Brasilomma enigmatica é uma espécie de aranha araneomorfa da família dos prodidomídeos (Prodidomidae), endêmica do Brasil. Constitui a única espécie conhecida do gênero monotípico Brasilomma, descrito em 2012 por Antônio Domingos Brescovit, Alexandre Bragio Bonaldo Ferreira e Cristina Anne Rheims. Apresenta morfologia altamente especializada, incluindo ausência de olhos e de cerdas translúcidas clavadas no dorso abdominal, além de marcantes diferenças na estrutura genital. Trata-se de aranha de pequeno porte (2,3–3 milímetros), com corpo reduzido e frequentemente despigmentado, associado ao hábito subterrâneo. O prossoma é ovalado e coberto por cerdas finas, as quelíceras são verticais e variam em dentição entre os sexos, e as pernas seguem fórmula 4-1-2-3, sem escópulas e com duas garras pectinadas. O sistema genital masculino caracteriza-se por palpo com projeção triangular no tégulo e apófise retrolateral única, enquanto as fêmeas apresentam epígino com átrio posterior cego e ductos copulatórios originados de placa interna esclerotizada em forma de cogumelo.

A espécie é conhecida exclusivamente de três cavernas no estado de Minas Gerais: Gruta Moeda Sul (Nova Lima), Gruta das Bromélias (Parque Estadual do Ibitipoca, Lima Duarte) e Gruta MOC131 (Matozinhos), não havendo registros em ambientes epígeos, apesar de inventários externos na região de ocorrência. Distribui-se em áreas de transição entre os biomas Cerrado e Mata Atlântica, associadas às bacias do Alto São Francisco e do Paraíba do Sul, com extensão de ocorrência estimada em quilômetros quadrados. Sua distribuição é considerada biogeograficamente complexa devido à separação entre as localidades por diferentes formações geológicas e barreiras estruturais que dificultam a conectividade subterrânea, levantando hipóteses de subamostragem ou de conectividade hipogeia descontínua. Ecologicamente, trata-se de espécie invertívora de hábito exclusivamente cavernícola, sem dados populacionais disponíveis. Em termos de conservação, é classificada como vulnerável (VU) sob o critério B1ab(iii), estando incluída na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas e associada ao Plano de Ação Nacional para a Conservação das Cavernas do Brasil, ocorrendo sob diferentes níveis de pressão antrópica, desde áreas impactadas por mineração e expansão urbana até unidades de conservação de proteção integral.

Etimologia

O nome genérico Brasilomma faz referência ao Brasil, país onde a espécie foi descoberta e onde permanece sendo o único local de ocorrência conhecido. O epíteto específico enigmatica foi escolhido pelos autores em alusão às características incomuns da espécie e às incertezas existentes acerca de suas relações filogenéticas no momento da descrição.

Taxonomia e sistemática

Brasilomma enigmatica foi descrita em 2012 por Antônio Domingos Brescovit, Alexandre Bragio Bonaldo Ferreira e Cristina Anne Rheims com base em exemplares coletados no Brasil. Constitui a única espécie conhecida do gênero monotípico Brasilomma, que foi estabelecido simultaneamente. Originalmente foi alocada na família dos prodidomídeos (Prodidomidae). Em 2018, a família foi sinonimizada com a família dos gnafosídeos (Gnaphosidae) e B. enigmatica foi realocada na subfamília dos prodidomíneos (Prodidominae). Em 2022, entretanto, a família dos prodidomídeos foi reabilitada como táxon válido, e hoje B. enigmatica faz parte dele.

Descrição

Brasilomma enigmatica distingue-se dos demais prodidomídeos pela ausência de cerdas translúcidas clavadas no dorso abdominal, pela ausência completa de olhos — característica incomum entre gêneros aparentados — e por diferenças marcantes na morfologia genital e apendicular. Trata-se de aranhas de pequeno porte, com comprimento total entre 2,3 (macho) e três milímetros (fêmea), apresentando corpo reduzido e despigmentado em maior ou menor grau, condição associada ao hábito subterrâneo. O prossoma é ovalado, afilando-se anteriormente, e recoberto por cerdas curtas e finas; os olhos estão ausentes, restando apenas vestígios esbranquiçados em posição anterior; as quelíceras são verticais, com dentição variável entre os sexos, apresentando fâneros longos em relação à largura da estrutura; o esterno é mais longo que largo e projeta-se entre as coxas do quarto par de pernas; as pernas seguem fórmula 4-1-2-3, são desprovidas de escópulas e possuem tarsos com duas garras pectinadas, além de estruturas associadas como tufos de cerdas espatuladas e tricobótrios distribuídos dorsal e dorsoprolateralmente; o abdome é ovalado e recoberto por cerdas finas, com ausência de colulo. O sistema respiratório e secretor inclui seis fieiras, com laterais anteriores alongadas e afastadas, portando fieiras glandulares de maior porte; as medianas posteriores são reduzidas e contíguas, enquanto as laterais posteriores são quase contíguas e apresentam múltiplos tipos de fieiras glandulares. No macho, o palpo apresenta tíbia curta com uma única apófise retrolateral cônica, além de cerdas modificadas; o tégulo é ovoidal e apresenta projeção triangular distal sobre o condutor e a apófise mediana; o êmbolo é curto e curvo, acompanhado por condutor laminar hialino e apófise mediana em forma de gancho; na fêmea, o epígino apresenta depressão posterior cega e aberturas copulatórias associadas a uma placa interna esclerotizada, com ductos copulatórios anteriormente alargados e fortemente sinuosos distalmente, originando-se de estrutura interna em forma de cogumelo, e espermatecas pouco distintas.

Distribuição e habitat

Brasilomma enigmatica é conhecida exclusivamente de três cavernas no estado de Minas Gerais, no Brasil: Gruta Moeda Sul, no município de Nova Lima; Gruta das Bromélias, no Parque Estadual do Ibitipoca, em Lima Duarte; e Gruta MOC131, em Matozinhos. Inventários realizados em ambientes externos às cavernas ao longo de sua área de ocorrência não registraram a presença da espécie fora do ambiente subterrâneo, sugerindo forte associação a habitats hipógeos. A espécie ocorre em áreas de transição entre os biomas Cerrado e Mata Atlântica, inseridas nas bacias hidrográficas do Alto São Francisco e do Paraíba do Sul. A extensão de ocorrência (EOO), estimada pelo método do mínimo polígono convexo, é de aproximadamente quilômetros quadrados. A distribuição conhecida é considerada biogeograficamente complexa e incomum para organismos troglóbios, uma vez que as três localidades estão separadas por diferentes litologias (quartzito, formações ferruginosas e calcário), intercaladas por unidades geológicas antigas e pouco porosas, como granitos, ortognaisses e filitos, o que dificulta a conectividade subterrânea. Adicionalmente, falhas e juntas frequentemente mineralizadas podem atuar como barreiras à dispersão hipogeia. Nesse contexto, a ocorrência da espécie levanta hipóteses alternativas, incluindo ampla distribuição ainda subamostrada devido ao habitat críptico e baixa intensidade de coleta, ou existência de descontinuidades subterrâneas localizadas entre formações distintas, permitindo conectividade limitada.

Ecologia

Brasilomma enigmatica é uma espécie de hábito invertívoro, alimentando-se presumivelmente de pequenos invertebrados no ambiente subterrâneo. A tendência populacional é desconhecida, uma vez que não existem dados quantitativos disponíveis sobre abundância, densidade ou dinâmica populacional da espécie. De modo geral, as informações disponíveis indicam ausência de estudos populacionais sistemáticos, sendo seu conhecimento restrito a registros pontuais em cavernas, o que impede a avaliação de seu estado populacional com maior precisão.

Conservação

Em 2018, Brasilomma enigmatica foi classificada como em perigo (EN) no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), sob o critério B1ab(iii). O critério B1ab(iii), incorporado da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), refere-se a espécies avaliadas com base em uma extensão de ocorrência (EOO) reduzida, isto é, uma área de distribuição geográfica limitada definida pelo menor polígono convexo que engloba todos os registros conhecidos da espécie (B1), associada à ocorrência em poucas localidades e/ou em condição de fragmentação severa das populações (a), e à existência de declínio contínuo na extensão, área ocupada e/ou qualidade do habitat (b(iii)). Em conjunto, esse critério indica espécies cuja distribuição é restrita e cujas populações estão espacialmente isoladas, ao mesmo tempo em que seus ambientes naturais sofrem degradação progressiva, seja por redução de área, perda de integridade ecológica ou deterioração das condições ambientais essenciais à sua persistência. A avaliação do ICMBio considerou que a espécie é conhecida de apenas três localizações, possui extensão de ocorrência estimada em cerca de quilômetros quadrados e apresenta forte associação ao ambiente subterrâneo, não tendo sido registrada em inventários realizados nas áreas externas das cavernas conhecidas. Duas das localidades estão sujeitas à intensa pressão decorrente da mineração e da expansão urbana, enquanto a terceira sofre influência do turismo, fatores associados ao declínio contínuo da qualidade do habitat subterrâneo.

Brasilomma enigmatica integra a Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção do Brasil, tendo sido incluída na relação de espécies ameaçadas publicada pela Portaria MMA n.º 444/2014 e mantida na atualização mais recente da lista nacional, estabelecida pela Portaria MMA n.º 148/2022. Em conjunto com demais invertebrados troglóbios avaliados, a espécie permanece reconhecida em categoria de ameaça no sistema oficial brasileiro de avaliação de risco de extinção. No âmbito das políticas públicas de conservação, está associada ao Plano de Ação Nacional para a Conservação das Cavernas do Brasil, instrumento voltado à proteção de espécies cavernícolas e de seus habitats subterrâneos, especialmente frente a impactos como mineração, alteração do entorno e degradação de sistemas cársticos e não cársticos. Brasilomma enigmatica ocorre em ambientes subterrâneos sujeitos a diferentes níveis de pressão antrópica. A Gruta Moeda Sul e a Gruta MOC131, ambas situadas em regiões próximas a centros urbanos em Minas Gerais, encontram-se sob intensa influência de atividades humanas, especialmente associadas à mineração de calcário e à expansão urbana, fatores que potencialmente afetam a integridade dos sistemas cavernícolas e de suas populações associadas. Em contraste, a subpopulação registrada na Gruta das Bromélias, localizada no Parque Estadual do Ibitipoca, está inserida em unidade de conservação de proteção integral, onde a visitação é proibida, conferindo-lhe maior grau de proteção em relação às demais localidades conhecidas. Ao longo de sua área de ocorrência, está presente em duas unidades de conservação, a saber: a Área de Proteção Ambiental do Carste de Lagoa Santa (APA Carste de Lagoa Santa) e a Reserva Particular do Patrimônio Natural dos Feixos (RPPN dos Feixos).

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