The Man in the Moone é uma obra do bispo da Igreja Anglicana inglês Francis Godwin (1562–1633), descrevendo uma "viagem de descoberta utópica". Considerado por muito tempo como um de seus primeiros trabalhos, acredita-se que tenha sido escrito no final da década de 1620. Foi publicado pela primeira vez postumamente em 1638 sob o pseudônimo de Domingo Gonsales. A obra é notável por seu papel no que foi chamado de "nova astronomia", o ramo da astronomia influenciado especialmente por Nicolau Copérnico. Embora Copérnico seja o único astrônomo mencionado pelo nome, o livro também se baseia nas teorias de Johannes Kepler e William Gilbert. As teorias astronômicas de Godwin foram grandemente influenciadas pelo Sidereus Nuncius de Galileu Galilei (1610), mas ao contrário de Galileu, Godwin propõe que as manchas escuras na Lua são mares, um dos muitos paralelos com Somnium sive opus posthumum de astronomia lunari de Kepler de 1634.

Gonsales é um espanhol que foi forçado a fugir do país depois de matar um homem em uma batalha. Tendo feito fortuna nas Índias Orientais, ele decide voltar para a Espanha, mas adoece na viagem de volta para casa e parte para a ilha de Santa Helena para se recuperar. Lá ele descobre a gansa, uma espécie de cisne selvagem capaz de transportar cargas substanciais, e inventa um dispositivo que lhe permite aproveitá-los juntos a voarem ao redor da ilha. Uma vez totalmente recuperado, Gonsales retoma sua jornada para casa, mas seu navio é atacado por uma frota inglesa na costa de Tenerife. Ele usa sua máquina voadora para escapar para a costa, mas, assim que aterrissou com segurança, ele é abordado por nativos hostis e é forçado a decolar novamente. Desta vez, seus pássaros voam cada vez mais alto, em direção à Lua, que alcançam após uma jornada de doze dias. Lá Gonsales encontra os lunares, um povo cristão alto que habita o que parece ser um paraíso utópico. Depois de seis meses vivendo entre eles, Gonsales fica com saudades de casa e, preocupado com a condição de seus pássaros, parte para retornar à Terra. Ele desembarca na China, onde é imediatamente preso como mágico, mas depois de aprender a língua consegue conquistar a confiança do mandarim local. A história termina com Gonsales encontrando um grupo de missionários jesuítas, que providenciam para que um relato escrito de suas aventuras seja enviado de volta à Espanha.

Alguns críticos consideram The Man in the Moone, juntamente com Somnium de Kepler, uma das primeiras obras de ficção científica. O livro era bem conhecido no século XVII, e até inspirou paródias de Cyrano de Bergerac e Aphra Behn, mas foi negligenciado na história crítica. Estudos recentes se concentraram nas teorias da linguagem de Godwin, a mecânica da viagem lunar e sua posição religiosa e simpatias, conforme evidenciado no livro.

Antecedentes e contexto Godwin, filho de Thomas Godwin, bispo de Bath e Wells, foi eleito aluno da Christ Church, Oxford, em 1578, de onde recebeu seus diplomas de bacharelado (1581) e mestrado (1584) em artes; depois de entrar na igreja, ele se tornou Bacharel (1594) e Doutor em Divindade (1596). Ganhou destaque (mesmo internacionalmente) em 1601 ao publicar Catalogue of the Bishops of England since the first planting of the Christian Religion in this Island, o que possibilitou sua rápida ascensão na hierarquia da Igreja. Durante sua vida, ele era conhecido como historiador.

Avanços científicos e especulação lunar thumb|220px|No sentido horário, a partir do canto superior esquerdo: Copérnico, Gilberto, Kepler, Galileu O livro de Godwin apareceu em uma época de grande interesse na Lua e fenômenos astronômicos, e de importantes desenvolvimentos na observação celeste, matemática e mecânica. A influência pessoal de Nicolau Copérnico levou ao que foi chamado de "nova astronomia"; Copérnico é o único astrônomo que Godwin menciona pelo nome, mas as teorias de Johannes Kepler e William Gilbert também são discerníveis. A obra publicada em 1610 de Galileu Galilei, intitulado Sidereus Nuncius (geralmente traduzida como "O Mensageiro Sideral") teve uma grande influência nas teorias astronômicas de Godwin, embora Godwin tivesse proposto (ao contrário de Galileu) que as manchas escuras na Lua são mares, um dos muitos semelhanças entre The Man in the Moone e Somnium sive opus posthumum de astronomia lunaris de Kepler de 1634 ("O Sonho, ou Trabalho Póstumo sobre Astronomia Lunar").

A especulação sobre a habitação lunar não era novidade no pensamento ocidental, mas intensificou-se na Inglaterra durante o início do século XVII: a tradução de Philemon Holland de Moralia de Plutarco em 1603 introduziu a especulação greco-romana no vernáculo inglês, e poetas como Edmund Spenser propuseram que outros mundos, incluindo a Lua, poderiam ser habitados. Tal especulação foi motivada também pela expansão da visão geográfica do mundo. Na década de 1630, foi visto a publicação de uma obra traduzida Verdadeira História, de Luciano de Samósata (1634), contendo dois relatos de viagens à Lua, e uma nova edição do Orlando Furioso, do poeta italiano Ariosto, também apresentando uma ascensão à Lua. Em ambos os livros a Lua é habitada, e este tema recebeu uma importância religiosa explícita por escritores como John Donne, que em Ignatitus His Conclave (1611, com novas edições em 1634 e 1635) satirizou uma "igreja lunática" na Lua fundada por Lúcifer e os jesuítas. A especulação lunar atingiu o auge no final da década, com a publicação de The Man in the Moone (1638), de Godwin, e The Discovery of a World in the Moone, de John Wilkins (também em 1638, e revisado em 1640).

Evidências sobre ano de publicação thumb|220px|Frontispício e primeira página da segunda edição (1657), agora com o pseudônimo substituído por "FGB de H." ("Francis Godwin, Bispo de Hereford") Até que Grant McColley, um historiador da literatura inglesa moderna, publicou a obra "The Date of Godwin's Domingo Gonsales " em 1937, pensava-se que Godwin escreveu The Man in the Moone relativamente cedo em sua vida – talvez durante seu tempo na Igreja de Cristo de 1578 a 1584, ou talvez até 1603. Mas McColley propôs uma data muito posterior de 1627 ou 1628, com base em evidências internas e biográficas. Uma série de ideias sobre as propriedades físicas da Terra e da Lua, incluindo alegações sobre "uma propriedade secreta que opera de maneira semelhante à de um magneto atraindo ferro", não apareceu até depois de 1620. E Godwin parece tomar emprestado o conceito de usar um bando de pássaros fortes e treinados para voar com Gonsales à Lua de Sylva sylvarum ("História Natural"), de Francis Bacon, publicado em julho de 1626. Todas essas evidências apoiam o registro de McColley de "1626–1629, com os prováveis anos de lançamento de 1627–1628", que agora é geralmente aceito.

William Poole, em sua edição de 2009 de The Man in the Moone, forneceu evidências adicionais para um ano de publicação. Para ele, Godwin provavelmente obteve seu conhecimento da missão jesuíta na China (fundada em 1601) a partir de uma edição de 1625 intitulada Purchas his Pilgrimage, de Samuel Purchas. Este livro contém uma redação de De Christiana expedição apud Sinas suscepta ab Societate Jesu (1615), de Nicolas Trigault, traduzido como "Sobre a expedição cristã à China realizada pela Companhia de Jesus", que é uma redação de um manuscrito do padre jesuíta Matteo Ricci. Poole também vê a influência do acadêmico Robert Burton, que no segundo volume de The Anatomy of Melancholy especulou sobre a obtenção de conhecimento astronômico através da observação telescópica (citando Galileu) ou de viagens espaciais (Lucian). Aparecendo pela primeira vez na edição de 1628 de Anatomy, esta contém uma seção sobre os períodos orbitais, que dá a Marte um período de três anos – se Godwin tivesse usado o De Magnete (1600) de William Gilbert para esse detalhe, ele teria encontrado um período marciano de dois anos. Finalmente, Poole aponta para o que ele chama de "dívida genética": enquanto detalhes sobre, por exemplo, o período marciano poderia ter vindo de algumas outras fontes, Burton e Godwin são os dois únicos escritores da época a combinar um interesse em vida alienígena com as crianças verdes de Woolpit, de um relato do século XII de duas misteriosas crianças verdes encontradas em Suffolk. Poole vê esta referência como forte evidência da confiança de Godwin em Burton.

Uma das "grandes dívidas intelectuais" de Godwin é com o De Magnete de Gilbert, no qual Gilbert argumentou que a Terra era magnética, embora ele possa ter usado uma conta derivada de Mark Ridley ou um livro geográfico de Nathanael Carpenter. É improvável que Godwin pudesse ter reunido evidências em primeira mão usadas para narrar os eventos em seu livro (como os detalhes da viagem de Gonsales de volta do Oriente, especialmente uma descrição de Santa Helena e sua importância como local de descanso para marinheiros doentes), e mais provavelmente ele confiava em aventuras de viagem e outros livros. Ele usou o De Christiana Expeditione apud Sinas (1615), de Trigault, baseado em um manuscrito de Matteo Ricci, o fundador da missão jesuíta em Pequim em 1601, para obter informações sobre essa missão. Os detalhes relativos à viagem marítima e a Santa Helena provavelmente vieram do relato de Thomas Cavendish sobre sua circunavegação do mundo, disponível em Principal Navigations de Richard Hakluyt (1599–1600) e em Purchas His Pilgrimage, publicado pela primeira vez em 1613. Informações sobre a Guerra dos Oitenta Anos, o cenário histórico para o início da carreira de Gonsales, provavelmente vieram dos acervos de Emanuel van Meteren, um historiador holandês que trabalhava em Londres.

Obras traduzidas em inglês thumb|220px|Frontispício de Der Fliegende Wandersmann nach dem Mond, 1659 McColley conhecia apenas uma cópia restante da primeira edição, mantida no Museu Britânico (agora Biblioteca Britânica), que foi a base para sua edição de 1937 de The Man in the Moone e Nuncius Inanimatus, uma obra criticada pela crítica literária Kathleen Tillotson como carente de cuidado e consistência textual. A resenha de HW Lawton, publicada seis anos antes, menciona uma segunda cópia na Biblioteca Nacional da França, uma omissão também observada por Tillotson.

Para o texto de sua edição de 2009, William Poole comparou uma cópia na Biblioteca Bodleiana, em Oxford, com a da Biblioteca Britânica. O tipógrafo da primeira edição de The Man in the Moone é identificado na folha de rosto como John Norton, e o livro foi vendido por Joshua Kirton e Thomas Warren. Também inclui uma epístola de apresentação da obra e atribuída a "E.M", talvez o fictício Edward Mahon identificado no como o tradutor do original em espanhol. Poole especula que este Edward Mahon pode ser Thomas ou Morgan Godwin, dois dos filhos do bispo que trabalharam com o pai em telegrafia, mas acrescenta que o terceiro filho de Godwin, Paul, também pode estar envolvido. A revisão parcial do manuscrito (a primeira metade tem datas de acordo com o calendário gregoriano, a segunda metade ainda segue o calendário juliano substituído) indica um manuscrito inacabado, que Paul pode ter adquirido após a morte de seu pai e passado para seu ex-colega Joshua Kirton: Paul Godwin e Kirton foram aprendizes do mesmo tipógrafo, John Bill, e trabalharam lá juntos por sete anos. Paul pode ter simplesmente continuado o embuste "E.M" sem saber, e/ou pode ter sido responsável pela revisão parcial do manuscrito. À segunda edição, publicada em 1657, foi adicionado o Nuncius Inanimatus de Godwin (em inglês e latim; publicado pela primeira vez em 1629). A terceira edição foi publicada em 1768; seu texto foi abreviado, e uma descrição de Santa Helena (pelo tipógrafo Nathaniel Crouch) funcionou como uma introdução.