miniaturadaimagem|upright=1.3|Militares do Exército Brasileiro em 1921., p. 107. Da esquerda para a direita:
O Exército Brasileiro na Primeira República (1889–1930) era uma de várias forças militares terrestres presentes no Brasil, representando o governo federal, enquanto os estados e chefes locais possuíam as Forças Públicas ("pequenos exércitos" estaduais) e forças irregulares como os batalhões patrióticos. O período foi inaugurado e encerrado com intervenções políticas do Exército, a Proclamação da República e Revolução de 1930, e marcado por sua participação em diversos conflitos internos. Profundas reformas do Exército, inspiradas no padrão europeu e na competição com o Exército Argentino, aumentaram suas capacidades tanto para a guerra quanto para a participação na sociedade nacional. A função do Exército era dupla, de defesa externa e manutenção da ordem interna, o que se refletia na sua distribuição, concentrada no Rio Grande do Sul e na capital federal no Rio de Janeiro.
Ao início da República o Exército era uma força pequena, de menos de 15 mil homens, organizada em pequenos batalhões ou forças equivalentes isoladas, sem unidades maiores permanentes. A mobilização era difícil. Os soldados eram incorporados pelo voluntariado ou recrutamento forçado, não tinham rotina de preparo militar e serviam por longas carreiras "profissionais", sem incorporação a uma reserva. Os oficiais tinham instrução acadêmica de teor civil na Escola Militar da Praia Vermelha (EMPV), os "científicos", ou pouca ou nenhuma instrução, os "tarimbeiros". Na violenta década de 1890, essa força exibiu péssimo desempenho em campanhas como a Guerra de Canudos, motivando reformas implantadas por sucessivas administrações no Ministério da Guerra a partir da virada do século. O Estado-Maior do Exército (EME) foi criado em 1899 para servir de órgão de cúpula.
O Exército Imperial Alemão tornou-se a principal influência externa em 1908, na administração de Hermes da Fonseca no Ministério da Guerra. Os "Jovens Turcos", oficiais enviados para estagiar na Alemanha, lançaram um movimento por reformas militares. Até 1921 foi construída uma ordem de batalha moderna, com regiões militares, regimentos, brigadas e divisões, embora muitas unidades não chegassem a ser constituídas, ou existissem desfalcadas. Novos armamentos alemães equiparam a tropa. O serviço militar obrigatório foi instituído através da Lei do Sorteio, mas somente durante a Primeira Guerra Mundial, quando a importância das Forças Armadas aumentou, foi possível implementá-lo em 1916. Através da rotação de levas anuais de conscritos, foi possível um aumento constante do efetivo, que chegava a até 50 mil homens em 1930.
A influência alemã deu lugar à Missão Militar Francesa, contratada em 1919. Os sargentos ganharam importância à frente das novas unidades táticas, os grupos de combate, e o Exército adquiriu seus primeiros blindados e aviões. Quase todo o equipamento era importado, pois a indústria bélica era inexpressiva. Nos anos 1920 já havia surgido uma nova geração de oficiais, profissionalizada na Escola Militar do Realengo, sucessora da EMPV. A progressão de carreira passou a depender de escolas novas ou reformadas como as de Aperfeiçoamento e Estado-Maior. As autoridades militares esperavam que as reformas produzissem oficiais mais leais à hierarquia, mas o resultado foram as revoltas tenentistas do baixo oficialato. A longo prazo, o fortalecimento da cúpula do Exército e a expansão do conceito de defesa nacional, iniciados nesse período, permitiram as intervenções militares de generais ocorridas mais tarde na história brasileira, como o golpe de Estado de 1937.
Contexto
Oficiais dentro da sociedade miniaturadaimagem|Nilo Peçanha e correligionários militares na campanha presidencial de 1922 A República foi instaurada no Brasil por um golpe de Estado de oficiais insatisfeitos com a elite civil do Império. Como esses militares não eram unidos, não duraram mais do que dois governos militares (Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto) até passar o poder às oligarquias civis em 1894. A República Velha ou Primeira República, que durou até a Revolução de 1930, foi marcada pela predominância das elites de São Paulo e Minas Gerais no cenário político nacional, a autonomia das unidades da federação e o coronelismo na política local. O eixo econômico era agroexportador, com o ciclo do café chegando ao auge, mas a industrialização e urbanização avançavam.
Nesse contexto, os oficiais do Exército viviam marginalizados e ressentidos da elite civil. Eles advinham da pequena parcela educada da população, mas ainda assim das camadas médias, sem dinheiro para custear uma faculdade de Direito ou Medicina para os filhos, e buscavam a ascensão social pela carreira militar; alguns eram de famílias tradicionais militares. O soldo era modesto, e abaixo da patente de coronel, o padrão de vida estava à margem da classe média. A pouca representatividade dos paulistas e mineiros é indício do divórcio com a elite civil: em 1895 havia na ativa oito generais gaúchos, um paulista e nenhum mineiro; em 1930 eram oito gaúchos e nenhum mineiro ou paulista.
Os pontos de contato com a elite civil eram ligações informais, inclusive pela corrupção, e crenças compartilhadas:, cap. 1, Conclusion. a maioria dos oficiais desconfiava da política de massas e dos pobres urbanos,, cap. 1, The Army as the Nation’s School. e suas atitudes quanto à hierarquia racial eram comparáveis às da Marinha na Revolta da Chibata., cap. 1, The Revolt of the Whip. Gratificações e subornos ajudavam a cooptar os altos oficiais, que trabalhavam politicamente por nomeações e promoções e às vezes usavam seu prestígio para ganhar eleições. Na Guerra do Contestado, por exemplo, o general Setembrino de Carvalho foi acusado de ter se associado com especuladores e desviado verbas. Há relato de pedras e palha entregues à linha de frente no lugar de granadas e uniformes. Um lote de vinte mil pares de coturnos nunca apareceu. Denúncias de imoralidade dos altos escalões contribuíram muito às revoltas militares., cap. 1, Military Corruption.
As cidades litorâneas eram a origem de grande parte do oficialato. Os oficiais intelectualizados que serviam nas cidades espantavam-se com as condições encontradas pelos colegas enviados a unidades no vasto interior do país. A partir daí nasceu a autoimagem dos oficiais como uma força civilizadora, que marcaria a presença do Estado nas fronteiras mais remotas do país, transmitiria a instrução cívica e militar às suas populações e transformaria o Brasil numa nação. A urbanização e industrialização em curso ofereciam novos aliados a oficiais contrários às oligarquias dominantes.
Exército entre as forças de defesa
miniaturadaimagem|Presidente do Paraná condecora sua Força Pública em 1915|180px A Marinha tinha rivalidades profissionais com o Exército e competia por vantagens dos políticos. Nesta competição o Exército, por seu envolvimento maior na Proclamação da República e pela participação dos almirantes nas Revoltas da Armada, teve vantagem nos primeiros governos republicanos. A Marinha foi muito enfraquecida e só se recuperou a partir do governo de Rodrigues Alves (1902–1906), implicitamente como contrapeso ao Exército. O perfil dos oficiais da Marinha era mais aristocrático, isolado e profissionalizado, tornando-a mais aberta às elites civis. Sua participação política é menor do que a do Exército nesse período.
Em terra o Exército não era a única força militar, pois líderes locais e oligarquias estaduais tinham suas próprias tropas. No papel ainda havia unidades da Guarda Nacional, subordinada ao Ministério da Justiça. Formalmente ela não tinha quaisquer tropas em 1917, apesar de conferir títulos de oficial a 213 044 homens, que representavam elites políticas locais. Era mais comum que esses chefes políticos armassem e mobilizassem seus peões e capangas em "batalhões patrióticos", fazendo valer sua vontade pela força.
O maior obstáculo ao controle militar interno pelas Forças Armadas era as polícias militares (Forças Públicas). Aproveitando os privilégios do federalismo, as oligarquias dos estados mais poderosos transformaram suas polícias em pequenos exércitos, alguns mais bem equipados para a guerra do que o próprio Exército federal. A Força Pública de São Paulo contratou uma missão de instrução francesa antes do Exército e mantinha sua própria aviação. Em São Paulo e outros estados, as tropas estaduais eram mais numerosas do que as federais. Esses exércitos estaduais garantiam o poder político dos estados e dificultavam a intervenção federal. Em contraste a essas forças, o Exército federal tinha presença e interesses nacionais, servindo de braço forte do poder central contra tendências regionalistas.
O serviço militar obrigatório tornou redundante a Guarda Nacional, que foi extinta em 1919 e substituída pela 2.ª linha do Exército, mas essa força não teve organização efetiva e foi também extinta em 1921. Em 1917–1918 as Forças Públicas e Corpos de Bombeiros foram, por convênios, consideradas Forças Auxiliares do Exército. Para o ministro Caetano de Faria, um grande desafio havia sido superado e o Exército havia obtido o controle das forças militares. Entretanto, o problema só seria resolvido de fato após 1930.
Finalidade do Exército Histórico operacional
miniaturadaimagem|Exército na zona portuária do Rio de Janeiro durante a segunda Revolta da Armada, em 1893 O Império foi derrubado num golpe militar sem combate, mas a década seguinte foi sangrenta. A maior ameaça ao novo regime foi a Revolução Federalista de 1893–1895, quando o Rio Grande do Sul entrou num estado de guerra civil, que se alastrou a Santa Catarina e Paraná e conectou-se à segunda Revolta da Armada, iniciada na capital. A Revolução Federalista e a Guerra de Canudos (1896–1897) resultaram em milhares de mortes.
Após esse período, em 1900–1902 brasileiros enfrentaram bolivianos na Revolução Acriana, quando ocorreram as únicas missões contra um país vizinho no período. O Exército participou da repressão à Revolta da Vacina, em 1904, e a Escola Militar da Praia Vermelha lançou-se em rebelião no mesmo momento. De 1912 a 1916 travou-se a Guerra do Contestado, conflito com semelhanças a Canudos, mas ocorrido numa vasta área. O Brasil declarou guerra à Alemanha em 1917, ingressando nos Aliados da Primeira Guerra Mundial, mas somente a Marinha partiu ao exterior. O Exército era também convocado a intervir em algumas das numerosas "guerras civis" locais quando as forças estaduais não conseguiam resolvê-las.
As experiências de combate dos anos 1890 arruinaram o Exército em vez de fortalecer seu profissionalismo. O Exército já estava enfraquecido nas últimas duas décadas do Império, e nos primeiros anos da República, sua operacionalidade era por vezes inferior à dos revoltosos. Em Canudos, o Exército precisou mobilizar 40% do efetivo e várias expedições para derrotar sertanejos sem preparo para a guerra. O consenso do oficialato no início do século XX era que sua força era ineficiente e atrasada, com baixo orçamento, instalações precárias e armamento desuniforme dificultando o ensino e manutenção. Isto podia ser comprovado pelo mau desempenho em campanhas como Canudos e o Contestado, o que convencia o Alto Comando da necessidade de reformas.
Nos anos 1920 começou um novo ciclo de revoltas a partir do baixo oficialato do Exército, o tenentismo: a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, os levantes de 1924 em São Paulo, Sergipe, Amazonas e Rio Grande do Sul e a Coluna Prestes até 1927, entre outros. O tenentismo era somente uma revolta dentro da instituição, cujo comando permaneceu legalista. Os tenentistas só tiveram sucesso quando se juntaram aos políticos da Aliança Liberal para derrubar a Primeira República na Revolução de 1930, inaugurando a Era Vargas.
Movimentos reformistas