A Venerável Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, fundada em 1745 pelo Padre Dr. João Perestello de Vasconcelos Spíndola na Igreja Matriz de Santana, atual Catedral da Diocese de Goiás, é uma das mais antigas e reverenciadas associações religiosas de Goiás, desempenhando um papel fundamental na preservação e na prática das tradições católicas na região Centro-Oeste do Brasil. Desde 1863, a irmandade está estabelecida na Igreja São Francisco de Paula, um templo histórico de grande importância, cuja construção remonta a 1761. Este espaço não só é um centro de devoção, mas também um marco da arquitetura colonial, sendo tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1950 como Patrimônio Histórico e Artístico do Brasil. A Igreja São Francisco de Paula tem sido, sede da irmandade, abriga as atividades litúrgicas e culturais, além de servir como um ponto de encontro para os fiéis. A construção da igreja ocorreu em um momento de grande expansão urbana na cidade, especialmente após a chegada do primeiro governador em 1749 e a revitalização de diversos equipamentos públicos.
A Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos é a segunda mais antiga ainda em atividade no estado de Goiás, logo após a Irmandade do Santíssimo de Pirenópolis, que é a mais antiga, de 1728 ano que construiu a Igreja Matriz de Pirenópolis, sua sede. Essa longa trajetória é um reflexo da relevância e da continuidade de sua missão religiosa e cultural ao longo dos séculos.Citado em:
A missão central da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos é a promoção do culto ao Senhor dos Passos na Paróquia Catedral de Sant'Ana, a primaz de Goiás. Dentre suas muitas atividades, destacam-se a organização das tradicionais celebrações da Festa de Passos, que inclui as famosas procissões de Passos e Encontro, que são momentos de intensa religiosidade popular. A irmandade também promove uma missa mensal, às sextas-feiras, como parte de sua programação espiritual durante o período quaresmal, contribuindo para o fortalecimento da fé e da união entre os devotos. Essas celebrações são marcos na vida religiosa de Goiás, refletindo a dedicação da irmandade em manter vivas as tradições litúrgicas e os valores cristãos.PECLAT, Gláucia Thais da Silva Campos. Comida e emoção: o sabor doce do Perdão na Sexta-feira da Paixão. In: BRITTO, Clovis Carvalho; SIQUEIRA, Guilherme Antônio de; PRADO, Paulo Brito. *Por uma história da saudade: Itinerários do Canto do Perdão na Cidade de Goiás (Séculos XIX e XX)*. Goiânia: Gráfica e Editora América, 2014. p. 169-195.CORALINA, Cora. *Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais*. São Paulo: Global, 2001a.LACERDA, Regina. *Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso*. São Paulo: Ed. Literat, 1962.MAGALHÃES, Carlos Pereira de. *Cartas de Goiás: no princípio do século XX*. São Paulo: De Letra em Letra, 2004.
Além de sua atuação espiritual, a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos preserva um rico acervo patrimonial, que inclui uma vasta coleção de imagens sacras, objetos litúrgicos e arte sacra de grande valor histórico e cultural. Esse acervo, que remonta aos períodos colonial e imperial, é protegido por legislações de tombamento e está registrado conforme as normas municipais, estaduais e federais. O patrimônio da irmandade inclui peças como lanternas, cruzes de procissão, turíbulos, navetas, alfaias, sinetas e diversos paramentos litúrgicos, muitos dos quais em prata e ourivesaria, que são cuidadosamente preservados na sede da Irmandade, no Museu da Irmandade e no Museu de Arte Sacra da Boa Morte. Esse tesouro cultural é um reflexo da religiosidade e da arte de Goiás, com cada objeto não apenas representando a fé católica, mas também o legado da cidade e da região.INRC da Cidade de Goiás, conforme o registro disponível no site: <http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/681/>. Acesso em 14-dez-2024.
Ao longo de sua história, a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos tem sido um pilar fundamental para as manifestações tradicionais do catolicismo em Goiás. Suas atividades e celebrações estão intimamente ligadas a outras festas religiosas importantes, como a Festa de Nossa Senhora Sant’Ana, Padroeira da cidade, a Festa do Divino Espírito Santo e a Festa de São Francisco de Paula, sendo todas elas momentos significativos de união e devoção. Além disso, a irmandade tem participado ativamente das celebrações da Semana Santa, incluindo a Semana de Passos e a Semana das Dores, cujas procissões estão em processo de reconhecimento pelo IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Este movimento visa valorizar e garantir a preservação dessas tradições religiosas que se entrelaçam com a história e identidade cultural da cidade de Goiás.
A importância da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos vai além de sua função religiosa, estendendo-se para a preservação cultural e histórica da cidade de Goiás. Ela tem sido responsável por manter e promover um conjunto de práticas religiosas e culturais que, ao longo dos séculos, ajudaram a formar a identidade goiana. O trabalho da irmandade, seja nas suas procissões, nas suas festividades ou na conservação de seu acervo, representa um elo vital entre o passado e o presente, mantendo vivas as tradições e garantindo que as futuras gerações continuem a celebrar e a honrar esse legado cultural e espiritual.
Histórico Século XVIII: ciclo do ouro, irmandades, confrarias e a construção das igrejas Arraial de Sant'Anna
Antes da chegada dos europeus ao continente americano, a região central do Brasil, atualmente conhecida como Goiás e sua antiga capital, Vila Boa, era habitada por diversos grupos indígenas pertencentes ao tronco linguístico macro-jê. Entre esses povos nativos estavam os javaés, xacriabás, acroás, xavantes, caiapós, entre outros. Esses grupos viviam em equilíbrio com o cerrado, utilizando recursos naturais para subsistência e mantendo tradições culturais ricas e diversificadas. No entanto, com a chegada dos bandeirantes e exploradores europeus, essas comunidades passaram por processos intensos de catequização e deslocamento, que resultaram em profundas transformações em seus modos de vida e na sua organização social. A religião católica, trazida pelos colonizadores, foi um dos principais instrumentos de integração e dominação dessas populações nativas.CHAIM, M. M. Aldeamentos Indígenas (Goiás 1749-1811). Segunda edição. São Paulo: Nobel, 1983. p. 48
A exploração do ouro, iniciada no final do século XVII, foi o principal motor da ocupação europeia no interior do Brasil e atraiu para Goiás inúmeros aventureiros em busca de riquezas. Durante o século XVIII, a mineração tornou-se a atividade econômica predominante na região, dando origem a núcleos urbanos voltados para a extração aurífera. Esses centros, como o Arraial de Sant’Anna, surgiram às margens de rios e córregos, que forneciam os recursos necessários para o garimpo. Entre esses rios, o Rio Vermelho destacou-se como uma via crucial para o desenvolvimento da região, tanto pelo suporte à mineração quanto como fonte de água e meio de transporte.
No final do século XVII e início do século XVIII, a descoberta do ouro atraiu aventureiros e bandeirantes para o interior do Brasil. Goiás tornou-se um destino importante devido à riqueza mineral de suas terras. A atividade mineradora, baseada em técnicas rudimentares, concentrou-se em córregos, ribeirões e margens de rios, como o Rio Vermelho, que desempenhou um papel central no desenvolvimento da região, não apenas como fonte de água, mas também como rota para escoamento do ouro e transporte de suprimentos.
Liderados por figuras como Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, os bandeirantes exploraram e fundaram assentamentos que se tornariam as bases da ocupação urbana em Goiás. Em 1739, foi estabelecida Vila Boa às margens do Rio Vermelho, um núcleo que se transformaria na primeira capital da capitania de Goiás. A cidade tornou-se rapidamente um centro administrativo e religioso, reunindo mineradores, comerciantes e religiosos que moldariam a identidade local.
O crescimento populacional e econômico impulsionou a criação de irmandades religiosas, que desempenharam um papel crucial na organização social e espiritual dos moradores. Essas irmandades, inspiradas em modelos europeus, não apenas cuidavam de questões religiosas, mas também promoviam assistência social, como amparo aos pobres, auxílio funerário e organização de eventos religiosos. Dentre as irmandades mais importantes estavam a do Irmandade do Santíssimo Sacramento, de Nossa Senhora da Boa Morte e do Senhor Bom Jesus dos Passos.
Paralelamente, a construção de igrejas reforçou a relevância das práticas religiosas na vida cotidiana. A Igreja São Francisco de Paula, erguida em 1761, destaca-se como um exemplo da arquitetura colonial. Situada em um ponto estratégico, o templo foi construído em taipa de pilão e posteriormente adornado com elementos artísticos significativos, como esculturas de Veiga Valle. Tombada pelo IPHAN em 1950, a igreja permanece como um dos principais marcos históricos e religiosos da cidade.
As irmandades também tiveram impacto cultural significativo, ajudando a estabelecer uma vida urbana estruturada, marcada por celebrações religiosas e artísticas. As procissões e festividades da Semana Santa se destacam como momentos de união e renovação espiritual, além de promoverem a preservação de tradições que permanecem vivas até hoje.
Ao longo do século XVIII, Goiás tornou-se um exemplo único de como a mineração, a religiosidade e o desenvolvimento urbano puderam se entrelaçar. O legado das irmandades, igrejas e celebrações não apenas moldou a identidade da cidade, mas também a transformou em um patrimônio cultural que continua a inspirar tanto seus habitantes quanto os visitantes que reconhecem em Goiás uma conexão especial entre fé, história e cultura.
Igreja São Francisco de Paula
A Igreja de São Francisco de Paula, situada em um outeiro às margens do Rio Vermelho, é um dos marcos mais importantes do Centro Histórico da cidade de Goiás. Construída em 1761, sob a liderança do então governador Antônio Tomás da Costa, a igreja exemplifica a simplicidade e o refinamento da arquitetura colonial goiana. Erguida com paredes de taipa de pilão e coberta com telhas de barro canal, a estrutura apresenta uma fachada plana, complementada por um cruzeiro de madeira no adro e uma torre sineira do século XIX, que se encontra separada do corpo principal da construção.
O interior da igreja destaca-se pelo forro pintado, concluído em 1869 pelo artista local André Antônio da Conceição, com cenas que retratam a vida de São Francisco de Paula. Essas obras refletem o caráter barroco simplificado típico da cidade de Goiás, combinando elementos artísticos europeus com adaptações regionais. Uma das peças mais significativas do acervo é a imagem do padroeiro, esculpida por Veiga Valle, considerado um dos mais renomados artistas sacros de Goiás no século XIX
Desde 1873, a Igreja de São Francisco de Paula abriga a sede da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, desempenhando um papel central nas celebrações religiosas da cidade, como as procissões da Semana Santa. Durante a emblemática Procissão do Fogaréu, a igreja assume um simbolismo especial, representando o Monte das Oliveiras e atraindo fiéis e turistas para vivenciar um evento único. Esse momento reforça o papel da igreja como um espaço de espiritualidade e memória cultural
Características Barrocas e Conexão com o Patrimônio