miniaturadaimagem|379x379px| Tumba de Tomás Galo na Basílica de Sant'Andrea em Vercelli. Tomás Galo () de Vercelli (ca.1200 – 5 de dezembro de 1246), mais conhecido durante sua vida como Tomás de Vercelli (Thomas Vercellensis), Tomás de Paris, Tomás de São Vitor ou Abade de Vercelli, foi um teólogo francês, cônego regular agostiniano membro da Escola de São Vítor e abade. Ele é conhecido por seus comentários inovadores sobre Pseudo-Dionísio e suas ideias sobre teologia afetiva, sendo o principal arquiteto do chamado "dionisianismo afetivo", uma corrente de interpretação inaugurada anteriormente por Hugo de São Vitor. Nisso, influenciado pelas tradições agostiniana, cisterciense e vitorina, Tomás enfatizava o amor como uma potência distinta da alma que mais leva à aproximação, conhecimento e união da alma com Deus. Seus elaborados esquemas místicos influenciaram, dentre outros, Boaventura e A Nuvem do Não Saber. Sob esse olhar dionisiano, seus comentários sobre o Cântico dos Cânticos não possuem igual na literatura teológica subsequente.
Vida Nascido em algum momento do final do século XII, seu país de origem é contestado. A opinião geral é de que ele era francês, daí ser chamado "Gallus", porém em vida ele não era conhecido por esse cognome, que só começou a ser usado por acadêmicos do século XVII. Já outros estudiosos consideram que "Gallus" é um nome de família típico do norte da Itália. Outros ainda consideram evidências e uma tradição de que ele seria proveniente da Inglaterra, e que Gallus é uma designação latina usada para se referir ao País de Gales. De qualquer modo, ele partiu da Abadia de São Vítor em Paris, quando foi levado a Vercelli, no norte da Itália, pelo cardeal Guala Bicchieri, talvez junto a outros três companheiros. Lá, fundaria um novo mosteiro e hospital, a Abadia de Santo André, conforme desejava Bicchieri estabelecer em sua cidade natal. Em 1224/25, Tomás foi nomeado abade.
Como abade, dedicou-se não apenas às tarefas administrativas diárias do mosteiro, mas também a compor vários comentários e exposições da Bíblia e dos escritos do Pseudo-Dionísio. Ele desfrutou de um relacionamento próximo com a nascente ordem franciscana; de fato, os franciscanos transferiram seu studium generale de Pádua para Vercelli por volta de 1228. Ele conheceu pessoalmente Santo Antônio de Pádua. Tomás também conhecia Robert Grosseteste, a quem ele pode ter encontrado em 1238, quando visitou a Inglaterra para garantir um benefício associado à igreja de St. Andrew's em Chesterton. Gallus e Grosseteste parecem ter trocado alguns escritos por intermédio do associado de Grosseteste, o franciscano Adam Marsh. Quando estourou a guerra entre os guelfos de Vercelli e os gibelinos da cidade vizinha de Ivrea, Gallus foi obrigado a fugir de Vercelli em 1243 e se refugiar em Ivrea, devido às suas simpatias imperiais pró-gibelinas, por exemplo defendendo um familiar de Bicchieri. Nessa época, muitas acusações graves foram feitas contra ele pelos partidários papais, como de simonia e roubo e vendas de relíquias. Após três advertências do Papa, foi excomungado. Alguns registros sugerem que ele conseguiu retornar a Vercelli antes de sua morte em 5 de dezembro de 1246.
Um monumento funerário a Gallus pode ser visto hoje na Igreja de Sant'Andrea in Vercelli.
Pensamento
Generalidades Tomás Galo escreveu extensivamente entre cerca de 1218 e sua morte. Frequentemente chamado de "o último dos grandes vitorinos", herdando de mestres como Hugo e Ricardo de São Vítor muitos pontos de partida de seu pensamento.
A interpretação dionisiana de Tomás Galo foi apresentada nos últimos anos como uma das duas tradições de interpretação da teologia mística de Pseudo-Dionísio que surgiram no século XIII.Rorem, Paul (1993). Pseudo-Dionysius. Ver também McGinn, Bernard (1998). "Thomas Gallus and Dionysian Mysticism". Studies in Spirituality, 8, pp. 81–96. O teólogo Bernard McGinn fornece esse contexto da divisão:"Correndo o risco de simplificar demais, podemos dizer que dois grandes fluxos de interpretação de Dionísio podem ser encontrados no final da Idade Média: o dionisianismo especulativo iniciado pelo mestre dominicano Alberto Magno e o que é frequentemente referido como o "dionisianismo afetivo", ao qual foi dada formulação sistemática pela primeira vez nos escritos de Tomás Galo" Com grande influência na escrita vernacular mística posterior, Tomás Galo tornou-se a fonte principal para muitos exponentes do dionisianismo afetivo, o qual se tornou a corrente dominante na Idade Média Tardia, embora existissem nesse período diversos outros teóricos e tendências místicas que enfatizavam o caminho intelectual.
Especificamente, a interpretação afetiva se refere ao fato de que, no debate contemporâneo sobre a relação entre amor e conhecimento na consciência mística, Tomás sustentou que a afetividade tende a excluir (em vez de simplesmente subsumir) o conhecimento humano nos estágios mais elevados do itinerário místico,Bernard McGinn, 'Thomas Gallus and Dionysian Mysticism', Studies in Spirituality, 8, (1998), pp.81–96. talvez tendo sido o primeiro autor a afirmar isso.
A interpretação afetiva de Tomás fez uma revolução em comparação a todos os outros comentaristas da obra dionisiana, seja nos séculos XII e XIII ou desde a tradução de Erígena, em que predominava o dionisianismo intelectual.
Isso foi combatido por partidários que defendem uma presença do intelecto para o conhecimento maior de Deus. Declan Anthony Lawell considera que inclusive Alberto, o Magno, teria chegado a criticar Tomás. Outro dominicano que seria expoente do "dionisianismo intelectivo" foi Tomás de Aquino.Lawell, Declan (2012). «Ecstasy and the Intellectual Dionysianism of Thomas Aquinas and Albert the Great». In: McEvoy, James; Dunne, Michael; Hynes, Julia. Thomas Aquinas: Teacher and Scholar. Dublin: Four Courts Press
Segundo McGinn, Tomás "combinou o apofatismo dionisiano com uma leitura afetiva do Cântico dos Cânticos para formar um potente nova teoria mística que teve uma grande influência no final da Idade Média". Nisso, a inovação própria de Tomás é de que a sua união do eros cósmico da metafísica neoplatônica de Pseudo-Dionísio com o amor interpessoal e esponsalício do Cântico dos Cânticos ganha uma dimensão cristológica não presente na obra dionisiana. Outro aspecto que mais distingue o pensamento de Tomás é sua afirmação de que não somente a mente humana entra em êxtase na união da alma com Deus, mas que também ocorre um êxtase divino recíproco.
Elaboração teórica Havia uma contradição entre duas tradições da Idade Média sobre a relação entre amor e conhecimento na relação do homem com Deus: a agostiniana afirmava que na visio Dei beatífica, Deus era plenamente conhecido e amado; enquanto a dionisiana enfatizava a total transcendência e incognoscibilidade de Deus. Hugo de São Vitor inaugurou a interpretação afetiva de Pseudo-Dionísio, como uma das várias tentativas medievais de resolver esse conflito, aproximando ambas correntes. Ele afirmava: "o amor ultrapassa o conhecimento e é maior do que a inteligência". Assim seguiu também Tomás Galo; na paráfrase que ele realizou da Teologia Mística, a Extractio (1238), Tomás escreveu que Moisés "uniu-se ao Deus intelectualmente desconhecido por meio de uma união de amor (dilectionis), que é eficaz do verdadeiro conhecimento (verae cognitionis), um conhecimento muito melhor do que o conhecimento intelectual".
Escrevendo em 1224 as Glosas sobre a Hierarquia Angélica, irá estrear uma série de comentários sobre as obras dionisianas. Para Tomás, os aspectos práticos da vida espiritual e união com Deus eram apresentados no Cântico dos Cânticos, enquanto a teoria dessa vida mística era explicada na Teologia Mística de Pseudo-Dionísio.
Segundo Pseudo-Dionísio, há uma terceira via para além da positiva (teologia catafática) ou da negativa (teologia apofática) para se conhecer Deus: aquela que considera os atributos divinos como estando além de quaisquer conceitos humanos, seja positivos ou negativos, por exemplo como uma superbondade ou supersabedoria que não é possível de ser compreendida. Deus é uma "negação das negações". Tomás ofereceu um esquema interpretativo novo para solucionar esses problemas: ele afirmou que a única forma de se unir verdadeiramente a Deus era através do movimento do amor na alma, um amor que vai além do intelecto e promove o retorno desta. Nisso, deu também outro sentido ao conceito neoplatônico de epistrophê (conversão). A esse poder da mente humana ele chama variadamente de "afeto", "desejo", "amor", "união", "faísca de sindérese" e "Serafim da mente". Os graus angélicos da Hierarquia Celeste de Pseudo-Dionísio são reinterpretados de forma psicológica como existindo também na alma, o que foi chamado de "angelização" da mente humana. Assim, afirma que o "Serafim da mente", ou seja, o amor, supera o "Querubim da mente", que seria o intelecto. Tomás compara o efeito do amor a um pote de água fervente, pois a alma como se expande de seus limites, natureza e intelecto, em "ebulição" (ebullitio), ao se unir a Deus."A mais alta perfeição das mentes é estarem unidas à plenitude divina, a qual é mais completa e melhor do que qualquer mente (...) Esta adesão ou união realiza-se através do amor que junta e une a mente a Deus e, unindo-àquela plenitude, a aperfeiçoa (...) Esta perfeição é mais elevada e profunda do que a iluminação que vem do conhecimento (...) Portanto, nela somente é cumprida a porção de Maria que não é tirada (Lucas 10), por causa do amor que através do Serafim da mente excede o espelho [do intelecto], mas não morre."Tomás já foi visto por alguns intérpretes como anti-intelectual por dar prioridade ao amor e, no último degrau, o amor excluir o intelecto. Boyd Taylor Coolman critica comentaristas que enxergam uma narrativa linear e unidirecional das ascensão da alma em direção a Deus, e indica como no corpo da obra de Tomás há um reforço mútuo entre amor e intelecto, em que há não apenas subida do conhecimento ao amor, mas descida do amor ao conhecimento.
Para Tomás, há duas direções do movimento de conhecimento intelectual a Deus: um ascendente, aquele da filosofia, em que a alma se eleva intelectivamente, e um descendente, em que a memória da união experiencial do amor de Deus (ordem do Serafim) goteja e percola sobre o intelecto. Essa última ocorre na ordem do intelecto (ordem do Querubim), quando este recorda o afeto superior na hierarquia e recebe força, alegria e fervor, sendo sustentado pelo que ele chama de "afeto colateral" (collateralis affectio), ou seja, o afeto que anda "lado a lado" com o intelecto. Ainda assim, porém, em outras passagens ele afirma que o "conhecimento afetivo" é maior do que o "conhecimento intelectual".