O Simbólico é um conceito transversal às ciências humanas e sociais, referindo-se à dimensão da cultura, da linguagem e das representações que mediam a relação do ser humano com a realidade. Diferente do mundo físico ou biológico imediato, o universo simbólico é constituído por sistemas de signos (mitos, religião, arte, linguagem) que conferem sentido à existência social e individual.
O termo possui acepções distintas e fundamentais na antropologia estrutural, na sociologia da dominação e na psicanálise lacaniana. Enquanto na psicanálise refere-se a uma ordem estruturante do inconsciente, nas ciências sociais diz respeito aos instrumentos de conhecimento, comunicação e poder que constroem a realidade social.
O simbólico nas ciências sociais A compreensão moderna do simbólico nas ciências sociais é resultado de uma síntese de tradições filosóficas e sociológicas que buscam explicar como a ordem social é mantida pela adesão cognitiva dos indivíduos.
Durkheim e as representações coletivas
Para Émile Durkheim, a sociedade é a fonte do pensamento lógico. Em obras fundamentais para a sociologia do conhecimento, Durkheim e Marcel Mauss argumentam que as estruturas mentais (categorias de percepção e classificação) são produtos da incorporação das estruturas sociais.Durkheim, Émile; Mauss, Marcel. *Algumas formas primitivas de classificação*. In: Mauss, M. *Ensaios de sociologia*. São Paulo: Perspectiva, 1974.
Nesta visão, os sistemas simbólicos atuam como instrumentos de integração social. O Estado ou a sociedade instituem formas comuns de pensamento, gerando um "conformismo lógico" e um "conformismo moral". Este acordo tácito e pré-reflexivo sobre o sentido do mundo é a base do consenso social, permitindo a comunicação e a solidariedade entre os indivíduos.Bourdieu, Pierre. *Sobre o Estado*. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
Cassirer e o homem simbólico
O filósofo neokantiano Ernst Cassirer, em sua *Filosofia das Formas Simbólicas*, redefine o ser humano não apenas como um animal racional, mas como um animal symbolicum. Cassirer rompe com o realismo ingênuo ao propor que o homem não reflete o mundo passivamente, mas o constrói ativamente através de "formas simbólicas" (como a linguagem, o mito, a arte e a ciência).Cassirer, Ernst. *A filosofia das formas simbólicas*. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
A contribuição de Cassirer é fundamental para o entendimento de que os símbolos possuem uma função mitopoiética (criadora de realidade) e para a substituição, na ciência moderna, do conceito de "substância" pelo de "relação".
Lévi-Strauss e as estruturas simbólicas
Claude Lévi-Strauss, influenciado pela linguística estrutural, propõe que a cultura funciona como uma linguagem. Para ele, os sistemas simbólicos (regras de parentesco, mitos, rituais) possuem uma coerência interna e uma lógica própria que lhes confere eficácia.Lévi-Strauss, Claude. *Antropologia Estrutural*. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975.
Lévi-Strauss demonstra que o simbólico é uma estrutura inconsciente que regula as trocas sociais. Sua noção de "eficácia simbólica" ilustra como os símbolos podem atuar sobre o real fisiológico e social, organizando o caos da experiência sensível através de oposições binárias e estruturas de reciprocidade.
O simbólico na sociologia de Pierre Bourdieu
A sociologia de Pierre Bourdieu realiza uma síntese teórica das tradições anteriores (Durkheim, Cassirer, Marx e Weber) para explicar o simbólico não apenas como estrutura de comunicação, mas como instrumento de dominação.
Bourdieu critica o estruturalismo de Lévi-Strauss por ver as práticas apenas como execução de regras (objetivismo). Em contrapartida, propõe uma abordagem onde o simbólico é uma estratégia social. Para o autor, os sistemas simbólicos cumprem três funções simultâneas: **Conhecimento:** Estruturam a percepção do mundo (influência neokantiana); **Comunicação:** Permitem o consenso social (influência durkheimiana); **Dominação:** Estabelecem hierarquias e legitimam o poder (influência marxista/weberiana).
Poder Simbólico
Bourdieu define o poder simbólico como um poder de construção da realidade (worldmaking) que tende a estabelecer uma ordem gnoseológica imediata. É o poder de "fazer ver e fazer crer", de confirmar ou transformar a visão de mundo e, consequentemente, a ação sobre o mundo.Bourdieu, Pierre. *O Poder Simbólico*. Lisboa: Difel, 1989.
Este poder é exercido através da nomeação e da classificação. O Estado, por exemplo, detém o monopólio da violência simbólica legítima, atuando como um "banco central de crédito simbólico" que garante atos de autoridade (diplomas, certidões, nomeações). A eficácia desse poder reside no fato de ser "dóxico": a ordem do mundo é aceita como natural porque as estruturas mentais dos dominados estão em acordo com as estruturas sociais da dominação.Bourdieu, Pierre; Wacquant, Loïc. *An Invitation to Reflexive Sociology*. Chicago: University of Chicago Press, 1992.
Capital Simbólico
O capital simbólico refere-se a qualquer espécie de capital (econômico, cultural, social) quando percebida e reconhecida como legítima por agentes sociais que possuem as categorias de percepção adequadas. É, essencialmente, crédito, prestígio, honra e reconhecimento.
Este conceito baseia-se frequentemente na denegação (Verneinung) do interesse econômico. Na "economia dos bens simbólicos", as relações de força são transfiguradas em relações de sentido moral ou generosidade (como na troca de dons), ocultando o caráter arbitrário da posse de capital.Bourdieu, Pierre. *Esboço de uma teoria da prática*. In: Ortiz, R. (org.). *A sociologia de Pierre Bourdieu*. São Paulo: Olho d'Água, 2013.
Violência Simbólica
A violência simbólica é definida como uma violência suave, insensível e invisível às suas próprias vítimas, exercendo-se através das vias puramente simbólicas da comunicação e do conhecimento. Ela não se baseia na força física, mas na "cumplicidade" concedida pelo dominado ao dominante.
Essa cumplicidade não é um ato consciente de submissão, mas o efeito do poder simbólico: o dominado percebe o dominante através de categorias de pensamento que são o produto da própria relação de dominação, naturalizando assim a hierarquia social.
O simbólico na psicanálise de Jacques Lacan thumb|O Nó Borromeu é utilizado por Lacan para ilustrar a interdependência entre o Real, o Simbólico e o Imaginário. [attachment_0](attachment) O Simbólico (ou Ordem Simbólica do Nó Borromeu)Thurston, Luke, "Ineluctable Nodalities: On the Borromean Knot", in: Dany Nobus (ed.), Key Concepts of Lacanian Psychoanalysis, Other Press, pp. 144-145. é a ordem no inconsciente de onde se origina a subjetividade e faz a ponte da comunicação entre dois sujeitos; um exemplo é a ideia de desejo de Lacan como desejo do Outro, mantida pela subjetivação do Outro pelo Simbólico na fala. Na teoria psicanalítica posterior de Jacques Lacan, ela está conectada pelo sinthoma ao Imaginário e ao Real.
Visão geral Na teoria de Lacan, o inconsciente é o discurso do Outro e, portanto, pertence ao Simbólico. É também o domínio da Lei que regula o desejo no complexo de Édipo e é determinante da subjetividade.Lacan, Jacques. 1994. The Four Fundamental Concepts of Psycho-Analysis, translated by A. Sheridan. London. p. 126, 246. Um momento formativo no desenvolvimento do Simbólico em um sujeito é o Outro dando origem ao objeto petit (a)utre, assim estabelecendo falta, demanda e necessidade. O nome-do-pai, uma "metáfora paterna", é um significante que determina a Ordem Simbólica pela Lei, uma regulação do desejo e da realidade. No entanto, quando se torna significante vazio, psicose, que Freud não conseguiu abordar teoricamente, desenvolve-se a partir de um deslizamento metonímico instável do significado (isto é, foraclusão). "O significante", que na teoria de Lacan está acima do significado em oposição à unidade de significante e significado de Saussure, "é aquilo que representa, que está no lugar de um sujeito para outro significante".
Desde o início, Lacan considerou sua tentativa de "distinguir entre aqueles registros elementares cujo fundamento mais tarde apresentei nestes termos: o simbólico, o imaginário e o real" como "uma distinção nunca antes feita em psicanálise", porque Freud não encontrou ideias semióticas , mas encontrou fenômenos em estudos de caso que justificavam uma compreensão semiótica.Lacan, Jacques. 1997. Écrits: A Selection. London.
História Os primeiros trabalhos de Lacan centraram-se na exploração do Imaginário, daquelas "imagens específicas, às quais nos referimos pelo antigo termo de imago... partindo de sua função formativa no sujeito".Lacan, Jacques. 1997. Écrits: A Selection. London. Portanto, "a noção de 'simbólico veio à tona no Relatório de Roma ... daí em diante é o simbólico, não o imaginário, que é visto como a ordem determinante do sujeito".Sheridan, Alan. 1994. "Translator' Note" in J. Lacan. 1994. The Four Fundamental Concepts of Psycho-Analysis. London.
O conceito de Lacan do simbólico "deve muito a um evento chave na ascensão do estruturalismo... a publicação de Estruturas elementares de parentesco de Claude Lévi-Strauss em 1949.... De muitas maneiras, o simbólico é para Lacan um equivalente à ordem de cultura de Lévi-Strauss: "uma ordem de cultura mediada pela linguagem.Macey, David. 1994. "Introduction." Pp. i–xxvii in The Four Fundamental Concepts of Psycho-Analysis, by J. Lacan. London. Portanto, "o homem fala... mas é porque o símbolo o fez homem" que "sobrepõe o reino da cultura ao da natureza".Lacan, Jacques. 1997. Écrits: A Selection. London. Aceitando que "a linguagem é a instituição social básica, no sentido de que todas as outras pressupõem a linguagem",Searle, John R. 1995. The Construction of Social Reality. London. p. 60. Lacan encontrou na divisão linguística de Ferdinand de Saussure do signo verbal entre significante e significado uma nova chave para a compreensão freudiana de que "sua método terapêutico era 'uma cura pela fala'."Sigmund Freud and Joseph Breuer, as quoted in Macey 1994: xxvii.
Predominância da ideia Por mais ou menos uma década depois do Relatório de Roma, Lacan encontrou no conceito do Simbólico uma resposta à problemática neurótica do Imaginário: "É tarefa do simbolismo proibir a captura imaginária [...] …] supremacia do simbólico sobre o real."Miller, Jacques-Alain. 1997. "Commentary" in J. Lacan. 1997. Écrits: A Selection. London. p. 327, 332. Aceitando por meio de Lévi-Strauss a premissa antropológica de que "o homem é, de fato, um 'animal symbolicum'", e que "a auto-iluminação da sociedade por meio de símbolos é parte essencial da realidade social",Schutz, Alfred. 1973. The Problem of Social Reality: Collected Papers I. Hague: Martinus Nijhoff Publishers. . p. 330, 356. Lacan deu o salto para ver " o complexo de Édipo - na medida em que continuamos a reconhecê-lo cobrindo todo o campo de nossa experiência com sua significação"Lacan, Jacques. 1997. Écrits: A Selection. London. – como o ponto em que o peso da realidade social foi mediado para a criança em desenvolvimento pelo pai (simbólico): "É no nome do Pai que devemos reconhecer o suporte da função simbólica que, desde o início da história, identificou sua pessoa com a figura da lei”.
O imaginário agora passa a ser visto cada vez mais como pertencente ao reino anterior e fechado do relacionamento dual de mãe e filho—” Melanie Klein descreve a relação com a mãe como um relacionamento espelhado […] [negligenciando] o terceiro termo, o pai. "Lacan, Jacques. 1982. "Seminar III." Pp. 57–8 in Feminine Sexuality, edited by J. Mitchell and J. Rose. New York. — para ser desmembrado e aberto à ordem simbólica mais ampla.