A falsificação de preferência é o ato de deturpar uma preferência sob pressões públicas percebidas pelo indivíduo. A falsificação de preferências envolve a seleção de uma preferência publicamente expressa que difere da preferência privada subjacente (ou simplesmente, uma preferência pública em desacordo com a preferência privada). As pessoas frequentemente transmitem umas às outras preferências que diferem do que comunicariam em particular sob a cobertura confiável do anonimato (como em pesquisas de opinião para pesquisadores ou institutos de pesquisa ).
O termo falsificação de preferências foi cunhado por Timur Kuran em um artigo de 1987, "Eleitores camaleões e escolha pública". Em questões controversas que induzem à falsificação de preferências, ele argumenta, políticas amplamente desaprovadas podem parecer populares. A distribuição das preferências públicas, que Kuran define como opinião pública, pode diferir muito da opinião privada, que é a distribuição das preferências privadas conhecidas apenas pelos próprios indivíduos.
Kuran desenvolveu as implicações dessa observação no seu livro de 1995, Private Truths, Public Lies: The Social Consequences of Preference Falsification . Este livro argumenta que a falsificação de preferência não é apenas onipresente no quotidiano político e social, como também tem enormes consequências sociais e políticas. Kuran fornece uma teoria de como a falsificação de preferências molda as decisões coletivas, sustenta a estabilidade social, distorce o conhecimento humano e oculta possibilidades políticas.
A falsificação de preferências como forma específica de mentir A falsificação de preferências visa especificamente moldar as percepções que os outros têm sobre as motivações do agente falsificador. Como tal, nem todas as formas de mentira acarretam uma falsificação de preferências. Omitir más notícias médicas de uma pessoa com doença terminal é, por exemplo, comumente considerado uma mentira caridosa. Contudo, este ato não consiste em uma falsificação de preferência, dado que a motivação não é esconder um desejo privado do agente.
A falsificação de preferências não é sinônimo de autocensura, enquanto simplesmente a retenção de informações. Se por um lado a autocensura é um ato passivo, a falsificação de preferências é em si performativa. Ela implica ações destinadas a projetar uma preferência artificial.
Um outro caso elucidativo em matérias de contra-exemplos diz respeito à votação e processos eleitorais. A votação estratégica ocorre quando, na privacidade de uma cabine eleitoral, um sujeito vota no candidato B porque A, seu favorito, não pode vencer. Isso envolve manipulação de preferências, mas não falsificação de preferências, que é uma resposta às pressões sociais. Em uma cabine de votação privada, evidentemente, não há pressões sociais para acomodar e nem reações sociais para controlar.
Opinião privada vs. opinião pública O termo opinião pública é comumente usado em dois sentidos. A primeira maneira diz respeito à distribuição das preferências genuínas das pessoas, geralmente medidas por meio de pesquisas que fornecem, credivelmente, o anonimato. O segundo significado é a distribuição de preferências que as pessoas transmitem em ambientes públicos, que é medida por meio de técnicas de pesquisa que permitem o pareamento de respostas com respondentes específicos. Kuran distingue entre os dois significados para clareza analítica, reservando a opinião pública apenas para o último. Ele usa o termo opinião privada para descrever a distribuição das preferências privadas de uma sociedade, conhecidas apenas pelos próprios indivíduos, que podem ou não decidir ocultá-las.
Em questões socialmente controversas e particularmente polêmicas, a falsificação de preferências costuma ser generalizada e, com frequência, a opinião pública difere da opinião privada.
Conhecimento privado vs. conhecimento público As preferências privadas sobre um conjunto de opções tem a sua base no conhecimento privado, que consiste nos juízos e perspectivas que os indivíduos carregam em suas próprias mentes. Uma pessoa que particularmente defende a reforma do sistema educacional o faz acreditando que, digamos, as escolas estão a falhar o conjunto dos estudantes, e que um novo currículo os atenderia melhor. Mas essa pessoa não precisa transmitir aos outros sua simpatia por um novo currículo. Para evitar a alienação de grupos políticos poderosos, ela poderia fingir que considera o currículo vigente ideal. Em outras palavras, seu conhecimento público pode ser uma versão distorcida, se não completamente fabricada, do que ela realmente percebe e entende.
Três reivindicações principais da teoria de Kuran O livro Private Truths, Public Lies identifica três consequências sociais básicas da falsificação de preferências, nomeadamente, a distorção das decisões sociais, a distorção do conhecimento privado, e as descontinuidades sociais imprevistas (tais como as revoluções).
Distorção das decisões sociais Entre as consequências sociais da falsificação de preferências está a distorção das decisões sociais. Ao deturpar a opinião pública, a falsificação de preferências corrompe as escolhas políticas coletivas de uma sociedade. Uma manifestação é o conservadorismo coletivo, que Kuran define como a retenção de políticas que seriam rejeitadas em votação secreta e a rejeição implícita de políticas alternativas que, se votadas com a credibilidade do anonimato, obteriam apoio majoritário.
Para fins ilustrativos, suponhamos que uma minoria dentro de uma sociedade comece a manifestar descontentamento com os defensores de uma certa reforma. Simplesmente para proteger suas reputações pessoais, as pessoas que defendem a reforma em particular podem começar a fingir que estão satisfeitas com o status quo e abandonar projetos reformistas. Ao falsificar as suas preferências, os antigos reformistas fariam com que a parcela percebida dos oponentes da reforma desencorajasse outros simpatizantes da reforma de divulgar os seus próprios desejos.
de mudança. Com um número suficiente de simpatizantes da reforma optando pelo conforto pessoal, por meio da falsificação de preferências, uma clara maioria privadamente favorável à reforma poderia coexistir com uma maioria igualmente clara que se opõe publicamente às mesmas reformas. Em outras palavras, a opinião privada poderia apoiar a reforma mesmo quando a opinião pública se opusesse a ela.
Um regime democrático tem um mecanismo embutido para corrigir distorções na opinião pública: as eleições periódicas por voto secreto. Em questões onde a falsificação de preferências é desenfreada, as eleições permitem que maiorias ocultas se façam ouvir e exerçam influência através das urnas. A privacidade proporcionada pela votação secreta permite que os eleitores votem de acordo com suas preferências pessoais ao invés das fachadas que venham a manter publicamente. À medida que a opinião privada é revelada nas urnas, os falsificadores de preferências podem descobrir, para o seu deleite, que formam a maioria. Eles podem inferir que têm pouco a temer ao verbalizar honestamente o que desejam. Essa é a expectativa subjacente à votação secreta.
Na prática, contudo, as eleições por voto secreto cumprem sua função corretiva pretendida de maneira imperfeita. Por um lado, em questões que induzem à falsificação desenfreada de preferências, as eleições podem oferecer pouca escolha. Todos os competidores sérios neste contexto acabariam por assumir a mesma posição, em parte para evitarem o ostracismo e em parte para se posicionarem de maneira ideal nos espaços políticos para maximizar seu apelo ao eleitorado. Por outro lado, em eleições periódicas, os cidadãos de uma democracia votariam em representantes ou partidos políticos que representam pacotes de políticas. Eles não votam, costumeiramente, em políticas individuais diretamente. Portanto, as mensagens que um eleitorado democrático transmite por meio do voto secreto estão necessariamente sujeitas a interpretações. Um partido que se opõe a uma determinada reforma pode vencer por causa de sua posição em outras questões. No entanto, um sucesso eleitoral deste mesmo partido pode ser interpretado como uma rejeição à reforma.
Ainda assim, a votação secreta periódica limita os danos da falsificação de preferências. Ela evita que a opinião pública se afaste muito da opinião privada em questões críticas para os cidadãos. Em contraste, em regimes políticos não democráticos não existe nenhum mecanismo legal para se revelar sentimentos ocultados em razão de pressões e demandas autoritárias. Portanto, sérias distorções da opinião pública são corrigíveis apenas por meios extralegais, como motins, golpes ou revoluções.
As preferências particulares podem mudar com o aprendizado e experiência. Enquanto indivíduos, é lógico assumirmos que aprendemos com as nossas experiências pessoais e podemos pensar por nós mesmos. No entanto, como os nossos poderes cognitivos são limitados, podemos refletir de forma abrangente apenas sobre uma pequena fração das questões sobre as quais decidimos ou somos forçados a expressar uma preferência. Por mais que queiramos pensar independentemente sobre cada questão, o nosso conhecimento privado inevitavelmente repousa em parte no conhecimento público que entra no discurso público – o corpus de suposições, observações, afirmações, argumentos, teorias e opiniões de domínio público. Por exemplo, as preferências privadas da maioria das pessoas em relação ao comércio internacional são baseadas, em um grau ou outro, nas comunicações públicas de outras pessoas, seja por meio de publicações, TV, mídia social, reuniões de amigos ou algum outro meio.
A falsificação de preferências molda ou remodela o conhecimento privado ao distorcer a substância do discurso público. A razão é que, para ocultar nossas preferências particulares com sucesso, devemos controlar as impressões que transmitimos ao expressar juízos e opiniões. Tal processo de auto-performance, para ser eficaz, requer uma gestão cuidadosa da nossa linguagem corporal, assim como do conhecimento que transmitimos publicamente. Em outras palavras, a falsificação de preferência credível também requer o envolvimento da falsificação de conhecimento apropriadamente adaptada. Para convencer o público de que somos a favor de cotas comerciais, fatos e argumentos que apoiem as cotas devem acompanhar esta preferência pública pró-cotas.
Distorção do conhecimento privado