Muitos animais possuem a capacidade de comunicação, isto é, de transmitir informações que geram respostas em outros indivíduos. Para que a comunicação aconteça, os animais devem emitir sinais sonoros, visuais, táteis, químicos e até mesmo elétricos, como é o caso de alguns peixes elétricos. Já a recepção destes sinais ocorre devido aos sentidos presentes nos animais e as suas capacidades de percepção do ambiente, que dependem de órgãos sensoriais.
Entre os primatas não é diferente, e essa comunicação pode ser feita de diversas formas, como por exemplo, por gestos, expressões faciais e sons. Os gestos são caracterizados como movimentos dos membros e da cabeça, como a mudança de postura e o movimento dos braços. Já as expressões faciais são mudanças em músculos do rosto, sendo a musculatura facial dos primatas uma das mais complexas encontradas na natureza. Por fim, a produção de sons é uma das formas de comunicação mais estudadas em primatas, e é caracterizada pela emissão de sons que geram respostas em outros indivíduos da mesma espécie.
Ainda é muito debatida a presença ou não de um conteúdo simbólico no sistema de comunicação de primatas não humanos, especialmente na comunicação oral. Isso porque, embora as vocalizações desses primatas possam ter algum conteúdo, acredita-se que, em geral, a capacidade desses animais de elaborar e compreender sequências de sons complexas e providas de significados é muito limitada. Em contrapartida, os seres humanos (Homo sapiens) possuem grande habilidade em elaborar e compreender sequências complexas, podendo gerar infinitos significados a partir de sua linguagem oral. Apesar disso, existem evidências de que alguns primatas têm a capacidade de elaborar sequências de vocalizações com potencial para a geração de significado, mesmo que esse potencial seja muito menor do que o da linguagem humana.
Comunicação oral em primatas miniaturadaimagem|149x149px|Macaco-de-nariz-branco (Cercopithecus nictitans) Diversos tipos de primatas emitem sinais sonoros (chamadas), que sinalizam saudação, perigo (presença de predadores), comida, e até mesmo a intenção de viajar. Isso indica que o sistema de comunicação desses primatas possui alguma capacidade lexical, ou seja, possui unidades discretas. O número de chamadas varia de espécie para espécie, e pesquisadores debatem sobre o número exato delas para cada espécie. Algumas espécies variam esses "gritos de aviso" dependendo do predador (um chamado para predadores voadores, outro para predadores terrestres, etc.). Dessa forma, as chamadas em primatas podem ou não estar associadas a significados. Estudos demonstram que existem primatas que associam sons a conteúdos, como nos casos de quando há a sinalização de um predador muito específico, conforme observado no caso dos macacos-vervet. Por outro lado, na maioria das vezes, chamadas de som semelhantes estão ligadas a motivações semelhantes, como a alta excitação ao ver algo perigoso, e, nesse caso, não estariam associadas a um significado específico. Essas chamadas também podem variar de acordo com o contexto social, exprimindo relações de submissão e de dominância, o que é visto em chimpanzés (Pan troglodytes) e em macacos-rhesus (Macaca mulatta).
Alguns exemplos de chamadas de primatas que exprimem significados e os seus contextos:
O macaco-de-nariz-branco (Cercopithecus nictitans) emite chamadas diferentes para sinalizar a presença de águias ou leopardos, ambos predadores, que são rapidamente compreendidos pelos outros macacos. Estes macacos, ao combinar chamadas, podem também indicar ao grupo o início de uma viagem. O macaco-vervet (Cercopithecus aethiops) emite chamadas diferentes para sinalizar a presença de diferentes predadores, que evocam respostas diferentes nos membros do grupo. Por exemplo, alarmes que sinalizam leopardos os fazem subir nas árvores, os que sinalizam águias os fazem olhar para o céu e os que sinalizam serpentes olhar para o chão.
Evidências de sintaxe na comunicação oral de primatas miniaturadaimagem|217x217px|Grupo de bonobos (Pan paniscus) Estudos vêm demonstrando que muitos primatas são capazes de combinar diversas chamadas únicas em sequências. Essas chamadas únicas, que podem carregar um significado, uma vez combinadas em estruturas maiores, podem exprimir uma gama ainda maior de significados. Imagine um repertório de dois tipos de sons, A e B, cada um deles exprimindo um significado. Caso sejam combinados, teremos as sequências AB, BA e as unidades isoladas A e B, ou seja, quatro significados. Consequentemente, a possibilidade de realização de combinações entre chamadas únicas, denominada sintaxe, oferece ao sistema de comunicação de alguns primatas a possibilidade de geração de significados. Essa capacidade, por muito tempo, era creditada apenas aos seres humanos. Ainda assim, é importante ressaltar que o sistema de combinação da linguagem humana (sintaxe humana) é exclusivo e extremamente complexo, enquanto, em outros primatas, a sintaxe é rudimentar.
Existem diversos registros de primatas que têm a capacidade de gerar sequências vocais, como por exemplo:
Chimpanzés (Pan troglodytes) possuem um sistema de comunicação ordenado e flexível, com a capacidade de produzir sequências de chamadas únicas que podem ser combinadas e recombinadas. Bonobos (Pan paniscus) possuem uma grande variabilidade de sequências formadas por chamadas únicas, as quais são usadas em uma ampla gama de contextos. Para cada comportamento diferente, existe um conjunto de sequências e suas variações associado. Macacos-titi (Callicebus nigrifrons) combinam chamadas únicas de alarme em sequências maiores para indicar predadores, especificando o tipo de predador e a sua localização. Macacos-campbell (Cercopithecus campbelli) machos emitem um tipo de chamada na presença de leopardos (krak), mas para indicar outros tipos de perigo com menor especificidade, emitem uma sequência dupla krak-oo. Ou seja, a presença do oo na sequência altera o significado de um krak isolado.
Comunicação oral em chimpanzés Os chimpanzés (Pan troglodytes) possuem em seu repertório vocal várias chamadas isoladas que podem ser usadas em diferentes contextos, incluindo alarme, caça, alimentação e saudação. Além disso, esses primatas apresentam a capacidade de elaborar sequências de chamadas, em contextos de alimentação, nidificação, reprodução, saudação e viagem.
Ao lado dos seres humanos e dos outros grandes primatas, os chimpanzés compõem a família de primatas Hominidae, compartilhando diversas semelhanças com os seres humanos. Uma delas é a presença de comunicação baseada em um repertório vocal de unidades sonoras que podem ser combinadas entre si formando sequências. Nesses primatas, essas sequências são providas de uma estrutura hierárquica, sendo ela baseada em algumas regras, como indica o trabalho de Girard-Buttoz e colaboradores. Os autores demonstraram que os chimpanzés possuem um sistema vocal altamente versátil, com a capacidade de combinar e recombinar um conjunto de sons limitados de forma flexível. Assim, a capacidade de gerar sequências de chamadas únicas, que podem ser combinadas de formas diferentes, oferece à comunicação entre chimpanzés uma potencial geração de significados. Afinal, a combinação de chamadas únicas em sequências organizadas hierarquicamente pode estar relacionada com a produção de significados. No caso da comunicação humana, por exemplo, as unidades vocais se organizam em palavras, as quais se organizam em frases, que são estruturadas hierarquicamente e exprimem significados.
Expressões faciais em primatas miniaturadaimagem|249x249px|Dois chimpanzés (Pan troglodytes) interagindo entre si, onde um deles esboça uma expressão facial semelhante a um sorriso. Essa expressão facial é característica de chimpanzés e compõem parte da comunicação por meio de expressões faciais. As expressões faciais são uma forma de comunicação intrinsecamente relacionada com as emoções que um indivíduo exprime em um determinado momento. As emoções são muito importantes em animais sociais como os primatas, uma vez que facilita a resposta adequada em várias situações, como na reprodução, em relações amistosas com os pares e também em relações agressivas. A musculatura facial mimética, altamente conservada entre os primatas, é a principal responsável pelas expressões faciais, sendo ela extremamente complexa. É importante destacar que a musculatura facial de seres humanos e a de chimpanzés são muito semelhantes, o que indica que o estudo comparativo dessa modalidade de comunicação pode ser importante para a compreensão da evolução das expressões faciais em seres humanos.
Por exemplo, estudos de expressões faciais em chimpanzés mostram que os chimpanzés são capazes de produzir expressões muito semelhantes a sorrisos, com os dentes à mostra, especialmente em situações onde devem demonstrar um comportamento de afinidade com outros indivíduos. Utilizados em contexto de brincadeira, por exemplo, esses sorrisos possivelmente são homólogos aos sorrisos humanos, expressos em contextos semelhantes.
Gestos em primatas miniaturadaimagem|351x351px|Gorila (Gorilla gorilla) filhote batendo em seu peito. Os primatas não humanos, assim como nós, possuem a capacidade de se comunicar por meio de gestos. Um dos gestos que mais chama a atenção dos cientistas é o de apontar, observado em diversas espécies. Em seres humanos, é comum que esse gesto comece a ser utilizado desde a infância, sendo um dos primeiros elementos de comunicação que surge nas crianças. Enquanto ainda é difícil se referir aos objetos do mundo, as crianças costumam apontar para objetos e pessoas aos quais querem se referir. Estudos demonstraram que primatas não humanos também costumam apontar para se referenciar a outros primatas da mesma espécie ou seres humanos, e também para solicitar recompensas alimentares e objetos inacessíveis.
Entre os primatas, Call & Tomasello demonstraram que há variação no tamanho de repertórios de gestos entre as espécies, mas, em geral, ele varia entre 20 e 35 tipos de gestos. É importante destacar que mais da metade desses gestos foi realizada com as mãos, algo muito comum em seres humanos. Em diversos estudos foram verificados gestos táteis (como o toque entre indivíduos), gestos auditivos (como palmas) e gestos silenciosos (como acenar). Além disso, pesquisas indicam que especialmente orangotangos (gênero Pongo) e chimpanzés incorporam objetos nos seus gestos, como por exemplo, quando os orangotangos estendem comida a outro indivíduo do grupo, oferecendo-a e quando os chimpanzés chacoalham galhos para atrair a atenção de outro membro do grupo. Outro exemplo muito marcante de comunicação gestual em primatas é o de os gorilas (Gorilla gorilla) machos baterem em seus peitos. Acredita-se que os sons produzidos pelo gesto indicam qual é o tamanho do emissor - por exemplo, machos grandes produzem sons de frequência mais baixa, enquanto machos menores produzem sons de frequência mais alta. Assim, o gesto mostra-se como uma exibição de tamanho e força tanto para atrair fêmeas quanto para intimidar rivais.
Tentativas de ensinar linguagem humana a outros primatas miniaturadaimagem|219x219px|Bonobo Kanzi se comunicando com a psicóloga Sue Savage-Rumbaugh usando um teclado portátil com símbolos arbitrários, por meio de um sistema de lexigrama Tentativas de ensinar a linguagem oral humana a primatas não humanos "fracassaram" sucessivamente. Entretanto, o ensino de outras modalidades de linguagem obtiveram mais sucesso, o que pode estar associado à grande diferença existente entre o aparato vocal humano e o de outros grandes primatas (great apes).