Os povos de todas as raças e civilizações colocaram sempre algumas questões fundamentais para compreender o significado da vida e do seu sentido. Uma das principais questões que atravessa a curiosidade de todas as gerações é o tema da morte. A humanidade sempre se questionou e continuará se questionar sobre o problema da morte, sobre este fenómeno natural tão antigo e tão actual que atinge profundamente as estruturas ontológicas de cada homem e mulher.
A morte representa a fase da cessação do ciclo da vida, tanto do homem quanto das plantas e animais; e nos homens, a fase terminal, a agonia e o sentimento de morte geram determinados comportamentos que a psicologia do desenvolvimento, enquanto parte da psicologia geral, que busca compreender os processos mentais que marcam o comportamento humano nas diferentes fases do seu desenvolvimento, não deve deixar de se questionar sobre os processos mentais no estágio da morte, para poder explicar a psicologia humana em todas as suas fases e contribuir para a teorização de uma educação que leva o homem ao conhecimento mais profundo de si mesmo.
O medo da eminência da morte experimentado pelos militares em fases de guerra, a experiência pós morte passados por pacientes em fases terminais, a morte de um ente querido, entre outros, são casos que permitem explicar o comportamento do homem neste estágio tão breve e tão crucial da vida humana.
Em geral o tema da morte é abordado de forma multidimensional, pois, ele abarca as dimensões da física, da biologia, da religião e da psicologia. Este artigo limita-se a falar da morte na perspectiva psicológica e, por causa da sua relação com a religião busca fazer uma aculação à sua visão espiritual.
A morte na história do pensamento psicológico A psicologia enquanto ciência experimental e observável do comportamento humano é um trabalho recente que coube aos psicólogos modernos como “Ernst Heinrich Weber (1795-1888), Gustav Fechner (1801-1877), Hermann von Helmholtz (1821-1894) e Wilhelm Wundt (1832-1920)”REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario, História da filosofia: do romantismo ao empiriocriticismo, v. 5, p. 353, São Paulo: Paulus, 2005. , mas, na história do pensamento ocidental, os primeiros acenos racionais sobre a morte na perspectiva psicológica ou espiritual remonta já ao século 5 antes de Cristo sobretudo com o pensamento de Sócrates, Platão e Aristóteles. Na era helenística aponta-se a figura de Epicuro. Na idade média, Santo Agostinho e Tomás de Aquino. Na modernidade e contemporaneidade veremos também a visão de alguns pensadores.
A morte em Sócrates Para compreender a ideia que este filósofo tem sobre a morte humana é de extrema importância conhecer antes sua concepção de homem. Portanto, Sócrates distingue a alma do corpo; para ele o homem não é o seu corpo; “o homem é o sujeito que usa o próprio corpo como instrumento”REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario, História da filosofia: filosofia antiga pagã, v. 1, p. 95, São Paulo: Paulus, 2003.; Sócrates identifica o homem unicamente com a alma. O verdadeiro homem é “aquilo que se serve do corpo”Ibidem, p. 95., portanto o homem é essencialmente a psychè . E a concepção socrática sobre a morte encontram-se descritos na obra de Platão “Apologia de Sócrates”.
Na fase final da sua vida, Sócrates foi acusado de transmitir à juventude uma mensagem subversiva; por isso foi julgado e condenado ao suicídio. Entretanto, foi precisamente no julgamento e nos instantes próximos da sua morte que Sócrates manifestou as suas ideias sobre a morte; e resumindo tais acepções, Giovanni Reale et al, diz-nos que do ponto de vista racional pode-se dizer que para Sócrates, “a morte poderia ser uma desta duas coisas: ou uma espécie de noite eterna ou seja, como um andar no nada absoluto, ou então, passagem para outra vida, um ir para outro lugar, onde existem juízes verdadeiros e onde se encontram todos os outros homens que morreram, tornados imortais, e onde se vive uma vida feliz”Ibidem, p. 115.. Neste último caso, Sócrates é influenciado pela religião grega.
Contudo, à luz do pensamento socrático, pode-se inferir que, do ponto de vista psicológico, a morte é o cessar das faculdades espirituais da psique no corpo. Com a morte o homem cessa de produzir comportamentos; porque não tem mais relações com o corpo, que é o seu instrumento, não pode mais ter sensação alguma. A morte humana é o fim da psicologia do desenvolvimento, e o nascimento é princípio. Neste sentido, a educação socrática é uma pedagogia que guia o aluno, não só ao conhecimento da vida, mas também da morte, que leva ao conhecimento de si mesmo em todo seu desenvolvimento. O fim último da educação é levar o homem ao domínio de si mesmo. Do ponto de vista religioso, a morte é uma transição, como o próprio Sócrates diz, “a morte é precisamente uma mudança de existência e, para a alma, uma migração deste lugar para um outro”PLATÃO, Apologia de Sócrates, p.29, Disponível em: <http://virtualbooks.com.br/Platão-Apologias%20de%20Sócrates.pdf>, acesso 19/04/2022.; é uma passagem para outra vida, um ir para outro lugar, onde se encontram todos os outros homens que morreram, tornados imortais, e onde se vive uma vida feliz. Em Sócrates, além da razão, a fé religiosa teve um fator decisivo na orientação do seu comportamento. A actitude, pacífica, de Sócrates diante da morte resulta precisamente da concepção psicológica e religiosa que ele tem da morte. A religião tem um papel determinante na estrutura comportamental do homem, e, portanto, contribui para uma orientação educativa da criança.
A morte segundo Platão Sendo Platão discípulo de Sócrates, suas ideias sobre o homem e sobre a morte não estão distantes da do seu mestre. Platão procurou dar seguimento e completude na ideia antropológica socrática. Ele também concebe o homem de forma dualista, distingue o corpo da alma mas considera-os opostos. Para Platão “a alma é o verdadeiro homem”REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario, Op. Cit., v. 1, p. 167., e o corpo não deve ser entendido “como instrumento a serviço da alma, segundo o modo de entender de sócrates”Ibidem, p. 152., mas como o túmulo da almaIbidem, p. 167.. Na morte do homem [a alma] migra de um corpo ao outro. Tem uma vida ultraterrena. [E] escolhe seu destino conforme a verdade que possui. O corpo deve ser entendido como o lugar de expiação da alma. “Nosso morrer (com o corpo) é viver, porque, morrendo o corpo, a alma se liberta do cárcere”. Platão sofreu influência da psicologia da religião grega. Suas ideias sobre a morte são um espelho sistematizado da concepção órfica.
Portanto, do ponto de vista psicológico, Platão entende a morte como a libertação da alma no corpo, o fim da sujeição da alma ao corpo. Com a morte o homem livra-se das necessidade físicas e biológicas e se torna apenas sua vontade. A psicologia platónica é conciliável com a teria educativa que vê a pedagogia como um meio ao serviço da libertação da alma humana. A educação atinge o seu fim quando leva o homem a se libertar das paixões. Do ponto de vista da religião a psique é imortal, mas no corpo ela é submetida a um conjunto de leis físico-biológicas que levam o homem à um exercício permanente e em diracção à libertação. Neste sentido a psicologia da religião e do desenvolvimento se configuram no estudo do comportamento humano nos estágios da sua evolução e libertação.
A morte segundo Aristóteles Aristóteles foi discípulo de Platão e “considerado o fundador da psicologia”Battista MONDIN, Curso de filosofia, v. 1, p.105, São Paulo: Paulus, 1981.. Nele “a psicologia (…) estuda os seres físicos enquanto animados”Ibidem, p. 212.; e os seres animados o são por causa da alma que têm. Nas plantas a alma desempenha apenas a função vegetativa (vital); nos animais, a função vegetativa e sensitiva (vital e sensorial); no homem, a função vegetativa, sensitiva e racional (vital, sensorial e racional). Aristóteles distingue o corpo da alma mas não como fez Sócrates, nem como fez Platão. Para ele o homem “é constituído de matéria e forma”Ibidem, p. 106., ou seja, corpo e alma. A união da alma com o corpo é que constitui o ser humano. E a diferença do homem com os animais consiste apenas na racionalidade. É justamente a partir deste elemento que Aristóteles explica a imortalidade humana.
Do ponto de vista psicológico “a alma é imortal”Ibidem, p. 107. não enquanto exerce as funções vegetativas e sensitivas mas enquanto “espírito agente”. Morrer é perder as capacidades vitais e sensoriais mas não a si mesmo enquanto espírito. O corpo dá à alma a capacidade de existir, e a alma dá ao corpo a capacidade de actuar. Desta feita, pode-se compreender que o corpo humano é um espaço de manifestação espiritual, e a psicologia enquanto ciência do comportamento nada pode dizer diante de um corpo desprovido de actividades espirituais. Com Aristóteles o corpo humano ganha significado positivo no capítulo do estudo do comportamento humano, e a psicologia deve partir do sensível para compreender o inteligível; deve partir do que é manifestado pelo corpo para compreender e explicar as actividades da alma. Pois, diz o ditado: é pelo fruto que se conhece a árvore; é pelos efeitos que se conhece as causas.
A morte segundo Epicuro Epicuro concebe o homem como um composto de alma e corpo, e a morte como a dissolução deste dois elementos REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario, Op. Cit., v. 1, p. 270.. Do ponto de vista psicológico a morte não tem nenhum efeito porque “quando nós estamos, a morte não está; quando a morte está, nós não estamos” Nicola ABBAGNANO, Dicionário de filosofia, p. 683, 5ª Ed., São Paulo: Martins Fontes, 2007..
A morte, portanto, não é pavorosa em si mesma, porque, com sua vinda, não sentimos mais nada; nem pelo seu "depois", exatamente porque não resta nada de nós, dissolvendo-se totalmente nossa alma, assim como nosso corpo, nem, em fim, a morte tolhe nada da vida que tenhamos vivido, porque a eternidade não é necessária para a absoluta perfeição do prazerREALE, Giovanni; ANTISERI, Dario, Op. Cit., v. 1, p. 270..
O medo da morte resulta das falsas opiniões que se tem dela. Nesta perspectiva, a psicologia deve contribuir para uma educação consciêncializadora e libertadora. A mente humana é capaz de produzir pensamentos geradores de sentimentos ou crenças que impedem o desenvolvimento psico-cognitvo. Portanto, a psicologia deve auxiliar a pedagogia no processo de consciencialização das mentes para evitar que os homens caiam nas armadilhas das suas próprias mentes. Marco Aurélio considerava-a como repouso ou cessação das preocupações da vida: conceito que ocorre frequentemente nas considerações da sabedoria popular em torno da morte Marco Aurélio dizia na morte está o repouso dos contragolpes dos sentidos, dos movimentos impulsivos que nos arrastam para cá e para lá como marionetas, das divagações de nossos raciocínios, dos cuidados que devemos ter para como corpo.
A morte na óptica de Agostinho e Tomás de Aquino É de lembrar que Agostinho é de tradição filosófica platónica e também Padre católico. Suas ideias sobre o homem e sobre a morte tem como pano de fundo as acepções platónico-bíblicas.
Agostinho se serve da fórmula socrática para definir o homem – alma que se serve de um corpo – o homem é o interior, é a “pessoa”; é o indivíduo irrepetívelREALE, Giovanni; ANTISERI, Dario, História da filosofia: patrística e escolástica, v. 2, p. 89, São Paulo: Paulus, 2003.. O homem foi criado como animal racional e “para além da razão tem uma faculdade diferente que é a vontade” Ibidem, p. 101. (a liberdade). “Sua alma é imagem de Deus-Trindade, e é imortal” Ibidem, p. 96.. A morte se dá no corpo e não na alma; “se a alma morresse, morreria também a verdade” Ibidem, p. 97.. Com a morte o espírito vai para cima e corpo, para baixo.