thumb|280px|Pinguicula moranensis. thumb|280px|Utricularia purpurascens.
Lentibulariaceae é uma família de plantas com flor, pertencente à ordem Lamiales, que agrupa três géneros de pequenas herbáceas carnívoras (Genlisea, Pinguicula e Utricularia) com cerca de 390 espécies, o que faz deste grupo a família de plantas carnívoras com maior números de espécies.. A família tem distribuição do tipo cosmopolita, mas com maior concentração nas regiões tropicais e subtropicais da América do Sul e América Central e na África tropical..
Descrição A família Lentibulariaceae é uma família de plantas carnívoras da ordem Lamiales, formada por três géneros (Genlisea, Pinguicula e Utricularia) que agrupam cerca de 390 espécies. Pela sua diversidade, é classificada como a família de plantas carnívoras que apresenta a maior riqueza em espécies..
Os géneros Polypompholyx (duas espécies) e Biovularia costumavam ser considerados o quarto e o quinto membros desta família. Contudo, Biovularia foi incluído em Utricularia, e Polypompholyx foi relegado a um subgénero de Utricularia. A família costumava ser classificada em Scrophulariales, mas esta ordem foi fundida com Lamiales no sistema desenvolvido pelo Angiosperm Phylogeny Group. No sistema APG IV, a família Lentibulariaceae aparece integrada na ordem Lamiales, com 3 géneros e 390 espécies.Lentibulariaceae na APWeb (novembro de 2025).
Os membros desta família têm como característica comum serem plantas carnívoras, mas quanto ao habitat estas plantas podem ser terrestres, aquáticas, litófitas (crescem sobre rochas) ou epífitas (crescem sobre plantas), estando largamente distribuídas em diversos ambientes das regiões tropicais e subtropicais das Américas (Central e do Sul) e da África, adaptando-se frequentemente a habitats húmidos ou alagados.
Cada género apresenta características e estratégias específicas para capturar as presas, sendo as armadilhas do género Utricularia as mais complexas dentro das angiospermas. As presas são principalmente membros da microfauna de invertebrados, com destaque para os protozoários. Morfologia Hábito As espécies da família são plantas herbáceas anuais ou perenes, frequentemente plantas aquáticas. Algumas espécies são epífitas. Todas as espécies são carnívoras pois graças a órgãos especiais, que variam consoante o género, são capazes de capturar e digerir pequenos organismos. Além de insectos, a sua gama de presas inclui também protistas, algas e, mesmo, pólen.
As raízes estão parcialmente ausentes (especialmente nas hidrófitas do género Utricularia) ou são muito reduzidas (nas espécies do género Pinguicula). As folhas estão dispostas em espiral, em rosetas basais ou distribuídas ao longo de estolhos. Frequentemente, as folhas são substituídas por caules simples ou múltiplos, semelhantes a folhas, que são fotossinteticamente ativos. O dimorfismo ou polimorfismo foliar é frequente.
As espécies de Lentibulariaceae geralmente são plantas diminutas, geralmente estoloníferas, na maioria das vezes não apresentando sistema radicular desenvolvido, com as raízes limitadas quase exclusivamente à função de fixação ao substrato. As raízes podem conter rizoides.
Caules e folhas
As folhas estão na base do escapo ou dispersas no estolho, são dispostas em rosetas adaptadas para captura de presas ou modificadas em armadilhas, contendo tricomas em toda a sua superfície, podendo estes ser glandulares ou sésseis. Inflorescências e flores As inflorescências são terminais ou laterais, com pedúnculos longos, sem ramificações ou com ramificações fracas, em forma de cacho, sendo frequentes também as flores isoladas. As bractéolas são frequentes, mas também podem estar ausentes, sendo geralmente muito reduzidas ao longo do eixo da inflorescência. Na base dos pedúnculos florais encontram-se frequentemente duas brácteas, que também podem estar mais ou menos fundidas com as bractéolas.
As flores são zigomorfas (simetria bilateral) e bissexuadas, com uma ampla diversidade de cores (vermelha, rosa, laranja, branca, lilás, violeta, azul ou amarela), agrupadas em inflorescências em racemo eretas, com escamas, brácteas e bracteolas basifixas ou peltadas. As inflorescências podem ser reduzidas a uma única flor ou se assemelhar a brácteas involucrais, ficando em muitos casos reduzida ao eixo principal, o qual se desenvolve completamente condensado (comum em Pinguicula). O cálice apresenta de duas a cinco sépalas, a corola é bilabiada com pétalas fundidas e duas anteras.
A flor apresenta cinco lóbulos nos géneros Pinguicula e Genlisea, mas, em Utricularia, a maioria das espécies tem cálice com apenas dois lóbulos. Em Pinguicula e Genlisea, o lábio inferior da corola apresenta sempre três lóbulos, enquanto em Utricularia varia entre 2 a 5 lóbulos, ocorrendo desenvolvimento do estandarte em Genlisea e na maioria das espécies de Utricularia.
Apenas os dois estames abaxiais estão geralmente presentes, estando ausentes os estaminódios na maioria das espécies. A morfologia dos estames é bastante uniforme em todos os géneros, com pequenos filamentos achatados.
O gineceu consiste em dois carpelos fundidos que formam um ovário globoso unilocular de livre placentação (não séssil), com numerosos óvulos nas extensões apicais. Em algumas espécies de Utricularia, a placentação é séssil e suporta apenas dois óvulos. O ovário é unilocular, súpero, com placentação central e dois carpelos fundidos, apresentando estigma muito curto. Os óvulos são anátropos, unitegumentados e tenuinucelados. O pólen de Pinguicula é zonocolporado com cinco a oito sulcos. Nos demais grupos, o pólen apresenta um número maior de sulcos.
Os insectos (Hymenoptera, Diptera e Lepidoptera) são os polinizadores mais frequentes nesta família, porém também ocorre polinização por aves. Para alguns táxons boreais de Pinguicula, os dípteros (moscas e mosquitos) são relatados como os principais polinizadores. A autopolinização também se mostra frequente.
Frutos e sementes Os frutos são capsulares. Os frutos em cápsula deiscentes, que se abrem em forma de válvula ou circularmente na parte frontal, contêm geralmente numerosas sementes, enquanto os raros frutos em cápsula indeiscente, que não se abrem, contêm apenas uma única semente. As sementes são geralmente muito pequenas (entre 0,2 e 1,0 mm de comprimento), de formas extremamente variadas, a testa (a casca da semente) é variada e ornamentada, de lisa a granulosa, rugosa a verrucosa ou estriada, geralmente fina, esponjosa ou semelhante a cortiça, raramente mucilaginosa, sem endosperma.
Em algumas espécies de Utricularia, as sementes podem ser aladas ou apresentar ganchos ou tufos de pelos que auxiliam na dispersão pelo vento. A dispersão das sementes depende, nesta família, principalmente de vento e da água, havendo contudo também algumas espécies que dependem do auxílio de aves dispersoras de sementes.
O embrião de Pinguicula apresenta um polo radicular, ausente em Genlisea e Utricularia.
Genómica Os cromossomas de Lentibulariaceae foram estudados apenas em algumas espécies. O número cromossómico básico é x = 7, 8, 9, 10, 11, 14, 15, 21, 22 e 24 em Utricularia e x = 8, 9, 11, 12, 16, 24 e 32 em Pinguicula. Não se conhece contagem cromossómica publicada para Genlisea.
Nas espécies mais desenvolvidas, a família inclui muitas espécies com genomas muito pequenos, incluindo os três menores genomas conhecidos de todas as angiospermas:J. Greilhuber, T. Borsch, K. Müller, A. Worberg, S. Porembski, W. Barthlott: Smallest Angiosperm Genomes Found in Lentibulariaceae, with Chromosomes of Bacterial Size. In: Plant Biology, 2006; 8:477-490
63,4 Mbp Genlisea margaretae 63,6 Mbp Genlisea aurea 88,3 Mbp Utricularia gibba 135 Mbp Utricularia blanchetii 140 Mbp Utricularia parthenopipes
As taxas de mutação nos genes matK dos cloroplastos dos membros do género Genlisea e das hidrófitas do género Utricularia estão entre as mais elevadas das Angiospermae.K. Müller, T. Borsch, L. Legendre, S. Porembski, I. Theisen, W. Barthlott: Evolution Of Carnivory In Lamiales. In: Plant Biology, 2004; 6:770-777
Distribuição A distribuição dos membros da família Lentibulariaceae é do tipo cosmopolita, com espécies espalhadas por todo o mundo, desde as zonas temperadas até às tropicais, com algumas espécies que chegam até às fronteiras das regiões subpolares (Gronelândia, Planície da Sibéria Setentrional, Alasca, Tierra del Fuego). No entanto, não ocorrem nas zonas áridas e semiáridas, pelo que estão quase totalmente ausentes do Norte de África, do Médio Oriente, da Península Arábica, de grande parte da Ásia Central e do interior da Austrália. A maior diversidade de espécies é encontrada na América Central e do Sul tropical, no Sudeste Asiático e no norte tropical da Austrália. Os centros de diversidade da família estão no norte da América do Sul e na América Central, mas com a família também bem representada na África tropical e subtropical, incluindo em Madagáscar. O género Pinguicula ocorre em todos os continentes, incluindo em elevadas altitudes, exceto na Antártida e no centro e sul da Austrália.
Tal como é comum à generalidade das plantas carnívoras, as plantas da família Lentibulariaceae preferem locais húmidos a molhados, mas, ao contrário da maioria das carnívoras, também toleram frequentemente locais relativamente pouco iluminados. As espécies desta família estão geralmente mais presentes em ambientes pobres em nutrientes que podem ser agrupados em quatro tipos: (1) áreas abertas mais ou menos niveladas com vegetação escassa (como areias quartzíticas e pântanos); (2) áreas de infiltração em rochas ou solo raso; (3) habitats epifíticos, como musgo, casca velha de árvores, galhos finos (como Pinguicula lignicola); ou (4) em pequenas acumulações de águas, como os tanques de bromélias (por exemplo, Utricularia humboldtii).
O género Genlisea está presente em regiões tropicais e subtropicais da América Central e do Sul, da África e de Madagáscar, apresentando maior diversidade na América do Sul. O género Utricularia, embora também se encontre em regiões tropicais da América do Sul, apresenta uma distribuição global mais vasta. Já o género Pinguicula ocorre em quase todos os continentes, principalmente em altas altitudes, exceto na Antártida e na Austrália.
Carnivoria A carnívoria nas plantas parece ter evoluído independentemente em cinco grandes linhagens de angiospermas e seis ordens: Poales, Caryophyllales, Oxalidales, Ericales, Alismatales e Lamiales.
Uma característica comum encontrada em várias famílias de Lamiales que pode ter levado ao carnivorismo é a secreção de mucilagem rica em proteinases através da superfície das folhas. Aquela mucilagem é geralmente usada para prevenir a predação por insetos, prendendo e degradando insetos potencialmente nocivos. Alguns estudos sugerem que essas glândulas podem facilmente mudar a sua função de secreção para absorção.
Essa mudança pode ter ocorrido pela primeira vez no ancestral comum mais recente (MRCA) da família Lentibulariaceae, introduzindo glândulas absorventes que forneciam macronutrientes adicionais através de insetos capturados. A fonte adicional de nutrientes pode ter aumentado a aptidão das plantas que crescem em habitats com poucos nutrientes, o que acabou por levar à adoção do carnivorismo. Um mapeamento mais aprofundado das características também sugere que o MRCA era terrestre e possuía uma roseta basal composta por folhas planas e uma raiz primária. A filogenética também confirmou que o género Pinguicula é um grupo irmão dos outros dois géneros.
A carnivoria dentro da família Lentibulariaceae está ramificada em três tipos de mecanismo de armadilha, sendo eles as adesivas (Pinguicula), armadilhas em alçapão (Genlisea) e armadilhas de sucção (Utricularia).