miniaturadaimagem|Johann Moritz Rugendas. "Indiens dans leur cabane" [Índios dentro de sua cabana], 1835. A história indígena é um campo de pesquisa transdiciplinar das humanidades que estuda o protagonismo indígena na história. As pesquisas na temática combinam metodologias de várias disciplinas, especialmente História, Antropologia, Etnologia, Linguística e Arqueologia.Carneiro da Cunha, Manuela (1992). “Introdução a uma história indígena”. Em: História dos Índios no Brasil. Carneiro da Cunha (org.), 1992: 17-8. Oliveira, João Pacheco de (2014). "Os indígenas na fundação da colônia: uma abordagem crítica". In: Fragoso, João & Gouvêa, Maria de Fátima Gouvêa (orgs.). O Brasil Colonial vol. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014, pp.1443-1580.
O campo de pesquisa se fortaleceu no Brasil na década de 1990, sendo um marco a publicação do livro História dos índios no Brasil. Lançado em 1992. O volume foi organizado pela antropóloga Manuela Carneiro da Cunha como resultado dos trabalhos realizados no Núcleo de História Indígena e Indigenismo (NHII) na Universidade de São Paulo.História dos índios no Brasil. Manuela Carneiro da Cunha [Org.] São Paulo, SP: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. 1992. OCLC 27433493 Além de Carneiro da Cunha, outros pesquisadores exerceram um papel essencial para o desenvolvimento do tema nas universidades brasileiras, como o historiador John Monteiro e o antropólogo João Pacheco de Oliveira.Monteiro, John. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. Com o tempo, esse campo de pesquisa e ensino se consolidou, por vezes sendo referido também como Etno-história.
Principais temas trabalhados pela área atualmente Conceitos Gerais A história indígena se fortaleceu no Brasil a partir dos anos 90, principalmente após a promulgação da constituição de 1988, que teve uma grande participação de ativistas indígenas. Este movimento gerou uma maior atenção para os estudos sobre o papel dos povos indígenas na história. No entanto, este campo de conhecimento foi, por muito tempo, questionado na academia. Discussões sobre quem seriam os povos originários e/ou se eles seriam "puros" o suficiente para serem considerados como indígenas - ou apenas "mestiços aculturados", eram bastante frequentes. Nesse sentido, alguns conceitos bases foram sendo construídos na historiografia e na antropologia para que se compreendesse o assunto, sendo um destes a etnogênese. Esse processo necessita da compreensão acerca do ressurgimento de diferentes comunidades. Os indígenas, portanto, não se definiriam por "pureza" étnica, mas como o resultado de complexos processos identitários ocorridos em contextos históricos específicos.Baniwa, Gersem. “Quem são e quantos são os índios no Brasil”. In: O Índio Brasileiro: o que você precisa saber sobre os povos indígenas no Brasil de hoje. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade; LACED/Museu Nacional, 2006, pp.26-55.
Outro importante conceito para uma melhor compreensão a respeito do que seria a história indígena é o do "Índio Hiper-real", formulado por Alcida Ramos. A autora destaca a imagem que fora criada de um "índio", de como ele deveria ser, de como deveria se vestir, de que comportamentos seriam aceitáveis para "alguém como ele". Frente a isso, as pessoas só o considerariam válido enquanto indígena se estivesse nos moldes concebidos do que é ser indígena. Entendendo que a realidade material é muito mais complexa do que isso, o conceito de Ramos contribui para que se desconstrua este imaginário de um "índio" ideal, pois seria este uma caricatura. Neste sentido, também é interessante falar sobre o conceito de "aculturados", comumente usado. Entretanto, essa conceituação cria uma imagem que relaciona-se a do "índio hiper-real" no imaginário popular, e não serve para que se entenda a história indígena, uma vez que pressupõe a ideia de pureza. Ramos, Alcida Rita. “O índio hiper-real”. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 1995, pp.5-14.
Contrário ao fetichismo do indígena puro e os esteriótipos de “remanescente”, “descendente” ou “misturado”, os números do Censo do IBGE de 2022, realizado com apoio da FUNAI, contrapostos aos de 2010 explicitam uma onda de retomadas étnicas que pelo prisma da “pureza” seriam inexplicáveis. A população indígena no Brasil saltou de 896.917 a 1.693.535 pessoas, chegando a representar um total de 0,83% da população do Brasil.
Para compreendermos essa dinâmica que tende ao aumento é necessário não só o conceito de etnogênese, aqui já abarcado, mas também o processo de territorialização como parte do ser indígena e a diferenciação étnica-política.
A territorialização implica então a relação cultural e política dos povos com seus territórios, rurais ou urbanos. Exemplo disso é o conceito de Tekoá, sendo territórios onde a miríade de povos Guaranis podem ser e viver do seu modo. Entretanto, a territorialização também pode ser imposta pela gerência colonial do espaço e as relações sociais nele inscritas pelo Estado, sendo realizada com diferentes graus de centralização no Estado, indo desde missões de catequese à criação de reservas indígenas pelo SPI. Somam-se aqui os aldeamentos e até sua posterior extinção em favor do latifúndio englobante.
As aldeias indígenas são ótimos exemplos na medida que, como analisou Maria Regina Celestino de Almeida, foram dispositivos do manejo colonial mas também foram por vezes concessões subvertidas pelos povos ali alocados. Essa metamorfose étnica mesmo na adversidade ressalta não apenas a história e nuance desses povos fora dos estereótipos mas principalmente a agência desses grupos. Isso nos tira do campo da assimilação efetiva, o qual trata muitas vezes a indianidade como estática, para enfim pensar a linha tênue entre etnificação e etnogênese.ALMEIDA, Maria Regina Celestino. “A ressocialização nas aldeias: as múltiplas etnias tornam-se índios aldeados e súditos cristãos do Império português”. In: Metamorfoses indígenas: identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.
Em suma, vindo tanto da ingerência indigenista e da agência indígena, a territorialização é, segundo João Pacheco de Oliveira:
1) A construção de uma nova unidade sociocultural mediante o estabelecimento de uma identidade étnica diferenciadora;
2) O estabelecimento de mecanismos políticos especializados;
3) A mudança do controle social sobre os recursos ambientais;
4) A transformação da cultura e da relação com o passado.
A retomada identitária e a territorialização imbricada, no entanto, não é restrita ao meio rural. Contrária às teses de assimilação ou “mistura” há uma pluralidade de povos e pessoas indígenas em contexto urbano com suas especificidades históricas-sociais, inclusive com terras indígenas demarcadas - vide Aldeia Maracanã.
Muito embora o movimento indígena tenha atingido conquistas históricas na constituição de 1988 e leis subsequentes, os Direitos Indígenas não garantem que a luta por Terras Indígenas seja pacífica no Brasil contemporâneo. Tanto o latifúndio quanto o empresariado urbano sabotam ou financiam violências contra o assentamento e demarcação de terras indígenas. As memórias e histórias indígenas são minadas pelo Capital e forças articuladas no Estado, vide a tese do Marco Temporal. Este, em prol do latifúndio, invalida reivindicações de T.I. para além das terras ocupadas em 5 de outubro de 1988. A mobilização contra o Marco Temporal se estende nacionalmente através de organizações como a APIB , movimentos e partidos aliados da causa indígena. Já o profissional da História Indígena, além da participação cidadã, tem seu papel no direito tradicional ao território na medida que participa, junto de antropólogos, dos estudos necessários para a demarcação de Terras Indígenas - assim traçando junto dos povos suas histórias e trajetórias.
Principais obras Algumas obras foram essenciais para o estabelecimento do campo da História dos Indígenas no Brasil. Podemos destacar: Negros da Terra , de John Monteiro,Monteiro, John. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. A História dos Índios no Brasil, de Manuela Carneiro da Cunha,Cunha, Manuela Carneiro da (org.). História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, Secretaria Municipal de Cultura, FAPESP, 1992. Uma Etnologia dos Índios Misturados, de João Pacheco de Oliveira , Metamorfoses indígenas: identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro, de Maria Regina Celestino de Almeida, e Terra de índio: imagens em aldeamento do Império, de Marta Rosa Amoroso. Estas obras foram muito importante para o desenvolvimento de uma historiografia especializada - John Monteiro é uma bibliografia obrigatória acerca do tema, já que foi uma das primeiras publicações sobre a temática da História Indígena no Brasil. Ele também faz parte desse campo historiográfico que reforça a existência de uma relação entre os povos originários e a História;
- O livro de Manuela Carneiro da Cunha, por sua vez, discute sobre a história dos povos indígenas de maneira interdisciplinar e destaca a importância dos grupos originários na história brasileira;
- a obra de Regina Celestino dá voz à historiografia indígena dentro do campo histórico e faz uma análise sobre a importância dos povos originários na história de construção do Rio de Janeiro;
- João Pacheco de Oliveira é responsável por ir contra a ideia de que os "misturados" da região Nordeste do país não eram indígenas "válidos". Ele argumenta que os indígenas estavam presentes nessa localidade e, ao fazer essa afirmação, rebate ideias amplamente aceitas pela academia e pela sociedade;
- A pesquisa de Marta Rosa Amoroso, no que lhe concerne, contribui para o campo da História Indígena na medida em que busca entender as políticas indigenistas de aldeamento e catequização dos Freis Capuchinhos durante o século XIX.
Temas de pesquisa