Os romances de fantasia do escritor J. R. R. Tolkien têm sido frequentemente acusados de incorporar atitudes ultrapassadas em relação à raça humana. No entanto, os estudiosos notaram que ele foi influenciado pelos posicionamentos dos cientistas vitorianos em relação à raça, e que foi anti-racista tanto em tempos de paz como durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.
Como Tolkien viveu a eugenia do final do século 19 e o surgimento das falsas teorias da suposta superioridade branca, alguns críticos acreditam que a menção à miscigenação em O Senhor dos Anéis incorpora elementos do racismo científico. Outros analistas relacionam a descrição dos orcs feita por Tolkien, foi inspirada nas caricaturas racistas de propaganda anti-japonesa durante a segunda guerra. Críticos também notam, que a obra incorpora uma geografia moral, com o bem no Ocidente e o mal no Oriente.
Defensores do autor declaram que Tolkien se opôs fortemente às teorias raciais nazistas, como pode ser visto em uma carta de 1938 que ele escreveu ao seu editor, E que na Segunda Guerra Mundial ele se opôs vigorosamente à propaganda anti-alemã. A Terra Média é descrita por eles como definitivamente Multicultural e Multilingue, enquanto os estudiosos notaram que os ataques direcionados a Tolkien baseados em O Senhor dos Anéis muitas vezes omitem essas passagens do texto.
Debates e acusações sobre racismo na obra de Tolkien Acusações Alguns críticos encontraram o que consideram visões obsoletas sobre raça nas histórias de Tolkien, geralmente com base em suas visões de como suas descrições retratam a relação entre a maldade e a raça (os principais povos deste universo são Elfos, Anão, Hobbit, Homem e Orc). Robert Stuart começa sua análise afirmando que Tolkien era um "racialista", já que escreve sobre raças com atributos diferentes, antes de escrever "Tolkien era racista?" e analisando, por sua vez, o uso das cores pretas e brancas por Tolkien (incluindo sua antipatia ao racismo e apartheid na África do Sul ), a natureza dos Orcs, as conexões raciais em sua língua, o antisemitismo e a aparente hierarquia de raças presentes neste universo. Stuart conclui a análise descrevendo que "o legado de Tolkien está repleto de passagens racialistas e, às vezes, imbuído de racismo."
Defesas A folclorista e estudiosa da obra de Tolkien, Dimitra Fimi examina a escrita e as atitudes de Tolkien em relação à raça humana em seu livro lançado em 2009, "Tolkien, Race and Cultural History". Ela observa que outros estudiosos como Anderson Rearick, David Perry e Patrick Curry criticaram ou defenderam Tolkien das acusações de racismo. Ela afirma, no entanto, que ele escreveu principalmente "quando teorias racistas ainda eram consideradas cientificamente válidas". Na sua opinião, é portanto "muito problemático abordar tais questões [do racismo] na obra de Tolkien, uma vez que só poderiam ser tratadas no âmbito das perspectivas modernas sobre o racismo e a discriminação racial."
Raça e Terra Média Medo do declínio Ocidental através da miscigenação Os historiadores de literatura inglesa, William N. Rogers II e Michael R. Underwood observam que um elemento bastante difundido na cultura ocidental do final do século 19 era o medo da queda do ocidente e a degeneração; isso resultou na eugenia. Em As Duas Torres, o personagem Ent Barbárvore diz: , book 3, ch. 4, "Treebeard"
Robin Anne Reid, escrevendo para o Journal of Tolkien Research, relata que os estudos modernos das possíveis influências sobre os orcs da Terra Média incluem um foco no racismo científico do século XIX e nos debates do século XX sobre este conceito. De forma similar, a socióloga australiana Helen Young, que estuda as ligações entre a supremacia branca e o medievalismo, descreve Tolkien como uma ponte entre o racismo científico do século XIX e o racismo na literatura de fantasia moderna.
Terra Média e Multiculturalismo A historiadora germânica Sandra Ballif Straubhaar afirma que "um mundo multicultural e multilíngue é apresentado de maneira essencial" para a Terra-média e que os leitores e cinéfilos perceberão isso rapidamente.
O pesquisador e estudioso de Tolkien, Jared Lobdell também discordou de quaisquer menções de racismo inerente ou latente nas obras do autor e se perguntou "se houvesse uma maneira de escrever uma fantasia épica sobre uma batalha contra um espírito maligno e seus monstruosos servos sem que isso fosse sujeito a especulação de ser intencionalmente racista".
Straubhaar chama as "acusações recorrentes de racismo na construção da Terra Média por Tolkien de "interessantes". Straubhaar cita o especialista sueco de estudos culturais David Tjeder, que descreveu o relato de Gollum sobre os homens de Harad ("Não são legais; eles parecem homens muito cruéis e perversos. Quase tão ruins quanto Orcs, e muito maiores." . The Two Towers, book 4, ch. 3 "The Black Gate is Closed" ) no Aftonbladet como "estereotipado e reflexivo das atitudes e pensamentos colonialistas”. Ela diz que a visão de Gollum, com suas "suposições arbitrárias e estereotipadas sobre o 'Outro'", é absurda e que Gollum não pode ser considerado um reflexo da opinião de Tolkien. Straubhaar contrasta isso com a resposta mais humana de Samwise Gamgee à visão de um guerreiro Harad morto, no momento que ela acha "mais difícil de encontrar falhas":
Fimi observa na mesma passagem que o autor está ol "longe de demonizar o inimigo ou desumanizar o 'herói".
Straubhaar rebate o estudioso britânico Stephen Shapiro, que escreveu ao The Scotsman que Straubhaar admite que Shapiro pode ter tido razão com "olhos puxados", mas comenta que isso era mais suave do que o de muitos de seus romancistas contemporâneos à época de Tolkien, como John Buchan, e observa que o autor fe
fez "objeção horrorizada" quando as pessoas aplicaram a terra média aos eventos atuais. Ela observa igualmente que Tjeder não tinha notado o "esforço concertado" de Tolkien em mudar o "paradigma" da Europa Ocidental de que os falantes de línguas nórdicas eram "etnicamente superiores".
Patrick Curry, Christine Chism e outros dizem que as críticas focadas ao suposto racismo muitas vezes omitem trechos textuais relevantes, citam cenas das adaptações em vez do próprio livro, ignoram a ausência das evidências e de atitudes ou eventos racistas na vida pessoal do autor, e afirmam que a percepção do racismo é em si uma teoria marginal.
Entretanto o próprio Tolkien declarou que ele pensou em judeus para fazer os seus personagens Anões, e que a língua dos Anões foi "construída para parecer de origem semita". Isso levanta a opinião, exposta por Rebecca Brackmann em Mythlore, de que existe um elemento de Antisemitismo, por mais profundamente obscuro, no relato de Tolkien sobre os Anões, herdado dos pensamentos antisemitas durante seu tempo. Brackman observa que Tolkien rebateu ras acusações em seus ensaios sobre a Terra média.
A maldade dos Orcs
Anderson Rearick III concorda que na Terra média, a escuridão e a cor preta estão ligadas aos orcs e ao Senhor das Trevas Sauron, mas lista vários argumentos que defendem Tolkien da acusação de racismo. Rearick cita a observação feita por Steuard Jensen de que existem "personagens de pele clara nos livros que fizeram coisas más", e termina citando os personagens Boromir, Denethor, Gollum, Saruman e Grima Wormtongue. Ele observa que a ligação entre a escuridão e o mal é feita muitas vezes na Bíblia, com frases como "sombra da morte" ou "vós são filhos da luz". Os orcs irremediáveis, ele observa, são rastreáveis a vocabulários ingleses antigos onde Orcus (Plutão, governante do submundo, ou morte) é citado no dicionário como "orc, gigante, ou o diabo do inferno". Rearick termina afirmando que o racismo é uma "filosofia de poder", enquanto O Senhor dos Anéis encarna a renúncia cristã ao poder; ele explica que Frodo desiste de tudo para cumprir sua busca, assim como Cristo fez. Em sua opinião, "nada poderia ser mais contrário às suposições do racismo do que um Hobbit como um herói".
, autor de um estudo acadêmico sobre Tolkien e raça, observa os anos de acalorado debate popular e acadêmico sobre se Tolkien era racista e concluiu que a resposta é mista. Ela escreve que a Terra média é hierárquica como a grande cadeia medieval, com Deus no topo, e logo após Elfos, Homens e em último monstros como os Orcs. Em sua opinião, isso faz sentido em termos de teológicos, e de fato em uma mitologia como O Silmarillion: mas um romance como O Senhor dos Anéis tem personagens aperfeiçoados em vez de meros símbolos do bem ou do mal.
Fimi escreve que Tolkien "exagerou" sobre as origens dos orcs. Se fossem Elfos ou Homens corrompidos, isso se encaixaria na visão de que Morgoth poderia corromper mas não criar; porém Elfos e Homens tinham livre arbítrio, e se fizessem o mal, talvez pudessem ser redimidos. Ela escreve que um autor anterior à Tolkien, George MacDonald criou uma raça de duendes malignos, algo que ela acha igualmente desconfortável "produto das teorias do século XIX sobre raça e degeneração". Fimi observa, no entanto, que um romance é escrito dentro de uma tradição; os orcs de Tolkien se encaixam na tradição dos goblins de MacDonald e, finalmente, dos monstros em Beowulf. Ela conclui: "Acredito que os preconceitos raciais de Tolkien estão implícitos na Terra média, mas seus valores - amizade, comunhão, altruísmo, coragem, entre muitos outros - são explícitos, o que faz com que esse mundo seja complexo e mais interessante", destaca que as complexidades deste tipo fazem com que as pessoas de cada geração leiam O Senhor dos Anéis, e interpretá-lo a sua maneira.
Orcs como possível descrição de orientais Em uma carta privada, Tolkien descreve os orcs como:
A especialista de Tolkien, Dimitra Fimi descreve suas menções de "tons negros" e olhos inclinados como "direto da antropologia vitoriana". Uma variedade de críticos notaram que os orcs carregam características físicas de não-europeus. Andrew O'Hehir descreve os orcs como "uma raça Untermensch criada por Morgoth e Sauron que é moralmente irremediável e merece apenas a morte. Eles são de pele escura e olhos inclinados, e embora possuam razão, fala, organização social e, como Tom Shippey menciona, uma espécie de sensibilidade moral, eles são inerentemente maus". Ele nota a descrição de Tolkien deles, dizendo que dificilmente poderia ser mais reveladora como uma representação do "Outro", mas que é "o produto de sua época, como a maioria de nossos preconceitos inevitáveis". Em uma carta a seu filho, Christopher, que estava servindo na RAF durante a Segunda Guerra Mundial, Tolkien escreveu sobre orcs como aparecendo em ambos os lados do conflito:
A crítica literária Jenny Turner, escrevendo na London Review of Books, endossa o comentário de O'Hehir de que os orcs são "por design e intenção a caricatura paranóica de uma raça que o norte europeu tem sobre os não brancos". O jornalista Ed Power, do The Daily Telegraph, compara os orcs aos soldados em Star Wars, pois ambos são "uma encarnação metafórica" da maldade. De acordo com Power, a mitologia de Tolkien criada para a Inglaterra exigia que os personagens fossem inteiramente bons ou maus.
Geografia moral: Ocidente versus Oriente
John Magoun, no livro The J. R. R. Tolkien Encyclopedia, diz que a terra média tem uma "geografia moral totalmente expressa". Os povos da terra média variam dos Hobbit de Shire no noroeste, dos maus "Easterlings" no leste e da "sofisticado imperial e decadente" do sul. Magoun explica que as terras ocidentais como Gondor são virtuosas, o lado "complicado" da terra média vem do sul com Mordor sendo descrita como infernal, e Harad no extremo sul é "quente e quase regressando para a selvageria". A historiadora medieval e estudiosa da obra de Tolkien Marjorie Burns também observou a "superioridade do Norte sobre o Sul e que é literalmente o Ocidente sobre o Oriente" do Tolkien.