A Greve Geral de 1934, também referida como Revolta de 18 de janeiro de 1934 ou Greve Geral Revolucionária de 18 de janeiro de 1934, teve lugar a 18 de janeiro de 1934 em todo o território de Portugal, embora de forma mal coordenada. Gerada em oposição ao decreto-lei implementado pelo Estado Novo, o qual proibia ou limitava a actividade de todos os sindicatos no país, várias associações comunistas, socialistas, anarquistas e sindicalistas realizaram, em cooperação, várias greves e manifestações em Lisboa, Porto, Coimbra, Braga, Leiria, Almada, Anadia, Setúbal, Silves e Sines, assim como em muitas outras localidades do país, sendo realizados atos de sabotagem e de violência. A greve teve um forte impacto na vila vidreira da Marinha Grande, razão pela qual o evento é também referido pela população local como a Revolta da Marinha Grande. Decreto-lei nº 23050 de 1933 A 25 de setembro de 1933 foi publicado o Decreto-lei nº 23050,Decreto-Lei n.º 23050, de 23 de setembro de 1933, que reorganiza os sindicatos nacionais. emitido pelo governo autoritário do Estado Novo, liderado por António de Oliveira Salazar, que visava tornar ilegais todas as negociações coletivas, movimentos sindicalistas e ações de greve que não fizessem parte dos sindicatos nacionais corporativos, afetos ao regime salazarista. Segundo a nova lei, sob a alçada do então recém-criado Instituto Nacional do Trabalho e Previdência, o estado português tomaria todas as decisões de aprovação ou demissão sobre as direções eleitas, podendo dissolver administrativamente os sindicatos ou as secções «que se desviassem dos seus fins» assim como nomear comissões administrativas para dirigir e fiscalizar a sua gestão.

Três meses após, a 31 de dezembro do mesmo ano, todos os sindicatos existentes no sector privado foram obrigados a alterar os seus estatutos para cumprir a nova lei, sendo então exigido que se enquadrassem na abordagem corporativista que o governo planeava implementar, a qual visava «alcançar a harmonia entre o sector privado e seus trabalhadores», enquanto todos os sindicatos do sector governamental foram simplesmente abolidos.

À época, dos 754 sindicatos que existiam no país apenas 57 mudaram os seus estatutos de forma a cumprirem com a nova lei. Os restantes começaram então a realizar reuniões e assembleias sindicais, com o apoio de grupos locais, para preparar uma greve nacional e reivindicar a revogação de toda a legislação anti-operária e anti-sindical, o restabelecimento do direito à greve e da liberdade de reunião e de imprensa, a implementação da jornada de trabalho de seis horas e de um salário mínimo de 30$00, assim como o apoio aos desempregados e a dissolução da polícia política, a PVDE. Sob o Comité de Unidade de Frente Única, também referido como Comité de Unidade de Frente Única Antifascista, a organização era composta pela Comissão Intersindical Comunista (CIS), a Confederação Geral do Trabalho (CGT), a Federação Socialista das Associações de Trabalhadores (FAO) e outras federações e associações de trabalhadores de diferentes áreas profissionais.

Eventos a 18 de janeiro de 1934 Planeado para o dia 18 de janeiro de 1934, os protestos ocorreram um pouco por todo o país, resultando na proclamação pelo governo de um "estado de sítio", com o encerramento de estabelecimentos comerciais em várias localidades e a proibição de circulação na baixa lisboeta.

Embora muitos trabalhadores tenham aderido à greve, esta foi realizada de forma irregular, sendo aplicada em diferentes formatos e estilos pelos diferentes movimentos.

Na grande maioria dos casos, centenas de manifestantes foram imediatamente presos no dia 18 de janeiro, enquanto os que conseguiram escapar acabaram por eventualmente ser perseguidos e capturados, auxiliados pelas listas de presenças e faltas das fábricas, que continham os nomes dos trabalhadores que não tinham comparecido nos dias seguintes à greve.

Em geral, os historiadores concluíram que a CGT foi a mais radical na sua abordagem, convocando ações armadas, atentados bomba e atos de sabotagem, enquanto os outros sindicatos limitaram-se maioritariamente ao incentivo à greve e ao planeamento destas.

Grande Lisboa e Vale do Tejo Durante a madrugada do dia 18, em Lisboa, realizaram-se diversas manifestações pela cidade, pontuadas por alguns eventos mais violentos que depressa captaram a atenção das autoridades, comprometendo a greve geral no país. No bairro de Chelas, a esquadra da polícia foi ocupada pelos manifestantes, a Fábrica de Braço de Prata aderiu em peso à greve, cessando por completo as suas actividades, e no bairro do Poço do Bispo e em Xabregas, foi lançada uma bomba artesanal assim como cortada uma ferrovia na região portuária.miniaturadaimagem|236x236px|Militantes de Almada presos na Fortaleza de Peniche (Dia de Natal, 25 de dezembro de 1934, fotografia de autor anónimo, endereçada por José Bernardo a Joaquim Montes, falecido no Tarrafal em 1943)Simultaneamente, em Almada, a maior parte da população aderiu à greve, com particular incidência na localidade da Cova da Piedade, onde muitos trabalhadores exerciam na indústria da cortiça e nos estaleiros navais, geridos maioritariamente por companhias estrangeiras. Unidos pela mesma motivação, para além de se manifestarem diante dos respectivos postos de trabalho, durante essa mesma madrugada cortaram as linhas telefónicas e sabotaram a rede de cabos submarinos da cidade.

Com o avançar da manhã, também no Barreiro, Seixal, Alfeite, junto à Base Naval de Lisboa, Cacilhas, Setúbal e em outras localidades próximas da capital, realizaram-se várias manifestações inicialmente sem incidentes até à chegada das autoridades, sendo reportado que em alguns casos a polícia carregou sobre os manifestantes a cavalo, provocando vários feridos. Em Oeiras, a Fábrica da Pólvora de Barcarena sofreu uma forte paralisação de trabalho, sendo posteriormente saqueada por vários grevistas aquando da chegada das autoridades, e na Póvoa de Santa Iria e Forte da Casa, município de Vila Franca de Xira, foi provocado o descarrilamento de um comboio, com a ajuda do militante comunista, sindicalista ferroviário e um dos primeiros opositores do Estado Novo a morrer sob tortura, Manuel Vieira Tomé (1887-1934).

Devido ao facto de as comunicações não estarem cortadas em Lisboa, as notícias de que a revolta não estava a ser bem sucedida na capital rapidamente começaram a circular, causando várias desistências e uma menor aderência do que seria previsto noutras localidades.

Porto e Braga No Norte de Portugal, apesar da greve ter se sentido menos que em outras localidades, os manifestantes geraram várias paralisações na linha férrea da cidade do Porto e alguns cortes na rede eléctrica de Braga.

Coimbra Horas antes de começarem a decorrer as ações grevistas na capital, em Coimbra, pelas 4 horas e meia da manhã, os manifestantes ocuparam a central eléctrica dos serviços municipalizados, onde fizeram explodir duas bombas que destruíram por completo os transformadores e os compressores da central eléctrica, deixando assim a cidade às escuras e sem energia durante dois dias.

Marinha Grande

Durante a madrugada desse dia, na Marinha Grande, centenas de operários, maioritariamente trabalhadores nas fábricas de vidro e quase todos simpatizantes ou militantes comunistas e socialistas, sob a coordenação de um núcleo da CIS, cortaram as estradas, as linhas telefónicas e o caminho-de-ferro, seguindo depois para o centro da vila onde atiraram explosivos contra a casa do empresário fabril, Emílio Galo, e ocuparam a estação dos correios e telégrafos, a Câmara Municipal e o posto da GNR, sem grande resistência. Com a rápida adesão da população, foi decretado o "Soviete", sendo desde então este evento apontado como o local onde a greve teve maior impacto. Contudo, devido à falta de armamento e recursos para se oporem e resistirem aos regimentos militares de artilharia, infantaria e o esquadrão de cavalaria que foram enviados de Leiria, após serem cercados e terem sofrido uma intensa troca de tiros, a greve terminou poucas horas depois com a prisão e a fuga de alguns dos revoltosos para o pinhal de Leiria, onde foram perseguidos a pé pelas forças militares e por aviões da força aérea que sobrevoaram a povoação em busca dos foragidos.

Sines Em Sines, vivendo os operários corticeiros da localidade já sob uma forte vigilância policial pelas suas ações sindicais prévias à greve convocada de 1934, foi utilizado um funeral como pretexto para o ajuntamento de cerca de 400 manifestantes, que obrigou a total paralisação de diversas empresas da região, contando com a presença de diversos artesãos, pedreiros, carpinteiros, pintores, pescadores, comerciantes, trabalhadores rurais e operários das várias fábricas de conservas de peixe para além dos da indústria da cortiça na concentração realizada na Praça Tomás Ribeiro. Entre os organizadores do protesto encontravam-se os anarco-sindicalistas e membros da Comissão de Luta (CL) Manuel Estola ou Estolano, operário da construção civil e pedreiro, Francisco Garcia, sapateiro, Pedro Chapa, descarregador de mar e terra, Tomás Gazil, barbeiro, Emílio Ferreira, padeiro, e os comunistas António Botelho, José Lázaro e Francisco Beja. Sem incidentes, a greve durou todo o dia de forma pacífica, terminando apenas de noite quando chegaram notícias de Lisboa, dando conta da repressão policial e das centenas de detenções realizadas durante o dia. Temendo represálias, muitos dos manifestantes recorreram à clandestinidade, acabando contudo por ser presos dias mais tarde.

Portalegre Mobilizados por Carlos Faneco, socialista da Federação das Associações Operárias, os trabalhadores socialistas e anarco-sindicalistas de Portalegre, Campo Maior e Elvas aderiram à greve nacional durante a madrugada do dia 18 de janeiro de 1934, realizando cortes nas linhas telefónicas da região e provocando a obstrução de várias estradas entre Vila Boim e Terrugem, através da colocação de troncos de árvores. Pelos seus atos, pelo menos seis manifestantes foram presos ainda no mesmo dia, sendo posteriormente enviados para Lisboa, onde foram julgados e sentenciados a cumprir penas de prisão e degredo em Angra do Heroísmo e no Forte de Peniche.

Silves miniaturadaimagem|236x236px|Militantes da Confederação Geral do Trabalho presos na Fortaleza de Peniche (1934-1935) Em Silves, os manifestantes apoiados pela CGT cortaram as comunicações telefónicas e telegráficas da cidade, contudo foram apenas parcialmente bem sucedidos, sendo estas pouco depois repostas. Devido ao atraso do comboio das 7 horas da manhã, os grevistas silvenses que se encontravam na estação acreditaram que os trabalhadores ferroviários também tinham aderido à iniciativa sindical, sentindo-se assim encorajados para prosseguir com a sua marcha até às fábricas, onde conseguiram o apoio de quase todos os trabalhadores, partindo depois até ao centro da cidade. Com a chegada do comboio à estação pouco depois e com a forte presença da cavalaria e infantaria da GNR à sua espera no centro, os manifestantes aperceberam-se que as restantes manifestações no país não decorriam como esperavam, sendo depois de alguns confrontos violentos com as autoridades, presos e julgados por insubordinação e incentivo à desordem e violência.

Portimão