Etno-história é uma metodologia interdisciplinar utilizada nas ciências humanas, principalmente nas disciplinas de história, antropologia, geografia e arqueologia. A etno-história surgiu nos Estados Unidos nas primeiras décadas do século XX e se desenvolveu após a promulgação da ICA - Indian Claim Act, em 1946, que garantiu direitos aos povos indígenas estadunidenses. Após esse período, a etno-história se difundiu para outras áreas do globo, como Oceania, Sul e Leste da Ásia e principalmente na América Latina.
O Brasil é um dos países onde a etno-história mais se desenvolveu. Isso realizou-se junto do crescimento da história indígena, que ocorreu após a promulgação da Constituição Federal de 1988, que garantiu aos povos indígenas brasileiros, o direito ao seu território tradicional e de realizar suas práticas culturais. O século XXI é marcado pelo aumento dos escritos sobre os povos indígenas no Brasil, principalmente por meio da maior inserção dos indígenas nas universidades e na elaboração de artigos, trabalhos de conclusão de curso, dissertações de mestrado e teses de doutorado esquerda|miniaturadaimagem|298x298px|Dentre as diversas temáticas onde a metodologia da etno-história é utilizada, as principais, são as sociedades indígenas. Grafismo da etnia Moitará A etno-história é marcada por ser uma metodologia interdisciplinar que permite o uso variado de fontes, tais como, os dados etnográficos, coletados nos trabalhos de campo e registrados nos diários ou cadernos de campo. Outro tipo de fonte que a etno-história permite, são fontes orais, realizadas por meio de entrevistas, que tem como suporte, manuais de uso e ética em história oral. Também, é possível o uso de fontes materiais, especialmente as evidências arqueológicas, como artesanatos, cerâmicas, fosseis e paisagens. Por fim, a etno-história, não exclui as fontes escritas, entretanto, ela emprega uma atenção especial em suas analises, procurando compreender como elas foram interpretadas pelas sociedades tradicionais, apontando assim, equívocos, erros e preconceitos inseridos nessas documentações.
Por mais que a grande maioria dos trabalhos em etno-história se concentrem no continente americano, é possível encontrar trabalhos e grupos de pesquisa relevantes em outras partes do mundo, como acontece na Oceania, com a revista Australian Aboriginal Studies, que trouxe enorme contribuição para o debate e difusão da etno-história na Australia. Além disso, grande parte dos estudos em etno-história está na temática indígena, entretanto, é possível encontrar pesquisas que utilizam a metodologia da etno-história para analisar outros contextos, como povos negros, festividades religiosas, migrações, questões de gênero e de História Ambiental. Dessa forma, por mais próximas que pareçam, não se deve utilizar etno-história e história indígena como sinônimos.
Antecedentes miniaturadaimagem|310x310px|Até as primeiras décadas do século XX, o estudo das sociedades indígenas era praticamente exclusividade da antropologia. Na imagem, temos o retrato de Edward Burnett Tylor, um dos principais nomes da antropologia do séc. XIX, conhecido pela teoria do evolucionismo cultural. Para a criação da metodologia que atualmente conhecemos como etno-história , foi necessário um contexto político (luta pelos direitos dos povos indígenas) e acadêmico (necessidade de novas pesquisas sobre as populações tradicionais) adequado para tal. Durante o século XIX e parte do XX, várias áreas do conhecimento, como filosofia, história e antropologia, carregavam teorias que reforçavam a ocidentalização, deixando em segundo plano, ou destacando como inferior, muitas sociedades tradicionais.
Também havia uma nítida separação entre as disciplinas (principalmente da área das ciências humanas) por meio dos temas de pesquisa. Por exemplo, até a Primeira Guerra Mundial, tanto os culturalistas estadunidenses e antropólogos britânicos enfatizavam a necessidade da separação entre os campos de atuação das suas disciplinas, como o estudo das culturas, em relação aos escritos realizados pelos historiadores. O estudo realizado pela história das populações indígenas era marginalizado e criticado pelos pares e por profissionais de outras áreas das ciências humanas, pois entendia-se, que os historiadores deveriam escrever sobre as sociedades com escrita, enquanto cabia aos antropólogos e arqueólogos, o estudo das sociedades ágrafas.
Por exemplo, no início do século XX, grupos de antropólogos, entre eles, difusionistas e distribucionistas eram contrários ao uso das metodologias da história para pesquisas sobre o histórico das sociedades indígenas. Robert Lowie, em seus escritos antropológicos, negava que as sociedades tradicionais eram dotadas de perspectiva ou senso histórico, por isso, criticava o uso da tradição oral e de relatos de viajantes. O antropólogo também acreditava que as questões e problemáticas das pesquisas antropológicas só poderiam ser resolvidas pelos métodos objetivos da etnologia comparativa, da arqueologia, da antropologia física e da linguística.
Na década de 1920, outros nomes relevantes para o campo da antropologia também criticavam as pesquisas antropológicas com orientação histórica , como Bronisław Kasper Malinowski e Alfred Reginald Radcliffe-Brown. A justificativa usada por esses antropólogos era que não havia documentos para o estudo das sociedades tradicionais sem escrita, como também, de acordo com Radcliffe Brown, a história e a antropologia social eram de natureza antagônicas, sendo assim, os antropólogos sociais deveriam se voltar "ao avanço das generalizações sobre a estrutura da sociedade, como resultado do estudo comparativo das sociedades primitivas, sem referência à sua história". Até a década de 1950, muitos antropólogos sociais ainda evitavam utilizar métodos históricos em suas escritas, continuando uma abordagem sobre os povos sem tradição da escrita, sem a referência em documentos históricos, mesmo quando eles estavam disponíveis. Por mais que a metodologia da etno-história tenha iniciado no início do século XX, ela enfrentou muita resistência até a década 1950, quando ainda era pontuada a separação de temas de pesquisa entre antropologia e história.
O Surgimento da etno-história Durante o início do século XX, a questão dos indígenas que ocupavam a América do Norte ganha destaque, crescendo os estudos sobre essas populações. O primeiro registro encontrado do termo etno-história ocorreu no ano de 1909, nas pesquisas de Clark Wissler, que tinha como objetivo, escrever relatórios arqueológicos sobre os indígenas na área da grande Nova York e do baixo Rio Hudson. De acordo com os escritos de Clark Wissler, etno-história seria a combinação e utilização de dados coletados nas escavações arqueológicas e dados etnográficos, que seriam reunidos, resultando em documentações produzidas por pesquisadores não indígenas estabelecidos em centros de pesquisa e universidades.
Na década de 1930, foi a primeira vez que o termo etno-história foi utilizado como um método, por meio dos estudos de Fritz Röck no Viennese Study Group for African Culture History. Esse grupo, tinha como objetivo criar modelos que proporcionasse que a história fosse desenhada por meio de dados etnográficos coletados no continente africano. Todavia, o grupo não conseguiu êxito em seus objetivos de difundir o conceito, principalmente em relação a passar do teórico ao prático. Posteriormente, o grupo acabou fundindo-se, com a denominada etnografia histórica.
Os primeiros passos da etno-história miniaturadaimagem|333x333px|Indiana University, um dos principais espaços dos primeiros debate sobre a etno-história O artigo escrito por Bruce Graham Trigger no periódico Ethnohistory , destaca que o primeiro trabalho substancial de etno-história estadunidense, foi escrito em 1937 pelo historiador A.G. Bailey, intitulado como: El conflicto entre las culturas europea y algonkina oriental, 1504- 1700. Apesar desse relevante trabalho para a etno-história, foi somente a partir da década de 1950, que ela se desenvolveu nos Estados Unidos. Isso ocorreu ao final de Segunda Guerra Mundial, principalmente com a promulgação, em 1946 do ICA - Indian Claim Act, que deu direito aos indígenas estadunidenses a reivindicar seus territórios ou pedir compensações pelas terras perdidas. Com isso, necessitou-se de uma grande demanda de pesquisa sobre esses povos tradicionais, já que para garantir os benefícios, era necessário produzir estudos e laudos que atestassem as indenizações. Dessa forma, envolveram-se nos estudos sobre os indígenas estadunidenses profissionais das mais diversas áreas das ciências humanas, como antropólogos, historiadores, arqueólogos, linguistas, entre outros.
Os laudos realizados nesse contexto, foram reunidos e apresentados no Ohio Valley Historic Indian Conference sendo realizada no Ohio State Museum, na cidade de Columbus, em novembro de 1953. Esse evento teve como enfoque a análise da história e da situação dos indígenas do vale do Rio Ohio, levando em consideração as contribuições de historiadores, arqueólogos e antropólogos. Posteriormente, esse grupo passou a ser denominado como American Indian Ethnohistoric Conference, criado no ano de 1954 e afiliada à Indiana University em Bloomington. Esse contexto, propiciou a criação da revista Ethnohistory, que teve a sua primeira publicação datada em abril de 1954.
A etno-história ao final do século XX e início do XXI miniaturadaimagem|243x243px|Ailton Krenak é um dos principais líderes indígenas no Brasil. Durante a constituinte, em 1987, Ailton Krenak ficou marcado por seu discurso sobre o direito dos povos indígenas, enquanto pintava seu rosto. Após o nascimento da etno-história nos Estados Unidos, outros países foram influenciados pelos primeiros estudos e grupos sobre o assunto. No Brasil, a etno-história ganhou destaque a partir do período de redemocratização e após a ditadura militar brasileira. Nesse contexto, a temática indígena teve destaque por meio dos debates sobre o lugar dos indígenas na sociedade brasileira, movido principalmente pela elaboração da Constituição Federal de 1988. Esse documento é um marco para os indígenas que habitam o território brasileiro, levando em consideração, que foi a primeira vez que o Brasil reconheceu aos indígenas o direito de viver de acordo com suas normas e costumes, como também o direito sobre um território para sobreviver. O principal artigo da Constituição Federal de 1988 que aborda os direitos indígenas sobre seu território e de realização de suas práticas culturais é o nº 231. Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.Em conjunto disso, a partir da década de 1970, temos o surgimento do chamado Movimento indígena, que consistiu na mobilização e união dos indígenas de todo o Brasil que buscavam melhorar a sua condição de vida, bem como protestar em relação às políticas assimilacionistas promovidas por órgãos federais, como o SPI - Serviço de Proteção aos Índios (1910-1967) e a FUNAI - Fundação Nacional dos povos indígenas, este, é o órgão nacional, responsável pelas questões indígenas.