A língua lavukaleve, também conhecida como laumbe ou laumbem, é uma língua papua falada nas Ilhas Russell, um arquipélago localizado na Província Central das Ilhas Salomão.

A língua é falada por cerca de 1800 nativos, que possuem um estilo de vida agrícola e atrelado à pesca artesanal. Junto às línguas bilua, e savosavo, o lavukaleve forma a família linguística . Entretanto, existem fontes que classificam ela como uma língua isolada em virtude das grandes diferenças que ela possui com as outras línguas de sua família. As quatro são classificadas como línguas papuas, um termo genérico para designar línguas do noroeste da Melanésia que não são austronésias.

Apesar do crescimento populacional que as Ilhas Salomão tiveram nos últimos anos (o que implica no maior número de falantes de Lavukaleve da história), ele é classificado como uma língua ameaçada, pois os jovens, principalmente do leste das Ilhas Russell, já não sabem falar Lavukaleve. Nesse contexto, as duas línguas que mais ameaçam substituir o idioma nativo são o pijin e inglês, uma vez que são esses os idiomas usados nas escolas e nas transmissões de rádio.

Etimologia A palavra lavukaleve é composta pelo radical lavu e pelo sufixo -kal da palavra ve. Os próprios nativos não sabem qual o significado de lavu, já -kal é o sufixo que representa o plural de substantivos. Sendo assim, lavukal é o etnônimo dessa comunidade. Com isso, une-se o nome desse povo com ve, que significa "pertencente a", formando o significado da língua: "pertencente aos Lavukals".

Por outro lado, a língua também é chamada de laumbe, porque é dessa forma que os habitantes da Ilha de Santa Isabel se referem aos lavukals.

Ademais, existe uma fonte que cita russells como outro possível nome, sendo uma clara referência ao nome do arquipélago em que a língua é pronunciada.

Distribuição Lavukaleve é falada ao longo das cerca cem ilhas que constituem as Ilhas Russell, e são poucos os lavukals que não vivem nesse local (vale a menção de algumas famílias que vivem em Honiara, a capital no país, na ilha de Guadalcanal). A maior parte dos falantes não habitam Pavuvu, a maior ilha do arquipélago, mas sim ilhas menores próximas a ela.

Dialetos Os nativos dividem a língua em três áreas principais, distinguindo-as pelo padrão de entonação: Área oeste: Tem como vilas principais Losiolen, Mane, Leru, Baesen, Marulaon, Karumulun, Ale, Nono e Laola. Lavukals de todas as zonas consideram a variante ocidental como a língua real, pois é a mais conservadora. Área central: Falado na vila Hae. Caracterizado por um padrão de entonação cantado. Área leste: Tem como vilas principais Loun, Moe, Linggatu, Tain, Hoi e Alokan. A fala dessa área é mais forte e dura, além de ter sofrido mais influência da língua pijin e de línguas de Guadalcanal por conta de casamentos entre as ilhas.

No entanto, apesar das diferenças, não é reconhecida nenhuma diferença lexical ou gramatical entre as variedades, com exceção daquelas resultantes da mistura de línguas no leste.

Línguas relacionadas

Mesmo existindo 63 línguas austronésias nas Ilhas Salomão, o lavukaleve compartilha pouco de seu vocabulário com elas, e pouco também com as línguas de sua família. Os próximos quadros ajudam a compreender a relação entre esse idioma e as outras línguas de seu país.

Como comparação, línguas austronésias tendem a compartilhar entre si 30 a 50% de seus vocabulários. E vale destacar que Paripao, com apenas 10,8% de compatibilidade, é a língua austronésia mais semelhante com o lavukeleve no que tange ao vocabulário.

+ Semelhança de vocabulário entre o lavukaleve e outras línguas das Ilhas Salomão Língua Localização geográfica Família Percentual de semelhança com Lavukaleve Número de palavras comparadas Savosavo Savo Salômonica central 13,7% 197 Touo (baniata) Sul de Rendova Salômonica central 8,2% 195 Bilua (mbilua) Vella Lavella Salômonica central 7,6% 197 (poro) Santa Isabel Austronésia 8,9% 190 (nggela) Ilhas Florida Austronésia 8,7% 196 Paripao Nordeste de Guadalcanal Austronésia 10,8% Línguas austronésias de Guadalcanal Guadalcanal Austronésia cerca de 8,5% (wala) Malaita Austronésia 8,2% 195 Maioria das outras línguas das Ilhas Salomões Ilhas Salomões cerca de 4 e 5%

+Exemplos de palavras nas línguas mencionadas acima Lavukaleve Savosavo Touo Bilua Gela Gao Paripao Langalanga Coco nei ᵑgazu ēŋo niru niu kʰɔilɔ niu liu hasa vaza ⁿdeuru sau vaha gruba vaða fata Aranha tata kolomu miasa laɔsaru kʰakafre susuɣɔᵐba laɔ kа̄futɔ Casa tail tuvi va paⁿde suga vale luma Noite hamus muzi hiu ipu ᵐbɔŋi bɔŋiñɔ bɔni ʔae Olho lemi nito ᵐberо̄ vilu mata-na natʰatʰa-ña mete mа̄-la Pessoa malav mapa finona/finozo maᵐba tinɔni nanɔni lɔli Andar kelai lelakeva ātia/ⁿdoria talio sakutua zazaʔɔ liu Dormir irui izi īsia/īnsia maroŋo/maroŋa māturu moʔosu Pensar oluɣu ɣanaɣana ᵑgana kerukeruto ɣanaɣana ɣaɔɣatʰɔ matata Trabalhar foifoira aᵑgutu ozoso irurupoto lutu lɔku gālo

História História da língua

Até o início de 1900, o povo lavukal vivia em Pavuvu. Todavia, com a chegada da empresa britânica British Company Levers (atualmente chamada de RIPEL - Russell Islands Plantation Estates Limited), que instalou plantações na principal ilha, a população nativa foi realocada para as ilhas ao redor, em grande medida contra a vontade deles. Por isso, a maioria das vilas de lavukals estão fora de Pavuvu. Até hoje existe a luta pelos direitos de Pavuvu, sendo que ela foi intensificada por conta de operações para a extração de madeira em Linggatu, no sul de (segunda maior ilha do arquipélago).

História da documentação A primeira menção impressa à língua lavukaleve foi feita por , em um livro chamado The Non-Melanesian languages of the Solomon Islands, publicado no ano de 1928. Ray apresentou informações sobre pronomes, numerais, adjetivos, um vocabulário de 30 palavras e poucas frases. Arthur Capell apresentou um comparativo entre as línguas salomônicas centrais no ano de 1969, em um livro intitulado Non-Austronesian languages of the British Solomons, sendo que Evelyn Mary Todd também fez isso no ano de 1975, no livro The Solomon language family.

História da classificação Ray reconheceu, em 1928, que lavukaleve não é uma língua austronésia e agrupou-a em um grupo que atualmente é conhecido como família linguística salômonica central. Já em 1953, Peter A. Lanyon-Orgil, no livro The Papuan languages of the New Georgian Archipelago, notou que lavukaleve era uma língua papua, assim como as outras de sua família e a . Capell, agora no ano de 1962, reforça a ideia de que lavukaleve seria uma língua não austronésia, no livro Oceanic linguistics today, assim como Joseph Harold Greenberg em 1971, no livro The Indo-Pacific Hypothesis. Por outro lado, propôs entre 1972 e 1982 a existência de um filo , na qual o lavukaleve estaria incluso. E Todd tentou formalizar a relação genética entre as quatro línguas salomônicas centrais, cogitando a possibilidade de também fazer parte do grupo. Finalmente, Malcolm David Ross sugere, em 2001, em um livro intitulado Is there an East Papuan Phylum? Evidence from pronouns, que o filo papua oriental seria composto por oito grupos distintos.

Fonologia Consoantes Lavukaleve possui um inventário de fonemas consonantais de tamanho médio. A seguir, é apresentado o inventário consonantal da língua e o destaque para casos de alofonia e de pronúncia aspirada: + Fonemas consonantais do Lavukaleve Bilabial Labiodental Alveolar Velar Glotal Plosiva Nasal Vibrante múltipla Fricativa Aproximante lateral

Plosivas: o fonema /p/ é muito raro, ocorrendo apenas em 14 palavras, sendo seis delas claros empréstimos recentes do pijin, e sempre é pronunciado de forma aspirada, ou seja, como [pʰ]. Já /t/ é pronunciado como [tʰ], com exceção de quando está no começo de palavras específicas, como tumai (realmente), sendo pronunciado como [t]. O fonema /k/ é pronunciado como [kʰ], o /b/ é pronunciado como [b], mas geralmente é quando está entre vogais e /d/ também é raríssimo (ocorre apenas em 13 palavras) e é pronunciado como [d], porém, assim como o /b/, normalmente é pré-nasalizado entre vogais. Vibrantes múltiplas: o /r/ geralmente é pronunciado como [r], às vezes como [] e raramente como [] independente da posição. Aproximantes centrais: /β̞/ (símbolo usado para uma aproximante bilabial) é pronunciado como [β̞] e, raramente, como []. Já o /ɰ/ pode ser pronunciado como [] ou [ɰ] no início da frase, e, além desses dois fones, também pode ser pronunciado como [] em outras posições, entretanto quase sempre tem som de [ɰ]. Vogais Lavukaleve possui 5 vogais. A seguir, é apresentado o inventário vocálico e os fones de cada fonema: + Fonemas vocálicos do lavukaleve Anterior Central PosteriorFechada Meio-fechada Aberta

O /i/ pode ser pronunciado como [i] em qualquer caso, mas, quando está com um acento tônico, também pode ser pronunciado como [ɪ]. Nesse sentido, /e/ é pronunciado como [e], /a/ como [a], /o/ como [o] ou [] e /u/ como [ɔ], se depois de um /m/, e [u] nos outros casos.

Fonotática Todas as consoantes podem aparecer no começo de uma sílaba, e todas, com exceção de /p/, /b/, /d/, e /h/, podem aparecer no final de uma. Todos os encontros vocálicos foram encontrados, com exceção de /ue/.

Acento tônico O acento tônico do lavukaleve é parcialmente fixo e parcialmente atribuído lexicalmente. A maioria das palavras têm o acento na sílaba inicial e cerca de 18% têm na segunda sílaba, sendo muitos desses casos de reduplicações no formato C¹V¹C¹V¹X (ou seja, uma ordem em que a primeira consoante é repetida na terceira letra, assim como a primeira vogal é repetida na quarta letra, além de um complemento, conforme va'var, que significa conversar). Nesse caso, obrigatoriamente o acento será colocado na segunda sílaba. Também existe um número pequeno de palavras com acento tônico na terceira sílaba, como mala'gula (pássaro). Outras palavras são estrangeirismos recentes e, por isso, retêm o padrão de acentuação original, como em ta'rak, palavra que foi emprestada do pijin e significa caminhão.

Todos os substantivos no formato CVCV têm acento tônico na primeira sílaba, e quase todas as palavras nesse formato também, como 'piru, que significa lais de guia. Já no formato CVCVC, é mais comum o acento na segunda sílaba, como fo'sal (peixe). Qualquer outra estrutura pode receber acento na primeira ou na segunda sílaba (e raramente na terceira).

Sufixos não alteram o acento tônico, mas prefixos junto a substantivos monossilábicos sim. Sendo assim, uma vez que o único prefixo possível nesse caso são pronomes pessoais, todos os exemplos serão com eles adicionados ao radical do substantivo, como em 'nu (cabelo) → 'o-nu (cabelo dele). Às vezes, a adição do pronome faz o substantivo perder a vogal final. Caso isso gere um substantivo monossilábico, existe a possibilidade do acento mudar de lugar, conforme 'fina (pertences) → 'e-fin (nossos pertences). Finalmente, existe a remota possibilidade da adição em um substantivo polissilábico gerar uma mudança no lugar do acento, por exemplo 'tua (esposa) → 'o-tua (esposa dele). Processos morfofonêmicos Existem quatro processos morfofonêmicos na língua lavukaleve: reduplicação, inserção de plosiva glotal, perda vocálica e mudança de qualidade vocálica. A seguir, é apresentado os detalhes de cada processo. Reduplicação Ocorre principalmente em verbos, mas também em substantivos, adjetivos e partículas adverbiais. Pode ocorrer de forma holística, ou repetindo apenas o CV, CVV ou CVCV inicial. Entretanto, qualquer que seja a reduplicação adotada, seu significado será o mesmo. Em alguns casos, não possui função alguma e, em outros, possui um significado semântico, conforme alguns exemplos: • mina → minamina "coisa" → "tudo" • lafa → lafalafa "lugar" → "todo lugar" • karial → karialkarial "lentamente" → "muito lentamente"

Inserção de plosiva glotal