Karl Frank, também conhecido no Brasil como Carlos Frank (Hamburgo, 22 de julho de 1886 — Curitiba, 23 de novembro de 1970) foi um pianista, organista, maestro, professor e pastor luterano alemão ativo em Curitiba, no Brasil, onde deixou uma marca como líder religioso e promotor da cultura, em especial a música. A igreja cuja construção promoveu é patrimônio cultural municipal, foi tombada pelo governo do Paraná, e permanece como um marco da presença protestante na cidade, um símbolo de identidade para os descendentes de alemães e um centro de vida comunitária.
Biografia Atividade pastoral
Karl era filho de Eduard Frank e Maria Beck."Edital". O Dia, 28/01/1950, p. 3 Influenciado pela mãe muito devota, decidiu ainda jovem abraçar a vida religiosa. Fez estudos teológicos em Neuendettelsau, ordenou-se pastor luterano e foi enviado como missionário ao Brasil em 1908.Baade, Joel Haroldo. Os conflitos comunitários e Sinodais e a formação e consolidação da IECLB: as trajetórias da Associação Evangélica de Comunidades e do Sínodo Evangélico-Luterano até a sua fusão e constituição do Sínodo Evangélico-Luterano Unido em 1962. Escola Superior de Teologia, 2011, pp. 75-78 Uma Comunidade Evangélica Alemã já existia oficialmente em Curitiba desde 1866, que se reuniu em torno da Igreja do Redentor, conhecida como Igreja Grande, sita na rua Trajano Reis. No fim do século a comunidade alemã de Curitiba já era florescente, contando com mais de 1.800 pessoas e mais de 350 alunos frequentando a escola da igreja. Contudo, por influência da filosofia positivista, e com a ideia de facilitar a integração com a cultura brasileira, a maioria dos membros da comunidade estava inclinada a eliminar o ensino religioso do currículo da escola. O pastor Siegfried Schultz, junto com um pequeno grupo, se opuseram à medida, ficaram isolados e se retiraram, fundando em 1901 uma nova congregação com o nome de Comunidade Luterana Alemã, que permaneceu filiada à Federação das Igrejas Luteranas da Baviera, na Alemanha.Petry, Rui. Da Gemeinde à Comunidade: uma análise das mudanças de paradigma geradas pelas crises dos anos 30 e 40, entre os imigrantes alemães luteranos e seus descendentes em Curitiba. Universidade Federal do Paraná, 2002, pp. 11-22
Logo após sua chegada ao Brasil em 1908, o pastor Frank iniciou seu trabalho como assistente do pastor Otto Kuhr na Comunidade Luterana, e em 1909 passou a atuar na comunidade de Papagaios Novos, após sua adesão ao Sínodo Luterano, mas em 1910 se radicou definitivamente em Curitiba, onde permaneceria o resto da vida. Em 31 de dezembro foi empossado como novo pastor, e em 1º de janeiro de 1911 celebrou seu primeiro culto.Reinhardt, Juliana Cristina & Souza, Regina Maria Schimmelpfeng de. Igreja Alemã: Christuskirche - Igreja de Cristo. Máquina de Escrever, 2020, s/pp. Nesta época a Comunidade Luterana ainda não tinha um templo, e os serviços religiosos eram realizados em alguma casa. Frank adotou como diretrizes manter a continuidade dos cultos dominicais, estabelecer uma escola de música e uma escola em língua alemã especificamente para o ensino religioso, e promover a saúde da comunidade viabilizando atendimento médico gratuito."Christuskirche celebra 110 anos de existência em Curitiba". In: O Caminho, 2023; XXXIX (1): 8 Logo se destacou como líder espiritual e cultural.
A partir de junho de 1912 organizou a construção de um edifício próprio para o culto, a Igreja de Cristo (Christuskirche), situada na rua Inácio Lustosa, também conhecida como Igreja Pequena ou Igrejinha. O projeto arquitetônico foi de Otto Michälis e a engenharia ficou a cargo de Gottlieb Müller. A inauguração ocorreu em 26 de janeiro de 1913."Igreja Luterana de 1913 é recuperada e protegida pelo Rosto da Cidade". Prefeitura de Curitiba, 22/01/2021 Ainda em 1913 fundou a Associação de Senhoras para a Diaconia Feminina, conseguindo trazer da Alemanha duas irmãs de caridade para ajudar no atendimento de saúde, Clara Frank e Anna Lindner.Abeck, Helmuth. A colaboração germânica no Paraná nos últimos 50 anos (1929-1979). Fundação Cultural de Curitiba, 1980, p. 33 A Irmã Clara desenvolveu um importante trabalho e se tornou figura notória na cidade. A igreja no início funcionou como escola e centro de assistência médica, sendo depois acrescentado um anexo para servir de centro comunitário, que foi a origem do Colégio Martinus. Na igreja também funcionou o primeiro jardim de infância de Curitiba, criado em 1915.Souza, Deutsche Schule, a Escola Alemã de Curitiba: um olhar histórico (1884-1917). Doutorado. Universidade Federal do Paraná, 2006, p. 59
O pastor teve uma participação ativa nas disputas doutrinais e territoriais entre seus luteranos e os evangélicos de onde haviam saído, sendo inicialmente contrário ao estabelecimento de uma colaboração estreita entre as comunidades e, mais tarde, à sua fusão, como foi proposto a partir da década de 1930. Em 1938 foi lançada uma proposta formal de fusão, mas a condição imposta seria a remoção do pastor Frank. A iniciativa fracassou e o assunto foi esquecido.Baade, pp. 153-154; 194 Nesta época já vigorava o Estado Novo, que impôs uma política nacionalista procurando uma homogeneização da cultura do Brasil e a supressão dos chamados "quistos raciais". A língua alemã ainda era o veículo cotidiano para a maioria dos descendentes dos imigrantes, e ainda era usada no culto, na escola e no jardim da infância. Na campanha de nacionalização a comunidade alemã sofreu um forte impacto, o governo obrigou que o ensino passasse a ser ministrado em português, e as suas tradições em larga medida se desestruturaram, mas há escassa documentação sobre este período de repressão, tornando difícil reconstruir a trajetória da comunidade. A partir de um comentário encontrado em uma das atas oficiais da comunidade, o pesquisador Rui Petry diz que o pastor Frank parece ter-se oposto às mudanças, e parece ter sido preso. Em 1942 seguramente foi preso, junto com vários presbíteros, ao que parece porque a igreja ainda ministrava o culto em alemão. Depois disso as atividades da Igreja de Cristo parecem ter sido paralisadas. Segundo Petry, devido a esse contexto, "a volta para uma união com a igreja mãe era só uma questão de tempo".Petry, pp. 52-58
Assim, já com uma outra visão, em 1946 Frank se aproximou da liderança evangélica e indagou sobre as possibilidades de reunião. As negociações desta vez prosperaram, a fusão foi aprovada em assembleia de 23 de agosto de 1947, e ratificada em 9 de novembro. Os critérios adotados foram a vinculação jurídica da comunidade ao Sínodo Evangélico, mas sua vinculação confessional permaneceria com a Igreja Luterana. Assim era criada a Comunidade Evangélica de Confissão Luterana de Curitiba, integrada em 1949 à Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.Baade, pp. 290-291Petry, p. 26 De qualquer forma, enquanto que na Igreja Grande o culto em alemão foi abolido em 1949, a comunidade da Igreja de Cristo, conforme Petry, permaneceu como "um reduto do que restou de germanismo na cidade", atraindo muitas famílias para lá, e "até hoje ela mantém as características que a levaram ao cisma. A 'Igreja Pequena', como era chamada, era muito mais 'alemã', [...] e mais vinculada à ortodoxia luterana".Petry, pp. 44; 57
Até retirar-se em 1955, quando recebeu o título de Pastor Emérito, depois de décadas à frente da comunidade da Igreja de Cristo, o pastor Frank formou a espiritualidade de gerações de curitibanos. Em 2013 a comunidade de Cristo readquiriu independência. Segundo Grünwedel & Grünwedel, "a congregação irmã maior pertence ao movimento missionário-carismático da Igreja Luterana no Brasil e, portanto, está no extremo oposto, no campo da devoção, da congregação da Igreja de Cristo, na qual a liturgia da Baviera ainda é ouvida durante o culto em alemão".
Cultura Interessado pela filosofia, arte, música, ciências e humanidades, também se preocupou com o cultivo da cultura de uma forma ampla, e de acordo com Patricia Aguilar, ele "destacou-se como um líder intelectual e artístico".Aguilar, Patricia Michelini. A flauta doce no Brasil: da chegada dos jesuítas à década de 1970. Doutorado. Universidade de São Paulo, 2017, p. 127 Tendo estudado órgão e piano na Alemanha, foi importante em particular sua atividade na área da música, que teve um grande impulso sob sua liderança, organizando atividades diversificadas.Prosser, Elisabeth Seraphim. "A prática da Hausmusik em Curitiba: uma perspectiva histórica, identitária e educativa". In: Volpe, Maria Alice (org.). Anais do III Simpósio internacional de musicologia da UFRJ Patrimônio musical na atualidade: tradição, memória, discurso e poder. Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2013 Kondlatsch, Patrick Carlos. Maestro Roberto Schnorrenberg (1929-1983): análise histórico-musicológica de sua atuação como outsider na Sociedade Pró-Música de Curitiba no período de 1964 - 1982. Universidade Federal do Paraná, 2020, pp. 17-18 Segundo a pesquisadora Elisabeth Prosser, era "grande erudito e teólogo e excelente músico e professor", e até o fim da vida "foi um dos principais regentes e professores de piano e história da arte da cidade".
Além disso, fundou um coral, estimulou o cultivo na música no lar, organizou concertos onde atuava como maestro, oferecendo trechos de obras raramente ou nunca antes ouvidas no Brasil, como o Réquiem de Brahms, o Réquiem de Mozart, A Criação de Haydn e cantatas e corais de Haendel e Bach, sendo um dos pioneiros do movimento de revivalismo da música antiga no Brasil.Xavier, Camila Pereira. "A música antiga e a criação da Camerata Antiqua e das oficinas de música de Curitiba no século XX". In: Anais do VIII Fórum de Pesquisa Científica em Arte. Curitiba, 2011Prosser, Elisabeth Seraphim. "Ingrid Haydée Müller Seraphim e a prática musical em Curitiba". In: Música e Músicos no Paraná: sociedade, estéticas e memória, 2014 (1) Destaca-se entre seus alunos Ingrid Müller Seraphim, que levou adiante seu interesse pela música antiga e foi uma das grandes promotoras do revivalismo no Brasil.
Família
Foi casado com Elisabeth Hess, nascida em Ermershausen em 15 de janeiro de 1888,"Edital". O Dia, 28/01/1950, p. 2 cantora, com "excelente voz", cantava com "muito brilho"."Concerto vocal". Commercio do Paraná, 19/05/1922, p. 1 Em 1950 o casal requereu cidadania brasileira. Tiveram o filho João Ricardo Maurício Luiz, falecido antes do pai, e as filhas Elisabeth (Ella), casada com Fritz Grube; Esther, casada com o médico Joachim Graf; Ruth, casada com Helmann Jansen, e Maria, solteira."Falecimentos. Pastor Carlos Frank". Diário do Paraná, 24/11/1970, 2º Caderno, p. 4 Todas musicistas, ajudavam o pai nas atividades musicais.Aguilar, p. 128 Elisabeth Hess faleceu em 1969, e Frank em 23 de novembro de 1970, deixando 9 netos e 4 bisnetos.