destes |} As Minas de Aljustrel, também conhecidas como Complexo Mineiro de Aljustrel, consistem num conjunto de explorações mineiras, encerradas ou em funcionamento, e num conjunto industrial que lhe está associado, situados nas imediações da vila de Aljustrel, na região do Baixo Alentejo, em Portugal. A exploração deste conjunto foi concessionada à empresa Pirites Alentejanas, SA que entretanto alterou a designação para Almina, SA.
A exploração mineira em Aljustrel é muito antiga, datando possivelmente do calcolítico, no terceiro milénio a.C., tendo conhecido um grande incremento durante o período romano, com a fundação de um novo povoado, conhecido como Vipasca. A produção decaiu após o fim da ocupação romana, só tendo sido retomada após a reconquista cristã. Porém, o aproveitamento das minas em larga escala só se iniciou em meados do século XIX, com a formação da Companhia de Mineração Transtagana, que operou até aos finais do século. Foi substituída em 1898 pela Société Anonyme Belge des Mines d’Aljustrel, que foi responsável por um grande desenvolvimento das minas e da própria vila, tendo construído estruturas sociais e culturais como bairros operários, escolas e hospitais. As minas passaram por algumas dificuldades durante a primeira metade do século XX, causadas pelas duas guerras mundiais, lutas laborais na década de 1920 e uma queda nos preços do cobre no anos 30, mas conheceram um grande crescimento a partir da Segunda Grande Guerra, atingindo o pico de produção nos anos 60, período em que se desenvolveu igualmente um complexo industrial para transformação dos produtos das minas. A concessão foi quase totalmente nacionalizada em 1975, tendo as minas integrado um ambicioso plano do governo para expandir a produção e construir infraestruturas de transformação do minério. Porém, este empreendimento acabou por ser consideravelmente reduzido, embora ainda tenham sido construídas algumas importantes infraestruturas, como a lavaria industrial e o Ramal das Pirites Alentejanas, ambos concluídos em 1991. Apesar destes investimentos, as minas de Aljustrel entraram em crise, devido parcialmente a uma queda dos preços dos metais, levando ao seu encerramento em 1993. A exploração foi retomada em 2008, após a aquisição pelo grupo internacional Lunding Mining, que depois vendeu a concessão à empresa Almina.
Descrição Localização e composição O Município de Aljustrel está situado na Faixa Piritosa Ibérica, uma área rica em minerais, principalmente cobre e ferro, que se estende desde Alcácer do Sal até Sevilha, e que é considerada como um das maiores concentrações de jazigos de sulfuretos maciços a nível mundial, tendo esta designação por serem compostas por sulfuretos de ferro.DIAS, 2013:29-30 As duas únicas minas em funcionamento nesta faixa em Portugal são as de Aljustrel e Neves-Corvo, embora no passado também tivessem operado outros importantes coutos mineiros, como o de São Domingos, Caveira e do Lousal.
As minas de Aljustrel produzem principalmente cobre, zinco e chumbo, tendo no passado produzido igualmente uma quantidade considerável de enxofre, que era extraído das pirites.DIAS, 2013:39-40 Nas áreas do Castelo e do Cerro da Mangancha também foi extraído manganês. Os minérios são recolhidos em vários jazigos, como Feitais, Moinho, Estação, e São João do Deserto, formando um couto mineiro com uma área aproximada de 4,7 m². Ao longo da história foram explorados outros depósitos em São João do Deserto e em Algares, que chegaram a ser os principais no campo mineiro de Aljustrel. Um outro jazigo que foi alvo de trabalhos de prospecção mas não explorado foi o do Gavião, que, em conjunto com o da Estação, são considerados como de reserva. Os depósitos de Aljustrel são principalmente compostos por pirite, esfalerite e calcopirite, sendo consideradas as jazidas de maiores dimensões dentro da Faixa Piritosa Ibérica, tendo o recurso original sido computado em mais de 200.000.000 toneladas, enquanto que a produção histórica no século XX foi calculada em cerca de 16.000.000 toneladas. Em 1931, o professor Aboim Inglêz descreveu a mina de Algares como estando situada a 500 m de distância da vila, no sentido Sudoeste, e estendia-se a cerca de mais um quilómetro nessa orientação, sendo composta por «duas massas filonianas no contacto dos schistos argilo talcosos do culm com os porfiros, separadas por um cavalo de schistos. As duas massas são irregulares de pussança, variando de 0m,50 a 12m. [...] Paralelos ao jazigo principal e encastrados nos porfiros teem aparecido lentilhas de minerio de formação secundaria que algumas vezes são tão ricas em cobre ou mais que o jazigo principal donde tiveram origem». Quanto à mina de São João do Deserto, esta situava-se a cerca de um quilómetro a Norte da vila, sendo igualmente composta por uma «massa encastrada no contacto dos schistos com os porfiros, é do mesmo alinhamento e da mesma formação do que Algares havendo entre as duas um espaço não mineralisado de aproximadamente dois quilómetros. Esta massa que tem uma curvatura em S acompanhando a configuração do contacto em que está encaixada tem sido e é mais pobre em cobre do que Algares, julgando eu que esta é mais tipica em relação ás outras minas de pirita da Península. [...] O minerio de São João é mais rico em enxofre que o de Algares (47 a 50 %), mas a lei de cobre era em média 1,50 %».
O complexo também inclui um conjunto industrial para o processamento do minério, principalmente a sua transformação em concentrados. Nos finais de 2018 o complexo mineiro de Aljustrel empregava cerca de 1100 pessoas, das quais 600 trabalhavam para a companhia exploradora, a Almina, enquanto que os restantes pertenciam a várias empresas contratadas.
Património O complexo inclui igualmente várias estruturas que no passado estiveram ligadas à exploração mineira, tendo sido preservadas como testemunho das antigas técnicas utilizadas nesta indústria, e da importância das minas para a história de Aljustrel. Entre os principais exemplos encontram-se o Malacate Vipasca, que se erguia sobre o poço Eyben, baptizado com o nome do primeiro administrador belga das minas, nos finais do século XIX. Na área de Algares encontra-se a antiga zona de cementação, e a central de compressores, cuja energia vinha principalmente de motores eléctricos, possuindo também motores a gasóleo, em caso de avarias. Este edifício foi convertido num núcleo museológico, explicando os vários equipamentos a ar comprimido que eram utilizados nas minas. Também serve como espaço para eventos, tendo por exemplo albergado um colóquio em Outubro de 2022 sobre o turismo mineiro e industrial na região do Alentejo. Outro importante equipamento de apoio era a central eléctrica, que fornecia energia para a iluminação e ventilação das galerias das minas. Outro importante elemento patrimonial da indústria ligada à exploração mineira é uma antiga chaminé de sulfuração, conhecida como Chaminé da Transtagana, que fazia originalmente parte de um conjunto de três chaminés construídas no século XIX pela Companhia Transtagana, embora provavelmente nunca tenham sido utilizadas devido à poluição causada pelo processo, motivo pelo qual foi transferido para a Herdade das Pedras Brancas.
A cerca de 10 Km de distância de Aljustrel, na Herdade das Pedras Brancas, encontram-se as ruínas de um antigo núcleo industrial, que era utilizado no tratamento dos produtos da mina. Foi instalado a uma grande distância da povoação devido aos gases muito tóxicos libertados pela queima de pirites, para a produção de anidrido sulfuroso, que era depois utilizado no processo da cementação do cobre. Neste local o minério era alvo de um processo de ustulação em teleiras de combustão lenta, método que demorava sete a oito meses, sendo depois disposto em terreiros de lixiviação, produzindo água rica em cobre. Esta água era depois depositada em tanques junto com sucata de ferro, onde através de uma reacção química formava-se no fundo uma camada de óxido de cobre de uma grande pureza, conhecida como cemento. Este método era de grande importância, pois permitia o aproveitamento dos minérios com menor conteúdo em cobre. O complexo incluía igualmente um conjunto de residências para os trabalhadores, dispostas em banda, de forma semelhante às casernas militares. O centro das Pedras Brancas não foi a única área de cementação das minas de Aljustrel, tendo um segundo complexo de tanques sido instalado na zona de Algares, mais perto da vila. Este procedimento não era inovador, tendo sido descobertos vestígios de uma estrutura industrial romana na área de Feitais que foi aparentemente concebida para produzir cemento de cobre.
Rede ferroviária
O acesso das minas de Aljustrel à rede ferroviária nacional era feito através de dois ramais, um mais antigo de via estreita que terminava no Apeadeiro de Figueirinha, na Linha do Alentejo,LOBATO, 2005:338 e outro de via larga, o Ramal de Aljustrel, inaugurado em 2 de Junho de 1929, que ligava a vila à estação de Castro Verde - Almodôvar, na Linha do Alentejo. A via férrea de via estreita servia para o transporte do minério desde os jazigos até à área de tratamento nas Pedras Brancas, e depois para o terminal na Figueirinha, onde era transbordado para os comboios de via larga, com destino ao Porto de Setúbal. Utilizava via com bitola de 0,92 mm, e tinha uma extensão aproximada de 21,5 Km até à Figueirinha.
Parte do património ferroviário de Aljustrel inclui um conjunto de locomotivas, uma das quais foi restaurada e exposta junto do Malacate de Vipasca.
História Proto-história e antiguidade
Os indícios mais antigos de mineração na área de Aljustrel remontam ao período calcolítico, nos finais do terceiro milénio a.C., e correspondem ao estabelecimento das primeiras comunidades permanentes, que se fixaram aqui devido à forte riqueza agrícola e mineral dos solos. O primeiro núcleo populacional instalou-se na colina do castelo, onde foram descobertos vestígios de mineração e transformação do cobre. Os minerais eram extraídos das explorações de Algares e São João do Deserto, onde se encontravam ricos chapéus de ferro (en), que consistem em afloramentos à superfície de jazigos minerais, com uma aparência de uma formação rochosa muito oxidada, em tons encarnados que a destacam na paisagem. Embora na área de Aljustrel existam outros jazigos, só estes dois é que afloravam à superfície, motivo pelo qual foram os únicos a serem alvo de explorações até ao século XX. Com efeito, no chapéu de ferro de Algares foram descobertos vestígios de povoamento do calcolítico, enquanto que no Cerro da Mangancha foram encontrados indícios de uma povoação fortificada, também deste período. Porém, não se sabe ao certo se esta povoação seria um centro distribuidor de cobre a nível regional. Durante a Idade do Bronze, o núcleo urbano situava-se no Cerro da Mangancha, a menor distância da minas de São João do Deserto.