As relações entre Brasil e Estados Unidos no governo João Goulart (1961–1964) gradativamente deterioraram, culminando no apoio americano à destituição do presidente brasileiro no golpe de Estado no Brasil em 1964. Embora a dinâmica da crise tenha sido principalmente brasileira, ações americanas progressivamente aumentaram as chances de ocorrência e sucesso de uma rebelião contra o governo. Historiadores divergem sobre a inevitabilidade de um choque entre as administrações de Goulart e John F. Kennedy/Lyndon B. Johnson, a importância relativa dos pontos de atrito e o momento em que o governo americano decidiu apoiar a deposição do brasileiro — mais cedo, como em 1962, ou mais tarde, somente em 1963.
Jango, como era conhecido o presidente brasileiro, tomou posse já tendo desconfiança dos americanos em virtude de suas ligações com a esquerda radical nos sindicatos, embora não fosse considerado comunista. Ainda assim, o ano de 1962 não começou negativo, e Goulart conseguiu uma boa relação com o presidente Kennedy. Os pontos de atrito foram vários. No plano internacional o governo brasileiro deu continuidade à Política Externa Independente, expandindo seus vínculos para fora do bloco ocidental e discordando em parte das propostas americanas contra Cuba. Internamente, não dava tanta atenção à estabilização econômica e limitou a remessa de lucros das empresas americanas no Brasil. Em 1963 fez concessões e uma tentativa de estabilização, o Plano Trienal, mas não encontrou o apoio americano necessário para seu sucesso e endureceu sua posição com os EUA. Em Washington também havia preocupação com forças de esquerda como o governador Leonel Brizola, que encampou subsidiárias de empresas americanas, e as Ligas Camponesas.
Os EUA usaram diversos instrumentos para alterar o curso do governo brasileiro e, posteriormente, para enfraquecê-lo. A visita de Kennedy ao Brasil foi sucessivamente adiada, enquanto candidatos oposicionistas receberam milhões de dólares nas eleições de 1962 e a assistência econômica foi redirecionada aos governos estaduais oposicionistas, as “ilhas de sanidade administrativa”. A Embaixada dos EUA no Brasil, sob Lincoln Gordon, envolveu-se nos assuntos internos brasileiros. A importante liberação de crédito foi dificultada, diferente da atitude tomada para o governo anterior de Jânio Quadros. Por fim, o governo americano procurou aliados entre os militares brasileiros que já conspiravam para um golpe de Estado e ofereceu apoio às suas operações militares na forma da operação Brother Sam. Ela nunca chegou ao Brasil devido à rápida deposição de Goulart iniciada em 31 de março de 1964, mas a retirada do presidente foi em parte devido ao conhecimento de que o Departamento de Estado americano reconheceria um governo paralelo organizado pelos insurretos. A ditadura militar brasileira (1964-1985) foi rapidamente reconhecida, e os EUA agiram diplomaticamente para facilitar seu reconhecimento por outros países.
A pressão sobre o governo de Goulart ocorreu quando a política externa americana estava definida pela Guerra Fria, a Revolução Cubana de 1959 e pressões dentro do país para uma política externa dura. Na América Latina, Washington buscava reafirmar sua hegemonia, influenciar governos de esquerda através da assistência econômica da Aliança para o Progresso ou favorecer suas destituições pelas oposições locais, tolerando assim diversos golpes de Estado militares.
Contexto Condições internas nos EUA As condições internas nos EUA ao longo dos anos 1950 e início dos 1960 tornavam mais difícil sua convivência pacífica com governos de esquerda e centro-esquerda na América Latina. Se o presidente americano fosse favorável demais a Goulart, alimentaria as críticas de seus inimigos internos. O período era marcado por "um Estado de segurança nacional, altos gastos de defesa, militarização e conformismo social". A Guerra Fria e a paranoia com o comunismo se intensificavam. O sindicalismo seguia uma guinada à direita. O Congresso era dominado pelo Partido Democrata. Mesmo que tipicamente lembrado como mais moderado na política externa que o Partido Republicano, era à época agressivo, especialmente pela grande influência de representantes conservadores e militaristas do Sul.
Na eleição presidencial de 1960 o democrata John F. Kennedy por pouco derrotou seu oponente, o republicano Richard Nixon, e para tanto, precisou mostrar-se mais duro na política externa. Após seu assassinato em 1963, assumiu Lyndon B. Johnson. Em 1964 o novo presidente estava preocupado com a eleição e não aceitaria o prejuízo político de apoiar um golpe malsucedido no Brasil. Em janeiro os republicanos haviam criticado sua reação aos como faltando dureza.
Política externa dos EUA na América Latina Até a Revolução Cubana A política externa americana após a Segunda Guerra Mundial tinha escopo global e os objetivos de organizar uma ordem mundial e impedir a expansão da influência da União Soviética. Os partidários da escola realista das Relações Internacionais acreditavam que um regime totalitário como o soviético seria agressivamente expansionista. Após a instalação do comunismo num país, seria impossível a restauração do capitalismo e da democracia liberal. Assim, procurava-se impedir a difusão do comunismo através da política de contenção. Também era objetivo reafirmar a hegemonia americana.
Nesse contexto, a América Latina era importante como fonte de matérias-primas e votos nas Nações Unidas, além de ser a última região com a qual se poderia confiar no caso da Europa tornar-se antiamericana. Os teóricos realistas Hans Morgenthau e George Kennan acreditavam na sua relevância. Entretanto, nesse período inicial da Guerra Fria (até 1959), pouca atenção era dada à região, e o investimento de capital era mínimo. Havia um sistema de segurança com um componente militar, o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), e outro político, a Organização dos Estados Americanos (OEA). Forneciam-se armamentos, mas isso tinha pouca utilidade militar — "fornecer tanques a Honduras ou ao Equador provavelmente não impediria que a União Soviética lançasse um ataque nuclear". A contenção tinha dois instrumentos: a ajuda econômica e a desestabilização. No primeiro caso, um exemplo é a Bolívia após 1952, cujo governo instalado após uma revolução foi influenciado numa direção mais conservadora. No segundo, a derrubada do governo Arbenz, da Guatemala, por uma força paramilitar organizada pela Central Intelligence Agency (CIA). Ambos foram considerados bem-sucedidos.
Em 1958, as vaias recebidas pelo Vice-presidente Nixon numa viagem por vários países latinoamericanos alertaram o governo Eisenhower para a péssima imagem dos EUA no região. A Revolução Cubana em 1959 e os eventos subsequentes levaram a uma reviravolta na política para a América Latina. As tentativas de se conseguir um governo moderado, ainda em 1959, fracassaram. No ano seguinte, a cota de exportações cubanas de açúcar foi suspensa. Kennedy, na sua campanha presidencial, criticou a complacência da liderança americana com a América Latina. Em 1961 a tentativa militar de mudar o regime em Cuba, a invasão da Baía dos Porcos, fracassou, enquanto Fidel Castro anunciou a implantação do socialismo e o alinhamento de seu país aos soviéticos. Em 1962 a crise dos mísseis de Cuba fez o equilíbrio de forças na região pender para o lado americano, o que permitia colocar pressão sobre países recalcitrantes como o Brasil.
Governos Kennedy e Johnson miniaturadaimagem|esquerda|Kennedy com representantes latinoamericanos da Aliança para o Progresso em 1963 A percepção era que Cuba havia sido perdida, o que levou à reformulação da política externa e a "uma postura de paranóica vigilância" contra uma "segunda Cuba" ou "outras Cubas". Enquanto isso, surgiam movimentos revolucionários que buscavam apoio soviético. Entretanto, mesmo líderes que chegaram ao poder por vias democráticas, e mesmo que não marxistas, mas reformistas ou nacionalistas, eram assumidos como riscos à segurança e interesses dos Estados Unidos. Eram casos como Cheddi Jagan, na Guiana, Arbenz, na Guatemala, e João Goulart, no Brasil. A perda em Cuba estava na mente dos funcionários do governo Johnson em 1964 e favoreceu a tomada de decisões mais duras quanto ao Brasil.
A nova política tinha dois pilares, os militares latinoamericanos e a assistência econômica. As Forças Armadas locais eram vistas como "a organização social mais estável e modernizadora". Desde o último ano do governo Eisenhower já se pensou em torná-las menores e focadas na contrainsurgência, como se fossem gendarmerias.
Por sua vez, a assistência econômica veio na forma da Aliança para o Progresso, anunciada em 1961, com a previsão de investimento de US$ 10 bilhões em dez anos. Sua administração foi entregue à recém-criada USAID. Embasada na teoria de modernização de , concebia a pobreza como espaço aberto para as ideologias indesejadas, e o desenvolvimento econômico como única forma de impedir a revolução comunista. A estratégia da Aliança era baseada na reforma democrática, anticomunismo e aumento do padrão de vida. Este último seria conseguido pelo planejamento econômico, investimento estatal e estrangeiro e reformas sociais, incluindo as reformas agrária e fiscal. Seria mais do que um programa de assistência comum, atingindo as estruturas políticas, econômicas e sociais, numa "revolução às margens do capitalismo" ou "revolução de classe média". Entretanto, na América Latina nem toda a direita anticomunista aceitava questões como a reforma agrária, e assim os EUA atuaram contra os ditadores de direita Rafael Trujillo, na República Dominicana, e François Duvalier, no Haiti.
Porém, da perspectiva latinoamericana, isso não foi mais do que um programa de assistência comum. A aplicação da lógica da Guerra Fria para interpretar uma região com características próprias e a função da Aliança como instrumento para lutá-la limitaram sua capacidade de concretizar seu ideário. Mais ainda, o objetivo declarado de apoiar regimes democráticos fracassou, e o governo americano usou ferramentas políticas, econômicas e militares para desestabilizar governantes de esquerda eleitos dentro da democracia. A lógica de Guerra Fria tomava prioridade. Ainda em 1950, George Kennan escreveu que "É melhor ter um regime forte no poder do que um governo liberal se ele for indulgente e relaxado e penetrado por comunistas".
Ocorreram golpes militares na Argentina e no Peru, em 1962, e na Guatemala e Equador, em 1963, e em todos a atitude americana passou da quase reação (chegando a interromper a assistência econômica) à expectativa, e, por fim, à aceitação dos recém-instalados regimes autoritários. Pela "Doutrina Mann", estabelecida em 1964, as ditaduras não seriam questionadas se mantivessem o anticomunismo. O objetivo de evitar novos governos socialistas ou comunistas na região, pensado desde o início pelos fundadores da Aliança, foi conseguido.
Kennedy tinha boa imagem na América Latina. Seu sucessor era, quanto à região, menos interessado e mais receptivo às opiniões de empresários americanos. Ele designou como o responsável pelos assuntos latinoamericanos.
Influência no pensamento dos militares brasileiros