direita|miniatura|300x300px|Espelho asteca feito de obsidiana e usado pelo alquimista inglês John Dee O uso de espelhos nas culturas mesoamericanas estava associado à crença de que serviam como portais para um reino visível, mas com o qual não se podia interagir. Os espelhos na Mesoamérica pré-colombiana eram feitos de pedra ou compostos metálicos e serviam para diversos usos, desde decorativos até divinatórios. Uma tradição antiga entre muitas culturas mesoamericanas era uma prática divinatória usando a superfície de uma tigela de água como espelho. Na época da conquista espanhola, esta forma de adivinhação ainda era praticada entre os maias, astecas e purépechas. Na arte mesoamericana, os espelhos são frequentemente associados a poças de líquido; esse líquido provavelmente era água.
Os primeiros espelhos foram fabricados a partir de peças únicas de minério de ferro, polidas para produzir uma superfície altamente reflexiva. No período pré-clássico, os primeiros espelhos datam da metade do segundo milênio a.C.; eram geralmente feitos de minerais de ferro e seu uso estava associado à elite. Vários dos exemplares encontrados nesse período eram espelhos côncavos olmecas, alguns dos quais podiam ser utilizados para acender fogo. No período clássico, os espelhos de mosaico eram produzidos a partir de diversos minérios, permitindo a construção de espelhos maiores. Espelhos de pirita em mosaico foram criados em grandes partes da Mesoamérica no período clássico, particularmente em Teotihuacan e em toda a região maia. A pirita se degrada com o tempo, deixando pouco mais que uma mancha na parte de trás do espelho no momento em que é escavada. Isso levou à frequente identificação incorreta de versos de espelhos de pirita como paletas de tinta, discos pintados ou tampas de potes.
No período pós-clássico, os espelhos foram produzidos por toltecas e continuaram sendo utilizados pelos maias, mas foram os espelhos astecas que ganharam divulgação a partir da conquista do México, com alguns de seus significados e usos culturais tendo sido preservados por registros feitos por espanhóis e exemplares tendo sido enviados à Europa. Os astecas preferiam utilizar a obsidiana como material do espelho e ele se tornou comum na sociedade asteca, empregado em diversas funções, desde adorno até a usos rituais. Eles eram revestidos de conotações simbólicas, míticas e cosmológicas, principalmente em relação ao deus Tezcatlipoca, associado a premonições, feitiçaria e destino, e, segundo relatos de cronistas da época, algumas dessas crenças em torno do espelho inclusive chegaram a influenciar a percepção que alguns nativos tiveram sobre os espanhóis.
Função e simbolismo dos espelhos na Mesoamérica Longe de serem apenas um acessório cosmético pessoal, os espelhos na Mesoamérica eram auxiliares divinatórios e também compunham o traje de elite. Os espelhos eram vistos como metáforas de cavernas sagradas e serviam de canais para forças sobrenaturais; eles eram associados a lareiras ardentes e poços de água por causa de suas superfícies brilhantes. Os espelhos também estavam intimamente associados ao sol. Os espelhos eram frequentemente usados no México pré-colombiano para revelar o destino de uma pessoa através da adivinhação. Entre os maias do período clássico, os espelhos eram um meio de comunicação com entidades de outro mundo, conforme representado em cenas pintadas em vasos de cerâmica. Acreditava-se que espelhos extramundanos eram o outro lado dos espelhos terrestres e pertenciam a divindades e outros seres sobrenaturais, sendo por eles utilizados. Na região central do México, no período pós-clássico, o mundo era metaforicamente concebido como um enorme espelho circular.
É sobre os espelhos astecas que se encontram mais informações visuais, textuais e narrativas a partir dos relatos coletados durante a conquista espanhola, em sua maior parte sobre espelhos de obsidiana associados à importante divindade asteca Tezcatlipoca, cujo nome significa "Espelho Fumegante", que era a personificação sobrenatural deste espelho polido. As representações do deus frequentemente substituem um de seus pés por um espelho fumegante e posicionam outro na parte de trás de sua cabeça. O cronista espanhol Diego Durán ( 1537–1588) descreveu a imagem de Tezcatlipoca no Grande Templo de Tenochtitlan como sendo feita de obsidiana polida e ostentando um espelho de ouro polido. A divindade supostamente observava tudo o que acontecia no mundo através de seu espelho. O espelho de obsidiana era uma metáfora para governo e poder entre os astecas. Os governantes astecas usavam um espelho de obsidiana de dupla face para supervisionar seus súditos; olhando para um lado, o governante podia ver como seus súditos estavam se comportando e, do outro lado, seus súditos podiam ver-se refletidos de volta. Dizia-se que os deuses revelavam seus desejos a um governante por meio do uso de um espelho. Os espelhos de obsidiana eram usados ritualmente para acessar espiritualmente o submundo asteca e se comunicar com o reino dos mortos.
Fogo direita|miniatura|Espelho-flor de quatro pétalas com borda emplumada de Teotihuacan Os espelhos eram associados ao fogo na Mesoamérica, e as representações dos espelhos podiam assumir a forma de flores e ser combinadas com representações de borboletas. Tanto as borboletas quanto as flores foram associadas ao fogo no centro do México, do período clássico ao pós-clássico, com borboletas representando chamas. Os olmecas do período pré-clássico criaram espelhos côncavos capazes de acender fogueiras.
Os espelhos são representados em associação com o fogo em dois códices do Grupo Borgia do México central durante o período asteca (Codex Borgia e Codex Vaticanus B). Os espelhos são colocados com incensários que servem de lareiras para a deusa do fogo Chantico. Outra cena do Codex Borgia retrata um espelho em chamas no estilo tolteca usado como lareira para uma panela de tamanho considerável. A lareira-espelho e o pote são emoldurados por quatro serpentes de fogo. Em outra página do mesmo códice, o deus do fogo Xiuhtecuhtli está fazendo fogo a partir de um espelho colocado nas costas de uma serpente de fogo. Uma escultura asteca de uma figura sentada traz um espelho fumegante nas costas para representar o quinto sol. A iconografia da pedra solar asteca está em conformidade com a dos espelhos de turquesa pós-clássicos; e é baseada no desenho dos espelhos de pirita toltecas anteriores.
Água Os espelhos também foram associados à água; um espelho clássico antigo no estilo de Teotihuacan foi escavado na distante área de Guácimo, na província de Limón, perto da costa caribenha da Costa Rica. Ele incluía imagens de Teotihuacan numa convenção estilizada para representar corpos d'água. As imagens da água continuaram a ser associadas aos espelhos no centro do México até a época asteca. Estas representações de espelhos associados à água na arte mesoamericana aparentemente usam o espelho para simbolizar a superfície de uma poça de água. Durante o período clássico, os espelhos foram colocados em tigelas para representar simbolicamente tigelas de água; exemplos são conhecidos em Teotihuacan e em toda a área maia. Tigelas cheias de água têm sido usadas como espelhos para fins divinatórios até os tempos modernos na Mesoamérica e no sudoeste norteamericano. Um queimador de incenso de Escuintla do período clássico inicial, na encosta do Pacífico guatemalteco, combina imagens de borboletas e água. O espelho tem abas flanqueadas representando as asas da borboleta que sobe de uma tigela cheia de água.
Jade Um mural pintado de Teotihuacan, agora no Museu De Young em São Francisco, tem a representação de um espelho contendo um glifo representando uma joia de jade. Esses pingentes de jade são frequentemente retratados na arte de Teotihuacan caindo em córregos. Na região maia, contas de jade eram frequentemente colocadas ao lado de espelhos em sepulturas e oferendas nos períodos Clássico e Pós-Clássico. Embora o jade possa ter sido colocado ao lado dos espelhos devido ao alto valor de ambos para os seus proprietários mesoamericanos, é igualmente provável que a associação do jade com os espelhos se devesse ao uso do jade em práticas divinatórias. Assim como os espelhos, as contas de jade eram usadas para vidência e investidas de poderes sobrenaturais. O jade também tinha associação com água.
Olhos e rostos direita|miniatura|Escultura em relevo em Teotihuacan; o olho está marcado com obsidiana As representações de espelhos na arte do período clássico de Teotihuacan e da região costeira do Pacífico da Guatemala retratam a face do espelho usando um glifo na forma de um olho de réptil, cujo significado não é claro. Os olhos anelados do deus da chuva central mexicano, Tlaloc, podem ter representado espelhos desde representações em Teotihuacan no período clássico até os astecas na época do contato espanhol. Na Historia General de las Cosas de Nueva España, a palavra náuatle é usada para se referir aos olhos e aos espelhos. Esta associação também existia entre os maias, a frase maia tsotsil é usada para pupila ou olho e significa literalmente "espelho do rosto" ou "espelho do olho". Essa associação dos espelhos com os olhos pode derivar dos olhos altamente reflexivos da onça-pintada. Pedras espelhadas foram usadas para representar os olhos em esculturas de muitas culturas mesoamericanas.
Aranhas A partir do período clássico, os espelhos começaram a ser associados a teias de aranha, talvez devido à rede de linhas na superfície dos espelhos de mosaico que se desenvolveram nessa época. Imagens associando espelhos a aranhas e suas teias são encontradas com relativa frequência em Teotihuacan. A associação de espelhos com aranhas continuou até o Pós-Clássico e além, com um espelho mixteca de ouro polido assumindo a forma de uma aranha. Os huichóis modernos ainda associam espelhos a teias de aranha.
Sol Os espelhos foram identificados com o sol na Mesoamérica desde o período pré-clássico, quando os olmecas associaram ambos. Os maias mantiveram a mesma associação durante todo o período clássico, e a relação entre os espelhos e o sol persistiu até os tempos modernos, com a Sierra Totonac do México referindo-se ao sol como Espejo Sol, "Espelho Sol". No período pós-clássico, os espelhos de turquesa dos toltecas e astecas representavam o sol.
História dos espelhos mesoamericanos Gordon F. Ekholm propôs a classificação dos espelhos mesoamericanos descobertos em três grandes grupos: os espelhos côncavos olmecas; os espelhos de pirita ou marcassita das épocas clássica e pós-clássica; e os espelhos de obsidiana, geralmente pós-clássicos. Alguns espelhos côncavos poderiam ter sido empregados para fazer fogo pela concentração da luz do sol, porém a maioria desses espelhos encontrados não teria como servir a esse fim. Devido à presença de furos neles, provavelmente muitos eram empregados como atavios pela elite sacerdotal, ou pendurados em estátuas.
Espelhos de obsidiana possuem distribuição geográfica mais limitada nos achados arqueológicos, de Michoacán ao Vale do México e Oaxaca, e provavelmente eram mais fáceis de se fabricar que os espelhos de pirita. Era impossível utilizá-los para acender fogo. Ekholm também propôs a hipótese que as técnicas utilizadas para elaborar espelhos côncavos e talvez também os de pirita eram originárias da China.
Período pré-clássico direita|miniatura|300x300px|Mapa do coração olmeca e outros locais pré-clássicos no sul do México