O Cinturão Mineiro corresponde a uma faixa orogênica de idade paleoproterozóica de direção geral NE-SW que bordeja o sul do Cráton do São Francisco.
Possui aproximadamente 180km de extensão e 50 km de largura, e está localizado em porção à sudoeste da região do depósito de ferro de classe mundial do Quadrilátero Ferrífero, estado de Minas Gerais. Tem suas imediações a cidade de Conselheiro Lafaiete, a norte, e o município de Lavras, a sul. miniaturadaimagem|345x345px|Contexto Geotectônico Regional: Componentes do embasamento e mapa geológico do extremo sul do CSF O termo “Cinturão Mineiro” foi introduzido por Teixeira (1985), para designar um conjunto de plútons paleoproterozóicos, de composição félsica à intermediária, intrudidos em ampla sequência de greenstone belts situados às bordas dos núcleos arqueanos, ao sul do Quadrilátero Ferrífero. Com o tempo diversos autores contribuíram para ampliar o conhecimento a cerca desse cinturão. O cinturão mineiro pode ser dividido por alguns lineamentos em terrenos geologicamente distintos. O primeiro corresponde ao Lineamento Jeceaba-Bom Sucesso (LJBS), que ocorre na porção norte e separa terrenos compostos por gnaisses arqueanos do Complexo Bonfim e rochas paleoproterozóicas do Cinturão Mineiro. Ele possui direção NE-SW e é caracterizado por estruturas de campo que apresentam componentes de cisalhamento sinistrais. A leste existe o Lineamento Congonhas-Itaverava (LCI) e separa rochas arqueanas a paleoproterozóicas do Complexo Santo Antônio do Pirapetinga das rochas metavulcanossedimentares e plútons paleoproterozóicos do Cinturão Mineiro. A direção desse lineamento é NW-SE e as zonas de cisalhamento possuem o componente dextral predominante. Além destes, a extremidade sul do Cinturão Mineiro é limitada por um terreno metamórfico de alto grau indiferenciado pertencente ao Cinturão Ribeira (Teixeira et al., 2015Teixeira W., Ávila C. A., Dussin I. A., Corrêa Neto A. V., Bongiolo E. M., Santos J. O., Barbosa N. 2015. A juvenile accretion episode (2.35-2.32Ga) in the Mineiro belt and its role to the Minas accretionary orogeny: Zircon U/Pb-Hf and geochemical evidences. Precambrian Research 256, 148–169.).
A formação do Cinturão Mineiro é interpretada como uma acreção de arcos de ilhas e arcos continentais ativos durante o Paleoproterozoico, resultando na gênese de rochas com idades entre 2,46 a 2,09 Ga, tais como ortognaisses e metavulcanossedimentares que, posteriormente, foram intrudidas por granitoides. Os trabalhos realizados no Cinturão Mineiro permitem interpretar que a aglutinação do cinturão se deu por meio da construção de três arcos magmáticos, em ambiente oceânico e continental.
O metamorfismo regional das diferentes unidades litoestratigráficas do cinturão é predominantemente de baixo a médio grau, compatível com as fácies xisto verde a anfibolito. No entanto, também ocorre um metamorfismo de alto grau, que pode ser representado pela fácies granulito (Toledo, 2002Toledo, C. (2002). Evolução metamórfica do Complexo Uruaçu, Cinturão Mineiro, MG. Tese de Doutorado, Universidade de Brasília.; Cherman, 2004Cherman, A. R. (2004). Fácies metamórficas do Cinturão Mineiro. In: Anais do 39º Congresso Brasileiro de Geologia. Sociedade Brasileira de Geologia.; Ávila et al., 2010Ávila, C. A. P., et al. (2010). Petrologia e estratigrafia dos granulitos e anfibolitos do Cinturão Mineiro: Um guia de campo. Belo Horizonte: CPRM (Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais).). (Noce et al. 2007, Seixas et al. 2012Seixas L. A. R., David J., Stevenson R. 2012. Geochemistry, Nd isotopes and U/Pb geochronology of a 2350Ma TTG suite, Minas Gerais, Brazil: Implications for the crustal evolution of the southern São Francisco craton. Precambrian Research 196–197, 61–80., Moreira et al. 2018).
Já a evolução do Cinturão Mineiro está intimamente relacionada à Orogenia Transamazônica, cujos processos compressivos produziram um extraordinário volume de rochas ígneas ácidas de composição metaluminosa a peraluminosa e de tendência calcioalcalina (Ribeiro et al., 1995).
Estratigrafia miniaturadaimagem|386x386px|Mapa geológico simplificado da região do Quadrilátero Ferrífero e Cinturão Mineiro. a) Localização do Quadrilátero Ferrífero e Cinturão Mineiro na borda sudeste do Cráton São Francisco. b) Relação espacial entre Quadrilátero Ferrífero, a norte, e Cinturão Mineiro, a sul, marcado pelo polígono em vermelho. c) Mapa geológico com as principais unidades litoestratigráficas do Cinturão MineiroO Cinturão Mineiro compreende diferente tipos de ortognaisses Paleoproterozóicos (trondhjemito, granodiorito, granito), corpos ígneos indeformados (gabro, diorito, granito) e sequências supracrustais. Com base em Vieira et al. (2019), a aglutinação do Cinturão Mineiro pode ser atribuída a três arcos magmáticos, correlacionados, pelo espectro de idades, à orogênese Transamazônica.
O primeiro arco pode ser subdividido nas sequências: Restinga de Baixo (características químicas relacionadas a MORB), Resende Costa (ortognaisses de caráter cálcio-alcalino, metaluminoso a peraluminoso) e Lagoa Dourada (uma suíte subalcalina a cálcio-alcalina, metaluminoso a peraluminoso). Já o segundo arco é representado pelas sequências: Rio das Mortes (com características químicas relacionadas a MORB), Alto Maranhão (uma suíte cálcio-alcalina, TTG de alto Al, metaluminoso) e Ritápolis (um metagranitoide cálcio-alcalino, metaluminoso a peraluminoso). Por último, o terceiro arco magmático tem como sequências características: Nazareno/Dores do Campo (afinidade MORB e komatiitos depletados em alumínio) e Serrinha-Tiradentes (suítes cálcio-alcalino, metaluminoso e peraluminoso).
Quanto à estratigrafia do Cinturão Mineiro propriamente dita, Vieira et al. (2019) sugere a divisão em 4 unidades supracrustais paleoproterozóicas: Nazareno, Dores do Campo, Rio das Mortes e Congonhas-Itaverava.
Congonhas-Itaverava: é uma sequência metavulcanossedimentar que está sob condições de metamorfismo de fácies xisto verde e é intrudida pelo Plúton Congonhas. Da base para o topo apresenta rochas máficas e ultramáficas (komatiitos); formações ferríferas bandadas, mármores e pelitos; grauvacas e folhelhos negros. Deve representar um ambiente intra-oceânico.
Rio das Mortes: subdividida, da base para o topo, em unidades metamáficas/metaultramáficas (anfibolito cinza-escuro, fino a médio, foliado e com intercalações de gnaisse bandado – tipo TTG), Formação Lafaiete (sequência siliciclástica de metagrauvaca-argilito) e a Formação Santo Amaro (quartzitos sericíticos associados a filitos).
Nazareno: composta principalmente por rochas máficas e ultramáficas, caracterizada por metakomatiitos com textura spinifex nas porções basais da unidade. Nas seções intermediárias e superiores ocorrem anfibolitos (metabasaltos), filitos, quartzitos e gonditos.
Dores do Campo: composta essencialmente de anfibolitos, filitos, gonditos e quartzitos, além de rochas metaultramáficas na base da sequência.
Benedito (2020)BENEDITO, G. S. R. Arcabouço litoestrutural do setor setentrional do Cinturão Mineiro. 2020. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Engenharia Geológica) - Universidade Federal de Ouro Preto. ainda acrescenta as unidades intrusivas compostas por rochas graníticas do paleoproterozoico: Batólito Cassiterita, Suíte Resende Costa, Suíte Lagoa Dourada, Suíte Serrinha-Tiradentes, Plúton Congonhas, Batólito Ritápolis e Suíte Alto Maranhão.
Batólito Cassiterita: é o corpo plutônico mais antigo da região até o momento. Segundo datações em U-Pb o batólito pode ter cerca de 2472-2414 Ma (Barbosa 2015). Suas rochas são basicamente tonalito e trondhjemito, contém alguns xenólitos de rochas máficas e ultramáficas, além de ser intrudido por granitoides e pegmatitos.
Suíte Resende Costa: formada por ortognaisses peraluminosos, assembleias tipo TTG e anfibolitos.
Suíte Lagoa Dourada: ocorre como uma intrusão de aproximadamente 18 km de extensão e 8km de largura na porção central do Cinturão Mineiro, sendo composta por biotita trondhjemito e tonalitos da série biotita-hornblenda.
Suíte Serrinha-Tiradentes: de pequena extensão, representam plútons e rochas vulcânicas que intrudem as unidades supracrustais. A Suíte Serrinha apresenta rochas vulcânicas e sub vulcânicas como dacitos e granófiros. Já a Suíte Tiradentes compreende rochas como andesitos, dacitos e granófiros associados a rochas metassedimentares.
Plúton Congonhas: compreende rochas de composição granodiorítica a trondhjemítica.
Batólito Ritápolis: ocupando a porção central do Cinturão Mineiro e correspondendo à maior intrusão deste, o Batólito Ritápolis é composto por rochas como leucogranitos, granodioritos e tonalitos foliados. Apresenta também diques pegmatíticos e xenólitos provenientes das rochas encaixantes.
Suíte Alto Maranhão: composto predominantemente por tonalitos foliados, esta suíte ainda apresenta enclaves máficos e mistura magmática difusa. Intrude sequências vulcanossedimentares da porção nordeste do Cinturão Mineiro.
Estruturas A geologia estrutural do Cinturão Mineiro, localizado na porção central do estado de Minas Gerais, é caracterizada por uma complexa história de deformação e importante atividade tectônica. Neste contexto, destacam-se os lineamentos Congonhas-Itaverava e Jaceaba-Bom Sucesso, bem como a Zona de Cisalhamento do Lenheiro, que desempenham papéis significativos na evolução estrutural da região.
O lineamento Congonhas-Itaverava, conforme estudado por Toledo (2002), se estende por aproximadamente 60 km na direção nordeste-sudoeste, acompanhando a borda leste do Quadrilátero Ferrífero. Esse lineamento é caracterizado por uma sequência de rochas metavulcânicas e metassedimentares dobradas e fraturadas, apresentando um padrão de deformação principal de dobramentos em uma escala regional. Essa fase deformacional está relacionada ao evento tectônico denominado Brasiliano, que ocorreu durante o ciclo orogênico Brasiliano-Pan-Africano, entre 750 e 550 milhões de anos atrás.
Já o lineamento Jaceaba-Bom Sucesso, de acordo com estudos de Campos (2004), corta transversalmente o Cinturão Mineiro, estendendo-se por aproximadamente 90 km no sentido noroeste-sudeste. Esse lineamento é caracterizado por uma zona de cisalhamento de direção principal noroeste-sudeste, com movimentação destral. Essa estrutura apresenta evidências de intensa deformação tectônica, como dobramentos, falhas e zonas de cisalhamento associadas. A fase deformacional associada ao lineamento Jaceaba-Bom Sucesso é atribuída ao evento tectônico Brasiliano, ocorrido no mesmo período mencionado anteriormente.
Por sua vez, a Zona de Cisalhamento do Lenheiro, conforme mencionado por Gomes et al. (2010), tem direção aproximada de Leste-Oeste que afeta as rochas do Cinturão Mineiro. Essa zona de cisalhamento é caracterizada por uma série de falhas e fraturas, indicando intensa deformação tectônica. A fase deformacional associada à Zona de Cisalhamento do Lenheiro é atribuída a eventos tectônicos posteriores ao evento Brasiliano.
Em síntese, o Cinturão Mineiro apresenta uma geologia estrutural complexa, com a presença de dobras, falhas e zonas de cisalhamento, que desempenham um papel fundamental na concentração de minerais economicamente importantes. O estudo dessas estruturas e sua relação com os depósitos minerais tem impulsionado a atividade de exploração mineral na região, sendo essencial para o entendimento e aproveitamento de seus recursos geológicos.
Metamorfismo
De acordo com estudos realizados por Toledo (2002), o metamorfismo no Cinturão Mineiro é predominantemente de baixo a médio grau, variando de condições anquizonais a epizonais. Essas condições metamórficas indicam temperaturas moderadas, geralmente entre 200°C e 600°C, e pressões que variam de 1 a 8 kbar. No entanto, também são encontradas fácies de alto grau em algumas áreas, com temperaturas superiores a 700°C e pressões acima de 8 kbar.