Elias (; em ), Op. 70, MWV A 25, é um oratório de Felix Mendelssohn que descreve eventos da vida do profeta Elias como contados nos livros de I Reis e II Reis do Antigo Testamento. Estreou em 26 de agosto de 1846.
Música e estilo Esta obra musical foi composta no espírito dos predecessores barrocos de Mendelssohn, Bach e Händel, cuja música ele admirava muito. Em 1829, Mendelssohn organizou a primeira apresentação da Paixão segundo São Mateus, de Bach, que estava esquecida desde a morte do compositor (1750), e isso foi fundamental para trazer essa e outras obras de Bach a uma popularidade generalizada. Em contraste, os oratórios de Händel nunca saíram de moda na Inglaterra. Mendelssohn preparou uma edição acadêmica de alguns dos oratórios de Händel para publicação em Londres. Elias é modelado nos oratórios desses dois mestres barrocos; no entanto, em seu lirismo e uso de cor orquestral e coral, o estilo reflete claramente o próprio gênio de Mendelssohn como um dos primeiros compositores românticos.
A obra é composta para oito solistas vocais (2 sopranos, 2 contraltos, 2 tenores e 2 baixos), orquestra sinfônica completa, formada por 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trompetes, 3 trombones, oficleide, tímpanos, órgão, cordas e um grande coro, geralmente cantando a quatro vozes, mas, ocasionalmente, a oito partes. O papel-título foi cantado, na estreia, pelo baixo austríaco Josef Staudigl.Todd, R. Larry (1991). Mendelssohn and His World, p. 304. Princeton University Press
Mendelssohn havia discutido um oratório baseado em Elias, no final da década de 1830, com seu amigo Karl Klingemann, que lhe fornecera o libreto de sua opereta cômica Die Heimkehr aus der Fremde,Program notes for Concert Opera Boston performance of Son and Stranger, March 15, 2009, accessed November 23, 2009 que resultou em um texto parcial que Klingemann não conseguiu terminar. Mendelssohn, então, se voltou para Julius Schubring, o libretista de seu oratório anterior, Paulus, que, rapidamente, abandonou o trabalho de Klingemann e produziu seu próprio texto, que combinava a história do Profeta Elias, como era narrada nos livros de I e II Reis, com o livro de Salmos. Em 1845, o Festival de Birmingham encomendou um oratório a Mendelssohn, que trabalhou com Schubring para colocar o texto em sua forma final e, em 1845 e 1846, compôs seu oratório em alemão e inglês, em paralelo, tendo o cuidado de mudar as frases musicais para se adequarem aos ritmos e à acentuação prosódica musical da tradução de William Bartholomew, um químico que também era um poeta e compositor amador experiente.Temperley, Nicholas (1998) Programme note to the complete English recording of the oratorio (Decca Records)
O oratório foi apresentado, pela primeira vez, em 26 de agosto de 1846, no Birmingham Town Hall, em sua versão em inglês, conduzido pelo próprio compositor, e foi, imediatamente, aclamado como um clássico do gênero. Como escreveu o crítico do The Times: "Nunca houve um triunfo mais completo – nunca, um reconhecimento mais completo e rápido de uma grande obra de arte'.The Times (anonymous critic), 27 August 1846 Não obstante o triunfo da obra, Mendelssohn revisou seu oratório, por atacado, antes de executar outro grupo de performances em Londres, em abril de 1847– um deles (23 de abril), na presença da Rainha Vitória e do Príncipe Albert. A versão alemã foi apresentada pela primeira vez no aniversário do compositor, 3 de fevereiro de 1848, em Leipzig, alguns meses após a morte de Mendelssohn, sob a batuta do compositor Niels Wilhelm Gade .
Narrativa bíblica 140px|miniaturadaimagem| O oratório retrata eventos na vida do profeta Elias Mendelssohn usa episódios bíblicos relativos ao profeta Elias, que no original, e , são narrados de forma bastante lacônica, para produzir cenas intensamente dramáticas, ao mesmo tempo em que acrescentam vários textos bíblicos relacionados, a maioria retirados do Antigo Testamento. Estes eram, sem dúvida, bem ajustados ao gosto da época de Mendelssohn, e um sentimentalismo vitoriano também parece detectável em alguns lugares.
Entre os episódios da narrativa bíblica, está a ressurreição de um jovem que havia morrido naqueles dias. Um episódio dramático é a disputa dos deuses, em que Jeová, com uma coluna de fogo, consome não só o sacrifício oferecido por Elias, mas também as pedras do altar, enquanto uma sequência de orações feitas pelos profetas do deus Baal, cada vez mais frenéticas, falhou. A primeira parte do oratório é concluída com a chegada da chuva à terra de Israel, ressecada por meio das orações de Elias. A parte II retrata a acusação de Elias pela Rainha Jezabel, a retirada dele para o deserto, sua visão de Deus aparecendo em circunstâncias diversas, seu retorno ao trabalho e sua ascensão ao céu em uma carruagem de fogo. A obra termina com profecias e louvor.
Estrutura A obra, constituída de duas partes, se inicia com uma declamação de Elias em forma de recitativo accompagnato, após a qual a abertura é tocada. As seções estão listadas na tabela a seguir, com o incipt do texto em alemão e inglês, a citação bíblica para a passagem correspondente e as vozes. O coro é principalmente SATB de quatro partes, mas, às vezes, de oito partes. Os solistas são: baixo (B) Elias; soprano (S), cantando a Viúva, o Moço (às vezes cantada por um menino de voz aguda) e o Anjo II; alto (A), cantando Anjo I e a Rainha; e tenor (T), cantando as partes de Obadias e Acabe (rei). Mendelssohn pede oito solistas, solicitando Soprano I e II no movimento 2, adicionalmente Alto I e II nos movimentos 7 e 35 e Tenor e Baixo I e II também no movimento 7; mas o trabalho é, frequentemente, realizado com quatro solistas.
Alguns movimentos são formas simples de oratório, como recitativo e ária, outros exploram combinações híbridas, como recitativo com coro, para efeito dramático. A abertura orquestral, em forma de fuga, conduz por um "attacca" ao primeiro movimento coral. O coro atua como o povo ("Das Volk"), mas também comenta, como o coro no drama grego.
+ Movimentos da Parte I do Elias de Mendelssohn Nº Descrição Incipit (Alemão) Tradução Inglesa Citação Bíblica Vozes Introdução As God the Lord of Israel liveth Elias (Baixo) Abertura 1 Coro Help, Lord! e SATB 2 Dueto e coro Lord! bow thine ear to our prayer! e S A SATB 3 Recitativo Ye people, rend your hearts Obadias (Tenor) 4 Ária If with all your hearts e Obadias 5 Coro Yet doth the Lord see it not SATB 6 Recitativo Elijah! get thee hence Anjo I (Alto) 7 Quarteto Duplo For he shall give his angels Anjos: SSAATTBB Recitativo Now Cherith's brook is dried up , , e Anjo I 8 Recitativo, ária e dueto What have I to do with thee? , , , e Viúva (Soprano), Elias 9 Coro Blessed are the men who fear him , SATB 10 Recitativo com coro As God the Lord of Sabaoth liveth , e Elias, Acabe (Tenor), SATB 11 Coro Baal, we cry to thee; hear and answer us! SSAATTBB 12 Recitativo com coro Call him louder, for he is a god! Elias, SATB 13 Recitativo com coro Call him louder! he heareth not! Elias, SATB 14 Ária Lord God of Abraham, Isaac and Israel! Elias, SATB 15 Quarteto Cast thy burden upon the Lord , , , S A T B 16 Recitativo com coro O thou, who makest thine angels spirits (The fire descends) , Elias, SATB 17 Ária Is not his word like a fire? e Elias 18 Arioso Woe unto them who forsake him! A 19 Recitativo com coro O man of God, help thy people! , , , , e Obadias, Elias, SATB, Moço (Soprano) 20 Coro Thanks be to God SATB
+ Movimentos da Parte II do Elias de Mendelssohn Nº Descrição Incipit (Alemão) Tradução inglesa Citação Bíblica Vozes 21 Ária Hear ye, Israel! , , , , , e S 22 Coro Be not afraid, saith God the Lord e SATB 23 Recitativo com coro The Lord hath exalted thee , , , e Elias, Rainha (Alto), SATB 24 Coro Woe to him, he shall perish , , , e SATB 25 Recitativo Man of God, now let my words , , , , , , , e Obadias, Elias 26 Ária It is enough, O Lord now take away my life , , e Elias 27 Recitativo See, now he sleepeth e Um Tenor 28 Trio Lift thine eyes 3 Anjos: S S A 29 Coro He, watching over Israel, slumbers not e SATB 30 Recitativo Arise, Elijah, for thou hast a long journey , , e Anjo I, Elias 31 Ária O rest in the Lord Anjo I 32 Coro He that shall endure to the end, shall be saved. e SATB 33 Recitativo Night falleth round me, O Lord! e Elias, Anjo II (Soprano) 34 Coro Behold! God the Lord passeth by! SATB 35 Quarteto com coro Above him stood the Seraphim; Holy is God the Lord A; S S A A SATB 36 Coro com Recitativo Go, return upon thy way! I go on my way , , SSATTBB, Elias 37 Arioso For the mountains shall depart Elias 38 Coro Then did Elijah the prophet break forth , , , e SATB 39 Ária Then shall the righteous shine forth e T 40 Recitativo Behold, God hath sent Elijah S 41 Coro e quarteto But the Lord, from the north hath raised one , , , , , e , SSAATTBB 42 Coro And then shall your light break forth e SATB Lord, our Creator SATB
Recepção miniaturadaimagem|Birmingham Town Hall, onde o Elias estreou Elias foi popular em sua estreia e tem sido, frequentemente, apresentado principalmente em países de língua inglesa, desde então. É um favorito do gênero, principalmente em sociedades de corais amadores, tanto no mundo germânico quanto no anglo-saxão. Seu melodrama, apelo fácil e refrões emocionantes forneceram a base para inúmeras performances de sucesso. O príncipe Albert escreveu em um libreto para o oratório Elias em 1847: "Ao nobre artista, que, cercado pelo culto a Baal da falsa arte, conseguiu, como um segundo Elias, por meio de gênio e estudo, permanecer fiel ao serviço da verdadeira arte."Peter Mercer-Taylor, The Life of Mendelssohn (Cambridge University Press, 2000), 200 Vários críticos trataram o trabalho com severidade, enfatizando sua perspectiva convencional e estilo musical ousado. Bernard Shaw escreveu:
Fiquei de fora da apresentação na quarta-feira até a última nota, um ato de devoção profissional que não fazia parte dos meus planos para a noite. . . Basta pensar em Parsifal, na Nona Sinfonia, em A Flauta Mágica, nos momentos inspirados de Bach e Händel, para ver o grande abismo que existe entre o verdadeiro sentimento religioso e o nosso deleite na beleza requintada do estilo de Mendelssohn.Bernard Shaw in The World, 11 May 1892
Sua popularidade mudou ao longo dos anos. Depois que a Handel and Haydn Society de Boston apresentou o trabalho pela primeira vez, em fevereiro de 1848, seu sucesso resultou em mais oito apresentações naquela primavera. Em meados da década de 1920, no entanto, HT Parker, o principal crítico de música da cidade, descreveu como os membros da platéia olhavam para cima em uma apresentação recente: "Quantos daqueles olhos estavam lá em êxtase, ou estavam contando as quatro luzes queimadas no "sunburst" central do teto? . . . . Elias é desesperadamente, terrivelmente, irremediavelmente vitoriano.Teresa M. Neff and Jan Swafford, eds., The Handel and Haydn Society: Bringing Music to Life for 200 Years (Jaffrey, NH: David R. Godine, 2014), pp. 63, 161
Mendelssohn escreveu a parte de soprano do Elias para a "Swedish Nightingale", Jenny Lind, embora ela não estivesse disponível para cantar na estreia de Birmingham. Em seu lugar, o papel foi "representado" por Maria Caterina Rosalbina Caradori-Allan. Lind ficou arrasada com a morte prematura do compositor em 1847. Ela não se sentiu capaz de cantar a parte por um ano depois. Ela voltou a cantar a peça no Exeter Hall, em Londres, no final de 1848, levantando £ 1.000 para financiar uma bolsa de estudos em seu nome. Depois que Arthur Sullivan se tornou o primeiro destinatário da Mendelssohn Scholarship, ela o apoiou em sua carreira.Rosen, Carole. "Lind, Jenny (1820–1887)", Oxford Dictionary of National Biography, Oxford University Press, 2004, accessed 7 Dec 2008