O Parque Urbano da Orla do Guaíba (também conhecido pelo seu nome oficial Parque Jaime Lerner ou apenas Orla do Guaíba) trata-se de um parque urbano público localizado na região central da cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no Brasil. Possuí seu início oficial logo após o Cais Mauá e tem o seu final no Estádio Beira Rio, o parque tem 3,4 km de extensão abrangendo três bairros distintos: o Centro Histórico, o Praia de Belas e o Menino Deus.
O parque é dividido em três trechos, sendo o seu primeiro trecho revitalizado e inaugurado no ano de 2018, o seu segundo trecho revitalizado em 2014 para utilização durante a Copa do Mundo FIFA e em processo de uma nova revitalização e seu terceiro trecho revitalizado e entregue no ano de 2022.
O parque possuí uma ampla infraestrutura, possuindo: banheiros públicos, ciclovias, calçadas acessíveis com piso tátil, bares e restaurantes, monumentos, vagas de estacionamento, fontes de água, quadras de diversos esportes e a maior pista de skate da América Latina.
História
Antecedentes A configuração atual do Parque da Orla do Guaíba é resultado de um longo processo histórico de intervenções urbanas, aterros e medidas de contenção de cheias que alteraram a geografia original da cidade. A ocupação urbana de Porto Alegre iniciou-se voltada para as águas. Em 1752, chegaram os primeiros 60 casais açorianos ao "Porto de Viamão", local escolhido pela Coroa Portuguesa pela segurança do ancoradouro natural protegido de ventos, fundando o povoado que daria origem à cidade. Durante o século XIX, a cidade realizou seus primeiros aterros para expandir a área comercial, com marcos como a construção do Mercado Público (inaugurado em 1869) e a estruturação de trapiches que serviam ao comércio fluvial, consolidando a orla como uma área funcional e portuária.
No início do século XX, a necessidade de modernização logística levou ao primeiro grande distanciamento físico entre a população e o Guaíba. As obras do Cais do Porto (atual Cais Mauá) iniciaram-se em 1912. Após interrupções, a construção foi retomada em 1919 e trechos significativos foram entregues em 1921. A estrutura de armazéns e a zona alfandegária criaram uma barreira física que bloqueou o acesso direto da região central às águas por décadas.O Cais Mauá do Porto de Porto Alegre. Secretaria da Cultura de Porto Alegre, s/d.
Em 11 de novembro 1928 uma usina termoelétrica na base do Cais Mauá foi inaugurada, a usina tratava-se da Usina do Gasômetro, que ficou conhecida após a instalação de sua grande chaminé em 1937 coordenado pelo então prefeito Alberto Bins para amenizar os problemas causados pela emissão de fuligem.
A histórica Enchente de 1941 foi um divisor de águas no planejamento urbano da capital. Na ocasião, o nível do Guaíba atingiu a marca histórica de 4,76 metros, alagando o centro da cidade e impulsionando a criação de sistemas de defesa. Paralelamente, buscou-se expandir a cidade sobre o lago na zona sul. O Aterro da Praia de Belas começou a ser executado em meados da década de 1950, baseando-se em planos urbanísticos aprovados em 1956 (Plano Diretor). Esta obra massiva de engenharia criou a área onde hoje se situam o Parque Marinha do Brasil e as avenidas Beira-Rio e Edvaldo Pereira Paiva, afastando a linha da orla de seu traçado natural original.
Como resposta definitiva às inundações recorrentes, o Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS) construiu o Sistema de Proteção Contra Cheias. A parte mais visível e controversa deste sistema, o Muro da Mauá, foi erguida entre 1971 e 1974. Com cerca de 2,6 km de extensão e 3 metros de altura, a estrutura de concreto armado completou a separação visual entre o Centro Histórico e o Guaíba, gerando um passivo urbano que os projetos de revitalização do século XXI buscaram solucionar.
Parque contemporâneo Com a desativação da Usina do Gasômetro em 1974, iniciou-se na cidade uma discussão sobre o destino da antiga termoelétrica. O local correu risco de demolição, mas foi preservado após mobilização popular e tombado pelo patrimônio histórico estadual (IPHAE) em 1982 e municipal em 1983. Em 1991, a usina foi reaberta como centro cultural, consolidando a vocação da região para o lazer e a cultura. Durante as décadas seguintes, o turismo na orla restringiu-se majoritariamente ao entorno da Usina e ao Anfiteatro Pôr do Sol, inaugurado em maio de 2000. Embora o anfiteatro tenha sido palco da Fan Fest da Copa do Mundo FIFA de 2014, sua estrutura sofreu com a falta de manutenção nos anos posteriores, levando à sua interdição.
A transformação definitiva da orla começou a tomar forma em 2011, na gestão do prefeito José Fortunati, com a contratação do escritório do renomado arquiteto e urbanista Jaime Lerner para desenvolver um projeto de revitalização integral. O plano dividiu a orla em trechos para execução escalonada, financiados pela Corporação Andina de Fomento (CAF). As obras do Trecho 1 (Usina do Gasômetro à Rótula das Cuias) ocorreram entre 2015 e 2018, sendo inauguradas em 29 de junho de 2018 sob a gestão de Nelson Marchezan Júnior, focadas em gastronomia e contemplação. Posteriormente, o Trecho 3 (Foz do Arroio Dilúvio ao Parque Gigante), dedicado à prática esportiva e contando com a maior pista de skate da América Latina, teve suas obras iniciadas em 2019 e foi entregue à população em outubro de 2021, na gestão de Sebastião Melo.
Enchentes de 2024
miniaturadaimagem|Base da Guarda Municipal de Porto Alegre em 2025, pichação realizada manifesta insatisfação de moradores pelas ações tomadas pela prefeitura na região anteriores a enchente.As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 causaram danos significativos à infraestrutura do Parque da Orla do Guaíba, especialmente no Trecho 1. Em maio de 2024, o nível do Guaíba ultrapassou 4,6 metros, o que resultou em alagamentos que afetaram diversas áreas da cidade, incluindo a orla. Durante o evento, o mesmo trecho na altura do atracadouro turístico e da Usina do Gasômetro, foi utilizado como ponto estratégico de resgate dos moradores anteriormente ilhados na zona do Arquipélago da cidade, com instalações emergenciais sendo instaladas com o auxílio de voluntários, do exército, de brigadianos, de bombeiros e da defesa civil.
Até o início de 2025, diversos bares tradicionais do trecho um que estavam localizados no primeiro andar do parque, bem como as instalações de segurança da Guarda Municipal de Porto Alegre, permaneceram desativadas e parcialmente destruídas, deixando danos também a manifestações artísticas que estavam contidas no local. Entre os bares que existem na região baixa do parque, apenas o 360° POA Gastrobar foi revitalizado e estava funconal. Em maio de 2025, o prefeito Sebastião Melo anunciou o início das obras de recuperação do local, com investimento estimado em R$ 12 milhões. O cronograma foi dividido em três etapas. esquerda|miniaturadaimagem|271x271px|Interior de um dos restaurantes presentes do trecho um, em 2025. A primeira fase destinou-se aos reparos nas áreas utilizadas por vendedores ambulantes e food trucks, bem como à reforma da base operacional da Guarda Municipal, com previsão de entrega para o final do mesmo ano. A segunda etapa, iniciada em setembro de 2025, teve como foco a revitalização dos bares, restaurantes e sanitários do Trecho 1, severamente atingidos pelas enchentes, além do reforço das estruturas do Trecho 3, que sofreram impactos menores. Por fim, a terceira etapa, com o objetivo de ser finalizada até o final do primeiro semestre de 2026, concentrou-se na implementação de medidas de proteção contra novas cheias, incluindo a instalação de gabiões de contenção, e na recomposição paisagística do parque, realizada através do plantio de espécies nativas provenientes do viveiro municipal.
Divisão em trechos Para fins de planejamento urbano e gestão de revitalização, a prefeitura de Porto Alegre segmentou a orla em macrozonas. A chamada Orla Central abriga o projeto arquitetônico do Parque Urbano da Orla do Guaíba (desenhado por Jaime Lerner), que se estende da Usina do Gasômetro até o Estádio Beira-Rio. Esta área difere-se da Orla Sul (que engloba o calçadão do bairro Ipanema), que possui características residenciais e histórico de urbanização distinto, não fazendo parte do complexo do Parque Urbano. O Parque da Orla do Guaíba (região central) foi subdividido administrativamente em três trechos contíguos para a execução das obras.
Trecho um O Trecho 1 da orla, denominado oficialmente Orla Moacyr Scliar, estende-se por 1,3 quilômetros, iniciando no encontro do Cais Mauá com a Usina do Gasômetro e terminando na Rótula das Cuias (onde se conecta ao Parque Harmonia). Com uma área de aproximadamente 81,4 mil m², o trecho foi o primeiro a ser entregue à população, sendo inaugurado em 29 de junho de 2018 após completa revitalização arquitetônica. Atualmente, a gestão do espaço é realizada pela concessionária GAM 3 Parks, que assumiu a administração do parque e do vizinho Parque Harmonia por 35 anos em contrato assinado em 2021.
Em maio de 2024, este foi o trecho mais severamente atingido pelas inundações históricas do Lago Guaíba, sofrendo danos profundos no calçamento, rede elétrica e nas estruturas comerciais, que permaneceram fechadas por mais de um ano. As obras de recuperação pesada iniciaram-se apenas em maio de 2025, com reparos nos taludes e infraestrutura. A reabertura dos bares e restaurantes foi autorizada gradualmente a partir de dezembro de 2025, após a conclusão das reformas. O trecho conta com ciclovias, deques de madeira, o ancoradouro turístico Nico Fagundes, além de complexos gastronômicos e diversos monumentos. A iluminação e o paisagismo seguem o padrão original do arquiteto Jaime Lerner, atualmente restaurados após as enchentes de 2024.
Trecho dois O segundo trecho do parque começa na Rótula das Cuias e vai até a Avenida Ipiranga, onde se conecta ao Parque Marinha do Brasil e ao terceiro trecho da orla, atualmente é o único trecho sem revitalização completa, sendo a característica marcante a presença do Anfiteatro Pôr do Sol. Em novembro de 2021, foi iniciado o processo de revitalização, com a publicação de um Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI) pelo Executivo.
Em 2022, dois projetos foram recebidos e analisados, com consultoria da SP Parcerias. O projeto escolhido, da consultoria Cheetah, prevê a construção de uma esplanada, marina pública e centro de eventos, substituindo o atual anfiteatro Pôr do Sol, que foi condenado e aguardava demolição. O novo centro de eventos terá 24 mil m², com capacidade para até 10 mil pessoas, e um anfiteatro para 2 mil pessoas. A marina contará com 581 vagas para embarcações e vários serviços. A esplanada terá capacidade para 30 mil pessoas, com um mirante, e a área incluirá ainda um parque infantil, cachorródromo e decks. O projeto atualmente está em processo de discussão orçamentária e após as enchentes que atingiram a região em 2024, também foi levantada a necessidade de um plano de proteção contra cheias.
O Anfiteatro Pôr do Sol foi inaugurado em 2000, o local foi um importante centro de eventos e sediou a Fan Fest da Copa do Mundo de 2014. No entanto, devido a falhas estruturais graves nas fundações e falta de manutenção, o equipamento foi interditado. Pelos graves danos a infraestrutura, a prefeitura incluiu sua demolição no processo de revitalização do trecho 2 em 2022, com o avanço das discussões sobre o projeto de revitalização do trecho, o vereador Pedro Ruas protocolou em fevereiro de 2024 um projeto de lei para garantir que o espaço continue público, visando proteger o patrimônio ambiental.