direitos legais às mulheres para dispor de certos bens, especialmente os produtos do seu próprio trabalho, e a transferência para a mãe, na ausência do pai, do poder de administrar os bens da criança e os rendimentos auferidos até á sua maioridade. Entendeu-se que a concessão destes direitos elevaria a autoridade da mãe e traria uma consideração mais geral para as mulheres, bem como benefícios para a vida familiar e o bem-estar social.Pan American Union (1922), p. 632
Um grupo que se destaca em particular como pedra angular histórica do feminismo no Chile é o Movimento pela Emancipação da Mulher Chilena (MEMCh). Fundado em 1935 por feministas influentes como Marta Vergara, o MEMCh lutou pela emancipação legal, económica e reprodutiva das mulheres, bem como pela participação comunitária para melhorar as condições sociais. O MEMCh produziu um boletim mensal ( La Mujer Nueva) que contextualizava o trabalho realizado no Chile com o feminismo internacional. Enquanto na década anterior o feminismo no Chile se centrava em objectivos mais nacionalistas e religiosos, o MEMCh iniciou uma ligação entre mulheres sul-americanas e norte-americanas, em defesa da democracia.
Em dezembro de 1948, o congresso chileno aprovou um projeto-lei que concedia plenos direitos políticos às mulheres chilenas.
Durante a ditadura de Pinochet, ao longo do final da década de 1970 e início da década de 1980, coligações e federações de grupos de mulheres - nem todas necessariamente designadas como feministas - reuniram-se em cozinhas, salas de estar e outros espaços não-políticos para conceber estratégias de derrubar o governo ditatorial. Ocorria então a segunda vaga do feminismo. Como os movimentos políticos, na sua maioria dominados por homens, foram oprimidos e quase desapareceram durante a ditadura, as mulheres reuniram-se de uma forma política fora do que era tradicionalmente masculino. Através disso, criaram organizações populares como o Moviemento pro emancipación de la Mujer, que terá influenciado diretamente a queda de Pinochet. O governo de Pinochet também envolveu exílio em massa – uma estimativa de mais de 200 mil pessoas em 1980. Enquanto as mulheres chilenas viviam exiladas em Vancouver, Canadá, uma revista feminista criada por latinas, chamada Aquelarre, começou a ter grande circulação.