miniaturadaimagem|Wiphala de Túpac Katari O katarismo é uma tendência política da Bolívia inspirada no nome de Túpac Katari, importante liderança indígena da virada do ao XIX. Sua proposta funcionou como base organizativa e ideológica de processos de emergência indígena ocorridos desde a década de 1970. Esta tendência fomentou mobilizações contra as políticas neoliberais dos anos 2000 ao 2005, na Bolívia, que culminaram na eleição do dirigente cocalero Evo Morales à presidência. Ideais kataristas têm sido parcialmente incorporados na nova Constituição política do Estado boliviano de 2009 e no discurso oficial do Governo de Morales, apesar de não completa e efetivamente realizados. Tais ideais expressam-se especialmente nas noções de "bem-viver" e "Estado plurinacional".
Antecedentes O katarismo diferencia-se de outros movimentos indigenistas, sobretudo por sua relação dual acerca das questões étnicas, bem como das demandas classistas - em sua face mais ligada à luta camponesa-, as quais convergem-se em seu cerne na forma da luta indígena, aglutinando as reivindicações de dois setores fundamentais para as populações indígenas-campesinas do Altiplano boliviano.HASHIZUME, Mauricio Hiroaki. A formação do movimento Katarista. classe e cultura nos Andes bolivianos. 2010. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo. Para que seja possível compreender as bases e a atuação política do movimento katarista é preciso compreender os antecedentes históricos que levaram à sua formação e o desenvolvimento político no cenário boliviano.
As bases para a construção do movimento katarista e de suas reivindicações apresentam-se na longa duração, fazendo parte de um mundo entrelaçado,CUSICANQUI, Silvia Rivera; PAZZARELLI, Francisco. Esas papitas me están mirando! Silvia Rivera Cusicanqui y La Textura Ch’ixi de los mundos. Revista de antropologia da UFSCar, v. 9, n. 2, p. 219-230, 2017. pautado não na conciliação entre os grupos, mas na coexistência e disputa entre o fluxo da história oficial e os demais fluxos contrários produzidos por suas reivindicações.TAPIA, Luis. Movimientos sociales, movimientos societales y los no lugares de la política. Cuadernos del pensamiento crítico latinoamericano, v. 17, 2009.
Sua história liga-se profundamente à ascensão do modelo administrativo colonial, fato que mudaria completamente a estrutura vigente e, dessa forma, o eco dessas transformações alterariam completamente os rumos das populações originárias que ocupavam o território que a posteriori viria a ser reconhecido como parte da região centro-sul do continente Americano, como é o caso das populações aymarás, antes parte do Tawantinsuyo.
Período de revoltas coloniais Durante o período colonial, iniciou-se um processo de fragmentação das terras e a conversão das terras comunais (ayllus) - Pauta de extrema importância para os movimentos indígenas - em repartimentos, o que significava uma redução na autonomia e um risco à sobrevivência da cultura e organização indígena, culminando na assinatura forçada de um acordo compulsório entre representantes aymarás e a coroa Espanhola, garantindo aos nativos direito de manter parte de suas terras ao custo do pagamento de impostos desmedidos, além do pagamento da mita.
O aumento dos impostos junto às constantes interferências por parte da coroa na escolha dos kurakas, lideranças indígenas chefes dos ayllus, geraram revoltas que eclodiram em diversas regiões, as quais no geral foram violentamente reprimidas. Dentre estas revoltas, destaca-se a busca por maior autonomia e o teor nativista uma primeira forma de luta baseada em fatores étnicos e culturais, até então muito raro entre os demais grupos. Por volta do ano de 1780, encontramos um dos maiores exemplos de uma revolta com as citadas características, representado na figura de um importante líder Quéchua, José Gabriel Condorcanqui, mais conhecido como Tupac Amaru II.COSTA, Lício Romero. A importância da figura de Tupak Katari para os movimentos indigenistas bolivianos na segunda metade do século XX–. XXVI Simpósio Nacional de História–ANPUH, 2001.
Condorcanqui fora um respeitado kuraka, ao ponto de receber da coroa o título de Marquês de Oropesa. O mesmo, apesar de muito influente, fracassara em todas as tentativas de negociação com a coroa espanhola. Deve-se notar que inicialmente Condorcanqui não objetivava nada próximo a uma independência, mas sim uma negociação por melhores condições de trabalho, na qual, por exemplo, exigia a extinção da mita e de outras formas de opressão exercidas pela coroa. Era sobretudo uma busca, assim como posteriormente empreendido por outros grupos, por mudanças nos parâmetros impostos pelo sistema colonial,CHUST, Manuel. Reflexões sobre as Independências Ibero-americanas . Revista de História, São Paulo, n. 159, p. 243–262, 2008. DOI: 10.11606/issn.2316-9141.v0i159p243-262. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/19095.. Acesso em: 4 dez. 2024. não objetivando necessariamente uma quebra, mas sim o reconhecimento de cidadania e direitos sob a terra.
Suas frustradas tentativas de negociação o guiam a um movimento de independência originária. José Gabriel Condorcanqui, o qual considerava-se um descendente direto de Tupac Amaru, parte da construção da ideia de um legítimo líder indígena - passara a defender um renascimento do império Inca que culminou na revolta de Tupac Amaru II, onde o mesmo liderou um exército composto por contingente sobretudo indígena.
Tupac Amaru II acabara torturado e morto após ser traído. No entanto, os resultados de sua luta não foram esquecidos. É possível notar os resultados na influência exercida por sua imagem, tanto na criação de símbolos - mantendo o nome Tupac relevante e símbolo da insurgência indígena – quanto por fomentar as lutas travadas pelas diversas populações originárias. Como podemos notar com o surgimento de outras duas revoltas iniciadas em períodos muito próximos: a primeira liderada por Tómas Katari, Kuraka da cidade de San Pedro de Macha, localizado na província de Chayanta, em Potosí, e uma segunda, que será particularmente mais explorada aqui, liderada pelo camponês Julián Apaza, posteriormente conhecido como Tupac Katari.
Tupac Katari Julián Apaza tem em sua origem e simbolismo seus aspectos mais emblemáticos. Diferentemente de demais líderes notórios presentes neste ambiente de revoltas, Apaza não se configurava como parte de qualquer elite, nem era um kuraka. Era um indivíduo sem qualquer prestígio, sem títulos e nem cargos públicos. Era tão somente um camponês, parte da plebe e de uma minoria étnica. Sua origem tornou-se uma poderosa ferramenta para a construção da luta indígena na época; tornava real o sentimento de que qualquer grupo poderia questionar os desmandos da coroa.
Katari tornou-se símbolo da luta indígena e campesina, representando a união de dois eixos fundamentais para as populações originárias presentes em território boliviano, a via das lutas de raça e de classe, sendo por muitas vezes retomado pelos mais diversos movimentos de teor indigenista e classista. No entanto, os simbolismos não se encerram, apenas, em sua origem, mas se tornam ainda mais reveladores ao observar-se o nome que Julián Apaza decide assumir ao início de sua liderança, Tupac Katari.
O líder indígena surge no cenário político em meio a um momento de declínio das condições de vida das populações presentes no Altiplano, passando a liderar mais de 40000 pessoas ao lado de sua esposa, Bartolina Sisa, outra figura de suma importância para o movimento indígena, sobretudo pelo protagonismo de uma figura feminina influenciando, por exemplo, a Federação Nacional de Mulheres Campesinas de Bolívia “Bartolina Sisa” (FNMCB-BS). Apaza, buscando legitimar-se enquanto líder indígena, assume características fortemente messiânicas, profundamente vinculadas à cosmovisão e mitologia originária, parcialmente sincretizada com a fé católica.
Este aspecto messiânico, particularmente em sua faceta mais ligada à mitologia aymará e quéchua, apresenta-se no próprio nome que o mesmo assume - Tupac Katari. Primeiramente destaca-se a força presente neste nome, devido a seu vínculo com a figura de líderes que anteriormente assumiram esse nome, e, particularmente, pelo significado do nome “Tupac Katari”, sendo Tupac (Tupaq) é um nome de origem quéchua que traduz-se como: real, soberano; já Katari, aqui escrito em grafia quéchua, mas possuindo um equivalente no dialeto aymara, asiru, possui um significado mais complexo, sendo possível traduzi-lo como víbora e estando ligado a conceitos do mundo aymará, especialmente à existência de uma divisão entre o “superior”, representado pelo Urcu e o “inferior” ou Uma. Ao centro destes, existindo o Taypi, um espaço que não é nem Urcu, nem Uma, mas sim um espaço intermediário onde sempre se busca a resolução dos conflitos. Dessa forma, Tupac Katari transparece em seu nome a relação étnico-ancestral presente em sua formação.
A relação étnico-ancestral é fundamental para a construção da narrativa criada por e no entorno de Katari. O mesmo tornou-se um imprescindível símbolo para os movimentos indígenas, acumulando sobre si um importante capital cultural, em grande parte devido a sua capacidade de penetração no imaginário popular, sobretudo por sua origem – enquanto parte da chamada plebe – e o uso tanto dos elementos mais tradicionais de mitologia originária, quanto de aspectos da religiosidade católica, no momento religião oficial. Destaca-se, ainda, o uso de itens simbólicos, tais quais a wiphala, a quipu e os pututus que representam parte da identidade cultural dos povos indígenas. Tais aspectos junto a sua consolidação enquanto líder de diversos atos de rebeldia possibilitou com que Tupac Katari marcasse os movimentos indígenas que, após a sua morte, adotariam a sua figura para representar a luta indígena e campesina por melhores condições, presente na Bolívia.
Periodo pós-independencia O processo de independência não significou a construção de uma sociedade de iguais direitos e nem uma quebra da dominação exercida pelo estado sob os povos indígenas presentes no recém construído país, expondo as raízes do colonialismo presentes na sociedade boliviana. A construção do estado boliviano, sob a égide Katarista, dá-se a partir da disputa de forças entre dominantes e dominados. Tendo essas dinâmicas sido normalizadas pela via do racismo, esse processo evidencia-se por sucessivas medidas de exclusão institucionalizada.LINERA, Alvaro Garcia. A Potência Plebeia – ação coletiva e identidades indígenas, operárias e populares na Bolívia. São Paulo, Boitempo, 2010
Durante os primeiros anos de vida da então recente independente nação, Simón Bolivar decreta no ano de 1825, a propriedade individual e legitimou Patrones e Criollos na usurpação e não reconhecimento das terras comunais, resultando na perda de territórios inicialmente pertencente a povos originários. Podemos notar, nos governos seguintes, políticas que reforçam o processo acima. Dinâmica presente no governo Mariano Molgarejo (1864-1871) e particularmente evidenciada no Governo Adolfo Bollivián (1873-1874), o qual apresentava lemas como “O Estado é dono da terra e os índios só a possuem como inquilinos”
Promulga-se, no ano de 1824, a lei de Exvinculación a qual garantiu a concessão de títulos de propriedade individual a membros seletos da sociedade, os quais tinham garantidos os direitos de exercer os chamados “atos de domínio”, incluindo o direito de vender tais terras. A lei em questão fora ainda responsável por colocar na ilegalidade as comunidades indígenas. Nos anos seguintes realizou-se uma reforma agrária (1874-1876), com o objetivo de expandir a Hacienda como modelo de propriedade rural e com este, seus padrões de domínio.