Olívia Krähenbühl (Piracicaba, 5 de janeiro de 1900 – São Paulo, 16 de junho de 1973) foi uma tradutora e escritora brasileira. O artigo a seguir é de Denise Bottmann, disponível no site Academia.edu.Denise Bottmann, "OLÍVIA KRÄHENBÜHL", https://www.academia.edu/102963996/OLIVIA_KR%C3%84HENB%C3%9CHL_TRADUTORA_1941_1973_
Olívia foi a oitava dos dez filhos de Bertha Maria Müller e do suíço-alemão João [Johann] Krähenbühl (que chegara ao Brasil aos 3 anos de idade, com os pais imigrantes de Berna).Árvore genealógica contendo Olívia Krähenbühl, Family Search, https://www.familysearch.org/tree/pedigree/landscape/LYBH-8H8 Criada em sua cidade natal, em março de 1922 Olívia partiu como estudante para os Estados Unidos,Lista de Passageiros do navio S. S. Vandyck partindo do Porto de Santos para Nova York, "New York Passenger Arrival Lists (Ellis Island), 1892-1924", Family Search, https://www.familysearch.org/ark:/61903/3:1:3Q9M-C955-R9D4-6?i=67&cc=1368704&personaUrl=%2Fark%3A%2F61903%2F1%3A1%3AJNG2-529 onde se casou com Wesley Duque Lee (1897-?) em 5 de setembro do mesmo ano.Data do casamento no perfil de Olívia Krähenbühl, Family Search, https://www.familysearch.org/tree/person/details/LYBH-8H8 Depois de alguns anos, retornou a seu país de origem. Foi uma renomada tradutora de clássicos da literatura mundial.
De volta ao Brasil, Olívia se estabeleceu em São Paulo, onde montou uma loja de modas e confecções que esteve em funcionamento pelo menos entre 1928 e 1931.À rua do Arouche, 26, no centro da cidade. Correio Paulistano, 9 de maio de 1928, p. 16; Almanak Laemmert, Anuário de 1931, p. 643. Em 1933, é de se supor que ainda residisse em São Paulo, em vista da inclusão de seu nome na nota de agradecimento da recente Biblioteca Pública Municipal a diversas pessoas por doações de livros à instituição. A Gazeta, 20 de abril de 1933, p. 3.
Por outro lado, notícias na imprensa mostram que em 1937 ela já havia se mudado para o Rio de Janeiro, onde, na década de 1940, colaborou durante alguns anos com o Instituto Central do Povo, instituição pertencente à Igreja Metodista, e com a revista metodista Voz Missionária. Lá parece ter ficado até o final dos anos 1950 ou início dos anos 1960, então retornando para a capital paulista, onde firmaria residência até o final da vida. Vitimada por um acidente vascular cerebral, faleceu em São Paulo em 16 de junho de 1973.Cópia digital da certidão de óbito, Family Search, https://www.familysearch.org/ark:/61903/3:1:3Q9M-CSDL-TS9K-5
Carreira
Publicações iniciais variadas Há registros de publicações esporádicas de Olívia Krähenbühl em revistas e jornais a partir de 1941: poemas, artigos, breves traduções. Passa a se dedicar mais sistematicamente à atividade como tradutora a partir de 1956, quando morava no Rio de Janeiro, fazendo traduções para a José Olympio. Depois, mudando-se para São Paulo, passa a traduzir para as editoras Cultrix e Pioneira, e prossegue no ofício até a época de seu falecimento.
Lista em ordem cronológica de suas publicações em periódicos, sejam elas de textos próprios ou traduzidos:
“Amor”, de Guy de Maupassant (trad.), conto na Revista do Brasil, seção “O Conto Estrangeiro”, ano IV, 3ª. fase, n. 39, 1941.Reeditado, com nota introdutória de Aurélio Buarque de Holanda, no Diário de Notícias, seção “Letras Artes Ideias Gerais”, em 21 de setembro de 1947. A [O] caminho da perdição”, resenha com Aurélio Buarque de Holanda em O Jornal, 22 de outubro de 1943. “‘Cântico de gratidão’, cântico dedicado à Miss Epps”, em Voz Missionária – Revista Trimestral para as Sociedades Metodistas de Senhoras, ano XIV, no. 4, 1943 “O caminho da perdição e o entremês do apaziguamento”, resenha em O Jornal, 4 de janeiro de 1944. “Heróis sem alma”, artigo no Correio da Manhã, 2ª. seção, 19 de março de 1944. “‘A estrada da vida’: Poesia à Miss Cobb”, em Voz Missionária – Revista Trimestral para as Sociedades Metodistas de Senhoras, ano XV, no. 3, 1944 “Duplo aspecto da tradução”, artigo no Correio da Manhã, 2ª. seção, 3 de setembro de 1944. “O pai do homem”, artigo no Correio da Manhã, 2ª. seção, 22 de outubro de 1944. “Literatura infantil”, artigo na revista Leitura – Crítica e Informação Bibliográfica, n. 24, novembro de 1944 “Vivandeiras da carne humana”, artigo no Correio da Manhã, 2ª. seção, 3 de dezembro de 1944. “'Vidas comuns': Poesia para Juanita Campos”, em Voz Missionária – Revista Trimestral para as Sociedades Metodistas de Senhoras, ano XVI, n. 1, 1945 “Contraponto social”, artigo em Walkyrias, ano XI, n. 134, novembro de 1945. “Amendoeira em flor”, de Stephen Spender (trad.), poema em Correio da Manhã, 1º. caderno, 29 de novembro de 1952.Reeditado em Revista Brasileira de Poesia, ano V, n. 6, 1953 “Um rosto”, de Emily Dickinson (trad.), poema em Letras e Artes – Suplemento de A Manhã, 4 de janeiro de 1953. “Despedida sem lamentação”, de John Donne (trad.), poema em A Nação, 4 de abril de 1954. Poemas de Dylan Thomas (trad.), em Revista Brasileira de Poesia, no. 7, 1956. São eles: “Especialmente quando o vento de outubro”, “A mão que assinou o nome no tratado”, “Vinte e quatro anos”, “O pão que parto” e “Porque o pássaro do prazer assobia...”, seguidos por uma apresentação de Olívia sobre a vida e a obra do autor. “‘Uma fábula’ de William Faulkner”, resenha em Para Todos – quinzenário da cultura brasileira, seção Livro Traduzido, ano I, no. 10, 1ª. quinzena de outubro de 1956. “A linguagem como tema”, artigo sobre Guimarães Rosa em Diálogo – Revista de Cultura, no. 8, nov. 1957Sua posição a respeito da linguagem de Guimarães Rosa é retomada por Paulo Rónai em seu artigo “A trajetória de uma obra”, prefaciando a seleta de Guimarães Rosa, em 1973, onde ele cita: “‘Nunca entre nós... ofereceu uma obra tamanha virtuosidade e um tão fértil terreno linguístico – uma tão completa e minuciosa exploração do discurso em todas as suas múltiplas facetas. Por isso – e embora o sr. Guimarães Rosa não se afaste um só momento do sertão – a sua realidade pode dizer-se que é a linguagem’, afirma Olívia Krähenbühl”. José Olympio, Coleção Brasil Moço, vol. 10, 1973. O texto de Rónai saíra pouco tempo antes na Revista de Cultura Brasileña, n. 35, 1973, Madri, publicado pela Embajada del Brasil en España.
Livros traduzidos Quanto à tradução de livros, a revista A Cigarra informa em 1944 que a Livraria do Globo havia adquirido os direitos de tradução do romance Simone, de Lion Feutchwanger, e confiara a empreitada a Olívia de [sic] Krähenbühl. Contudo, Simone sai em 1945, mas em tradução de Paulo Moreira Silva.
Na verdade, a estreia de Olívia se dá com O caminho da perdição, de Upton Sinclair, num trabalho a quatro mãos com Aurélio Buarque de Holanda publicado em 1945. Aqui cabe notar que várias fontes secundárias – muito provavelmente baseadas numa menção de Paulo RónaiPaulo Rónai, “Aurélio, homem humano” in Revista USP, jun.-jul.-ago. 1989, p. 34. Ao final do breve artigo, Rónai inclui a bibliografia de traduções de Aurélio Buarque de Holanda com essa datação equivocada que, desde então, foi exaustivamente reproduzida nas frequentes reedições dos diversos volumes de Mar de histórias, pela Nova Fronteira. – dão o ano de 1943 como data de lançamento dessa edição brasileira. Trata-se de um engano, porém. 1943 é o ano em que Wide is the Gate saiu nos Estados Unidos, sendo que O caminho da perdição foi lançado no Brasil pela Edições O Cruzeiro em 1945.
Note-se que, estando Olívia e Aurélio a cargo da tradução de Wide is the Gate, já em outubro de 1943 ambos escrevem uma resenha conjunta, citada mais acima, que se inicia explicando a opção pelo título em português, e em janeiro de 1944 Olívia escreve um artigo sobre a mesma obra, também citado mais acima. Em janeiro do ano seguinte temos o lançamento brasileiro, com algumas notas e anúncios na imprensa. Depois dessa experiência inicial, em que Olívia pôde contar com o amparo de Aurélio Buarque, passar-se-ão onze anos até que surja outra obra traduzida por ela.
Ainda nos anos 40, houve outra breve experiência sua no setor editorial: em 1946, a José Olympio publica Cranford, de Elizabeth Gaskell, em tradução de Rachel de Queiroz, em sua coleção Fogos Cruzados, vol. 53. A edição é acompanhada por notas e notícia biográfica elaboradas por Olívia.
Quanto à tradução editorial, somente em 1956 Olívia volta à cena, num trabalho de grande fôlego, um verdadeiro marco: a primeira coletânea de poemas de Emily Dickinson a surgir no Brasil, com seleção, apresentação, nota biográfica e tradução de sua lavra. O volume saiu pela Editora Saraiva, na coleção Cântico dos Cânticos – As Obras-Primas da Poesia Universal, vol. 4. O livro, contendo 41 poemas, trazia o título Poesias escolhidas de Emily Dickinson, com ilustrações de Darcy Penteado. A despeito da relevância desse lançamento, a cobertura na imprensa da época foi inexpressiva: apenas quatro breves notas ao longo dos meses subsequentes. Embora em anos posteriores alguns poemas avulsos dessa coletânea tenham sido reproduzidos na imprensa, decorreram cerca de duas décadas até que lhe fosse dado o devido reconhecimento e Olívia Krähenbühl se consagrasse como a real introdutora de Emily Dickinson no Brasil.
Ainda em 1956, sai sua tradução Uma fábula, de William Faulkner, pela Editora Mérito. Publicada nos EUA em 1954, A Fable valeu a Faulkner dois importantes prêmios em 1955: o Pulitzer Prize e o National Book Award. Tal como ocorreu com a seleta de Dickinson, o lançamento da edição brasileira de A Fable teve pouquíssima repercussão na imprensa da época: apenas a resenha feita pela própria Olívia, e em 1957 um trecho da obra publicado no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Em 1983, essa tradução de Olívia passa a ser editada pela Nova Fronteira, onde se mantém até a data de hoje.
No ano seguinte, uma curiosidade, e aqui temos de recuar alguns anos: em 1950, quando a José Olympio lançou Moby Dick, de Herman Melville, em tradução de Berenice Xavier, foram omitidas as epígrafes sobre as baleias. Na segunda edição da obra, em 1957, a editora as reintroduziu, em tradução feita por Olívia.
Em 1958, também pela José Olympio, sai sua tradução de O Etrusco, de Mika Waltari, reeditada pela José Olympio em 1967 na coleção Sagarana, vol. 62.
Livros traduzidos em 1960: Noites brancas e outras histórias, vol. VIII das Obras Completas (Ficção) e Ilustradas de F.M. Dostoiévski, pela José Olympio. Entre as oito histórias que compõem o volume, Olívia traduziu “Noites brancas”, “O heroizinho”, “A aldeia de Stepantchikovo e seus moradores”, “Polzunkóv” e “Um coração fraco”. As demais ficaram a cargo de Vivaldo Coaracy. O ladrão honrado (várias histórias), vol. IX das Obras Completas (Ficção) e Ilustradas de F.M. Dostoiévski, pela José Olympio. Das seis histórias que compõem o volume, Olívia traduziu “O ladrão honrado”, “O sonho do titio” e “A mulher alheia e o homem debaixo da cama” (as demais foram traduzidas por V. Coaracy e Wanda Murgel de Castro).